Procura-se Um Final Feliz
5 Cicatrizes
Notas iniciais
Capítulo 04
"E chorava, ele chorava. Sem escândalo, sem gemidos nem soluços."
– Claire você vai se atrasar! – Minha mãe gritou da cozinha, consegui escutar o barulho de panquecas sendo fritadas.
– Que saco. – Falo baixinho pulando para fazer a calça jeans preta entrar, parecia que eu tinha conseguido engordar 5 kg de ontem para hoje. Depois de muitos pulos a calça entra, suspiro aliviada. – Tenho que comprar uma calça nova.
Peguei minha mochila cinza com alguns chaveiros pendurados e desenrolei o meu cabelo escuro que estava num coque frouxo, deixando-o solto, checando minha imagem no espelho, estava vestindo a calça jeans preta e um casaco muito grosso com o colarinho felpudo totalmente branco e finalizando coloquei uma touca preta para me aquecer, estava nevando lá fora, estou estava sentindo frio dentro de casa com o aquecedor ligado, imagine quando fosse enfrentar o frio de frente.
– Claire! – A voz da minha mãe me fez parar de encarar meu reflexo e voltar para a realidade a minha volta.
– Já vou! – Penduro minha mochila atravessada pelo meu ombro, pego as chaves que estavam jogadas sobre a cama totalmente bagunçada e corro escada a baixo.
Minha mãe está vestida com uma calça caqui marrom claro com um laço na frente, usava também uma camisa na minha cor bem colada, fazendo parecer que usava um macacão, já por cima desta, para proteger do frio, um casaquinho sem mangas cinza com alguns botões pretos de enfeite finalizavam a roupa. Seus cabelos claros estavam presos numa trança simples e frouxa.
– As panquecas estão na mesa. – Ela me falou enquanto terminava de lavar os pratos, hoje era dia dela dar aula na minha escola. A Sra. Gostosona Schmitt. Reviro os olhos imaginando.
Sentei-me na mesa sem tirar a mochila e engoli rapidamente meia panqueca.
– Terminei mãe. – Falo praticamente sem engolir a comida, bebendo o suco de laranja para fazer a comida “descer”.
– Já disse para você comer devagar. – Minha mãe fala, mas não estou mais a ouvindo, já estou subindo as escadas novamente para escovar os dentes.
Quando já estou descendo as escadas ouço a buzina de um carro, não preciso nem ouvir duas vezes para saber que estamos mais do que atrasadas, minha mãe odeia se atrasar. Termino de descer as escadas e saio de casa batendo a porta atrás de mim, minha mãe estava prestes a buzinar de novo dentro do carro. Entro rápido, não posso tomar mais nenhuma falta em Biologia com o Professor Romanoff se não ficarei de recuperação.
Minha mãe está acabando de estacionar o carro quando eu já estou do lado de fora correndo em direção à sala 301, pedindo para tudo que é mais sagrado que ele ainda não tenha chegado ao meu nome.
Visualizo a sala no final do corredor e apresso meu próprio passo, os corredores estão todos vazios, pois o sinal já tocou.
– Claire Ellie Schmitt? – A voz enfadonha do Professor Romanoff me chama assim que eu chego à porta da sala sem fôlego.
– Presente! – Grito sem querer, levada pelo momento. Sinto minhas bochechas esquentando quando percebo que todos os alunos da sala passam a olhar para mim por causa do grito. – Quer dizer, estou aqui professor.
– Quase senhorita Schmitt, mas ainda temos metade do ano pela frente. – Ele me observa de cima abaixo por trás das lentes de fundo de garrafa, embora ele seja baixo e carrancudo não consigo evitar o frio na espinha que me envolve. Tenho certeza que ele mantém essa raiva de mim, pois minha mãe rejeitou sair com ele no final do ano passado.
Respiro fundo e finalmente olho para sala procurando um lugar para sentar. Britney já estava sentada junto de uma garota loirinha de olhos azuis que se eu não estivesse errada se chamava Sabine. Ela apenas dá de ombros para mim quando ergo uma sobrancelha questionando-a. Sigo para o fundo da sala onde há um lugar vago na bancada do Mike, um garoto magrelo ruivo cheio de sardas que passava a aula toda dormindo ou rabiscando o caderno com alguns desenhos diferentes.
O professor prosseguiu a chamada até o fim, dando tempo para que eu pudesse tirar o livro e o meu caderno de dentro da mochila.
– Bem, podem guardar todos os seus objetos, hoje faremos uma aula outra aula prática sobre coleta e classificação dos tipos sanguíneos como fazemos todos os anos. – Ele começa a explicar mais sobre a aula, mas não estou mais prestando atenção nele, meu olhar é desviado para Britty, que está do outro lado da sala, mesmo com a distância consigo ver ela se encolher na cadeira e empalidecer. Não consigo evitar, me lembro de um acontecimento durante esse mesmo tipo de aula, a cerca de um ano atrás.
“Eu estava sentada ao lado de Britney, o Professor Romanoff já havia distribuído as agulhas junto com alguns pedaços de vidros, juntamente com algumas soluções que deviam reagir com a nossa gota de sangue. Nós já tínhamos furado nossos dedos e melado os vidrinhos com as gotas de sangue.”
“– Bem, senhoritas. Adicionem agora a primeira solução. – Professor Roma, como eu gosto de chamá-lo explicou para nós. – Senhorita Claire com certeza AB positivo. Assim como a senhorita Wells.”
“O professor se afasta, só então me viro para minha amiga, que tem a mecha da frente pintada de azul.”
“– Bri você não disse que seus pais são os dois A positivo? – Pergunto, franzindo o cenho, Britney faz o mesmo. – Não tem como você ser AB positivo se eles são A positivo.”
“Minha amiga começa a empalidecer e em seguida ficar verde, eu fico confusa, deveria haver algum erro na classificação do sangue dela. Poucos segundos depois, ela esticou a mão e pediu ao professor para que fosse liberada para a enfermaria.”
“– Sempre tem aqueles que não aguentam ver uma gotinha de sangue. – Roma brincou depois de liberar Britney fazendo alguns alunos rirem, porém eu sabia que aquilo não era verdade, Britney não era sensível a coisas como sangue, ou bicho morto, na maioria das vezes, ela conseguia ser mais forte do que muitos homens por aí, mesmo sabendo disso não comentei nada, apenas prossegui prestando o máximo de atenção na aula.”
“Britney não apareceu mais na aula aquele dia, apenas associei que ela realmente deveria ter passado mal e ido para casa. Resolvi passar à tarde na casa do meu pai, fazia tempo que não o visitava. Estava entrando em casa, por volta das 19h da noite quando meu telefone tocou, era a minha melhor amiga.”
“– Onde você se meteu? Está melhor? – Perguntei assim que atendi.”
“– Claire preciso falar com você. – Ela me ignorou, a voz dela estava entrecortada e chorosa, parecia que estava fungando.”
“– O que aconteceu? Porque você está chorando? – Comecei a pensar em mil e uma hipóteses para o que poderia ter acontecido com ela, minha amiga não era de chorar facilmente, muito menos por doença.”
“– Eles me falaram que eu não devia lhe contar, mas eu preciso, não consigo esconder isso. – Ela continuou a falar sem que eu entendesse de quem ou do que ela estava me falando. O fato dela estar fungando não ajudava em nada.”
“– Eles quem? Britty respira com calma e me diz o que aconteceu. – Pedi, colocando a chave do meu carro no porta chaves e me sentando no sofá. Escutei o barulho de chuveiro no primeiro andar, minha mãe estava em casa.”
“– Depois que eu saí da aula de biologia disse que estava passando mal e pedi para ser liberada. – Ela parou de contar para fungar um pouco, respirou fundo antes que continuasse a contar. – Não demorou muito minha mãe foi me buscar pelo incrível que pareça ela estava disponível para mim. Fiquei com aquilo que você me disse na cabeça e fui perguntar a ela qual era o tipo sanguíneo dela e de meu pai. Então ela confirmou o que eu já sabia, ambos são A positivo, então eu contei o que tinha acontecido na aula de Biologia e ela disse na maior cara dura que meu pai não era meu pai. – Britney contou falando muito rápido e parou começando a chorar.”
“– Calma, não chora. É normal ser adotada, eles vão continuar sendo seus pais, eles te... – Antes que eu pudesse terminar de tentar consolá-la, ela me interrompeu, soltando a maior bomba da minha vida.”
“– Você não entendeu Claire, ela traiu meu pai e ele sabe disso! Ela o traiu com o seu pai. – Ela falou mais coisas, mais eu não consegui assimilar nada, a informação entrou pelo meu ouvido, mas demorou a ser assimilada pela minha mente. Meu pai havia tido um caso com a mãe da Britney, Britney era apenas dois meses mais novas que eu, isso quer dizer que ele já sabia que minha mãe estava grávida quando estava trepando com ela. Eu e Britney somos irmãs.”
Afastei as lembranças ruins, não notei, mas meu rosto já estava tomado por lágrimas. Lembrava-me claramente o que eu tinha feito depois de saber que o pai que eu tanto amava, havia trocado a minha mãe por outra. Tinha corrido para o quarto da minha mãe e gritado barbaridades para ela, a acusando de ser uma traíra por ter me deixado acreditar durante todos esses anos que o motivo dos meus pais não estarem mais juntos ser que os interesses deles já não eram os mesmos. Minha mãe me prometeu, em meio a lágrimas, que só queria me proteger que eu não merecia passar pelo sofrimento que teria sido saber que o meu pai tinha uma filha fora do casamento. Eu quis me afastar de Britney, mas lembrei-me que ela era tão vítima como eu. O culpado era ele, somente ele, e a mãe dela, pois ela sabia, ela era amiga da minha mãe. Assim como eu e a filha dela somos amigas. Que ironia do destino ter nos tornado amigas.
Voltei para o presente, ignorando os gritos do Professor Romanoff, deixei todo meu material em cima da mesa e corri para fora da sala chorando, aquela cicatriz nunca iria cicatrizar.
– Senhorita Claire, se sair dessa sala irá contar como uma falta! – Ainda consegui escutar o professor falar, mas não importava, ficar de recuperação não importava, meu coração estava muito despedaçado para pensar nisso.
Apenas corri para longe, corri para tentar afastar aquela lembrança, fui para o pátio do colégio, sem me importar de ser vista, o pátio estava cheio de neve, ainda estava nevando, apenas me joguei contra a neve e continuei a chorar.
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