Problemáticos

3 Show de talentos


Notas iniciais
Mais um capítulo pq eu me empolguei.

“Não era bem isso que eu esperava”. Chegar na escola com um triciclo amarelo com pompons vermelhos que nem uma garota propaganda de uma marca famosa de fast food não era exatamente o que eu tinha em mente como a entrada triunfal que se espera do seu primeiro dia de aula numa escola nova, mas paciência. Os motoristas de ônibus estavam de greve, Hugo não tinha carro por ser, nas palavras dele mesmo, um pobre jovem falido e simplesmente não fazia sentido pegar um carro de aplicativo só pra ir pra escola. Prendi com um cadeado o triciclo num bicicletário, considerando se seria uma coisa boa ou ruim que meu único método de transporte fosse levado embora por um desconhecido.

A escola parecia como qualquer outra, prédio grande, pátio, bicicletários, estacionamento para os funcionários, estudantes alegres e estudantes deprimidos com a volta às aulas, corredores ou estranhamente frios ou muito abafados, professores com grandes olheiras debaixo dos olhos e uma inspetora de alunos gritando com alguém logo cedo sobre o uniforme ou sobre uma briga ou sobre algum casal se beijando. Fui até a secretaria, indicada por uma placa com as letras faltando, lendo-se “SEC AR A”. Perguntei sobre a diretora e fui dirigida a uma sala no fim do corredor. Uma senhora com roupas pastéis e cabelos brancos presos num coque alto me recebeu. A sala tinha um cheiro engraçado de flores, tinta de impressora e cigarro.

— Bem-vinda, Katrina. — Disse ela, olhando a minha ficha. — Nome interessante, como o furacão! Espero que você não seja como o furacão, no entanto, já temos problemas demais nessa escola… — Ela me olhou por cima dos óculos com um olhar incriminador, contrastando com a sua voz doce até então.

— Ahn… farei o possível. — Respondi, sem conseguir elaborar uma resposta. “O que você espera que eu responda??”

A resposta pareceu satisfazer a diretora, que carimbou algumas coisas na minha ficha e a guardou dentro de um grande arquivo de metal num canto da sala. Me dispensou logo em seguida e disse que esperava que não nos encontrássemos tão cedo na sala dela novamente. “Aterrorizante! Que pessoa mais estranha”.

No caminho para a sala indicada no meu horário, passei por um corredor onde uma Menina Loira™ estava encurralando um menino com quase metade do seu tamanho, ele lhe entregou alguma coisa e ela foi embora rindo, junto com mais duas meninas. Ele parecia cabisbaixo e trêmulo. Antes que eu pudesse fazer alguma coisa fui atropelada por uma onda de alunos de primeiro ano animados e quando olhei outra vez o menino já tinha sumido.

Na sala de aula, o professor de história se apresentou e fez a tradicional roda de apresentações. Quem é você, qual sua idade, o que você quer ser “quando crescer”, qual sua matéria preferida. Na minha vez todos viraram pra me olhar e eu me resignei com isso porque teria que repetir essa semana a semana toda, já que eu era nova numa turma que parecia já se conhecer. Ainda por cima teria que fazer isso na frente de outras turmas, porque as turmas mudavam de acordo com as disciplinas. Ao fim da apresentação, o professor deu início a duas longas horas de história sobre a primeira guerra mundial. Antes de nos dispensar para o intervalo nos avisou do show de talentos.

— Show de talentos? — Ouvi um murmúrio ao meu lado.

— Sim, você não se lembra? A gente teve no nosso ano também! É pros alunos novos e o pessoal do primeiro ano! — Respondeu outra voz murmurante.

“Ótimo, humilhação pública. Tudo que eu preciso”. Considerei se deveria me fazer de maluca e sumir ou participar. Por um lado, participar ia me render socialização, que não é exatamente uma coisa que eu goste mas também não é uma boa experiência não conhecer ninguém na escola. Por outro lado, pagar micão no primeiro dia, sozinha, sem conhecer ninguém não era lá uma ideia muito apelativa. Fugir do evento provavelmente ia resultar na inspetora me achando, já que eu não sabia ainda os lugares bons pra matar aula da escola.

— Você vai participar não vai? É muito divertido! — Disse uma voz na minha frente. Olhei para ela, que olhava pra mim. Ela se apresentou como Iris na roda.

— Não sei, pra falar a verdade. — Respondi.

— Não é nada muito elaborado. Se você souber fazer alguma coisa no improviso você faz, se não souber a plateia ou o pessoal da organização dá sugestões pra você fazer.

— Olha, não me leva a mal, mas ficar fazendo palhaçada na frente da escola inteira não é bem a minha ideia de diversão.

— Ninguém vai te obrigar, mas se você participar vai estar concorrendo a um ano de lanches na cantina. Um lanche por semana, claro, mas ainda assim acho que vale o esforço. Eu participaria de novo se pudesse, mas só se pode participar se for calouro ou estudante transferido. Ouvi dizer que eles vão sortear uma bicicleta esse ano também.

A menção da bicicleta me fez ficar interessada. O triciclo amarelo fazia o trabalho, mas estava enferrujado e parecia extremamente chamativo, de um jeito ruim. “Quem sabe… Vou lá pra ver qual é e se achar furada eu não participo”. E assim concordei em ir.

O auditório, grande o suficiente pra acomodar um 2 terços dos alunos sentados, estava lotado de pessoas sentadas no chão, de pé perto das portas e ao redor do palco. Celulares levantados e flashes, risadas e falatório enchiam o lugar. Um garoto loiro, com o uniforme perfeitamente abotoado e a gravata impecável apareceu no palco. Parando pra reparar, ele, eu e os calouros éramos os únicos usando uniforme. “Mais uma daquelas regras que existem só pra falar que tá lá”.

— Bom dia, calouros e veteranos! — Ele começou. Aplausos, gritos, assovios e uma gritaria generalizada se seguiram. — Vamos dar início ao show de talentos deste ano! Calouros, estudantes transferidos depois do show de talentos do ano passado até agora estão convidados a participar. A participação não é obrigatória, mas aqueles que participarem estarão concorrendo a um lanche por semana pelo resto do ano e uma bicicleta comprada com o dinheiro levantado durante o ano passado pelo Conselho Estudantil.

Uivos de alegria, reclamações de injustiça por parte dos veteranos e cochichos dos calouros ansiosos novamente se fizeram ouvir no auditório.

— Temos perguntas? — Perguntou o apresentador. — Você, pois não?

— O que nós temos que fazer? — Perguntou uma menina alta de cabelos castanhos no fundo.

— Vocês tem que apresentar em até um minuto um talento de vocês. Quem não souber fazer nada pode aceitar sugestões do público ou da roda de sugestões. A roda se sugestões é como um bingo, lá dentro tem vários papéis com sugestões diferentes, fáceis e difíceis, pra vocês tentarem. O Conselho Estudantil e os professores jurados vão avaliar a performance de vocês de 0 a 10. Podemos começar?

Alguns meninos corajosos do primeiro ano se dispuseram a começar. Um fez um passinho, outro cantou uma música desafinada, outro recitou um poema. Um por um os alunos pareciam se animar. Quando subiam no palco os amigos gritavam incentivos, batiam palmas e riam todos juntos. “Mas eu não tenho ninguém pra gritar que eu tô arrasando nem rir comigo…”.

Os professores riam junto, anotavam suas notas e comentavam uns com os outros sobre as performances. Os alunos do Conselho Estudantil pareciam mais sérios, administrando a roda de sugestões e marcando os pontos de cada candidato. A fila de calouros ia diminuindo e o meu conflito entre participar ou não aumentava. Se fosse participar tinha que ir agora, ninguém quer ir por último. “Que se dane a reputação”. Entrei na fila para subir no palco. Foi quando me ocorreu que eu não sabia nem o que ia apresentar. Pensei em todas as coisas que eu sabia fazer, mas nenhuma delas seria possível de fazer em um minuto.

— É a sua vez, o que você vai apresentar? — Perguntou o loiro de antes.

— Ahn, eu ainda não sei… — “Vir aqui foi um grande erro, meu Deus porque me destes o livre arbítrio”.

— Roda das sugestões então! — Ele disse para uma menina de cabelos compridos castanhos, que enfiou a mão na roda e tirou um papel.

— Malabarismo. — Ela disse.

— Você tem alguma coisa pra fazer malabarismo? — O loiro indagou.

— Minhas meias? — Respondi, pensando numa coisa leve e redonda que eu pudesse jogar pra cima, mas logo me arrependi. Ia ter que tirar as meias e jogar pra cima na frente da escola inteira. “No mínimo, depois dessa vão me chamar de Maria Chulé”.

— E um terceiro item? Só 2 meias é muito fácil! — Gritou alguém da plateia.

Uma meia colorida foi arremessada no palco. Gritos histéricos ecoaram novamente. Os flashes dos celulares disparavam o tempo todo. Passei a respeitar muito mais os artistas que se apresentam em palcos a partir desse momento. Derrotada, peguei a meia do chão, tirei meus sapatos e as meias e fiz uma bolinha com cada uma das meias. Joguei as bolas-meias para cima, e tentei lembrar de pegá-las, o que era mais difícil do que parecia. Ao fim de um minuto eu consegui fazer o movimento um total de 10 segundos consecutivos e a plateia foi a loucura. Desci tonta, com as meias na mão. “Eu não acredito que eu passei um minuto jogando a meia de um desconhecido pra cima na frente da escola inteira”.

O resto do show de talentos passou voando, eu ainda segurando a meia colorida pois senti que seria falta de educação deixar em qualquer lugar. Depois era só lavar as mãos, já que elas nem estavam fedidas. No fim, quando a multidão começou a ir embora de volta para o pátio, onde os professores gritavam instruções aos grupos. Tinha se passado 2 horas. Iris e dois garotos, um de cabelos pretos e um de cabelos azuis vieram até mim.

— Eu adorei! — Disse Iris, animada!

— Achei um entretenimento de qualidade, obrigado. Teve ousadia, teve desenvolvimento, teve emoção. — Completou o de cabelo preto.

— De nada pela meia, mas você poderia me devolver agora? — O de cabelo azul estendeu a mão na direção da meia colorida.

— Ah, então você foi o bom samaritano que me cedeu a sua meia? — Brinquei, devolvendo a meia.

— Eu mesmo, pode me chamar de Alexy. Essa aqui é a minha versão menos incrível, meu irmão Armin.

— Prazer senhora malabarista! — Armin fez uma reverência como nos filmes de época.

— Katrina, por favor! — Senti um arrepio de vergonha. — Não me faça lembrar mais desse ridículo…

Todos riram, menos eu, ainda encolhida de vergonha.

— Qual a sua próxima aula? — Armin perguntou.

— Inglês, eu acho. — Respondi.

— Perfeito então! Você pode sentar com a gente se quiser. — Alexy disse. — Nós temos essa aula agora também.

— Cuidem dela por favor, eu tenho química agora! — Iris disse, correndo por um corredor e desaparecendo.

Os meninos me levaram para a sala de inglês e nos sentamos próximos da parede. No meio da sala. Eles me avisaram que o professor era daqueles que falava e dava um banho de saliva em quem estivesse na frente, então não era pra sentar nas primeiras carteiras. As do fundo não eram boas porque o ventilador não batia lá então era uma sauna.

Depois de uma aula de inglês e uma de artes, o dia foi encerrado. Me despedi dos meus recém adquiridos amigos. No caminho de volta para o incrível triciclo amarelo e vermelho esbarrei com um muro. Só que não era um muro, era um cara mais alto que eu, vestido de preto e com o cabelo vermelho. Muito irritado, inclusive.

— Olha por onde anda! — Ele disse, me empurrando.

— Eu digo o mesmo! Se você estivesse me vendo podia ter desviado!

— Sai fora menina, eu tenho mais o que fazer. — Ele me empurrou pro lado e saiu andando.

“A pura simpatia”. Fui para o bicicletário, onde o triciclo horroroso ainda estava. Com um suspiro, destravei-o e me preparei pra ir embora.

— A segunda coisa mais patética que você fez hoje, hein bixete! — Uma voz feminina veio das minhas costas.

— Oi?!

— Você, e todo mundo da escola, sabe do que eu to falando. Além de patética, é nojenta — Era a loira de mais cedo. Ela se virou e foi embora.

Ignorei a loira doida e fui pra casa no meu incrível triciclo. Durante o caminho pensei que até que o dia não tinha ido mal. Pra cada encontro com gente doida eu tive um encontro com gente legal. Terminar o primeiro dia no zero a zero me pareceu aceitável. Hugo me mandou uma mensagem avisando que tinha deixado o meu almoço na geladeira. Cheguei em casa e assim que abri a porta fui recebida por um enorme cachorro. Um cachorro preto com a barriga marrom, que me derrubou logo na entrada, com a porta aberta e tudo. Apesar do tamanho ele não era agressivo, só lhe faltava a noção de que era pelo menos do mesmo tamanho que eu, quando ficava de pé. A coleira no seu pescoço ficou na altura dos meus olhos quando ele me derrubou. “Dragon?”.

— Dragon! — Uma voz masculina veio de fora da casa.O cachorro pareceu ficar ainda mais feliz ao ouvir a voz, saiu de cima de mim e correu desabalado na direção da pessoa, quem quer que fosse. Aproveitei a oportunidade pra me levantar e ver, afinal, que caralhos tava acontecendo. “Pra começar, como que esse cachorro entrou na casa?”.

— Oi, esse cachorro é seu? — Perguntei, me levantando, ainda de costas.

— O que você está fazendo na minha casa, sua doida? — Respondeu a voz. Pra minha surpresa, era o menino de cabelo vermelho, super grosso, que esbarrou em mim mais cedo.

— Sua casa? Eu moro aqui! — Respondi, confusa.

Notas finais
Se você leu até aqui deixa um comentário.