Prisão

1 Prólogo: Apenas um número


O prisioneiro de número 1.800.584.158 fugia, corria como nunca havia corrido antes em toda sua vida. Ofegava e entre a respiração entrecortada sentia o cheiro de suor que exalava, assim como sentia a adrenalina que latejava em sua têmpora como um martelo batia sob um prego. Corria num vale de terra negra como a noite, estava deixando uma pequena serra para trás e adentrava em uma planície. O vale se estreitava enquanto o medo corrompia sua sanidade.

As suas panturrilhas ardiam pelo esforço de correr ininterruptamente por tanto tempo.

Desde que o transporte punitivo o havia deixado na serra, desamparado e apenas com a roupa

do corpo, ele fugia.

Há duas horas ele havia acordado, de bruços na terra, poeira voava por todo lado, sendo espalhada por algo que o sobrevoava, ele ainda havia conseguido assentar de cócoras e assistir o transporte partir. A nave era grande, devia ter uns vinte metros da cabine às turbinas e planava ali, os punidores estava sendo recolhidos, pois o detento deveria cumprir a pena de exílio, e nenhum funcionário público gostaria de estar ali no momento que os Kaa’la chegassem.

A nave possuía um quê bélico, devido a área hostil que sempre visitava, alguns lança mísseis em cada extremidade e era isso. A poeira voava de forma indistinta, fustigando o rosto do homem prostrado ali, de tal forma que ele teve que cobrir os olhos e após alguns segundos todo aquele material se assentou novamente, permitindo que ele visse o transporte a muitos quilômetros de distância, cruzando o céu com incrível velocidade.

Ele se sentia enjoado e com tontura, havia sido drogado, tinha certeza, não se lembrava de muita coisa, apenas alguns flashes de dentro do transporte: sombras indistintas assomando por sobre ele, com instrumentos que emitiam uma luz ofuscante de cor azulada. E era isso, por mais que tentasse não se lembrava, era como se ele tivesse esquecido, mas ainda estava na “ponta da língua”, uma sensação de que havia algo para lembrar, mas o esforço era inútil.

O mais novo prisioneiro vê com certa ironia uma tatuagem no antebraço esquerdo com o seu numero, apenas isso, um numero gigantesco, sua identidade no exílio. Levantar-se foi um desafio, mas ele tinha que sair dali antes que os Kaa'la chegassem, eles eram selvagens até os ossos, alguns estavam no exílio à décadas. Ajoelhou-se e cuspiu um líquido rosa, sentindo-se muito melhor do que antes, a mente clara e os sentidos dominados. Estava com um moletom grosso, calças resistentes e um par de botas de caminhada. Pelo menos não me deixaram nu nesse mundo morto. A memória ainda continuava falha, mas no momento o instinto de fuga o dominava, estava no topo de uma colina de terra, a elevação fazia parte de um complexo de serras e planaltos, avizinhados de uma planície.

Era para a planície que ele iria. Terrenos mais baixos são sinônimo de água. Observou o céu e definiu que deveria ter duas horas aproximadamente de luz solar, então fez sua rota mental e começou a caminhada para a borda da serra. Posso dormir na serra, menos exposto que na planície e ao amanhecer tentar achar água. Em uma hora e meia de caminhada ele havia se aproximado consideravelmente do fim da serra, havia cruzado alguns vales e nem sinal de água neles, havia encontrado até uma ossada humana, mas nada de água. A ossada estava com vários ossos quebrados e alguns com marcas estranhas, pareciam cortes paralelos.

Depois de examinar os restos mortais de um semelhante sem sorte, o prisioneiro observou o local com mais atenção, encontrou uma reentrância num paredão de rocha ao lado, meteu-se no buraco e preparou-se para dormir, mas antes de sequer fechar os olhos foi surpreendido por um movimento ligeiro e quase imperceptível com o canto do olho, uma pedra minúscula havia caído do paredão, não representava muito perigo, o pedaço de rocha era menor que seu polegar, mas algo dizia à ele que aquele sedimento não havia se desprendido naturalmente.

O sol já havia caído por sob as colinas, e aproveitando-se da cobertura proporcionada pela sombra, deslizou de seu esconderijo, deitou-se no chão de costas, olhando para cima. A visão proporcionada pela manobra do homem foi terrível: a criatura era meio inseto, meio esquilo, medindo uns dois metros da cabeça com pinças a cauda peluda. Dez patas pontilhavam o corpo grosso e peludo, a cabeça possuía olhos espelhados e antenas. Havia saído de uma fenda praticamente idêntica a que ele havia se escondido, só que seis metros acima. As patas estavam encravadas na rocha e a pinça pingava um líquido esverdeado.

Ele congelou. Ficou imobilizado olhando para aqueles olhos grandes que refletiam sua

cara suja e desesperada. Mas a paralisia se foi assim que o bicho pousou a sua frente e emitiu

um guincho terrível, o monstro parecia ser extremamente ágil e coordenado para seu tamanho.

As patas se moviam em sincronia e arranhavam o chão enquanto ele encurtava a distância e batia as pinças com fome.

Foi então que o homem sentiu um ardor desenfreado subir pelas costas e se pôs de pé em um salto. A criatura se afastou e guinchou mais alto, estudando o adversário, ela estava sob as dez patas, de tal forma a ficar menor que um humano, porém o monstro se ergue nas patas traseiras e mostra a parte debaixo de seu corpanzil, é todo escamoso e coberto de alguns pelos enrijecidos, a criatura debate as oito patas remanescentes na direção de P158 em fúria abominável.

A corrida é instantânea, desenfreada e sem um objetivo claro, a única coisa que

realmente importa é criar tanta distância quanto possível da criatura. Antes de irromper pelo labirinto que era os paredões rochosos ele ainda consegue vêr que o paredão estava cheio dessas fissuras e que de diversas delas as criaturas começam a aparecer, como que respondendo ao guincho da primeira. Uma enxurrada dos insectóides começa a sair do paredão e uma facada de medo acerta gelada e palpável suas costelas. Não olhou mais para trás, apenas correu pelo pequeno vale entre paredões, a desolação do local passa despercebida diante dos guinchos que o seguem.

Descendo o vale a toda a velocidade a mudança do relevo é quase imperceptível, porém o paredão a sua esquerda começa a se aproximar, formando um funil em declive acentuado, muitos sedimentos estão no chão, pedras e cascalho amontoados, formando um colchão de detritos, sabe-se lá a distância da superfície ao fundo, aquele amontoado pode cobrir uma fenda de quilômetros. Tudo isso passa pela cabeça do homem, mas ele mantêm a corrida, escorregando por duas vezes e quase indo ao chão, os guinchos vinham de todos os ângulos atrás dele, mas usou as paredes como apoio e manteve a corrida, quando o espaço entre os paredões parecia ínfimo, cerca de dois palmos para cada lado, o vale se abriu para a planície. Os sedimentos se esparramavam ali, desembocando da fenda, como um rio de pedra. Formava um monte de poeira e detritos.

A corrida se transformou em uma escorregadia descida e no fim P158 apenas se jogou naquela massa indistinta e deixou a gravidade levá-lo até o chão da planície. As criaturas não conseguiam aderência com suas patas, ele assistiu elas tropeçando e não conseguindo avançar nem um metro, as patas afundavam nos sedimentos e elas guinchavam desesperadas para sair da armadilha mortal. Virando as costas para a terrível cena ele observa a planície.

O céu vermelho do por do sol à oeste o acompanhava, nem uma nuvem podia ser avistada em todo o horizonte, o firmamento estava divido em sangue e azul escuro, a leste as primeiras estrelas despontavam. Seria uma belíssima paisagem, não fosse a desolação da planície sem fim.

Exausto da corrida e da descarga de adrenalina ele assistiu ao por do sol na planície, e estudou o relevo com os parcos raios solares que ainda proviam alguma luz, percebe que a planície não tem sinal de água, apenas sedimentos e poeira, por quilómetros, ao extremo oeste uma cordilheira alta, ao leste a vastidão da planície alcança o horizonte, a sul a pequena serra assoma a poucas centenas de metros e ao norte uma ameaçadora rocha rasga o horizonte, deve ser enorme, pois a planície engana as distâncias, é triangular como uma ponta de lança e se joga ao céu como um míssil. Preciso descansar, vai ser um dia longuíssimo amanha, preciso encontrar água, preciso lembrar da minha vida antes do transporte me deixar aqui… Deus, nem o meu nome eu lembro, só tenho esse maldito número no braço!

Acometido de um acesso de raiva o exilado chuta um detrito de tamanho considerável e o arrependimento vêm proporcional ao tamanho e resistência da pedra:

—Ai, diabos! — Resmunga o prisioneiro entre os dentes. Não posso perder o controle, é o primeiro dia ainda, tem muito que acontecer, tenho que me manter vivo. O homem assenta-se no chão para avaliar o estrago no pé. Ao tirar a bota vê que o dedão está ligeiramente inchado. Podia ser pior.

A dor vêm com a pulsação do sangue em seu dedo, é uma dor profunda, mas ao mesmo tempo satisfatória, afinal, ele havia corrido por meia hora ou mais, dentro de um abismo fugindo de criaturas nunca vistas antes. Dei sorte.

Os sentidos de P158 estão muito mais aguçados agora, ele sente o cheiro azedo que a terra exala e que se mesclam com o seu suor, tornando o olfato no mínimo peculiar, suas pupilas começa a dilatar, já que o sol está totalmente atrás da cordilheira a oeste. Sente-se mais forte e ágil, apesar de extremamente cansado. A droga era para me manter adormecido no transporte apenas, eles querem que cumpra o exílio, e para isso preciso de minha total capacidade. O crepúsculo avança e com ele vem o abraço reluzente de um mar de estrelas, a visão é arrebatadora, e aparecem repentinamente, todas ali, a assisti-lo, piscando, incansáveis.

O prisioneiro deita-se perto de uma rocha maior que pode servir de cobertura e põe se a refletir. As horas escoam lentamente e o silêncio da noite é perturbador, incomoda profundamente ele, que constantemente abre os olhos e procura algo na penumbra, nunca achando nada e geralmente ficando apenas mais paranóico. As reflexões não conseguem mais conter o animal encurralado pelo silêncio da noite. A ausência de som é pesada, faz pressão sob os ouvidos do rapaz e ele se desespera. Foi uma noite longa, silenciosa e solitária para o prisioneiro, mas, sobretudo perturbadora, pois ele estava na prisão, no planeta prisão.