Agatha via policiais correndo de um lado para o outro no hospital. Ouvia Sara berrando e chorando. Arnaldo conversava com os policiais. Apesar de ter consciência do que acontecia em sua volta, Agatha sentia como se estivesse olhando aquela cena de fora. Como se fosse outra pessoa.

A fixa ainda não havia caído. Logo agora que ela estava disposta a se aproximar de Jade... Sua mente repassava a cena da irmã caída no meio do mato, com o corpo arrebentado. Sentia uma vontade louca de chorar, mas por algum motivo as lágrimas não vinham.

Um policial negro e alto, com um bigode estilho anos 80 se aproximou de Agatha.

— Sinto muito pelo que você teve que passar, mas preciso ouvir seu relato sobre os fatos.

Agatha demorou alguns segundos para responder.

— Eu já falei tudo que tinha para falar.

O policial se agachou e pousou a mão em seu ombro carinhosamente.

— Sim, eu sei. Mas preciso que você repita. Tente se lembrar de algum detalhe. Havia alguma coisa na cena do crime? Viu alguém?

Agatha afastou a mão dele com um tapa.

— Eu já disse que não! Eu não vi nada nem ninguém. A única coisa que vi foi a Jade jogada no chão, toda arrebentada. Por que vocês ainda estão aqui? Deveriam estar atrás de quem fez isso com ela!

— Entendo a sua dor. Se acalme primeiro, beba uma água. Quando se sentir a vontade vá a sala de depoimentos e conte tudo o que me disse, está bem? Lamento pela perda de sua prima.

— Ela não era minha prima.

Agatha olhou para fora da janela. A chuva havia parado. Eram quase cinco da manhã e logo o sol voltaria a nascer, mas o coração de Agatha permaneceria para sempre naquela madrugada chuvosa.

UM ANO DEPOIS...

— Fora da minha sala! Agora.

Agatha pegou sua mochila do chão e se levantou. Parou em frente à professora Carmen e mandou um beijo. Depois saiu da sala e bateu a porta com toda a força. Desceu as escadas para o andar térreo da escola que ficava dentro da favela em que a garota morava. Virou a esquerda e bateu na porta da diretora que a mandou entrar.

A diretora devia ter seus 40 anos. Tinha os cabelos castanhos e curtos e um nariz meio torto.

— De novo? É a segunda vez só hoje.

Agatha se sentou na cadeira de frente para Carla.

— A culpa não foi minha.

— A culpa nunca é sua, não é mesmo? O que você fez dessa vez?

— Discuti com ela sobre Sócrates.

— Como você discute com a professora de filosofia?

— Com a boca.

Carla respirou fundo.

— Por isso que te colocam para fora. Lamento dizer, mas dessa vez é suspensão.

— Que? Por que?

— Porque você foi colocada para fora em duas aulas seguidas! Vai ficar uma semana suspensa.

A diretora girou a cadeira na direção do computador e começou a digitar os termos da suspensão.

— Você sabe que isso é para o seu próprio bem, não sabe?

Agatha não respondeu. Carla continuou digitando e falando com a menina ao mesmo tempo.

— É incrivel. Você é colocada para fora pelo menos quatro vezes por semana e ainda assim é a melhor aluna da classe. Como você consegue?

— Sorte.

— Se todos os alunos da sala tivessem a sua sorte essa seria e melhor escola do Brasil.

A diretora se levantou e pegou o papel na impressora.

— Aqui está. Traga isso assinado pela sua mãe semana que vem quando acabar seu castigo.

Ao ouvir a palavra "mãe" a mente de Agatha vagou novamente para a noite de um ano atrás. A noite em que havia tido a conversa mais estranha da sua vida com Aramis... a noite em que algum animal estuprou e matou sua irmã gêmea.

— Agatha, você esta bem?

Agatha piscou. Viu que a diretora ainda segurava o papel da suspensão. Saiu de seu transe e o pegou, dobrou e colocou na mochila.

— Sim, eu estou bem.

Carla fez um gesto em direção à porta e Agatha saiu. Atravessou o refeitório e saiu para o pátio. O portão de entrada estava fechado então a garota sentou-se em um banco de pedra que havia perto do portão para esperar o inspetor vir abri-lo.

Sua família voltou de Santos no dia seguinte à morte de Jade. Enquanto Agatha estava dentro do pequeno gol prata, ela refletia sobre todos os acontecimentos. Na verdade ela não queria pensar naquilo, mas seu cérebro insistia em trazer-lhe de volta aquelas lembranças horríveis.

Agatha havia voltado para a escola na semana seguinte à sua chegada. Desde que voltou ela não se sentia mais em paz, nem na escola e nem em casa. Começou a discutir com os professores e ser colocada para fora quase todos os dias. Sua mãe sempre era convidada a comparecer na escola para ouvir reclamações sobre o comportamento da filha. Não, ela não é minha mãe.

Se antes era raro Agatha sorrir, agora isso simplesmente não acontecia. As vezes ela se encarava no espelho e tentava esboçar um sorriso, só para se lembrar de como era seu rosto sorrindo. Mas todo o esforço era em vão e seu rosto continuava do mesmo jeito.

Os dias podiam ser horriveis, mas as noites conseguiam ser piores. Agatha continuava tendo o sonho em que corria na floresta desesperadamente, mas agora não estava sendo perseguida. Agora ela corria para salvar Jade. Mas não importava o quanto ela se esforçasse, sempre que chegava ao local achava Jade morta com os olhos cheios de dor voltados para ela. Toda noite Agatha acordava gritando.

— Ai está você.

A voz trouxe Agatha de volta à realidade. Era o inspetor André que vinha em sua direção. Ele era gordo e sua cabeça parecia um ovo.

— Vieram te buscar?

Agatha olhou para ele sem entender.

— Como assim? Meus responsáveis não sabem que fui colocada para fora.

— Pelo visto sabem porque um homem venho te buscar. Vem!

Agatha pegou a mochila de cima do banco e o seguiu. Ele a levou de volta para dentro da escola. Atravessaram um corredor à direita que levava a entrada lateral da escola, exclusiva para funcionários e professores. O inspetor abriu a porta e Agatha saiu.

— Ai está ele.

Parado do lado de fora da escola, olhando-a com aquele sorriso perfeito e irritante, estava Aramis.

— Eu assumo daqui, Zé. Pode deixar.

Aramis veio em sua direção e passou-lhe um braço pelo ombro e a conduziu para longe do portão.

Demorou um tempo para Agatha sair do estado de choque e empurra-lo.

— O que você esta fazendo aqui?

— Eu ainda tenho que treinar você, esqueceu?

— Sim. E você também deve esquecer. Eu não quero mais saber de você, nem do cara pálida e muito menos do meu pai.

Se afastou dele e começou a andar.

— Lamento pela morte de Jade.

Agatha parou e se virou.

— Como você sabe?

— Seu pai me mantêm informado.

Agatha caminhou na direção de Aramis.

— Ah, então é para eu supostamente pensar que ele se importa comigo? Minha irmã morreu. A Jade morreu, cara! E ele nem ao menos se deu ao trabalho de aparecer no funeral da própria filha. Ele não foi capaz de aparecer na minha casa durante esse ano para ver se eu estava bem! Ele age como se eu não existisse!

— Seu pai não veio porque ele sabe muito bem que você não é frágil. Você é forte Agatha. Mais forte do que imagina. Sua mãe queria vir, mas...

— Minha mãe?

Agatha sentiu um nó na garganta. Nunca havia pensado na mãe biológica.

— Sim. Ela queria vir, mas foi proibida. Ela pede desculpas.

Agatha sentiu a cabeça rodar.

— Eu vou para casa.

Ia se virar para ir embora, mas Aramis prendeu seu braço com dedos de ferro.

— Entre no quarto da sua avó hoje quando você chegar em casa. Vá até o guarda-roupas dela. Abra-o. Segunda gaveta a direita. Lá você vai encontrar o que procura.

— E o... o que eu procuro?

— A verdade.

Agatha foi o mais rápido possível para casa.

Abriu a porta e entrou fazendo o máximo de barulho possível. Para ver se alguém gritava com ela. Como ninguém se manifestou e a casa parecia aparentemente vazia, Agatha fechou a porta e correu para o quarto da avó.

Abriu o guarda-roupas dela. Se ajoelhou e puxou a segunda gaveta. Sério? Gaveta de calcinhas? Então ta... Agatha revirou as calcinhas de Heloisa, jogando-as no chão. Como pode uma velha ter tanta calcinha? Enfiado bem no fundo da gaveta estava um envelope que deveria ter sido branco um dia, mas agora estava amarelado e borrado.

Agatha pegou o envelope e sentou-se na cama da avó. Suas mãos tremiam quando ela abria a carta que sua mãe havia deixado na porta da mansão à 14 anos atrás. Com um frio na barriga, ela começou a ler.

Essa com certeza não é uma coisa honrada de se fazer, mas espero que entendam. Não é de meu agrado deixar minhas filhas assim, na porta de estranhos, mas tenho os observado há muito tempo e vocês me parecem ser pessoas de honra. Pessoas que vão seguir fielmente minhas instruções.

Essas meninas que deixo na porta de vocês vão definir o futuro da humanidade e dos deuses. As histórias antigas que vocês aprenderam na escola são reais e nós existimos. Todos os mitos e lendas realmente aconteceram. Todas as tragédias e guerras são reais... mas a maior de todas está por vir.

Essas meninas, minhas filhas, são as herdeiras por direito do trono do Olimpo. Isso por si só já explica o motivo de eu ter que tira-las de lá. Hera e Zeus não querem perder seus postos e farão de tudo para matá-las. As mantive comigo o máximo que pude, mas agora já é impossível para que elas fiquem aqui. Vai ser chegada a hora em que o poder de Cronos ira despertar mais uma vez e invocará as legitimas herdeiras para a guerra.

Prestem atenção nas minhas instruções. Se as seguirem ao pé da letra não terão problemas. Imploro-lhes que criem minhas filhas da melhor maneira possível, porém na maior distancia que puderem. Se as duas ficarem juntas serão facilmente rasteadas. Quando tiverem idade suficiente para entender contem para elas a verdade. Elas precisam estar preparadas para quando a guerra estourar.

Esse é o apelo de uma deusa e o apelo de uma mãe. Cuidem das minhas meninas. O futuro do mundo depende disso.

Agatha tremia tanto que deixou o papel cair no chão. Sua cabeça rodava e nada daquilo fazia sentido. Deuses? Nada daquilo se encaixava em sua cabeça.

— Agatha?

Agatha levou um susto e olhou para cima. Sua avó estava parada na porta olhando para a carta em suas mãos.

— Eu não queria que você tivesse descoberto assim, mas já que isso aconteceu...acho que lhe devo algumas explicações.

Heloisa fechou a porta e a trancou.