Princesa Sparta: A Herdeira de Cronos - 1 Temporad
12 A filha do Rei - Laura
— Anda, Laura. Rápido!
Jéssica pagou o motorista e puxou Laura para fora do táxi. Estavam na frente da boate Blue Angle que ficava no centro de São Paulo. A fila em frente às portas do estabelecimento estava dando voltas no quarteirão.
Laura chegou a hora em seu celular. Eram 21:36
— Acho que chegamos tarde demais, Laura.
A jovem guardou o celular de novo na bolsa e olhou para a melhor amiga.
— A gente vai entrar e ainda não vamos pegar fila.
— Como você pretende fazer isso dessa vez?
Jéssica conhecia Laura desde quando tinham doze anos e agora estavam com dezesete. Em todos os passeios, todos os lugares que iam, de algum modo sobrenatural Laura conseguia controlar as pessoas e fazê-las deixar as duas entrarem em qualquer festa. Jéssica nunca entendeu como a amiga fazia isso, mas também nunca havia reclamado, pois adorava uma farra.
Laura sorriu e passou o braço em volta do de Jéssica.
— Como todas as outras vezes, querida.
As duas se dirigiram diretamente para as portas da boate, passando pelas pessoas que já estavam entediadas na fila enorme. Laura parou na frente de um dos seguranças.
— Abra a porta.
O segurança olhou para baixo e se deparou com a jovem de cabelo e olhos castanhos o encarando de um jeito autoritário. Do jeito que uma princesa olha quando dá ordem a um empregado burro.
— Eu disse para abrir.
O segurança deu um passo para o lado e empurrou a porta com uma mão. Mas quando as garotas iam entrar o segundo homem colocou o braço na frente.
— Ei, mocinhas! Nada disso, voltem para a fila...
Laura cravou o olhar nele e o homem deu um passo para o lado e as deixou passar. A garota puxou Jéssica para dentro e as duas começaram a rir.
— Você viu a cara dele? Achei que o brutamontes ia me responder algo do tipo mim não falar seu idioma.
Jéssica riu.
— Nunca entendi como você consegue fazer isso.
Laura desceu os degraus. Quando se enfiou no meio da multidão que dançava, ela virou para trás e gritou:
— Puxei meu pai nessa parte!
Logo em seguida sumiu no meio dos outros. Laura era assim: fazia o que queria, quando queria e com quem queria. Ninguém nunca a repreendia, e quando tentavam, ela lhes olhava com aquele olhar superior... Aquele olhar que faz você se sentir um lixo e querer se ajoelhar aos pés dela. Laura controla até mesmo a própria mãe.
Jéssica ia à casa de Laura quase todo dia e sempre via a mesma coisa. Ao invés da mãe dar as ordens, era a jovem quem fazia isso. Ela simplesmente falava para a mãe Faça isso! e a dona Mariana fazia. Laura dizia Vou sair. e Mariana somente abaixava e acenava a cabeça. Uma vez as duas discutiram na frente de Jéssica e a garota teve quase certeza de que Mariana iria falar “Sim, senhora” quando Laura a mandou calar a boca.
A melhor amiga de Jéssica morava sozinha com a mãe em uma casa confortável em um bairro de São Paulo. Por esse motivo a garota achou estranha a menção do pai de Laura. Até onde Jéssica sabia... Não, na verdade Jéssica não sabia nada sobre o pai de Laura. Elas nunca haviam falado sobre isso.
Desceu os degraus e foi atrás da amiga.
Laura estava sentada no bar conversando com o barman.
— Pode mandar mais uma... Ai esta a minha acompanhante.
Laura sorriu e fez um gesto para Jéssica se sentar ao seu lado.
— Vai querer alguma coisa?
— Por enquanto não.
— Pode mandar uma Vodka para ela.
O barman assentiu e se virou.
— Laura!
— O que foi? Quantas vezes eu já disse para você se soltar? Você esta comigo, não precisa ter medo. Vou arrumar uma carona para nós na hora de voltar.
Laura percebeu que Jéssica estava meio inquieta.
— Você quer falar alguma coisa.
Aquilo não havia sido uma pergunta.
— Desembuça, garota!
Jéssica olhou relutante em seus olhos.
— Você falou do seu pai...
Laura desviou o olhar e voltou a atenção para a sua tequila.
— Saiu sem querer. Não quero falar sobre isso.
Jéssica fez que sim com a cabeça. O barman colocou o copo de Vodka na sua frente.
Laura adorava isso. Adorava quando falava e as pessoas simplesmente abaixavam a cabeça. Adorava quando na escola fazia os professores aceitarem suas tarefas atrasadas. Laura adorava dominar. Obrigada, pai. Se estiver ouvindo saiba que a única coisa boa em você é o seu poder de dominação.
Se qualquer outra pessoa pensasse uma coisa daquelas se referindo ao seu pai, provavelmente levaria um raio na cabeça na mesma hora. Isso nunca havia acontecido com Laura. Talvez eu domine até mesmo você, não é?
Esvaziou o copo de uma vez só.
— Eu vou dançar.
Se levantou e entrou outra vez no meio da multidão. Enquanto dançava alguns rapazes encostavam nela. Quando Laura achava algum que a agradasse, ela envolvia seu pescoço com os braços e passava a dançar bem colada nele. Só parava quando sentia o volume na calça do rapaz crescer.
Estava prestes a se afastar de um garoto loiro, mas ele a puxou pelo braço.
— Eu tenho aqui uma coisa para você. – sussurrou em seu ouvido.
— Eu sei muito bem o que você tem ai, moço. Agora não, depois a gente conversa.
— Eu não estou falando disso.
O rapaz tirou uma sacola do bolso e a abriu. Dentro haviam quadradinhos de LSD. Laura ergueu os olhos para ele.
— Quero dois.
O resto da noite passou como um trailer na cabeça de Laura. Depois de ingerir um quadradinho ela perdeu totalmente o controle de si. Agarrou aquele mesmo rapaz e puxou-o para o banheiro feminino.
Empurrou-o para dentro de um box e começou a abrir sua calça.
— Você é rápida.
— Cala a boca antes que eu mude de ideia.
Colocou a mão dentro da calça dele e puxou seu membro para fora, em seguida o fez sentar na privada. Tirou a calcinha e levantou o vestido, sentando-se no colo dele com toda a força.
Quando Laura saiu do banheiro estava ainda com o vestido um pouco torto e desencravando a calcinha. Alguém a puxou pelo braço.
— Onde você se meteu? Te procurei a noite toda!
— Eu estava me divertindo.
Puxou o braço, soltando-o da mão de Jéssica.
— Você esta drogada?
— Um pouco. Vamos embora?
— Vamos.
Laura odiava a personalidade certinha de Jéssica, mas mesmo assim ela continuava sendo sua melhor amiga.
Ao olhar em volta, percebeu que a boate estava quase vazia. As duas andaram de braços dados em direção à saída. Estavam quase alcançando a porta quando foram barradas por um homem alto de barba e cabelo castanho. Ele usava um terno cinza e seus olhos castanhos olhavam para Laura com desaprovação.
— O-oi pai...
Laura pediu para Jéssica esperar perto da porta de saída e deixou seu pai a conduzir pela escada de serviço que levava para o telhado da boate.
Era raro ela ver seu pai e quando ele aparecia significava que Laura havia ultrapassado os limites. Com certeza foi por causa do que eu disse sobre dominar até ele. Estremeceu assim que chegaram ao telhado, mas não foi o vento frio que fez Laura tremer. O que a fez tremer foi a ideia de que, ali onde estavam, um raio podia muito bem cair em sua cabeça. Não, eu sou a filha dele. Ele não vai me machucar.
Estava evitando olhar nos olhos castanhos e poderosos do pai, mas quando chegaram ao telhado Zeus se virou para encara-la e Laura não teve como fugir.
— Quantas vezes vamos ter que repetir a mesma conversa? Laura, você não pode agir como uma adolescente.
Laura odiava quando seu pai aparecia e ditava suas regras. Ele dizia o que ela devia ou não fazer. Dizia como ela devia ser, como ela devia falar e se comportar. Isso a tirava do sério.
— Aqui vai uma notícia para você, papai: eu sou uma adolescente!
— Não, você é minha filha. Você deve agir como tal e não ficar por ai se entupindo de drogas e sabe-se lá o que mais!
— Ué, não foi o senhor mesmo que disse que eu devia agir como bem entendesse? Não foi o senhor que me disse para não deixar ninguém mandar em mim? É isso que eu estou fazendo.
Zeus deu um passo em sua direção e um raio cortou o céu. O som do trovão veio logo depois e a fez se encolher.
— Você pode se achar a maioral para cima dos outros, mas quando eu falar você vai abaixar a cabeça e me obedecer. Eu sou o rei dos deuses e não vou ser desrespeitado por uma fedelha que quase nem saiu das fraldas e se acha muito boa só por mandar em um bando de idiotas e em uma amiga que mais parece uma freira!
Laura abaixou a cabeça.
— Me desculpa, pai...
Zeus suspirou e o ar em volta pareceu ficar mais leve.
— Tudo bem... Mas não foi para dar sermão que eu vim.
A garota ergueu os olhos para o pai.
— Não? Bem, isso é novidade.
Zeus a pegou pela mão e a levou até a beira do telhado. Juntos eles olharam para as luzes da cidade de São Paulo que se estendia à sua volta.
— Eu sou o rei. Laura, você é uma princesa e deve agir como tal. Tudo isso é meu...Tudo isso é seu também. Você gosta disso? Gosta de saber que tudo te pertence?
Laura nem precisava pensar sobre o assunto. Na hora um sorriso perverso apareceu em seu rosto e ela virou para encarar o pai. A ideia de ter o mundo todo a sua disposição era muito tentadora. Ela podia fazer o que quisesse, podia ter o que quisesse e ninguém nunca iria poder reclamar. Ela era a filha do rei, a filha de Zeus.
— Claro que sim. Isso tudo vai ser nosso para sempre! É perfeito!
Uma sombra pareceu atravessar o rosto de Zeus. Laura percebeu que havia alguma coisa errada.
— Pai? O que foi?
Ele demorou alguns segundos para responder.
— Nosso poder esta ameaçado.
— O que? Como assim? Impossível! Pai, não é por nada, mas o senhor é Zeus! Quer dizer, o senhor cortou Cronos em pedaços. O senhor é o rei dos olimpianos! Ninguém nunca vai desafia-lo.
— Na verdade já desafiaram.
Laura sentiu seu mundo cair. Como assim haviam desafiado seu pai? Ele era o mais poderoso de todos! Nunca poderia ser vencido por ninguém. Quem teria a coragem ou a burrice de tentar tomar o Olimpo dele?
— Quem?
— Cronos.
— Mas... O senhor o cortou em pedaços.
— Exatamente. Por isso ele não poderá incomodar ninguém. Mas...
— O que? Fala logo!
— Ele me mandou uma mensagem há muitos séculos atrás. Ele me renegou, disse que eu não tinha o direito de estar no trono e que sou um usurpador. Disse também que de dois olimpianos nasceriam suas herdeiras verdadeiras e meu reinado estaria acabado.
Laura sentiu um alivio repentino.
— Ah, é só isso? Se ele te deu esse recado séculos atrás e até agora nada aconteceu é porque ele estava blefando.
Zeus abanou negativamente a cabeça.
— Também pensei assim, mas infelizmente aconteceu. Bem quando eu já havia me esquecido dessa história.
— Como assim “aconteceu”? As herdeiras nasceram? Então enfie uma faca nos malditos bebês, pai. – Laura riu – Despedaçou Cronos e não consegue esfaquear duas malditas bastardas?
Outro raio veio.
— Atena me enganou!
— Será que é por isso que ela é a deusa da sabedoria? Por que ela é esperta? Pera... Ela é a mãe das “coisas”?
— Sim. Ela alega que não sabia que suas filhas eram as herdeiras quando elas nasceram. Depois de algumas semanas, Hades apareceu lá e disse que tinha um recado urgente para dar a Atena.
— Você deixou aquele imundo entrar no castelo?
— Eu não tive escolha. Ele e Atena se trancaram no salão e conversaram durante alguns minutos. Não seria uma coisa honrada escutar atrás da porta então eu os deixei em paz. Mas minha esposa não tem o mesmo senso de honra que eu.
Laura revirou os olhos. Odiava Hera com todas as suas forças. Zeus continuou:
— Assim que Hades foi embora, ela veio correndo atrás de mim e me disse que as meninas eram as herdeiras de Cronos. Eu fui ter com Atena e a mandei entregar os bebês para mim.
— Ia engoli-las como o vovô fez com seus irmãos?
— Seria uma opção. Não preciso dizer que Atena se recusou, ela disse que ela mesma ia matá-las.
— E você, burro, acreditou?
— Ela era a mãe! Se alguém tinha o direito de tirar a vida daquelas bastardas esse alguém era ela. Como eu disse, ela me enganou. Pegou as meninas e fugiu para a cidade de Santos. É ai que entra a maior traição de todas: ela disse que não sabia que as meninas eram as herdeiras de Cronos, mas esteve observando um casal de mortais em segredo desde antes das malditas nascerem.
— Corte a cabeça dela, papai. De quem foi a ideia brilhante de deixar as herdeiras de Cronos com simples mortais?
— Apolo.
— Ah, tinha que ser. Dê um fim nelas, pai. O senhor sabe onde elas estão, mate-as.
— Eu não sabia onde elas estavam até bem recentemente. Só Atena e Apolo sabiam das localizações – Ao ver o olhar de interrogação da filha, Zeus explicou – Atena é esperta demais para deixar as duas no mesmo lugar.
— Faz sentido.
— Uma já foi.
— Sério? – Laura riu – Como o senhor descobriu onde ela estava?
— Desobedeceram as ordens de Atena e colocaram as duas na mesma casa durante tempo suficiente para meus servos rastrea-las. Quando me deram a localização eu fiz questão de mandar meus dois assassinos mais cruéis para espreitarem a casa e esperar o momento certo.
— E qual foi esse momento?
— As duas idiotas saíram para a floresta, sozinhas. Meus homens foram atrás delas. Um teve sucesso e matou uma das gêmeas e não sem antes fazê-la sofrer. O outro também teria conseguido seu objetivo, mas foi interceptado por Aramis.
— Quem é esse?
— O lacaio de Apolo. Aparentemente ele estava com as meninas na floresta. Uma delas correu atrás dele e a outra ficou para trás. Quando Aramis sentiu a presença maligna ele voltou e não deixou o assassino se aproximar da bastarda. Mas a outra teve seu fim.
Laura pensou um pouco sobre esse assunto.
— Já sabe onde a outra está?
— Não. Gêmeos tem um elo muito forte, mas só funciona quando estão juntos. Foi assim que conseguimos achá-las. Agora só resta uma então esse elo não existe mais. – Ele fez uma pausa. Colocou as duas mãos nos ombros de Laura – Preste atenção. Essa bastarda põe tudo que temos em risco. Não posso deixar que ela tome o poder. Agora ela deve estar com quatorze anos e está solta nessa cidade.
— Pai, ela pode até mesmo tramando um plano para tomar o Olimpo.
— Não, ela não sabe quem é. Se ela descobrir, tudo estará perdido. Não podemos deixar isso acontecer, Laura.
Laura ergueu o rosto com os olhos castanhos brilhando de fúria.
— Pode deixar, pai. Vou dar um jeito de achar essa bastarda imunda e farei questão de matá-la com as minhas próprias mãos.
Zeus sorriu e abraçou a filha. Os dois ficaram ali no telhado, abraçados. Nessa noite, em São Paulo, houve a maior tempestade do ano.
Fale com o autor