Princesa Sparta: A Herdeira de Cronos - 1 Temporad
9 Revelações - Jade
Jade acordou com o som de um trovão. Sentou-se na cama de uma vez, com os olhos arregalados. O sonho... Pela primeira vez em sua vida, ela não havia sonhado com a perseguição na floresta. Sorriu. Se sentia estranhamente leve sem o peso do medo em suas costas. Então o som de um trovão a fez voltar a realidade.
Estava chovendo muito do lado de fora. Foi um trovão de verdade que eu ouvi. Nada de sonhos. Riu, se atrevendo a ter a esperança de que nunca mais voltasse a ser perseguida em uma floresta todas as noites. Então lembrou-se do compromisso.
Deu um pulo da cama e olhou para o relógio da mesinha de cabeceira. Eram 23:54. Droga! Vestiu-se o mais rápido que pode e desceu as escadas correndo, sem nem se preocupar em pentear o cabelo – coisa que, ao se tratar de Jade, raramente acontecia.
Desceu as escadas pulando dois degraus de cada vez e atravessou a sala correndo. Entrou no saguão e só parou ao ouvir uma voz vinda de perto da lareira.
— Onde vai com tanta pressa?
Ela deu um pulo e virou-se. Agatha estava parada de pé ao lado da lareira. Estava vestida como uma mini rapper: uma regata roxa e amarela de um time de basquete, um short jeans com uma blusa quadriculada de vermelho e preto amarrada em sua cintura. Usava um boné de aba reta roxo escrito New York de branco. Seus tênis eram verdes e brancos. Os olhos verdes de Agatha estavam com um brilho avermelhado. A garota encarava as chamas sem piscar, parecia hipnotizada.
— Eu ia atrás de você. Pensei que você já havia saído.
— Eu ia, mas deduzi que se eu fosse sem você provavelmente você iria correr atrás de mim então não iria adiantar. Preferi esperar para irmos juntas. Não quer subir e se arrumar decentemente?Comer alguma coisa, talvez?
Foi só então que Jade olhou para as roupas que havia vestido. Pegou as primeiras que caíram quando abriu o guarda-roupa e ainda estava de pantufas.
— Tudo bem. Não vá a lugar nenhum sem mim.
Sem esperar resposta, Jade voltou para a sala e subiu as escadas. Voltou para seu quarto e se vestiu com calma, colocou sapatos descentes, penteou os cabelos e desceu indo direto para a cozinha.
— Jade? O que esta fazendo acordada à essa hora? Seus pais já foram dormir.
Jade se virou, assustada. Havia se esquecido que a faxineira sempre limpava a cozinha antes de ir dormir.
— Estou sem sono e com fome.
— Você por um acaso viu a Agatha? Não vejo aquela menina desde ontem à noite. Esther esta procurando por ela o dia inteiro.
— Provavelmente está nos evitando .
Jade continuou comendo. Não soube porque mentiu, mas depois pensou que talvez tenha sido o melhor. Se contasse para ela aonde iriam, provavelmente a empregada acordaria seus pais.
Empurrou o ultimo pedaço de pão para baixo com um pouco de leite e afastou o prato, se levantando.
— Eu já vou. Se eu por acaso a vir eu aviso que estão atrás dela.
— Jade!
Jade não se virou. Saiu da cozinha o mais rápido que pode sem correr e se dirigiu para o saguão onde Agatha esperava no mesmo lugar, parecia nem ao menos ter se mexido.
— Como você é lerda. Ele vai achar que não vamos mais.
— Não enche. Vamos logo, sua mãe esta atrás de você.
— Que saco. Eu já acordo cedo para evita-los.
Agatha abriu a porta e as duas saíram para o quintal iluminado pela luz da lua. Havia parado de chover, o chão estava molhado e escorregadio, mas o céu continuava escuro e cheio de nuvens.
— Aquele lance das chaves ainda está de pé?
Jade riu.
— Claro que sim. Só falar o dia e a hora.
Jade olhou para a prima e pareceu por um segundo que ela iria sorrir. As duas passaram pelo celeiro e se dirigiram para o portão.
O porteiro já havia ido dormir. Jade tirou um molho de chaves do bolso e procurou a do portão. Abriu-o e as duas saíram para a noite.
— Tem certeza de que sabe o lugar?
— Claro que sim. Eu contei os nossos passos enquanto seguíamo-lo. Só mais um pouco...
Definitivamente, instantes depois Jade viu o espaço aberto que haviam conversado com o homem de preto.
— Cadê? Era pra ser aqui.
— Tem certeza que você sabia onde era?
— CLARO QUE TENHO!
Um trovão fez as duas pularem e olharem para cima.
— Tem, sim.
Viraram-se ao ouvir a voz. Do meio das árvores saiu um homem realmente bonito. Era loiro e tinha os olhos verdes. Seu sorriso era doce e encantador.
— Eu sabia que vocês viriam.
— Quem é você? – Jade estava tremendo, não sabia se era de medo ou se por causa da beleza extraordinária do homem.
O homem caminhou na direção dela e fez uma pequena reverencia.
— Meu nome é Aramis. Seu pai me mandou aqui para treina-las.
A respiração de Jade ficou presa em sua garganta.
— Não... Tem alguma coisa errada. Eu sou a Jade.
— Eu sei quem você é.
— Então... O outro, o outro homem... Ele disse que o pai da Agatha tinha escolhido alguém para nos treinar.
— Exatamente.
— Ué... Mas você acabou de falar que...
Aramis riu. Não o riso frio do homem de preto, mas um riso limpo como as águas claras de um riacho.
— Ele disse que vocês eram espertas. Acho que ele cometeu um equivoco.
Agatha saiu do estado de choque e se manifestou.
— Escuta aqui, cara. Você é ainda pior que o cara pálida de preto. Ele também dizia coisas nada a ver, mas você deve ter algum distúrbio de...
— Não. Acho que vocês têm algum distúrbio. Distúrbio nos olhos. Será que não perceberam que são idênticas? Francamente, vocês não podem ser tão burras.
— Sim... Já percebemos, mas primas se parecem.
— Sério? – Aramis podia ser bonito e ter uma aparência de anjo, mas Jade sentiu mais medo dele do que sentiu do homem de preto. – Acha normal primas “de segundo grau” serem tão parecidas... Não, parecidas não. Vocês são iguais! E a família de vocês? Nunca perceberam que não se parecem em nada com eles?
— Você nunca ouviu falar de crossing-over?
Aramis olhou para Agatha durante alguns segundos e Jade teve e impressão de que ele iria pular em cima dela e arrancar-lhe os olhos.
— Não se faça de burra. Você sempre desconfiou que não pertencia àquela família desde que tinha oito anos.
— Como você...
— Seu pai me manteve informado... O pai de vocês me manteve informado.
Foi a vez de Jade se manifestar.
—Não... Não!
— Gritar não vai adiantar em nada, queridinha. Ele te chama de princesa não é? Sim. Ele é um bom homem, mas você também já desconfiou.
Jade queria bater nele. Joga-lo no chão e socar aquele rosto perfeito até ele retirar o que havia dito.
— Por que esta mentindo? – Agatha parecia a beira de um ataque de nervos – É alguma pegadinha? Um castigo por causa do que eu fiz com o cavalo? – Ela se dirigiu as arvores – Tem alguma câmera aqui? Valeu, tio Eduardo! Dessa vez você se superou! Quantas árvores tiveram que ser cortadas para nós fazermos esse papel de trouxa?
Aramis riu de novo.
— Gosto de você Agatha. Mas, infelizmente eu não estou mentindo. – De repente uma sombra se passou pelos olhos dele – Quisera eu estar mentindo. Já que você se recusam à juntar as peças sozinhas, eu vou dar uma ajudinha. Vocês são filhas do mesmo pai e da mesma mãe. Sim, vocês são irmãs... Gêmeas, é melhor eu deixar claro já que vocês são extremamente burras. Quando vocês tinham apenas alguns dias de vida At... a mãe de vocês as deixou na porta dessa linda mansão. Junto de vocês vinha um bilhete explicando tudo, quem são, o motivo de estarem sendo abandonadas. Tudo. Claro que vocês não sabiam de nada, eles não iriam contar para vocês uma coisa que nem mesmo eles acreditavam. Só passaram a levar a sério quando...
— O homem de preto foi na mansão. – Jade mal teve consciência de ter falado aquilo – Ele foi lá dizendo para não duvidarem mais.
— Exatamente. Vê? Tudo se encaixa! E se duvidam de mim, voltem lá! Voltem agora para a mansão e os coloque contra a parede! Exijam ver a carta, digam que sabem de tudo e vejam o que eles vão falar.
Jade fechou os olhos com força. Não queria acreditar em nada daquilo. Sua cabeça parecia estar rodando com todas aquelas coisas que Aramis havia falado... Olhou para a... prima? Não sabia mais como pensar.
— Não. Não podemos ser irmãs! Jade e eu somos muito diferentes... Tá, podemos ser parecidas, mas nossas atitudes são completamente opostas. A gente nem ao menos se gosta. – Virou-se para olhar para Jade – Né? Fale para ele como a gente se odeia.
Jade negou com a cabeça. Ela sentiu algo estranho quando viu Agatha pela primeira vez e elas haviam discutido, mas depois ela sentia seu coração comprimido toda vez que olhava para a... irmã?
— Jade! Fale para ele!
Jade permaneceu em silencio e negou com a cabeça outra vez.
— Eu vou matar você!
Antes que Jade pudesse reagir, Agatha pulou sobre ela e as duas caíram no chão. Jade tentou empurra-la e das duas rolaram sobre as pedras, galhos e folhas caídas. Agatha conseguiu ficar por cima e colocou as mãos em torno do pescoço de Jade. Aramis ria.
— Fala Jade! – A voz de Agatha começou a falhar e Jade percebeu que ela estava chorando – Diga a ele que não é verdade!
Jade não sabia se ficava nervosa por estar sendo estrangulada ou se ficava surpresa por ver Agatha chorar. Como a garota não se mexeu nem disse nada tamanho era seu estado de choque, Agatha saiu de cima dela e caiu no chão chorando. Aramis falou:
— Eu sei que isso não tem nada a ver com a ocasião, mas eu sei que as duas têm sonhos estranhos. Ou melhor: sonho estranho. O mesmo sonho que se repete toda a noite, não é mesmo?
Jade se sentou e Agatha levantou o rosto do chão para encara-la.
— Você também? Também tem o sonho da floresta?
Jade sentiu sua garganta seca.
— Tenho. Eu já falei sobre ele com a minha... – Olhou para Aramis – mãe?
Aramis balançou negativamente a cabeça.
— Não vamos jogar tudo o que eu falei por água a baixo, vamos? Ela não é sua mãe, sua pequena tola!
Jade abaixou a cabeça. Ao seu lado Agatha se levantou e puxou-a, colocando-a de pé não sem um pouco de gentileza.
— A gente vai embora. Chega dessa baboseira.
— Vocês já vão? Ótimo. Aproveitem e perguntem a eles sobre a carta. Voltem aqui amanhã, mesma hora. Tragam a carta se quiserem. Vão ver que eu não estou mentindo.
Sem dizer mais nada, Aramis virou as costas e sumiu no meio das arvores. Jade sentia sua cabeça girar com todas aquelas informações. Olhou para Agatha ao seu lado. Agatha estava com o olhar fixo à frente, imóvel.
— Agatha?
A garota nem se mexeu, continuou com o olhar fixo... Perigosamente fixo. Então, de repente, soltou um grito. Foi um grito de puro ódio sendo liberado. Antes que Jade pudesse se recuperar do arrepio que o grito de Agatha havia lhe causado, a prima/irmã saiu correndo para dentro das arvores.
— Agatha!
Jade correu atrás dela. Precisou se esforçar ao máximo para não perder Agatha de vista. Poxa, como ela corre.
— Agatha espera! Não vá fazer nenhuma besteira!
Jade entrou em desespero achando que Agatha ia voltar à mansão e esfregar na cara de todos o que Aramis havia dito e revirar a casa de cabeça para baixo até achar a maldita carta. Aramis deixou bem claro que a carta estava lá.
Perdeu o fôlego e parou, encostando-se em uma árvore. Respirou fundo e várias vezes seguidas.
— Agatha!
Algo a fez olhar para trás, na direção oposta a que Agatha havia ido. Ao virar-se, viu os telhados da mansão atrás. Agatha não esta indo para a mansão. Ficou confusa durante alguns segundo. Será que Agatha havia errado o caminho? De repente, a fixa caiu. Agatha não estava voltado para a mansão, ela estava indo atrás de Aramis.
Jade entrou em desespero e se pôs a correr novamente, num último esforço para alcançar a irmã.
Enquanto Jade corria, a chova voltou a cair pesadamente. Ela olhava de um lado para o outro tentado vislumbrar a prima. Eu não devia ter parado. Perdi Agatha de vista! Estava quase desistindo. Apoiou as mãos nos joelhos e deixou a chuva pesada cair em sua cabeça. Um trovão alto cortou o céu. Jade olhou para cima. Aquela cena era extremamente familiar...
Ouviu um galho se partir atrás de si. Virou-se, apavorada. Não chegou a ver ninguém, mas sentiu uma presença maligna e intensa. Deu alguns passos para trás, sem tirar os olhos da escuridão à sua frente. Sentiu algo se aproximar e voltou a correr.
— Agatha! Agatha!
Agora Jade sabia o que ela tanto procurara a vida inteira.
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