Agatha percebeu que alguma coisa estava errada no momento em que se virou para encarar Aramis.

— Apolo? – A voz de Laura havia soado mais baixa que um sussurro.

Agatha perdeu o fôlego ao olhar para o homem parado a poucos metros na sua frente. Ele conseguia ser ainda mais bonito que Aramis. Era uma beleza sobrenatural, que não deveria existir.

Quando o homem sorriu, Agatha pensou que fosse desmaiar.

— Vão. Eu as encontro depois.

Ele virou as costas para elas e foi na direção de onde tinham vindo. Agatha ainda estava paralisada, mas Laura pegou sua mão e a puxou.

— Você o ouviu. Temos que ir.

— Que? – ela começou a correr junto com a filha de Zeus – Mas o que ele vai fazer?

— E eu que sei? Diga-me você, foi você que o chamou.

— Não. Eu chamei Aramis.

Laura virou uma esquina e a puxou, encostando-a na parede.

— Aqui parece bom. Bem, parece que no lugar desse tal Aramis veio Apolo.

— Não pode ser! A voz dele esta igual.

De repente o olhar de Laura pareceu vago. Ela parecia estar refletindo sobre alguma coisa e então falou:

— Ah claro, agora tudo faz sentido.

— O que faz sentido?

— Aramis é Apolo.

Silencio.

Agatha começou a rir. Laura olhava para ela como se a menina tivesse enlouquecido.

— Sério, isso? Meu Deus, já são três deuses que eu conheci. Eu devo ser realmente importante, não é?

Laura tapou sua boca. Agatha a empurrou.

— Não me toque!

— Você acha que tudo isso é uma grande brincadeira, não é? Aqui vai uma novidade para você bastardinha: o que esta acontecendo é muito sério. O futuro do Olimpo depende exclusivamente de você.

— Não fale como se eu tivesse escolhido isso. Eu não pedi para ser herdeira de Cronos.

— Cala a boca!

Agatha ia pular em cima de Laura quando Aramis/Apolo apareceu praticamente ao lado delas.

— Não vão começar a brigar agora, não é?

Agatha deu um pulo se afastando dele.

— Quem é você?

— Você já sabe quem eu sou.

— Cadê o Aramis?

Apolo sorriu e seu rosto começou a tremer levemente. Quando voltou a normal lá estava o rosto de Aramis.

— Estou aqui.

Ela deu um passo para trás.

— Você me enganou...

— Tecnicamente não. Você nunca perguntou se eu era realmente eu, então eu não te enganei. Se você tivesse perguntado, eu falaria a verdade.

Ele piscou e seu rosto voltou a ser o de Apolo. Ele se agachou, ficando com os olhos na altura dos olhos de Agatha. Os olhos dele eram verde escuros.

— Eu tive que me disfarçar para o seu próprio bem, mas não foi ideia minha. Sua mãe que exigiu que fosse assim.

De repente a mente de Agatha começou a clarear.

— Você é o meu pai?

Apolo sorriu.

De algum ponto atrás deles veio o som de pigarro.

— Eu detesto atrapalhar esse momento lindo entre família, mas devo lembrar-lhe que estamos sendo perseguidas pelos servos do meu pai?

O deus virou seu belo rosto para Laura.

— Não estão mais. Eu dei um jeito neles.

Laura se calou.

— Mas isso não vai dar treta? Quer dizer... o senhor matou os servos de Zeus.

— Claro que vai. Mas isso já estava escrito. A princesa aqui tem razão, temos que ir.

— Para onde? – Laura parecia ao mesmo tempo assustada e zangada – Não pode levá-la de volta para casa. Meu pai já sabe onde ela mora e vai voltar lá para matá-la... E eu também não posso voltar para casa, ele quer me matar.

— Eu sei. Vou levar-lhes a um lugar onde ele nunca procuraria. Me sigam.

Apolo virou as costas para as duas semideusas e se pôs a andar na direção de onde tinham vindo.

Agatha e Laura trocaram um rápido olhar e depois seguiram o deus.

— Será que seu querido pai vai mandar mais desses servos para nos matar?

— Com certeza. Ele antes só estava com raiva e medo de você. Agora ele está com raiva e medo de mim também.

— Zeus com medo de mim? Por que?

— Você sabe porque.

Apesar de ser herdeira de Cronos, Agatha não via nada de especial nela. Ela mal sabia lutar, como poderia um deus ter tanto medo assim dela?

Apolo virou uma esquina e elas o seguiram. Havia um carro parado na rua deserta. O deus do sol andou casualmente até o Astra prata e abriu a porta do carro sem nenhum esforço.

— Entrem.

— Ué, cadê o Fiesta?

— Não tive tempo de pegá-lo quando você me chamou. Esse deve servir.

— Você vai roubar esse carro?

Apolo sorriu e entrou no carro. Agatha revirou os olhos e o seguiu. Laura a seguiu sentando no banco traseiro.

— Já que vocês deuses podem aparecer do nada nos lugares por que você precisa de carro?

— Eu posso aparecer do nada nos lugares, mas vocês não podem.

— Faz sentido. Pra onde está me levando?

Seu pai pareceu desconfortável.

— Não quero dizer em voz alta. Nunca se sabe quando alguém esta escutando.

Ele olhou pelo espelho retrovisor para Laura. A filha de Zeus arregalou os olhos.

— Você sabia.

— Eu sei de tudo.

— Do que vocês estão falando?

Novamente o deus olhou para Laura pelo retrovisor e a garota respondeu:

— Nada.

Agatha se virou para encarar seu pai. Ela já achava Aramis o homem mais bonito do mundo, mas Apolo conseguia ser ainda mais lindo. Não conseguiu conter o sorriso ao olhar para os olhos verdes escuros dele.

Ele estava atento ao caminho à sua frente. Agatha olhou pela janela e viu que eles estavam na Marginal. Olhou novamente para ele, dessa vez com raiva.

— Você só pode estar de sacanagem com a minha cara!

— Posso garantir que não estou. Vou leva-las para o mais longe que conseguir.

— Você disse que seria o ultimo lugar que ele procuraria, mas esse será o primeiro lugar que Zeus irá.

— Está enganada. Ele nunca suspeitaria que você voltasse para a cena do crime.

E com razão. Agatha se encolheu no banco. A ideia de voltar para Santos depois de tudo que havia passado era assustadora. Ela não queria voltar para o lugar da morte de Jade, mas a garota não podia fazer nada. Ou Zeus ou Santos.

Agatha suspirou e encostou a cabeça na janela. Fechou os olhos.

Estava correndo na floresta. A chuva forte a impedia de enxergar muito a frente.

— Jade! Jade!

Ela olhava de um lado para o outro sem parar. Pulou por cima de um tronco e uma voz falou em seu ouvido “apresse-se”.

Agatha sabia o que ia acontecer em seguida, ela precisava correr ou sua irmã gêmea seria estuprada até a morte. Forçou suas pernas ao máximo, mas algo a puxava para trás. A presença maligna escondida nas sombras estava mais próxima.

Com um forte impulso para frente, Agatha conseguiu se livrar das mãos invisíveis que a seguravam. Mais alguns passos e ela avistou o espaço aberto onde sabia que o corpo de Jade estaria.

Ela adentrou a campina correndo direto para onde o corpo estava. Lá estava Jade do mesmo jeito que esteve durante todo o ano que se passou: pelada, sangrando, com o rosto praticamente desfigurado e os olhos mortos voltados na sua direção cheios de dor.

Agatha soltou um grito de pura raiva, como fazia todas as noites. Um trovão ecoou pelos céus. E então percebeu que algo estava errado: ela não havia acordado.

Todas as noites ela gritava e acordava também gritando, mas dessa vez ela caiu de joelhos sentindo uma forte dor nas costelas. Agatha levou a mão no local e percebeu que havia uma flecha alojada na lateral do seu corpo.

Com um grito de dor, Agatha arrancou a flecha e a olhou. Era prateada e brilhava lindamente à luz da lua. As penas da flecha eram de pavão. A herdeira de Cronos olhou para o céu quando percebeu que a chuva havia parado.

— Vamos! Mande um raio e acabe logo com isso. Me mate! Acabe logo com essa dor!

Agatha não estava falando da dor latejante que o ferimento da flecha havia lhe causado. Ela falava da dor em seu coração. Uma voz suave e feminina falou à suas costas:

— Morrer sempre é a saída dos covardes.

Ignorando a dor, Agatha se pôs de pé em um salto e se virou para encarar a mulher loira com o vestido de penas de pavão que ela sempre via em seus sonhos. Olhou a clareira ao redor e enfim entendeu.

— Era aqui...Era aqui que meu sonho sempre acabava. Você estava parada bem ali – apontou para onde Jade deveria estar e então percebeu que o corpo dela havia sumido. – O que você fez com ela?

A mulher andou em sua direção, a luz da lua fez seu vestido brilhar em um milhão de cores. Agatha viu um arco em sua mão.

— Eu não fiz nada com essa bastarda imunda. Você fez.

A respiração de Agatha ficou presa em sua garganta. Ela não conseguiu responder àquilo.

— Sabe por que não consegue falar? Porque você sabe que é verdade. Se não tivesse sido tomada pelo ódio e perseguido Aramis sua irmã ainda estaria viva.

A mulher riu. Um riso cruel de pura satisfação.

— Não!

— Sim!

Uma voz veio a sua direita. Agatha se virou e viu Jade em pé ao seu lado, ainda pelada e arrebentada.

— Eu morri por sua causa. Eu nunca vou te perdoar por isso. NUNCA!

As lágrimas subiram aos olhos de Agatha.

— Não, Jade. Por favor. Eu vim atrás de você, eu tentei te achar eu juro.

Jade lhe deu um tapa certeiro.

— MENTIROSA.

Agatha viu sua irmã erguer a mão e nela havia uma espada. Antes que pudesse falar alguma coisa, Jade enfiou a espada em sua barriga.

A herdeira de Cronos acordou gritando de dor.

Apolo a sacudia.

— Tá tudo bem. Calma, estamos aqui.

Agatha começou a chorar feito uma criança e abraçou o pai. Ele era incrivelmente quente, como um metal que tivesse ficado durante alguns minutos no sol.

— Ela morreu por minha causa.

Seu pai se afastou para olha-la.

— Nunca mais repita isso. Você não teve culpa de nada.

— Claro que tive! Ela tem razão...

— Ela quem? Jade?

— Não, a mulher loira.

O olhar de Apolo ficou frio de repente.

— Como era essa mulher?

— Ela era loira e vestia um vestido azul marinho com penas de pavão na barra.

— Hera.

Ao ouvir a voz de Laura, Agatha olhou em volta e percebeu que não estavam mais no carro. De algum modo estavam agora em um quarto com duas camas de solteiro. A garota estava em uma delas.

— Onde estamos?

— Em um lugar seguro. – Laura se aproximou e sentou na cama ao seu lado. – Você disse alguma coisa para Hera? Tipo para onde estávamos indo?

Agatha negou com a cabeça.

— Eu não sou tão burra assim.

Apolo se levantou.

— Eu tenho que ir antes que Zeus note minha ausência. Se bem que a uma hora dessas ele já deve ter derrubado o meu castelo.

Agatha o segurou pelo braço.

— Ele vai tentar te matar também.

— Ele não pode. Durmam bem.

Apolo saiu pela porta do quarto do hotel e a fechou atrás de si. Agatha percebeu que as janelas estavam fechadas.

— O que ele quis dizer com Zeus não poder matá-lo?

— Meu pai fez um decreto quando virou rei do Olimpo. Esse decreto proibia terminantemente um deus de matar o outro.

— Já chegamos...- ela ainda estava com medo por causa do sonho e não se atrevia a dizer o nome da cidade em voz alta.

— Já. Ele nos trouxe para cá e como você estava dormindo decidimos não te acordar.

— Sim, mas onde exatamente nós estamos?

— Na casa de um amigo do seu pai, pelo visto. Quando Apolo disse o motivo de estarmos aqui ele não hesitou em nos mandar entrar e ofereceu a nós esse quarto de hospedes.

Agatha ficou um tempo em silencio, refletindo.

— Eu nunca mais poderei voltar para casa, não é?

Laura segurou sua mão.

— Claro que vai... – Agatha percebeu que ela só estava falando aquilo para ser gentil – Só precisamos esperar a poeira abaixar. Apolo disse que vai voltar aqui todos os dias e continuar com seu treinamento.

Agatha abriu a boca para falar, mas a porta do quarto se abriu e por ela entrou um rapaz de aparentemente uns vinte anos e com a pele levemente parda. Ele estava sem camisa e seus músculos eram bem definidos. Ele trazia uma bandeja apoiada em uma mão A garota continuou de boca aberta ao olhar para ele.

— Ah, você acordou. Achei que poderiam estar com fome e decidi trazer um lanchinho para vocês. – ele colocou a bandeja na cama, ao lado de Agatha – Meu nome é Capão.

— Meu nome é...

— Eu sei quem você é.

Ao ver o olhar perplexo da menina, Capão riu.

— Antes que você pergunte, eu não sou um deus. Sou só um mortal comum que tem amigos...interessantes.

— Você é amigo do meu pai? Por que?

— Sou. Porque eu tenho uma...coisa...que treina as pessoas e seu pai aprecia muito isso.

— Que tipo de coisa?

— Você vai ver amanhã. Espero que gostem da estadia de vocês aqui.

Sorrindo ele saiu do quarto e fechou a porta atrás de si.

Agatha trocou um olhar com Laura.

— Você sabe o que é essa coisa, não sabe?

— Claro que sei. Quem mandou você dormir o caminho inteiro?

— Por falar em dormir...Que horas são? Acho que eu não vou dormir de novo por um bom tempo.

— Não se preocupe, eu te faço companhia se você quiser.

Laura puxou as pernas para cima da cama de Agatha e colocou a bandeja entre elas. As duas comeram e conversaram alegremente sobre varias coisas, menos sobre o fato de estarem ambas em perigo mortal.

Na verdade elas até mesmo chegaram a se esquecer disso pelo período de tempo em que estiveram conversando até ambas caírem no sono lado a lado.