Logo pela manhã, Elôrem fora até a base em que Julius trabalhava. Ele o avistara ao longe. Treinava sozinho no campo aberto em frente à unidade. Seus movimentos eram ágeis, firmes e precisos. Usava um bastão como suporte em seus golpes. Seu corpo era forte e seus cabelos longos, presos parcialmente, esvoaçavam-se, acompanhando seus movimentos. Ele parara, observando-o lutar. Julius era belo e elegante, um conjunto de cuidadoso, responsável, imponente. Era difícil não sentir o coração palpitar fortemente ao olhá-lo mais de perto. O mais velho notara sua presença e logo lhe falara em pensamentos.

“Por que não vem até aqui?”

Elôrem sorrira de lado, caminhando até ele. Ao se aproximar, Julius largara o bastão ao chão, assumindo postura de luta, avançando em Elôrem, que ao notar se protegera, mirando um soco que fora facilmente evitado pelo mais velho. Ele tentara passar uma rasteira em Elôrem, que a pulara com maestria. Julius agilmente dera distância, então conjurara uma esfera dourada de luz lançando-a em Elôrem, que rapidamente puxara uma flecha em seu arco que se projetara em segundos, tendo seu escudo formando-se e espalhando toda a energia lançada para longe. Julius se aproximara mais uma vez, enroscando suas pernas nas de Elôrem, tendo os dois indo parar no chão, com Julius travando o corpo menor abaixo de si.

- E agora, o que você vai fazer? – Indagara ao rapaz. Elôrem não pensara muito, desvencilhara uma das mãos, enroscando os dedos nos fios dourados de Julius, puxando-o pela nuca e beijando seus lábios em seguida. Julius não esperava por isso. Mas a surpresa logo dera lugar ao desejo, e desta vez, o simples selinho ganhara novo tom. Ele aprofundara o beijo, tendo a língua curiosa adentrando a boca menor que a sua. Elôrem o mirara em surpresa, abrindo levemente seus lábios para permitir o que quer que fosse aquilo, confiando em Julius. O mesmo rira em silêncio, entrelaçando a língua na do outro. Elôrem fechara os olhos, apreciando a carícia e a troca inusitada. Mas sentira suas partes íntimas ligeiramente mais quentes. Ele se contorcera abaixo do outro e Julius logo soubera o que ocorria. Se afastara, montado nos quadris do rapaz. Seus uniformes eram colados o suficiente para notar qualquer volume anormal em seus corpos. Julius sorrira ligeiramente, e Elôrem notara.

- Isso era para ser vergonhoso? – Indagara o mais jovem, fazendo Julius gargalhar genuinamente. – Ei! – Exclamara, tentando se desvencilhar, mas Julius o apertara um pouco mais contra seu corpo, provocando-o. – Ahh... – Gemera ele. – Julius, por favor. Meu corpo está estranho. – De fato, aquilo nunca havia acontecido antes. Julius então saíra de cima e Elôrem sentara-se rapidamente na grama, sentindo o volume desconfortável e levemente doloroso sob sua roupa.

- Isso é normal. Significa que seu corpo é saudável. – Dissera ao outro, se sentando ao seu lado.

- Eu sei... eu li sobre isso. Aliás, conversei com meu pai a respeito da fusão física. Essa espécie não faz mais isso. Se você reparar, eles nem tem órgãos sexuais como nós! – Julius gargalhara uma vez mais.

- Então você andou olhando?

- Não! Não é isso! – Exclamara, tentando justificar que de fato já havia reparado, observando os outros.

- Eu sei, eu sei... somos diferentes. Nossa alma é primordial e antiga, encarnamos aqui por ser um povo pacífico e que poderíamos nos adaptar mais facilmente ao corpo e cotidiano. Mas isso não anula as experiências que queremos viver. A fusão que eles realizam por aqui é a energética, como quando nos abraçamos e nossas energias se misturaram. Mas há outro tipo de fusão.

- Sim... Eu li sobre isso também... Você... quer tentar? – Indagara o mais jovem simplesmente. Julius o olhara, a respiração mais forte do que antes. Ele deixava “escapar” seus sentimentos, uma vez que Elôrem captara seus pensamentos e imagens suas e de Julius em um momento íntimo se projetavam na mente do rapaz. Ele logo soubera a resposta, Julius o desejava.

- Podemos? – Elôrem dera de ombros.

- Que mal haveria? Somos eu e você. Antes de qualquer fusão externa, sempre estivemos unidos, até decidirmos encarnar.

- Você tem um ponto. – Julius via uma lógica real nisso.

- Estaríamos unidos novamente, mesmo que por pouco tempo. –O mais velho o olhara profundamente, tocando seu rosto levemente em suas bochechas rosadas. Ele se detivera em observar os lábios vermelhos, os olhos azuis claríssimos e os cabelos brancos e lisos que lhe caiam sobre os ombros. Seus traços faciais eram andróginos, um misto dos dois gêneros. Ele se aproximara tocando seu peitoral. Elôrem era forte, mas seu corpo era notavelmente menor, com sua constituição muscular delicadamente robusta. O achava lindo e atraente de qualquer forma. O mais jovem só o observava e novas cenas dele próprio despido invadiam sua mente. Ele sorrira, tocando o rosto do mais velho. Julius nem fizera questão de esconder seus pensamentos.

- Quando você quiser, se um dia quiser viver isso e estiver pronto, eu estarei te esperando. – Elôrem beijara seus lábios em um selinho.

- Obrigado.


***


Pela manhã, Elôrem acordara com um chamado de Julius em sua mente.

“Partirei em uma missão, o planeta K210 sofreu um impacto fatal. A vida lá foi aparentemente devastada. Preciso encontrar sobreviventes. Quer ir comigo?”

Elôrem sentara-se na cama rapidamente, tentando processar. Ele se concentrara e tentara responder.

“Te encontro na base.”

Respondera. E então levantara-se rapidamente para se arrumar.


Julius o aguardava frente a uma nave mediana e prateada. Era perfeitamente redonda e discóide. Só estava ele ali.

- Onde estão os outros?

- Hoje seremos só nós dois. Não há perigo aparente.

- Entendi. – Logo ambos partiram. Julius era quem pilotava e pilotava muito bem. Ora ou outra ele percebia Elôrem o observar atentamente.

A viagem fora rápida. Em poucos minutos, ambos pousaram em solo. A atmosfera era sombria. Tons acinzentados dominavam os céus. Havia fumaça e muitas rochas quebradas ao longo do caminho. Construções em pedra completamente destruídas. A natureza mal era vista.

- O que aconteceu aqui? – Indagara Elôrem, sentindo uma grande tristeza em observar aquilo tudo.

- Um asteroide atingiu o solo. O impacto foi grande e fatal para o planeta. Nós temos alguns pontos de observação no entorno, mas nem sempre detectamos quando um corpo celeste entra na atmosfera de algum planeta ao redor, pois são muitos a todo instante.

- Mas teriam conseguido impedir se tivesse sido detectado?

- Não tenho certeza. Pelo impacto, o asteroide provavelmente tinha cerca de cinco a oito quilômetros de diâmetro. Para um planeta mediano como este, provavelmente mais de noventa por cento da vida, se foi. – Julius observara Elôrem se abaixar, tocando o solo. Ele retirou um pedregulho e havia uma pequena plantinha morta ali. Ele se concentrara, e então uma luz dourada irradiara das palmas de suas mãos, ele as juntara em concha por cima da pequena planta, e aos poucos os galhos foram ganhando vida, a cor verde retornando ao caule e as folhas, tornando-a rígida novamente, o suficiente para se manter de pé. Um sorriso bobo se formara nos lábios de Julius. Ele se abaixara ao lado de seu parceiro, passando um dos braços sobre seus ombros.

- Eu me orgulho de quem você é. – Elôrem que não esperava ouvir isso, sorrira instantaneamente.

- Me orgulho de você também, nem imagina o quanto. – Ele dissera, com um sorriso. – Vamos, precisamos encontrar sobreviventes por aqui. – Disse, levantando-se em seguida.

Eles caminharam por um longo percurso, mas nada era detectado. Em um dado momento, Julius se concentrara, solavancando o chão com força, e uma onda de luz dourada varrera o solo. Elôrem já o havia visto usar esta técnica para mapeamento do entorno.

- Vamos por aqui.

- Você sentiu algo?

- É fraco, um pequeno sinal de vida. Pode ser algum animal pequeno. Vamos verificar. – Elôrem o seguira, eles subiram um monte, tomando o cuidado para não escorregar. A quantidade de fumaça tóxica era grande e se não fossem pelas máscaras embutidas de oxigênio, não estariam vivos.

Elôrem notara uma energia que parecia chamá-lo. Ele parou a caminhada.

- O que foi? – Julius lhe indagara. Elôrem não respondera, seguiu a energia, que parecia vir de alguns escombros próximos. Ele começara a cavar, Julius o ajudara, removendo com grande força um pesado pedregulho sobre os restos de uma árvore. Ali, em um vão no solo, estavam dois seres, abraçados um no outro. Sendo um com aparência infantil e o outro um pequeno bebê. Suas peles eram semitransparentes em tom azulado. Não tinham pelos ou cabelos em suas cabeças. Seus dedos eram longos e possuíam somente três em cada mão. Seus braços e pernas eram finos.

- Calma... Está tudo bem. – Elôrem dissera, se aproximando. Julius tentara detê-lo receando ser perigoso se aproximar demais, porém Elôrem o ignorara, apanhando a criança pelos braços imediatamente o tirando dali. A criança com o bebê desabara a chorar agarrando Elôrem em completo desespero, enquanto segurava o pequeno bebê com o outro braço. – Tenha calma... – Elôrem dissera, abraçando-o contra si. Ele olhara Julius, que mal sabia como reagir. – Viemos ajudar. Vai ficar tudo bem. Vocês estão à salvos.

- Elôrem, vou fazer um último mapeamento pra ter certeza de que só há eles por aqui. – Elôrem concordara. E logo Julius tentara uma, duas, três vezes. Infelizmente nenhuma nova energia retornara a si. O planeta havia sido dizimado. O que restavam eram energias mais sutis, como vida microbiana ou vegetal. Ele olhara Elôrem com as duas crianças. Meneara a cabeça em negativo e Elôrem que o olhava de volta, logo soubera, aqueles irmãos eram os únicos sobreviventes daquela espécie.

Elôrem limpara as crianças assim que adentraram à nave, retirando de suas peles quaisquer resquícios de fuligem ou material tóxico. Os vestira com roupas limpas, leves e quentes, pousando-os em uma cama para recuperação de seus corpos. Assim que adormeceram, partiram em retorno.


As crianças foram acomodadas em uma sala especial no laboratório em que Shayen e Ranael trabalhavam. A saúde de ambas estava péssima. Haviam inalado muita fumaça tóxica e estavam passando por um processo de desintoxicação.

- Eles vão ficar bem? – Indagara Elôrem ao seu pai, que o olhara em pesar.

- Esperamos que sim. Não temos certeza se o ar de nossa atmosfera é bom para eles.

- O que vai ser deles? Sem sua casa, família, sem seu lar? – Elôrem sentara-se num dos bancos por ali, lágrimas incessantes e silenciosas se derramavam sem parar. Shayen olhara Julius de canto. O mesmo baixara-se ao seu lado.

- Ei...! Não pense assim. Vamos proporcionar inclusão, fazer com que não se sintam sozinhos assim. Eles tem a nós agora. – Elôrem o mirara. O rosto vermelho e olhos inchados.

- Não é a mesma coisa. – De alguma forma, Elôrem compreendia essa dor, a dor de não pertencer. A dor de ser diferente, ímpar. Julius o puxara para si, abraçando-o.

- Essa é a vida, meu amor. Essas são as experiências e ensinamentos. Eles irão se adaptar, assim como você está se adaptando. – Shayen sorrira ao mirar os dois. Eram mesmo metades um do outro e ninguém os compreendia melhor do que eles próprios. Isso era raro e genuinamente belo de se ver.

Notas finais
Espero que tenham curtido!!! Bjokas da Lyze! 😘