Elôrem mirava o teto claro de seu dormitório. As crianças de mais cedo não saíam de sua mente. Realmente, aquela era sua dor, que havia amenizado após seu reencontro com Julius. Ele era o único que realmente o entendia e lhe dava a sensação de pertencimento. Mas mesmo assim ainda buscava algo a mais em meio ao mundo que escolhera viver. Julius lhe dissera que ali era um local pacífico com bons seres, e o que teria por aí à fora? Que outras índoles existiriam? Ele não queria nem imaginar. Já era ruim o pouco de preconceito que sofrera, coisa pior era difícil de processar.


***



Elôrem recebera logo pela manhã, um convite para comparecer à base onde Julius trabalhava. E lá estava ele, minutos depois do chamado.

- Quero te entregar isto. – Julius se aproximara, lhe entregando uma pequena caixa de cristal. Elôrem a apanhara, abrindo-a em seguida. Havia ali dentro um pequeno brasão redondo, com o desenho de uma estrela e um cometa com rastro abaixo. O rapaz mirou a insígnia e então olhara para Julius novamente. – Parabéns! Você se tornou oficialmente um resgatista iniciante. Participou de duas missões, provou ser capaz e agir rápido, demonstrando maestria em trabalho de grupo e empatia para com resgatados.

- É sério? Ganhei mesmo o posto?! – Ele indagara em dúvida.

- Eu não te entregaria algo tão importante assim por brincadeira. – Elôrem sorrira bobamente, largando a insígnia com a caixinha de qualquer jeito na mesa, abraçando Julius contra si.

- Obrigado!!! Nem sei como agradecer! – Julius o abraçara de volta, cheirando seus cabelos com aroma frutado. O coração disparara instantaneamente.

- Venha jantar comigo esta noite. Farei algo especial pra nós. – Elôrem o olhara profundamente, tentando ler nas entrelinhas e Julius gargalhara notando a intenção. – Ei! – Elôrem sorrira.

- Vou sim. Onde você mora?

- No dormitório próximo à base, não muito longe de onde você mora agora. – Elôrem meneara em positivo. De fato, todos os dormitórios de aspirantes e quem estivesse ali para fazer parte de equipes, estavam localizados no mesmo grande pavilhão naquela parte da cidade.

- Está bem! – Elôrem respondera empolgado.


Ele mirava seu pai atentamente, após contar a novidade.

- E ele me convidou também para jantar com ele esta noite. – Shayen o olhara de volta. – Acha que devo ir?

- Você quer ir?

- Claro!

- Então já tem sua resposta, meu filho.

- Mas...

- Mas?

- Estou com medo.

- Medo de que?

- E se acontecer alguma outra coisa? Eu sou diferente... O senhor sabe. – Shayen respirara fundo.

- Se alguém te ama de verdade, vai amar suas peculiaridades também. Isso é amor. – Elôrem baixara seus olhos, apertando suas mãos uma na outra. Shayen via somente um menino ali. Era difícil ver uma energia primordial em um garoto tão inocente. – Ele o apertara em seus ombros de maneira carinhosa. – Vai dar tudo certo, meu filho. Julius é uma boa pessoa assim como você. – Elôrem sorrira.

- Obrigado, pai! – Dissera, abraçando-o.


***


Lá estava. As casas eram todas arredondadas de materiais não tóxicos à natureza como cristais e rochas. Havia muitas casas em um grande terreno, brancas e perfeitamente alocadas. A de Julius possuía sua insígnia e nome. Ao se postar em frente à porta, a mesma lhe fizera uma leitura facial e logo Julius estava ali para recebê-lo. Elôrem estava se acostumando à tecnologia avançada e diferenciada daquele planeta. Da onde ele vinha, não era tanto.

- Você veio. – Ele dissera, dando passagem a Elôrem.

- Achou que eu não viria?

- Talvez. – Ele respondera, e o mais novo por fim adentrara à sua moradia. Elôrem não vira muitas diferenças de sua casa para a dele. Só que a de Julius possuía mais objetos intrigantes, como alguns robôs e cristais luminosos por toda a parte. Havia uma estante com pequenos vidros e líquidos coloridos.

- O que são todas essas coisas? – Indagara.

- Elixires. Alguns são pra revitalização, outros para a cura.

- Mas podemos usar nossa energia, não?

- Se você estiver cansado e esgotado, não conseguirá se curar. – Elôrem concordara mentalmente. Ele tinha razão. – Eu aprendi algumas coisas inclusive, com seu pai, uns dias atrás. Então ele me deu alguns desses vidros.

- Shayen tem um talento incrível pra essas coisas. Embora ele nunca tenha trazido um desses para casa. Nem sempre ele fala do seu trabalho comigo. – Julius se aproximara por trás, pousando as mãos aos ombros de Elôrem.

- As vezes ele só não quer te sobrecarregar. É o que os pais ou guardiões costumam fazer. Já passamos tempo demais em laboratórios, não acha? – Elôrem concordara com um aceno.

- Quem foi seu guardião?

- Você nem vai acreditar. – Elôrem erguera uma sobrancelha. – Ranael.

- O quê?! E por que nunca ninguém me contou antes que você era meu complemento? – Julius gargalhara.

- Porque existe a hora certa pra tudo.

- Poxa! Ranael vivia grudado no meu pai. Até pensei que eram complementos! – Mais uma vez Julius gargalhara. Elôrem era surreal ao seus olhos.

- Venha, vamos comer! – Ele puxara Elôrem consigo.

O jantar fora tranquilo, ambos conversaram amenidades enquanto saboreavam a comida vegetal feita com carinho por Julius.

- Preciso aprender a cozinhar! Eu não sei fazer nada disso! Boa parte da minha vida fui alimentado com pastilhas... – Dissera de forma tranquila.

- Porquê? Porque não comia comida?

- Eu tinha muitas deficiências que comidas normais não conseguiriam suprir. Então a forma que encontraram no laboratório, foram as pastilhas. – Julius ficara intrigado. Não sabia muitas coisas sobre Elôrem, mas iria atrás de informações.

Ao fim do jantar, ele acompanhara o rapaz até sua casa.

- Não quer entrar? – Julius o olhara de soslaio, se aproximara lhe dando um selinho.

- Melhor não... Seu pai deve estar te esperando. Não quero causar má impressão.

- Má impressão? Do que exatamente? – Elôrem ficara intrigado.

- Oras... ele se preocupa com você e me sonda.

- Está falando de cópula? – Julius arqueara as sobrancelhas e desatara a rir. – Ei!

- Desculpa..! É que você é hilário! Tão direto! – Dizia o mais velho ainda rindo-se.

- Meu pai já conversou comigo sobre isso... Ele e Ranael nos estudam, nos conhecem e sabem da nossa ligação. Não há porque pensarem mal de nós...

- Você tem razão, mas... ainda assim. – Ele se aproximara, colocando uma mecha dos cabelos brancos por de trás de sua orelha. Elôrem o observava ser tão cuidadoso, ele puxara Julius pelos cabelos levemente o trazendo de encontro a sua boca, beijando-o de forma sensual e convidativa. Lambendo seus lábios ao final do beijo. Julius sentira seu corpo inteiro esquentar, a respiração ofegar e seus pelos se arrepiarem. Ele, de alguma forma, entendera o convite, e sorrira. – Não vai faltar oportunidade, meu amor. – Elôrem se afastara, respirando fundo.

- Eu sei, até porque eu criarei as oportunidades quando eu quiser. – Julius se surpreendera. Elôrem era um misto de inocência e esperteza difícil de decifrar. Ele gostava disso, tinha que admitir.


Fora como Julius bem dissera. Shayen estava na sala, lendo um de seus livros.

- Como foi? – Elôrem o olhara, disfarçando a vontade de rir.

- O jantar? Muito bom! Julius cozinha muito bem! Quero aprender também! Depois ele me trouxe. A casa dele é bem legal! Eu vi os elixires que você deu a ele. Porque nunca trouxe alguns pra casa? – Shayen achara graça no quanto ele atropelava os assuntos.

- Ah... vou me lembrar de trazer alguns. – Elôrem sentara-se ao seu lado.

- Seria legal. – Respondera sorrindo.


A madrugada lhe pareceu agitada. Sentira um incômodo no peito, como se algo importante estivesse prestes a acontecer. O que resultara em um sono agitado e pouco proveitoso. Ora ou outra acordava, mirando o teto com suor na testa. Até que recebera uma convocação mental de Julius.

“Um planeta próximo está precisando de nossa ajuda. Você quer participar?”

Ele sentira seu coração agitar. Mais uma missão. Isso o empolgava.

“Estou indo.”

Ele chegara na base, ainda era madrugada e a equipe já aguardava. Todos o cumprimentavam com simpatia, até Julius vir até si.

- Oi, de novo! – Ele saudou, notando um certo cansaço em Elôrem. – Recebemos um chamado, aparentemente um planeta próximo está enfrentando alguns problemas como meteoros e outras calamidades relacionadas. Estamos indo ajudar. Achei que seria tranquilo pra você. Está se sentindo bem? – Elôrem o olhara.

- Sim, está tudo bem. Só estou com sono. – Respondera coçando os olhos e todos os seus colegas riram disso.

- Você quer voltar?

- Não, quero ajudar. – Julius sorrira.

Todos se ajeitaram na nave grande e prateada, a mesma da última vez que a equipe estivera reunida. Logo partiram e Elôrem se encostara no vidro frio fechando os olhos. Porém ele ouvira um cochicho que não passara despercebido por seus ouvidos atentos e sensíveis.

- Talvez seja um problema ter um complemento tão mais jovem. Ele parece uma criança. Tem certeza que tomou a decisão certa em nomeá-lo? – Um dos colegas indagara Julius em meio aos outros ali perto, quase como num fio de voz, para uma pessoa normal seria inaudível, mas não para Elôrem, que possuía os sentidos aguçados, embora estivesse mais afastado do grupo. Então era isso que pensavam dele?

- Elôrem só tem aparência de mais jovem. A idade é do corpo. Provavelmente ele é mais velho e mais poderoso do que eu. – Elôrem não acreditara ter ouvido aquilo. Julius não decepcionava nunca.

- Do que está falando?

- Polaridades femininas são criadas primeiro, posteriormente nós nascemos, derivado delas. Tecnicamente sou a extensão dele, num nível de manifestação. – Seu colega não soubera muito o que responder. Conversar com uma alma primordial às vezes era um desafio. Julius sempre fora excêntrico, e as vezes falava uma língua que poucos ou quase ninguém entendia.

Logo chegaram, e nenhum dos colegas olhara Elôrem da mesma forma. Alguns olhares eram julgadores. Ele se sentira pra baixo com isso. Porque as pessoas não o aceitavam? O que havia de errado nele? Baixara os olhos quando todos passaram por ele ao desembarcar da nave. Julius notara isso.

- Está tudo bem? – Indagara ao rapaz que lhe sorrira tristemente.

- Sim, obrigado. – Elôrem olhara ao redor, era um planeta comum. Havia gramado, montanhas e céu arroxeado. Era bonito mas aparentemente não via nada de errado. – Qual o problema aqui? Já que não parece haver nenhum? – Julius observara seus colegas adentrando o campo, observando tudo. Ele dera um forte solavanco ao chão, e logo o perímetro fora mapeado. Havia vida, e tudo parecia perfeito.

- Pessoal, vão com calma. – Ele alertara. Mas fora tarde demais. Uma grande cúpula se formara sobre a equipe, Julius agira rápido, canalizando esferas douradas de energia com toda a força, mas fora impossível quebrá-la. – Elôrem! – Ele gritara em pânico ao perceber que haviam sido vítimas de uma emboscada. Elôrem puxara a flecha, e rapidamente um grande escudo se formara, impedindo que seu parceiro fosse preso também, mas ele não esperava que ao proteger Julius, ele próprio ficaria vulnerável, sendo sugado para um portal instantaneamente.



***


Elôrem sentira seus pulsos arderem. Ele olhara ao redor, estava acorrentado junto aos seus colegas em um local escuro e sombrio, todos sentados ao chão de pedra. A única fonte de luz, era uma grande fogueira ao centro.

- Onde estamos? – Indagara para um dos colegas.

- Estão aqui porque procuramos o dono da energia primordial. Qual de vocês seria? – Um ser muito alto, de cabeça alongada e cinza se aproximara. Seus olhos eram de um tom arroxeado, havia cabelos ralos em sua grande cabeça.

- Porque quer saber? – Um dos colegas indagara. O ser se voltara para ele, aproximando seu gigantesco rosto.

- Porque a energia é valiosa. E somos caçadores de energias valiosas! – Um segundo adentrara o local escuro e cavernoso.

- Talvez seja ele. – Dissera. – Vamos rasgá-lo e forçar sua energia a aparecer! – Ele exibira garras de seus quatro dedos longos e avançara para apanhar o colega que se pronunciara. Elôrem não podia assistir isso em silêncio, num ímpeto de agir, ele sentira uma mão o agarrar. O mesmo que falara aquilo na nave antes de desembarcarem. Elôrem o olhara profundamente, num misto de mágoa e dor, ele puxara o braço com força e se levantara.

- Solte-o. – Dissera, seus colegas miraram de olhos arregalados. Aquelas correntes impediam toda e qualquer manifestação de energia e defesa. Os dois seres olharam para ele.

- Ora, temos uma polaridade feminina aqui. – Elôrem não entendera como ele poderia saber. Ele se aproximara o puxando com força para o centro.

- Solte-os e libero a energia primordial a vocês. – Os dois seres arregalaram os olhos em surpresa.

- Que beleza exótica a sua. Eu devia ter imaginado que era você. – Um deles dissera, olhando Elôrem de cima abaixo. – Mas você não está em posição de negociar comigo.

- Se eu não quiser, não terão a energia. Posso me autodestruir e vocês não terão nada. Ou os soltam ou ficarão sem a energia primordial. – Eles olharam um para o outro. Elôrem procurou Holp, e o avistara olhando fixamente para si. Ele dera uma piscadela ao mais velho, que entendera de imediato.

- Muito bem. Eles não tem valor para nós realmente. Mas antes... – Um deles rasgara o uniforme de Elôrem de cima abaixo, deixando-o nu perante todos. Elôrem permanecera estático. Por algum motivo aquilo não o abalava, ele sentia que a energia primordial estava prestes a tomar o controle.

- Você é masculino. Mas sua energia não reflete isso.

- Não importa. Meu corpo não reflete minha energia. Vai liberá-los ou não? – Holp notara o brilho anormal nos olhos de Elôrem. Aquilo era preocupante. Ele sabia bem o que estava por vir. Crescera treinando com Julius, a energia e reação eram quase a mesma. Um deles estalara os dedos e as correntes de todos se rompera.

- Saibam que aqui dentro vocês não podem nos atacar. – Ele avisara ao grupo. Que de fato, não conseguira produzir suas esferas de ataque. Todos correram para a saída da caverna e só restara Elôrem com os dois seres ali. Cada um segurara Elôrem por um braço, o forçando ao chão. – Bem que imaginamos que você fosse diferente dos da sua espécie. Olhe, Krasu, ele possui os dois órgãos. Dissera, abrindo suas pernas com força. Elôrem sabia, já havia perdido completamente o controle de sua consciência.


Julius avistara toda a equipe retornar. Havia tentado encontrá-los mapeando o terreno, mas não obtivera resposta. Ao não ver as peculiares madeixas brancas com eles, ficara preocupado.

- Onde está Elôrem?! – Holp correra até ele.

- Eles querem a energia primordial, são caçadores de energia. Elôrem se deu como troca para nossa liberdade.

- O QUÊ?! – Mas antes que Julius pudesse refazer o caminho, uma luz branca azulada explodira ali perto, produzindo uma gigantesca coluna de luz, ligando o céu e a terra, e em meio aquela grande gama de energia, estava Elôrem. Seus olhos iluminados, seu corpo sem roupa alguma. Julius mirara a cena colossal diante de todos. Mais daqueles seres surgiram de todas as partes. Eles tentavam lançar a mesma cúpula sobre Elôrem, e o mesmo ainda mantinha uma expressão plácida. Ele erguera um dos braços e apontara para o grupo de seres que tentavam segurá-lo, em milésimos de segundos, ele lançara um feixe de luz fino e preciso. Tudo fora ao ar. Ele olhara outro grupo ao lado, com cerca de quarenta membros, sorrira minimamente e mais um raio de luz fora lançado, sem dar nenhuma chance de fuga.

Julius mirava aquela destruição e sabia que precisava intervir, provavelmente Elôrem destruiria tudo que se movesse. Ele respirara fundo. Holp vira seus olhos adquirirem a luminosidade dourada, e em poucos segundos ele flutuara até Elôrem, que ao avistá-lo se aproximar, lançara nele o raio azulado, que fora parado com maestria por Julius.

“Sou eu. Você precisa voltar.”

Ele lhe dissera em pensamento. O mesmo o olhara com atenção, o reconhecendo.

“Eles são de baixa vibração , fizeram mal ao meu corpo encarnado. Não merecem continuar nesta existência.”

Julius não gostara disso.

“O que eles fizeram?”

Ele não respondera. Aos poucos a luz brilhante abandonara seus olhos e o rapaz perdera o controle para a gravidade. Julius se adiantara, apanhando-o em seu colo, pousando com ele ao chão de forma suave. Os membros da equipe vieram.

- Como ele está? – Holp indagara.

- Nada bem. Vamos voltar. – Dissera, se encaminhando para onde se lembravam de terem deixado a nave. Por sorte ainda estava lá e intacta. Eles adentraram rapidamente e em segundos deixaram o planeta.

Notas finais
Espero que tenham curtido! 😘