Duas semanas haviam se passado desde a festa da colheita, não havia visto Julius desde então, porém algo mudara dentro de si. A solidão aliviara, e em algumas horas do dia, Julius vinha em sua mente como se lhe desse um “olá”. Elôrem continuara seu treinamento por conta própria, sem receber novas convocações. Até que fora chamado para um treino na base. O que fora uma surpresa para si.

- Acha que devo ir? – Ele indagara a Shayen. As convocações ocorriam de forma esporádica, sendo o treino individual mais importante.

- Você acha que deve ir? – Seu tutor lhe devolvera a pergunta. Elôrem se pusera a pensar.

- As pessoas não gostam de mim lá.

- Não ligue pra isso. Faça seu trabalho e isso bastará. Você quer se tornar um resgatista, precisa do curso. Então avante. – Elôrem concordara e logo fora à base de treino.


Lá estavam. Todos os mesmos alunos e a treinadora. Elôrem sentira uma pontada estranha no estômago, uma dor física de seu desconforto emocional. Todos o olharam de cima abaixo. Ele erguera a cabeça, em nenhum momento olhara para baixo. Sentira orgulho de quem era e não deixaria ninguém o rebaixar novamente.

- Você teve coragem de aparecer aqui de novo? – Kodri viera lhe falar.

- Eu faço parte dos aspirantes. Não sei se notou isso.

- Você não tem uma dupla.

- E daí?

- E daí que os exercícios daqui por diante serão feitos em duplas de combate. É a formação.

- Ele tem razão, Elôrem. Você pode continuar seu treinamento em casa. – A treinadora lhe dissera. Elôrem sentira as lágrimas quererem surgir em seus olhos. Mas ele respirou fundo.

- Eu serei a dupla dele. – A voz notável se tornara presente, ecoando em todo saguão da base de treino. Todos ali miraram o dono da voz. Vendo um homem alto, de estatura forte, cabelos ondulados num tom dourado diferente dos demais. Seus olhos verdes possuíam um brilho anormal. Trajava um uniforme azulado como todos, porém as insígnias em seu peito e os veios brilhantes e azulados, indicavam alta patente.

- General Julius. – A treinadora lhe cumprimentara com um aceno de cabeça. – Ele é só um aspirante.

- O que disse? – A treinadora estranhara o tom levemente impaciente de seu superior.

- Ele é um aspirante à combatente. Na verdade estamos tendo problemas com ele. Sua polaridade é feminina e ele não possui poder de ataque. Talvez tendo encarnado num corpo não compatível...

- Treinadora Suli, eu recomendo que a senhora reveja o que está dizendo. Não existe corpos compatíveis com polaridades. Ele pode encarnar onde quiser. Elôrem não possui poder de ataque porque sua base é o escudo. O ataque fica por minha conta. – Elôrem mirava Julius sem entender, enquanto a sala toda estava na mesma situação. – Ele é meu complemento. Eu vou auxiliá-lo em seu treinamento sendo sua dupla. – A lágrima que ele segurara, pingara em seu uniforme. Elôrem tratara de enxugá-la rapidamente, mas o detalhe fora visto por Julius, que era capaz de sentir sua dor. Ele não imaginava que sua metade tão preciosa para si, estaria sofrendo esse tipo de situação.

- Seu complemento? – Um burburinho fora ouvido pelos demais alunos.

- Elôrem, venha aqui. – Julius lhe chamara, dando-lhe uma piscadela. O rapaz fora até ele. – Como você está? – O mais jovem lhe sorrira, sentindo seu coração disparar ao encarar aqueles olhos tão vivos e brilhantes.

- Estou bem.

- Espero que esteja de acordo.

- Mas você é um... general. Não precisa fazer isso. – Dissera, não acreditando em quem realmente Julius era.

- Você é mais importante. – Ele respondera, tendo todos baixando a face sem jeito ao encontro dos dois.

- Vocês já se conheciam? – A treinadora perguntara.

- Na festa da colheita. – Julius apanhara uma das mãos de Elôrem, beijando-a em seguida.

- É raro que complementos se encontrem assim, tão depressa.

- Não foi tão depressa. Na verdade demorou muito pra mim. – Ele respondera, puxando lentamente Elôrem para si. – Agora, vamos treinar. Qual atividade iria dar a eles, treinadora Suli? – Ela parecia atordoada com essa mudança repentina dos fatos.

- Treinamento em duplas. Da última vez que tentamos, alguém causou uma algazarra por aqui. Não é mesmo? – Ela dissera, olhando para Elôrem.

- Ah, eu soube. Um de seus alunos provocou Elôrem, não é? – Ela não esperava ouvir isso.

- Ahh, na verdade, ele...

- Acho bom que você tenha reagido, mesmo sem intenção. – Dissera ele, olhando para o mais novo. – A energia primordial nos põe em ataque quando notamos ameaça. Que bom que não ocorreu nada demais depois disso. É bom que seus alunos também podem aprender sobre limites. Bom... então se me permite, posso sugerir um exercício para os alunos? – Suli parecia aturdida, apenas concordara. – Muito bem! – Ele se pusera diante de todos ali, em uma postura autoritária e notável, como um líder. – Não sei se todos me conhecem, sou o General Julius. Sou responsável pelas equipes de busca e combate em áreas externas e arredores. Já participei de inúmeras missões desde a tenra idade, e tenho avançado rapidamente em meu desempenho. Gostaria de uma formação às duplas. Vamos para o lado de fora da base. Me acompanhem, por favor. – Suli se vira desafiada em seu posto, ao ter Julius tomando o controle assim, mas nada dissera. Tendo sua turma seguindo o homem para o campo externo. – Elôrem. – Ele chamara, uma vez que já estavam ao campo vasto e verde. Elôrem viera a seu encontro. – Me mostre o escudo que você consegue produzir. – O rapaz respirara fundo, puxando o ar, fechara os olhos se concentrando. Uma luz branca azulada começara a se formar no centro de seu peito, ele fizera um movimento de puxar uma flecha, e então um luminoso arco surgira, juntamente com uma flecha de luz azul. Ao soltar a flecha, um grande escudo luminoso se formara, ficando no ar por alguns segundos, até se desfazer completamente. – Muito bem. Seja rápido, mais uma vez. Elôrem repetira o movimento, desta vez rapidamente e o mesmo escudo se formara. – Vou lançar um ataque. Quero que me impeça de atingi-lo. – Elôrem concordara e rapidamente Julius dera distância e produzira uma bola de luz, enquanto Elôrem puxara sua flecha, a tempo de evitar o ataque. – Muito bem! Se tivesse sido rápido suficiente, teria evitado o ataque de seu colega no outro dia. – Julius mirara Kodri, fazendo com que o rapaz engolisse em seco. – Agora, pelo que sei aqui, todos os presentes tem poder de ataque. Quero que desviem um dos outros e usem seu próprio poder para se defenderem.

- Como faremos isso? – Kodri perguntara.

- Venha aqui. – O garoto parecera incerto, mas acabara por ir. Ficando de frente a Julius, que era bem mais alto e forte que si. – Me ataque com sua energia. – O garoto não pensara, atirara rapidamente contra Julius, com a mesma ferocidade que atacara Elôrem, mas antes que sua bola de fogo arroxeada pudesse atingi-lo, Julius produzira uma bola de fogo ainda maior, que ao tocar a do oponente mais jovem, a bloqueara, neutralizando o ataque, fazendo com que as energias se dissipassem rapidamente. – Já que vocês não tem poder de escudo, assim como eu, precisamos desenvolver um bloqueio, nem que pra isso você precise usar sua própria energia de ataque.

- Elôrem não tem vantagem sobre nós. Se você desenvolveu uma técnica, então são os atacantes quem tem poder maior. Não pode nos culpar por não querê-lo como dupla. – Kodri dissera. Julius estava perdendo a paciência com essa raiva gratuita que a maioria ali demonstravam por Elôrem.

- Na verdade, Elôrem tem vantagem sobre nós sim. Ele irá desenvolver ataque, com treino. Porém nós nunca desenvolveremos escudo. Por isso escudeiros e arqueiros espirituais são tão raros, e ele é os dois. Sugiro que estude mais. – Dissera com muita convicção, fazendo todos ali ficarem sem jeito perante sua fala. Elôrem mal sabia o que dizer, na verdade estivera pasmo desde a hora que Julius dissera que seria seu par, logo ele que passara por uma grande baixa na última vez que estivera na plataforma de treino. – Nós somos uma raça com bom desempenho moral. Não me façam mudar de ideia. O que vocês tem contra Elôrem? – Um murmurinho se estabelecera, Suli olhara seus alunos e nada dissera. Até que uma aluna se prontificara em responder, dando um passo à frente.

- Nós sabemos que ele é uma energia primordial. Energias como a dele, são perigosas. – Julius entendera o ponto agora.

- Com base em quê, vocês chegaram nesta conclusão? – Ele indagara a garota.

- Ah... ouvimos dizer... E também quando em transe ele tem um poder terrível! – Dissera.

- É mesmo? Como é seu nome?

- Kalendra, senhor.

- Pois bem, senhorita Kalendra. Você deveria saber que energias primordiais são a base de estudos para o desenvolvimento da tecnologia e conhecimento sobre a alma. Sem elas, nossa sociedade não teria alcançado avanços tão rapidamente. Elôrem é estudado desde que acoplou em seu corpo biológico, assim como eu. Não sei se vocês sabem, por ser seu complemento, também sou uma energia primordial e nem por isso eu sou uma ameaça. Tenho contribuído, e muito, com os estudos desta raça. E não estou sendo condescendente com ele por ser meu gêmeo oposto, na verdade estou relatando um fato que vocês, com a idade que já tem, deveriam saber, antes de julgar e rejeitar uma pessoa que só quer ser incluída. – Todos, inclusive Suli, baixaram seus rostos. – Espero que a aula hoje tenha sido proveitosa. Quero que treinem com suas duplas, e quando nos reunirmos novamente, vocês já tenham dominado a técnica que lhes ensinei. Estão dispensados por hoje. – Os alunos se foram um a um. Julius se voltara a Suli. – Me perdoe por tomar sua aula hoje, mas eu precisava reparar a injustiça que Elôrem sofreu. Quero que saiba que ele tem a mim. Não está sozinho e eu não irei tolerar nada nem ninguém que tente humilhá-lo, rejeitá-lo ou menosprezá-lo. Espero que isso tenha ficado claro. – Suli baixara a face.

- Ficou sim, senhor.

— Muito bem. Vamos, Elôrem. Te levo em casa. – O rapaz nada dissera, saíra da presença da treinadora, caminhando ao lado de Julius para fora dali.

Notas finais
Elôrem em sua Consciência Primordial ativa! ~ amo trazer as imagens! 🤭🫶❤️