Primordiais
5 Eu Consigo Aprender
- Nem sei como te agradecer por hoje. Você realmente me salvou! – Elôrem dissera, notando Julius lhe encarar profundamente.
- Eu vi o quanto estava sendo difícil pra você. Na verdade, eu sondei você, sua energia, esses dias em que estivemos longe desde a festa. Senti seu sofrimento.
- Você consegue fazer isso? – Elôrem indagara surpreso.
- Claro! Até porque não temos escolha as vezes... – Ele disse sorrindo.
- Ah, me desculpe! Eu realmente não sabia que podia incomodar!
- Não é nada disso. Eu gosto de saber como você está no momento. – Elôrem o mirara com atenção. Era tão natural estar em sua presença quanto respirar.
- Julius, quantos anos tem?
- Atualmente meu corpo biológico tem trinta e três anos. Sei que você tem vinte e um!
- Sim, é verdade... – Ele dissera sorrindo.
- Você se lembra de alguma coisa quando acoplou nesse corpo? – Julius quis saber, tinha certa curiosidade sobre Elôrem.
- Lembro de sentir muita dor. Dizem que é a dor da...
- Separação. – Julius completara. – Você também se lembra?
- Sim, eu me lembro de sentir dor. Acho que gritei tanto que deixei Ranael e Shayen em pânico! – Julius gargalhara com a sentença. Ele gostava do bom humor e espontaneidade de Elôrem. Era um rapaz empolgado e muito sorridente. O surpreendia não ter agradado a todos na academia.
- Agora eu estou aqui, com você. – Ele dissera, apanhando as mãos de Elôrem, entrelaçando seus dedos nos dele. Eles haviam chegado na residência do rapaz, feita de pedras rústicas e cristais. Julius parou de frente a ele, aproximando seu rosto. Elôrem sentira sua respiração e então ele beijara seus cabelos, o puxando para si, apertando-o contra seu corpo mais forte. Os dois ficaram em silêncio, apreciando a presença e a energia um do outro. Julius sentia que toda aquela aparente fragilidade de Elôrem, era sua força. Com ele se sentia notavelmente mais forte, mais motivado. As energias de ambos escapavam de seus corpos, circundando-os como de costume. Uma fusão energética silenciosa e incrivelmente poderosa. Até que ele se afastara minimamente. – Amanhã no início da noite, venho para treinarmos.
- Está falando sério?
- Sim. Esteja pronto!
Elôrem passara o dia na expectativa. Shayen fora cedo ao laboratório e seu protegido ficara sozinho em casa. Tentara meditar, passar o dia, estudar, mas a ansiedade era grande. E quando a noite finalmente chegara, lá estava.
O plano era treinar a velocidade com que Elôrem podia se armar e atirar a flecha produzida.
- Mais rápido, Elôrem! – Gritara Julius à distância enquanto o via agir rapidamente para produzir as flechas. Elôrem era bom, criava o arco juntamente com o movimento de “puxar” a flecha e estava cada vez com mais prática nisso, e Julius sentia orgulho dele, não podia negar. Mesmo ele se contendo ao lançar seus ataques, a cada tentativa, mais ele diminuía o tempo.
- Nesse ritmo logo estaremos prontos para uma missão juntos! Ele dissera, ao ver um Elôrem ofegante e cansado.
- Eu... mal posso... esperar! – Dizia sem fôlego.
- O que é isso, Elôrem? Você é mais jovem que eu! – Dissera, dando tapinhas amistosos no ombro do mais novo, que sorrira cansado.
- Mas não estou acostumado a isso!
- São desculpas...
- Julius! – O mais velho gargalhara.
- Assim que você se recuperar, vamos treinar luta corpo a corpo.
- O quê?!
- Não vou te dar moleza! Quero que esteja apto. – Elôrem o olhara de esguelha, não sabendo se aguentaria um homem daqueles lhe direcionando um soco. Julius escutara seus pensamentos.
- Não se preocupe, não vou te machucar. – Ele respirara aliviado ao ouvir a sentença.
Elôrem não sabia nada e Julius se divertia com o fato. Ambos brincavam vez ou outra, porém a evolução rápida de Elôrem era o que lhe chamava atenção. Ele aprendia em minutos, algo que a maioria levaria semanas, e isso surpreendia. Então Julius se sentia livre para intensificar os golpes e ajustar o treinamento. Até que num dado movimento, ele pegara Elôrem de surpresa, lhe passando uma rasteira, lhe derrubando ao gramado. Elôrem se levantara rapidamente e tentara imitar o golpe, porém Julius lhe desferira um golpe leve, que quase o acertara, Elôrem se defendera rapidamente, até que não conseguira prever o soco no estômago, que não fora forte, mas quase o derrubara. Um passo para traz, cabeça baixa e movimentos nulos. Julius notara a mudança no ambiente. Rapidamente toda a atmosfera se modificara. Elôrem o olhara por fim, os olhos brilhantes branco azulados, a expressão quase enraivecida. Julius sabia o que havia acontecido. Em segundos ele avançara, empurrando Julius ao peito, o derrubando violentamente ao chão, tendo seu corpo menor sobre o outro, o prensando ao gramado, agarrando-o pela gola alta do uniforme, com uma imensa força.
- Elôrem! Se acalme!
- Você me feriu! – A voz era diferente, duplicada. Como se dois “Elôrem’s” falassem ao mesmo tempo. Julius automaticamente entrara em modo de ataque, seus olhos brilharam assim como os de Elôrem, porém o dourado era sua cor. Ele segurara os pulsos do menor, o tirando de cima de si. A força de ambos era equivalente.
- Elôrem! Se controle! – Ele falara em tom forte, o que fizera Elôrem parar e mirá-lo, soltando seu uniforme azul, e voltando ao normal imediatamente, tendo o corpo desfalecendo aos poucos, fazendo Julius apanhá-lo em seu colo.
***
Abrira os olhos, e a primeira coisa que vira, fora as estrelas, e em seguida um sorriso calmo e um olhar gentil.
- O que aconteceu? – Elôrem perguntara a Julius. Estava com a cabeça apoiada em seu colo.
- Você entrou em estado expansivo. É quando perdemos a consciência desse corpo encarnado, e assumimos a consciência primordial. Talvez eu tenha pegado pesado demais com você e sua energia primordial entendeu como ameaça.
- Ah... Como aquela vez no treino.
- Exatamente. – Elôrem estava bem acomodado, ele notara a mão de Julius acariciando seus cabelos.
- Ei! Eu não te machuquei, não é? – Indagara se levantando rapidamente.
- Não se preocupe. – Elôrem não se convencera. Ao notar o vermelho em seu pescoço.
- Fui eu quem fez isso! – Julius rira.
- Já disse que está tudo bem.
- Como você conseguiu me frear?
- Bom, eu aprendi a controlar isso. Entrei no meu estado expansivo também e você me escutou. Um complemento reconhece e escuta o outro. – Elôrem pareceu animado.
- Eu não sabia disso! Sério que você sabe controlar?! Pode me ensinar? Eu não quero mais machucar ninguém. – Julius sorrira, bagunçando os cabelos brancos de Elôrem.
- Vou ensinar, mas não agora. Outro dia talvez. Você precisa descansar. Seu pai vai me dar bronca se não voltar logo pra casa. – Elôrem lhe sorrira de canto.
- Obrigado por hoje. Acho que aprendi muita coisa.
- Amanhã eu volto. Você ainda precisa desenvolver o ataque. E... sobre as pessoas que estão implicando com você, não ligue. Só faça o que tem que ser feito. – Elôrem meneara em positivo. Ambos se levantaram. Julius beijara seus cabelos e logo o vira adentrar sua moradia, acenando brevemente para ele.
A noite fora longa para Elôrem. Ele revirava em seu dormitório, pensando em muitas coisas ao mesmo tempo. Sua mente era rápida em fazer conexões, links e expandir em ideias, o que não o deixava dormir facilmente. A ideia de aprender coisas e poder de alguma forma “fazer parte”, o animava. Precisava dormir.
De fato Julius retornara. Elôrem treinara mais do seu escudo e também aprendera a lançar energias de ataque com as mãos. Não era tão forte quanto de um atacante genuíno, mas servia para defesa pessoal. O que seria útil, uma vez que recebera uma convocação no dia seguinte, para treinar na plataforma. E ele estava lá, com todos os alunos ainda o olhando de canto, de lado, e quando ele não estava olhando.
“Elôrem, não poderei comparecer, apareceu algo urgente e fui convocado. Nos vemos mais tarde.”
Ele recebera o recado diretamente em sua mente, como um pensamento que não era seu. Ele não sabia bem o que pensar. Observara todos formando seus pares.
- Professora, acho que vou embora. – Comunicara a Suli.
- Seu general não vem hoje? Cansou de brincar com você? – Kodri provocara, enquanto outros riam de si.
- Porquê? Eu posso saber? – Suli o indagara.
- Houve uma emergência e Julius não poderá vir.
- General Julius, você quer dizer. E não, você não pode ir. Já treinou suas habilidades de ataque? – Elôrem dera graças que sim.
- Sim, senhora.
- Então quero que seja o atacante das duplas, para vermos o desempenho de todos. – Ele concordara com um aceno de cabeça. – Muito bem! – Ela chamara todos e na sequência a dupla ficava de frente a Elôrem. – Ataque! – Elôrem se posicionara e em segundos, condensara a energia em suas mãos e num movimento, a liberara em direção à dupla à sua frente. A atividade seguiu tranquilamente, e Elôrem pela primeira vez se sentira feliz em participar sem muitos problemas. A não contar por Lorén e Kodri, que fora a última dupla a treinar consigo.
- Ataque! – Suli dera a ordem, e Elôrem atacara. Mas para sua surpresa, Kodri rira, a ao parar a bola de luz de Elôrem, ele simplesmente a devolvera. Elôrem por sua vez, puxara sem pensar uma flecha, que em milésimos de segundos se transformara em um escudo. – Kodri! – Suli lhe chamara.
- Não fiz nada de errado! Só estou agindo como um combatente agiria. – Elôrem o mirou seriamente. – O que foi? Seu namorado não te treinou?
- Ele não é meu namorado. É meu complemento. – Respondera secamente.
- E daí? Não é a mesma coisa? Deve ser bom ter um complemento general que te dá vantagens em tudo! Mesmo você sendo um complemento inútil ao comparar a ele! – Elôrem não pensara muito, simplesmente avançara para Kodri, fechara o punho e lhe dera um soco na cara. Kodri caíra ao chão e Elôrem avançara em cima, montando nele, continuando a desferir um soco atrás do outro. Suli tentara puxá-lo de cima de Kodri, porém Elôrem a empurrara com força, fazendo-a quase cair. Ela lançara nele uma energia de ataque, que fora prontamente parada pelas mãos de Elôrem, que ao se virar a ela, fizera todos em volta perderem o ar, os olhos brilhantes de luz branca azulada transformara a atmosfera em volta. Sua centelha primordial havia tomado o controle. E os alunos correram dali o quanto antes. Mas antes que Kodri pudesse fazer o mesmo, ele fora parado com um movimento de mãos de Elôrem, que o erguera no alto, fazendo-o flutuar. O rosto ensanguentado mirava Elôrem com desespero. E quando Suli tentara intervir uma vez mais, fora parada novamente, congelando seus movimentos instantaneamente. Ela estava travada no gramado, sem conseguir se mover. O poder de Elôrem ultrapassava tudo que ela já havia conhecido.
- Quando você vai aprender a respeitar seu próximo? – Elôrem dissera, mirando Kodri com aqueles olhos que mais pareciam dois faróis. A voz duplicada e notavelmente poderosa. – RESPONDA!
- M-me desculpe! Eu não... te provocarei novamente! – Elôrem o fitou por alguns segundos, então respirara fundo e o soltara. Tendo ele próprio tombando de joelhos ao chão. Neste momento uma chuva leve começara. Kodri ao conseguir ficar de pé correra para junto de seus colegas, na plataforma de treino. Todos olhavam de longe, com medo e receio. Suli fora “solta” e agora podia se mover. Ela mirara o garoto recuperar a consciência sentando-se ao gramado.
- Você está expulso da minha turma. – Elôrem a mirara. Não tinha o que falar ou rebater, ele havia perdido o controle mais uma vez. – Não quero te ver próximo aos meus alunos nunca mais! Você é uma ameaça! E mesmo que o general Julius me demita, eu não mudo minha opinião sobre você.
- O que eu te fiz? – Elôrem perguntara simplesmente, a voz calma e compassiva. O que a pegara de surpresa. – Eu estou perdido aqui. Esta é minha primeira encarnação. Esperava ser melhor recebido. Eu tenho vontade de viver e conhecer o mundo. Mas porque vocês não gostam de mim desde o primeiro dia? Porque sou diferente? Porque meu cabelo é branco? Porque vim num corpo masculino mesmo sendo o oposto? Eu só queria entender... porque tudo aqui é novidade pra mim. – Seu tom era simples, melancólico e quase infantil. Suli o olhara e podia até sentir pena, mas a inveja por tamanho poder que ela própria não possuía e que estava nas mãos de um garoto tosco e afeminado, a fizera sentir-se miserável. Esse sentimento que Elôrem despertava nela, não era nem de longe algo bom, e mesmo o garoto sendo inocente a tudo isso, recebia uma culpa que não era dele. O silêncio perdurou por alguns instantes entre eles. O som da chuva caindo na grama se intensificando, o vento frio varrendo as gotas para longe.
- Não importa! Seus motivos são irrelevantes para mim. Minha decisão está tomada. Não o quero mais em minha turma. – Ela dissera, antes de lhe dar às costas. Ao se aproximar da plataforma de treino porém, ela vira Julius mirar toda a cena. Suli sentira sua espinha gelar. Baixara a face e seguira reto, sem dizer uma única palavra ao seu superior. Julius a olhara profundamente, mas nada dissera. Ele caminhara em meio a chuva, sentando-se ao lado de Elôrem.
- Julius..? Você não estava...?
- Eu voltei o quanto antes. – Respondera o mais velho. Mesmo na chuva, ele podia ver as lágrimas se misturarem a água que caía pela face do rapaz. – Senti que algo estava errado. – Elôrem baixara o rosto.
- Eu sinto muito... Fui expulso da academia de treino. Acho que não poderei ser um resgatista. – Julius o puxara para si e Elôrem desabara a chorar quando fora abraçado por ele. Não importava como, Julius sabia mais dele do que ele próprio e estar em sua presença era como estar despido de tudo.
- Você vai ser um resgatista. Eu pessoalmente estou te treinando. Quando estiver pronto, será nomeado.
- Mas porque você tem influência e isso não é justo! – Dizia entre lágrimas.
- Claro que não! Eu já fui instrutor, já treinei pessoas e já lhes dei nomeações. E porque com meu complemento seria diferente? Se posso te ajudar, aqui estou eu! – Elôrem o mirara com profundidade, Julius era muito bom consigo e isso mexia com seu coração. Ele não sabia bem o que era esse sentimento, tudo era novo, inclusive a raiva. Gostava de sentir seu abraço, sua energia... Havia outra forma de contato? Havia como aprofundar isso? E como sempre, Julius ouvira seus pensamentos, sorrira de canto e se aproximara, face frente a face. Até que seus lábios tocaram os de Elôrem de um jeito doce, banhado pela chuva que caía fria sobre os dois. A urgência e a ansiedade de Julius pode ser notada por Elôrem, havia algo naquele ato, algo como se há muito quisesse ser sentido. Alguns alunos ainda estavam na plataforma, assim como Suli, que observava os dois.
Ele se afastara, fora um selinho mas o suficiente para balançar Elôrem, que rapidamente tocara seus próprios lábios em surpresa. Julius baixara a face, se levantando em seguida e esticando uma das mãos para levantá-lo também.
- Vamos. Eu te levo em casa. – Elôrem apanhara sua mão e logo ambos estavam fora da unidade de treino.
Caminharam em silêncio em meio a chuva calma que caía sobre eles.
- Me perdoe. Eu não fui paciente.
- Do que está se desculpando?
- Eu te beijei. – Elôrem sorriu minimamente.
- Eu não sabia que dava pra fazer isso. Quer dizer, eu não conhecia esse tipo de interação. – Julius pareceu um pouco surpreso.
- As pessoas se beijam quando se atraem uma pela outra. – Ambos pararam em frente a casa de Elôrem.
- Eu adorei. – Ele dissera sorrindo bobamente. Julius amava esse lado inocente em Elôrem.
- Amanhã volto para treinarmos. – Ele disse, bagunçando os cabelos molhados do outro, que sorrira, se aproximando rapidamente, ficando na ponta dos pés e lhe dando um novo selinho.
- Até amanhã! – Ele disse, antes de correr para dentro, sem olhar para trás.
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