Primeiro Amor
8 Capítulo 8
— É ela — Regina falou.
— Não sei o que dizer, Regi…apenas…bom, ela já te viu? — questionou Robin.
— Sim, ontem no final do meu expediente.
— O que ela disse? Ela lembrou de você?
— Lembrou e insistiu para conversarmos sobre o passado.
— E conversaram?
— Não, eu não quis. Além disso, Milah apareceu.
— Por falar nisso, como está seu relacionamento com a Milah? — indagou Robin, enquanto servia uma bebida forte para ele e outra para Regina.
— Péssimo! Discutimos o tempo todo.
— Acho que você passou muito tempo comendo da mesma comida e por isso, acabou enjoando.
— Não diga bobagem. Milah é uma boa mulher, mas não entende que meu trabalho requer toda a minha dedicação! Eu não posso largar tudo para satisfazê-la. Além disso, não estou apaixonada por ela, aliás, nunca fui apaixonada por ela — revelou, esvaziando o copo de uma só vez.
— Não me diga que ainda gosta dessa outra…
— Eu nunca a esqueci, você sabe disso.
— Mas ela te enganou, partiu seu coração!
— Eu sei! Mas…todos os sentimentos e sensações vieram à tona quando a reencontrei. A minha paz se foi, o meu coração está pesado…
Após uma longa conversa com seu irmão, Regina retornou para casa onde Milah já a esperava. Embora gostasse de sua companheira, naquele momento, seus pensamentos estavam voltados apenas para Emma e o quanto aquele reencontro com ela havia mexido com sua cabeça.
— Te liguei tantas vezes e você não atendeu. O que houve? — Milah perguntou.
— Desculpa. Meu telefone estava no silencioso e não ouvi chamar — ela disse. — Vou tomar um banho — acrescentou, beijando-lhe a testa e se retirando em seguida.
Tão logo terminou seu banho, Regina foi surpreendida por Milah totalmente despida sobre a cama, à sua espera. Apesar da beleza que ela portava, o desejo parecia ter se esvaído, uma vez que Regina não mais a desejava e se não colocava um fim naquele relacionamento, era por receio de magoá-la. Todavia, estava ciente de que quanto mais adiasse aquele momento, pior seria.
— Não vem para a cama? — Milah perguntou, levantando-se e caminhando lentamente na direção de Regina.
— Milah, eu… — ela murmurou, e antes que pudesse concluir sua fala, Milah a beijou na boca.
A princípio, Regina correspondeu ao beijo, no entanto, a imagem de Emma surgia em sua mente a todo instante, o que a fez recuar.
— Milah, eu não estou com vontade — ela disse, afastando-se no mesmo instante.
— Nossa! Perdi as contas de quantas vezes você me rejeitou por estar sem vontade!
— Milah, por favor…me desculpe. Apenas…
— Solte-me! Idiota! — vociferou, recuando alguns passos. — Qual é o seu problema, Regina? Você passa mais tempo com aquele bando de moribundos do que comigo!
— São seres humanos como você e eu! Eles precisam mais de mim do que você precisa!
— Poupe-me, Regina! Você quer bancar a salvadora dos pobres e oprimidos em troca de que? De míseros “obrigado” que se inverterão em julgamento na sua primeira falha?!
— Escute-me…
— Já disse para me soltar! — exclamou Milah, se desvencilhando do toque de Regina, e se retirando em seguida.
Na manhã seguinte, Regina levantou mais cedo do que de costume. Suspirou ao perceber que Milah já havia saído. Seguramente continuava chateada e por essa razão, saiu sem se despedir.
[…]
O dia no local de trabalho transcorreu de forma tranquila. Era uma noite chuvosa de sexta-feira quando Regina se dirigia ao estacionamento do hospital quando seus olhos castanhos cruzaram com o verde intenso dos olhos de Emma. Diferente do que a loira imaginou, Regina não parou para cumprimentá-la ou questionar alguma coisa, continuou com sua caminhada em direção a seu carro.
— Eu preciso falar com você — disse Emma, no encalço de Regina.
— Marque uma consulta, Srta. Swan — ela disse, e ao fazer menção de abrir a porta do carro, teve seu braço puxado por Emma.
— Regi, por favor…
— Não me chame assim! Nunca mais! — vociferou, claramente aborrecida.
— Regina! Está bem assim? Agora podemos conversar? — indagou Emma, num tom exaltado.
— O que você quer? — ela perguntou.
— Eu teria escolhido você — Emma disse.
— O que?!
— Se você não tivesse ido embora, se tivesse me esperado como eu pedi, as coisas teriam sido diferentes!
— Quer dizer que você trocaria o seu galã de novela por uma pobretona que não tinha onde cair morta? Poupe-me!
— Nada disso me importava! — exclamou Emma.
— Nada disso importa mais! — vociferou Regina.
— Importa para mim… — Emma falou, num tom quase inaudível, enquanto a água da chuva se misturava às lágrimas que começavam a escapar de seus olhos. — Eu te procurei…eu te liguei, mandei mensagens, e-mails… — fez uma pequena pausa na tentativa de acalmar seu estado de ânimo. — Eu fui à cidade em que você vivia, encontrei a casa onde você morava, mas não encontrei você.
— Por que relembrar o passado? — questionou Regina, exibindo um semblante aflito.
— Porque eu ainda te amo, Regina. Na verdade, nunca deixei de te amar — Emma confessou, puxando o ar com força. — Nosso primeiro encontro foi a origem de um cataclismo de amor que meio século depois não tinha terminado ainda — acrescentou, aproximando-se lentamente.
Regina sentiu o coração disparar mediante aquela revelação. Foram tantas noites insones desejando ouvir tais palavras daquela por quem havia se apaixonado perdidamente. Todavia, ela sabia que as feridas mal cicatrizadas voltavam a sangrar como se fosse de ontem, e por essa razão, temia tanto aquela aproximação.
— Os piores anos da minha vida se passaram, mas meu amor por você se manteve constante… — Emma voltou a falar, angustiada pelo silêncio da mulher diante de si.
— Você casou com ele…no final das contas, ele foi o escolhido — disse Regina, usando todas as suas forças para não deixar que as lágrimas escapassem dos seus olhos.
— Ele foi o que me restou depois que você partiu, e se eu não enlouqueci de desespero, foi porque sempre encontrei alívio na sua lembrança.
— Você fez a sua escolha — dito isso, Regina virou-lhe as costas, e ao fazer menção de se afastar, Emma segurou-lhe o braço.
— Regina…
— Solte-me! — ela gritou, se desvencilhando de forma brusca, e sem querer, acabou empurrando Emma que se desequilibrou e caiu.
— Ai! — exclamou Emma, ao sentir a pele de seu braço ser rompida devido ao choque com o asfalto.
— Emma! Perdão, perdão…eu não queria machucá-la, por favor, me perdoe… — dizia Regina, ajoelhando-se a seu lado.
— Está tudo bem, foi só um arranhão — Emma murmurou, arrepiando-se com o toque da mão de Regina em seu rosto.
— Está sangrando…venha, eu vou cuidar disso.
— Não precisa, Regina.
— Deus, você está tremendo! Vai pegar um resfriado… — ela disse, claramente preocupada. — Vamos ao meu apartamento, é aqui perto — acrescentou, ajudando-a a levantar.
— Eu vou para casa, estou bem e…
— Por favor, vamos cuidar desse ferimento, sair dessa chuva e depois você irá para casa.
Regina abriu a porta do seu carro para que Emma entrasse e rapidamente deu partida. Conforme havia dito, seu apartamento ficava nas proximidades e por essa razão, não demoraram tanto a chegar. Assim que adentraram à sala de estar, Regina pediu para que Emma se acomodasse enquanto ela pegaria sua maleta de primeiro socorros. Ao limpar o ferimento, Regina pôde constatar que realmente se tratava apenas de um arranhão, todavia, ela estava ciente de que o menor dos ferimentos poderia infeccionar e resultar em algo pior. Por esse motivo, não hesitou em realizar todos os procedimentos necessários, entre eles, fazer um pequeno curativo.
— Tome um banho quente e coloque roupas secas para evitar um resfriado.
— Você está exagerando.
— Não estou. Você passou por uma cirurgia recentemente e é possível que suas defesas estejam fragilizadas e…do que está rindo? — Regina perguntou, ao notar o riso que Emma tentava a todo custo conter.
— Estou rindo do seu exagero. Mas tudo bem, farei o que está dizendo.
Depois de acompanhar Emma até o quarto de hóspedes para que tomasse um banho quente e trocasse de roupa, Regina se dirigiu à sala, e enquanto se servia de uma bebida, se perdia em pensamentos. Minutos atrás estavam discutindo e agora, Emma estava ali, em seu apartamento, tão perto, tão linda. Foi tirada de seus pensamentos quando seu telefone celular tocou. Era Milah, e mesmo estando consciente de que precisavam conversar, Regina optou por ignorar a chamada.
— Oi… — Emma murmurou, e ao se virar para observá-la, Regina engoliu em seco quando seus olhos cruzaram com aquela figura loira coberta apenas com um roupão.
— Oi… — ela disse, pigarreando em seguida. — A chuva está muito forte — acrescentou, aproximando-se da janela.
— Pedirei para que o motorista ou papai venha me buscar.
— Você pode ficar aqui se quiser… — Regina falou, arrependendo-se no mesmo instante só de imaginar a possibilidade de dividir o mesmo teto com Emma.
— Não quero incomodá-la — disse ela, e antes que Regina pudesse responder, seu telefone celular toca. Era Ingrid, preocupada pela demora e principalmente, pela chuva forte que caía lá fora.
— Mamãe, eu estou bem. Estou no apartamento de uma…amiga — Emma falou.
— Graças a Deus! Os noticiários alertaram para que ninguém deixe suas casas, portanto, não saia daí — Ingrid falou, na outra linha.
— Está bem, mãe. Eu vou dormir por aqui. Boa noite.
Tão logo desligou o telefone, Emma saiu à procura de Regina. Um pequeno sorriso brotou em seus lábios ao se deparar com a morena na cozinha, cortando sobre a mesa algo que a princípio ela não conseguiu identificar.
— Está com fome? — Regina perguntou, ao notar a presença de Emma.
— Um pouco… — ela disse. — Mamãe está com medo que eu volte para casa nessa chuva — acrescentou, completamente sem graça.
— O quarto de hóspedes está livre. A propósito, deixei um pijama em cima da cama. Acho que é mais confortável que esse roupão.
— Obrigada…eu já volto — Emma falou, se retirando em seguida.
Enquanto colocava um pijama, Emma sorria maravilhada pelo rumo que seu reencontro com Regina estava tomando. Era impossível não associar esse momento com aquele vivido há tantos anos, embora tivesse quase certeza que toda essa atenção por parte de Regina estava ligada ao desentendimento de algumas horas atrás que acabou resultando naquele pequeno machucado em seu braço.
— Sente-se…espero que goste — Regina falou, ao perceber a presença de Emma.
— Spaghetti? Eu adoro — ela disse, sentando-se em seguida.
O silêncio se apoderou do ambiente no exato momento em que os pratos foram servidos. Apenas o barulho dos talheres e dos trovões eram ouvidos. Nenhuma delas se atrevia a falar. A sensação era incômoda e agradável ao mesmo tempo. Embora se conhecessem, pareciam duas estranhas dividindo o mesmo espaço por um motivo qualquer.
Passados alguns minutos, no final da refeição, ao fazer menção de retirar os pratos da mesa, Regina foi impedida por Emma que aparentemente sem querer, acabou tocando-lhe a mão. Os olhares se cruzaram e rapidamente, Regina afastou sua mão, quebrando o silêncio e o contato entre elas.
— Pode deixar, eu faço isso — ela falou, e após colocar os pratos na pia e se virar para deixar o cômodo, foi surpreendida pelo corpo de Emma praticamente colado ao seu.
— Regina, por favor…o destino está nos dando uma nova oportunidade… — Emma sussurrou, mantendo seus lábios a poucos centímetros dos lábios de Regina.
— Emma… — ela murmurou, não contendo mais o desejo de beijá-la. Sendo assim, o beijo aconteceu.
A princípio, não houve o contato das línguas, apenas o pressionar dos lábios e o roçar dos corpos. Emma tomou a iniciativa e entrabriu os lábios, convidando a língua de Regina para que esta, se acomodasse dentro de sua boca. A partir dos contato das línguas, o beijo se tornou mais intenso, carregado de desejo. As mãos passaram a se movimentar numa troca mútua de carícias, todavia, o momento foi interrompido pelo som estridente do celular de Emma.
— Desculpa…é meu pai — ela disse, extremamente ofegante, recuando alguns passos. Regina apenas consentiu, encostando-se na pia na tentativa de impedir que seus joelhos fraquejassem, uma vez que o beijo trocado com Emma havia desestabilizado todo o seu ser.
— Alô, papai?
— Emma, a chuva cessou. Diga-me onde está que irei buscá-la — James falou, na outra linha.
— Pai, já está tarde e…
— Diga o endereço, Emma!
Após alguns minutos de conversa, a ligação fora encerrada. O silêncio reinou por uma fração de segundos e dessa vez, foi Regina quem se aproximou e a tomou em seus braços, beijando-a com toda a paixão que residia em seu peito por todos esses anos. Quando o ar se fez necessário, o beijo foi interrompido, no entanto, os corpos continuaram unidos, colados, ambas abraçadas, ofegantes.
— Perdão por tê-la magoado, por ter partido o seu coração… — dizia Emma, apertando-a cada vez mais forte.
— Emma…
— Diga-me, Regina…você ainda me ama? — Emma perguntou, recuando alguns passos para que pudesse olhá-la nos olhos. — Se você ainda me ama, por favor, não me despreze — acrescentou, sua voz estava embargada pelo choro.
— Eu nunca deixei te amar…embora tenha tentado com todas as minhas forças — ela revelou, exibindo uma expressão aflita.
Movida pelo desejo e pela emoção, Emma novamente se atirou nos braços de Regina, beijando-lhe a boca mais uma vez enquanto as lágrimas banhavam-lhe o rosto. Uma vez mais, o beijo foi interrompido pelo som do telefone celular de Emma. Era James, informando que a estava esperando em frente ao prédio informado por ela.
— Eu preciso ir, meu pai está lá em baixo — ela disse, segurando carinhosamente o rosto de Regina com ambas as mãos.
— Quer que eu a acompanhe? — Regina perguntou.
— Não precisa, obrigada — ela disse, beijando-a com delicadeza. — Podemos nos encontrar amanhã?
— Na praça central, às vinte horas, tudo bem?
— Sim, perfeito…esperarei ansiosa — disse Emma, se retirando em seguida.
Tão logo Emma se retirou, Regina se jogou em sua cama. Seu coração ainda se encontrava acelerado e em seus lábios, o gosto do beijo da mulher por quem ainda era indiscutivelmente apaixonada. Instintivamente, um sorriso brotou em seus lábios, todavia, rapidamente se desfez quando a imagem de Milah surgiu em sua mente.
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