Primeiro Amor
4 Capítulo 4
— Emma, precisamos conversar.
— Killian? Finalmente apareceu…achei que tivesse me esquecido.
— Emma, eu quero o divórcio — ele disse.
— Imaginei essa atitude de sua parte… — ela disse, tateando a cama em busca de algo.
— Você se entregou a essa escuridão, não quer se consultar com outros médicos, você desistiu de viver mas eu não! Eu sou jovem, tenho uma vida toda pela frente e não posso parar no tempo porque você passou a bancar a vítima, a coitadinha!
— Vá embora daqui, seu miserável! Como se atreve a falar assim com minha filha?! — Ingrid falou, o empurrando para fora do quarto.
Elsa que também presenciou a cena, aproximou-se de sua irmã para envolvê-la num abraço apertado. Emma não conteve as lágrimas, não por Killian, mas sim, por se dar conta de que havia desperdiçado tantos anos de sua vida ao lado dele, e agora, estava sendo descartada como um objeto qualquer.
Não tardou muito para que o advogado de Killian aparecesse e sem qualquer imposição ou relutâncias, Emma assinou o divórcio.
— Filha, eu quero que você saiba…
— Mamãe, me perdoe pelas grosserias. Elsa, perdão…eu só preciso aceitar esse novo modo de vida — disse Emma, com a voz embargada.
— Minha irmã, não se entregue a um mundo de sombras…você não pode ver mas pode sentir. O vento, o frio, o calor do sol…o cheiro do mar, o cheiro das flores, do mato… — dizia Elsa, tão emocionada quanto.
Naquela manhã, Emma finalmente aceitou sair de seu quarto, como também de sua casa para fazer um passeio na praça central da cidade ao lado de sua mãe, já que sua irmã precisaria ir à universidade como fazia todos os dias. Depois de alguns minutos de caminhada na grama macia daquele espaço, de braços dados, mãe e filha caminhavam em direção ao carro onde o motorista as esperava.
Enquanto Ingrid ajudava Emma a entrar no veículo, esta deixou cair algo de sua mão. O vento suave daquela manhã, arrastou o papel para longe sem que nenhuma delas percebessem.
— Senhora…deixou cair essa… — antes de concluir o que pretendia, Regina se calou ao constatar que se tratava de uma fotografia, uma fotografia sua, de anos atrás. Ingrid que nada percebeu, fechou a porta do carro e o motorista deu partida, enquanto Regina, permaneceu imóvel, perplexa e confusa, se perguntando o que uma fotografia sua fazia ali, nas mãos daquelas desconhecidas.
[…]
— Regi, que surpresa! Quando chegou da Suécia? — indagou Robin, limpando as mãos sujas de graxa.
— Ontem, mas cheguei tarde e não quis te incomodar — ela disse. — Como está sua oficina? E você, claro…
— Eu estou muito bem e minha oficina, melhor ainda. Bem melhor do que o cultivo de maçãs — ele disse, e ao notar que Regina não sorriu diante daquele comentário, cessou o riso. — Aconteceu alguma coisa?
— Agora a pouco…estava indo em direção ao meu carro que deixei estacionado na praça central, quando uma mulher deixou cair essa fotografia — ela falou, entregando-lhe o papel.
— Uma fotografia sua? Não entendo…quem era essa mulher?
— Eu não sei, não vi o rosto. Na verdade, eram duas. Mas eu fiquei tão sem reação quando vi essa foto que elas entraram em um carro e partiram sem que eu pudesse vê-las mais precisamente.
— Será que era ela? A garota da internet?
— Eu também pensei isso, mas não sei…eu não sei…
— Regi, não deixe isso perturbar sua cabeça. Você realizou seu sonho, é uma médica conceituada, importante, respeitada…acabou de ganhar um prêmio nobel pelo bem que vem fazendo ao povo carente desde que começou a atuar. Além disso, você tem uma namorada linda, inteligente e que te ama de verdade.
— Eu sei, Rob…mas apesar de todos esses anos, eu nunca a esqueci. Ainda há mágoas, e também amor — Regina murmurou, sua voz estava falha, embargada pelo choro.
— Esqueça isso, minha irmã. Não se atormente.
— Tem razão…eu vou para casa agora. Preciso preparar uma palestra que darei numa universidade privada daqui de Augusta.
— Boa sorte e qualquer coisa, pode me ligar.
Enquanto Regina retornava para seu apartamento, na mansão Swan, Emma se desesperava ao se dar conta de que a fotografia que carregou consigo noite e dia, havia desaparecido.
— Mamãe, a foto…eu a perdi! — disse ela.
— Que foto, meu amor? — indagou Ingrid, ajudando-a a se acomodar no sofá da sala.
— Estava no meu bolso…a fotografia de…de alguém importante para mim.
— Pedirei para que os empregados procurem no jardim…deve ter caído quando descemos do carro.
Passadas algumas horas, os empregados retornaram para dentro de casa alegando ter vasculhado a mansão inteira em busca da suposta fotografia.
Ao saber que nada fora encontrado, Emma sentiu uma pontada de tristeza invadir o seu peito. Além das lembranças em sua cabeça, a fotografia era tudo o que restava daquela garota por quem se apaixonou.
Ao anoitecer, por volta das dezenove horas, Úrsula informou que o jantar estava pronto. James descia as escadas de braços dados com Emma, enquanto Ingrid dava instruções para que o jantar fosse servido.
— Como foi o passeio essa manhã? — Elsa perguntou, sentando-se ao lado da irmã mais nova.
— Foi muito bom. Eu quase havia esquecido o quão agradável é o calor desse sol na primavera — disse Emma.
— Filha, você não sabe o quanto sua mãe e eu estamos felizes por você! — James falou.
— Emma…amanhã, haverá uma palestra da Dra. Mills na universidade. Você não quer me acompanhar? — indagou Elsa.
— Não, Elsa. Só porque saí hoje com mamãe não quer dizer que estarei metida em assuntos desse tipo. Além disso, porque eu deveria estar presente numa palestra de alguém que nem conheço? — disse Emma.
— Quem é essa Dra. Mills, filha? — Ingrid perguntou.
— É uma médica muito bem-conceituada, mamãe. Ela ganhou o prêmio nobel deste ano por suas ações humanitárias nos países mais pobres do mundo. Pessoas que foram desenganadas por muitos médicos, tiveram seus casos estudados e solucionados por ela, e hoje, estão vivos, felizes, esperançosos — Elsa falou, não contendo sua admiração.
— Mas, como isso é possível? Ela é alguma espécie de santa? — indagou James.
— Ela é alguém que ama a profissão e acima de tudo, é humana. Tem prazer em ajudar o próximo, principalmente os mais necessitados — ela disse, aparentemente aborrecida pelo questionamento um tanto irônico de seu pai.
— Nossa, você fala dessa mulher com tanta devoção — comentou Emma.
— Acredito que se todos os médicos escolhessem essa profissão por amor e não por dinheiro, viveríamos em um mundo melhor, mais humano, onde o pobre não morreria à míngua por falta de atendimento médico!
No restante do jantar, o silêncio reinou à mesa. Os quatro ali presentes pareciam perdidos em pensamentos, cada qual em seu mundo.
[…]
Elsa levantou mais cedo do que de costume. A palestra que seria proferida pela Dra. Mills começaria às nove horas em ponto. Já na sala de refeições, Ingrid sentou-se ao lado de Emma como sempre fazia desde que sua filha perdera a visão. Apesar dessa tragédia ter acontecido há alguns meses, Emma ainda necessitava de auxílio para se alimentar, bem como para se vestir e se dirigir a outros cômodos da casa.
— Bom dia — Elsa falou, sentando-se ao lado do pai.
— Bom dia — os três ocupantes da mesa responderam, em uníssono.
O café da manhã foi servido e entre conversas e sorrisos, a família realizou o desjejum como há muito tempo não faziam, uma vez que Emma se recusava a sair de seu quarto por conta da sua cegueira.
— Eu já vou para a universidade. Tem certeza que não quer vir, Emma? — Elsa perguntou.
— Vou sair com papai. Vamos fazer um passeio no porto — ela disse, levantando-se, enquanto James, lhe segurava o braço. — Você não vem, mamãe?
— Não, querida. Divirtam-se — Ingrid falou, enquanto pai e filha caminhavam de braços dados em direção à porta.
Elsa havia retornado ao quarto para pegar sua bolsa e seus livros. Ao notar em seu relógio de pulso que já passavam das oito horas, ela apressou seus passos enquanto descia as escadas. Ao fazer menção de abrir a porta para se dirigir à garagem onde estava o seu carro, teve seu braço segurado por sua mãe.
— Filha, eu quero assistir a essa palestra — ela disse, com olhos suplicantes.
— Claro, mamãe! A senhora é a dona da Universidade…sua presença lá é fundamental.
Na noite anterior quando sua filha mencionou a Dra. Mills, Ingrid sentiu a esperança bater em seu peito. Desde que o médico informou sobre sua cegueira, Emma se recusou a procurar outros profissionais de saúde para obter novas opiniões e diagnósticos. A notícia dessa sequela deixada por aquele acidente, a desesperançou por completo, a ponto de fazê-la se isolar e desejar a morte para si mesma. Talvez, agora fosse o momento de convencer sua filha a se submeter a novos exames e quem sabe, com a ajuda dessa mulher tão bem avaliada pela sua filha mais velha, Emma pudesse recuperar a visão.
Assim que chegaram, o auditório da Universidade já se encontrava lotado, todavia, esse fato não foi um empecilho para Ingrid que por ser a proprietária daquela instituição de ensino, tinha seu lugar reservado e separado dos demais.
Alguns professores não hesitaram em cumprimentar Ingrid Swan, afinal de contas, era raro encontrá-la naquele ambiente. Em seguida, Anita, reitora da Universidade, após também cumprimentar Ingrid, se dirigiu ao centro do palco para proferir algumas palavras antes da palestra começar.
— Bom dia a todos — disse Anita. — É com muito orgulho que essa instituição de ensino tem o prazer de receber uma das maiores profissionais da saúde que esse país já revelou. Dra. Mills, neurocirurgiã, realizou diversas operações cirúrgicas em pacientes cuja a esperança havia se esvaecido. Quero pedir os aplausos a nossa vencedora do prêmio nobel de medicina, Regina Mills — ela disse, e enquanto os estudantes aplaudiam, Regina se dirigia ao palco.
A palestra foi realizada com sucesso e maestria. Regina expressava seu ponto de vista com tanta convicção e simplicidade, que a cada dois minutos uma chuva de aplausos acontecia. Regina ressaltou que não era necessário um profissional, independente de ser no ramo da medicina ou em outro qualquer, necessitar de dez ou doze anos de “experiência” para se mostrar capaz e seguro naquilo que faz. Afinal de contas, não era de hoje que muitos profissionais, principalmente de medicina, falhavam miseravelmente, não por falta de experiência ou incapacidade, mas por falta de amor e atenção para com aquilo que faz.
“Hoje em dia, podemos contar nos dedos aqueles que realizam uma determinada tarefa por amor. O amor, infelizmente, vem sendo substituído pelo dinheiro” dizia ela, recebendo mais uma enxurrada de aplausos.
“Envergonho-me daquela categoria de médicos que movem céus e terras para salvar a vida do filho de um governador, mas cruza os braços para o filho da empregada doméstica que está agonizando no corredor de um hospital. Vocês, que futuramente exercerão essa profissão, não façam distinções ou favoritismos. Ser médico, é ser acima de tudo, humano. É fazer o bem sem olhar a quem.” Disse por fim, dando por encerrada a palestra.
— Dra. Mills, por gentileza… — Elsa falou, enquanto Regina se dirigia em direção ao seu carro no estacionamento da universidade.
— Pois não? — ela disse.
— Antes de tudo, gostaria de dizer que admiro muito sua maneira de pensar, agir, sua preocupação e seu amor à medicina — Elsa disse, num fôlego só, arrancando um “obrigada” e um meio sorriso de Regina. — Por favor, minha irmã perdeu a visão em um acidente de carro e desde então, se recusou a procurar outros especialistas — acrescentou, exibindo um semblante aflito.
— Eu sinto muito, mas essa não é a minha especialidade — murmurou Regina.
— Eu sei, mas li a seu respeito, li sobre o seu trabalho voluntário na comunidade carente e vi que contribuiu em casos que nada tinham a ver com a sua especialidade. Minha família pode pagar o mais caro dos tratamentos, o melhor dos hospitais, mas o dinheiro não foi suficiente para devolver as esperanças à minha irmã depois que o médico, sem qualquer cuidado ou sensibilidade, disse que ela havia perdido a visão. Suas palavras ajudam, reconfortam, seu empenho e dedicação devolvem a esperança daqueles que a perderam — disse Elsa, não contendo a emoção.
Regina permaneceu em silêncio por alguns segundos. O desespero na fala daquela mulher até então desconhecida para ela, era algo que sempre encontrava por onde passava desde que começou a atuar na área. Naquelas palavras, Regina confirmou mais uma vez que a falta de esperança era capaz de destruir qualquer ser humano.
— Leve sua irmã ao hospital onde trabalho e…
— Ela não irá. São meses tentando convencê-la a procurar outras opiniões, outros diagnósticos, mas ela se recusa…Sei que é pedir muito, mas por favor, visite-a em minha casa.
— Está bem, senhorita…?
— Elsa! Elsa Swan — ela disse, esboçando um largo sorriso.
— Você é filha da proprietária desta universidade? — indagou, estreitando os olhos.
— Sim — ela disse, enquanto anotava rapidamente o endereço da residência. — Quando irá visitá-la?
— Amanhã mesmo. Ah, como se chama sua irmã? — questionou Regina.
— Emma — ela falou, e instintivamente, o coração de Regina disparou. Seus olhos se arregalaram enquanto analisavam a figura diante de si. Elsa apresentava semelhanças demais com Emma, assim como a mulher que fora apresentada a ela como a dona da universidade. Se perguntava mentalmente se seria coincidência demais ou se realmente se tratava daquela mesma garota que lhe partiu o coração há tantos anos.
— Dra. Mills? Tudo bem? — indagou Elsa, nitidamente confusa com aquela expressão.
— Sim, Elsa. Amanhã, pela manhã, visitarei sua irmã. Tenha um bom dia — dito isso, Regina entrou em seu carro e se foi, perdida em pensamento.
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