Primeiro Amor
5 Capítulo 5
— Achei que passaríamos a manhã juntas — Milah falou, ao despertar e encontrar Regina devidamente vestida, preparando-se para sair.
— Esse era o plano. Mas ontem, uma aluna da universidade em que dei a palestra me pediu ajuda numa questão — justificou-se, enquanto procurava as chaves de seu carro.
— E você vai me deixar aqui sozinha por causa de uma aluna?
— Não comece, Milah.
— Eu cancelei todos os meus compromissos para passar a manhã com você! — vociferou, levantando-se rapidamente da cama enquanto cobria sua nudez com um lençol.
— Cancelou porque quis. Eu não te pedi e nem te obriguei a fazer isso.
— Porque você é tão dura comigo, Regina? Eu tenho sido a mulher mais paciente do mundo com você. Aguento suas grosserias, seu mau humor que a propósito, só se manifesta quando está comigo!
— Não gosto de cobranças, nem de pressões. E se você não está satisfeita com esse relacionamento ou com o meu jeito de ser, a porta está aberta — ela disse, direcionando seu olhar à mulher diante de si. — Agora eu preciso ir, nos vemos mais tarde — concluiu, se retirando em seguida.
À medida em que seu carro se aproximava do endereço da família Swan, o coração de Regina batia cada vez mais forte, e aquele frio na barriga se tornava mais intenso. Ao estacionar diante da mansão, todas aquelas lembranças de quinze anos atrás vieram à tona. A rua, a casa que mais parecia um palácio. Diante do imenso portão, Regina levou uma das mãos à campainha, constatando o quão trêmula se encontrava naquele momento. A semelhança das duas mulheres que conheceu na universidade, a mesma casa, seria coincidência demais. Foi tirada de seus pensamentos quando uma outra mulher, apresentando-se como Úrsula, governanta da casa, abriu o imenso portão.
— Pode deixar, Úrsula…eu atendo — disse Elsa, tomando à frente da governanta. — Dra. Mills, não sabe como eu fico feliz que tenha vindo. Entre, por favor — acrescentou, dando passagem para que Regina entrasse.
Enquanto caminhava na direção da porta de entrada da mansão, Regina observava que mesmo depois de tantos anos, tudo parecia igual. Exceto algumas cores que foram modificadas, mas o jardim continuava o mesmo. Pelo menos até onde conseguia recordar. Ao ultrapassar os limites da porta, mais lembranças se fizeram presentes, algumas agradáveis e outras dolorosas demais. Novamente seus pensamentos foram interrompidos quando Ingrid Swan se aproximou para cumprimentá-la.
— Dra. Mills, seja muito bem-vinda — disse Ingrid.
— Obrigada — Regina falou, se perguntando se aquela mulher a teria recebido dessa mesma maneira há quinze anos.
— Quando a minha filha Elsa falou de você, decidi que assistiria a sua palestra e não me arrependi. Embora sua especialidade não esteja relacionada ao problema da minha filha Emma, acredito que tenha sabedoria suficiente para orientá-la a se tratar — Ingrid falou.
— Sua filha precisa ter força de vontade e se ajudar também — disse Regina.
— Ela perdeu as esperanças quando sofreu aquele acidente e se recusou a procurar outros médicos, outras opiniões.
— Sua filha Elsa me falou a respeito disso.
— Ela não sabe que a senhora está aqui e antes que suba até o quarto dela, deixe-me alertá-la… — fez uma pausa, aspirando todo o ar que seus pulmões eram capazes de suportar. — Emma se torna agressiva quando tocamos nesse assunto. A senhora não é a primeira médica que vem visitá-la, e não será a primeira a ouvir gritos e insultos. Mas eu confio na sua habilidade de se expressar — fez outra pausa, esboçando um meio sorriso. — A forma como falou naquela palestra me encheu de esperanças e acredito que o mesmo acontecerá com minha filha — concluiu, com lágrimas nos olhos.
— Mamãe, vou acompanhar a Dra. Mills até o quarto da minha irmã — Elsa se pronunciou.
Conforme Regina se aproximava daquela porta, seu coração acelerava consideravelmente. Elsa bateu algumas vezes na madeira lisa, e ao ser autorizada a entrar, os olhos de Regina se arregalaram, excluindo qualquer possibilidade de coincidência. Era ela, era Emma, a garota que conheceu na internet e que partiu o seu coração em mil pedaços. Um nó se formou em sua garganta enquanto lágrimas se formavam em seus olhos, e se não fosse a presença de Elsa naquele cômodo, ela não teria se esforçado tanto para impedi-las de cair.
— Elsa, tem alguém com você? — Emma perguntou, mantendo-se na mesma posição.
— Sim, Emma. A Dra. Mills veio falar com você — ela disse, claramente receosa.
— Não me lembro de ter convidado ninguém para vir aqui! Saiam do meu quarto agora mesmo! — ela falou, num tom exaltado. Elsa tentou argumentar, todavia, foi impedida por Regina que apenas com um gesto, pediu para que a estudante se retirasse, permanecendo a sós com Emma.
Regina a observou por alguns instantes em silêncio. Seu olhar percorreu todo o cômodo se dando conta que muitas mudanças haviam acontecido, e entre essas mudanças, estava Emma. Regina nada falou, apenas caminhou lentamente em direção a janela e abriu às cortinas, deixando a claridade invadir o cômodo.
— Elsa? O que está fazendo? — indagou Emma, levantando-se da cama.
— Sua irmã se retirou, mas eu continuo aqui — disse Regina, e embora Emma não pudesse enxergá-la, seus olhos se arregalaram.
— Saia daqui! Você não foi convidada a entrar aqui! — ela disse, claramente enraivecida, enquanto se segurava na cabeceira da cama.
— Todos nós temos o direito de ficar tristes, mas não temos o direito de levar isso adiante — Regina falou, ignorando as grosserias proferidas por Emma. — Sua mãe está sofrendo, sua irmã está sofrendo e tudo isso é por você. Já imaginou quantas pessoas nesse mundo gostariam de ter as oportunidades que você tem? Acredito que tenha consciência de que sua família poderia pagar o melhor tratamento para você em qualquer parte do mundo. Mas você prefere ser motivo de pena — acrescentou, analisando as reações apresentadas por Emma.
— Não fale do que não sabe… — ela murmurou, sentando-se cuidadosamente sobre a cama, enquanto as lágrimas desciam descontroladamente pelos seus olhos.
— Há alguns anos, uma “doença” chamada tristeza me pegou. Nem mesmo a música me consolava, era tarde da noite e eu não tinha sono, não sabia o que me faltava…e eu já tinha mais de dezoito anos — disse Regina, sentando-se ao lado de Emma. — Depois de muito refletir, eu percebi que o que estava faltando era uma atitude de minha parte. Ninguém vai pegar os meus sonhos e realizá-los por mim. Ninguém procurará a felicidade que eu quero e trazê-la para mim. Ninguém virá aqui devolver a sua visão. É você quem precisa correr atrás daquilo que quer, e se você quiser, sua família e eu estamos dispostos a ajudá-la — concluiu, levantando-se em seguida.
— Tenho medo de alimentar falsas esperanças — Emma falou, num tom quase inaudível.
— Pode parecer cliché…mas a vida é feita de riscos e a esperança é sempre a última que morre. Tenha um bom dia, senhorita Emma.
— Dra. Mills…
— Sim?
— Ajude-me…
[…]
Enquanto dirigia em direção ao hospital onde trabalhava, Regina lembrava da longa conversa ao lado de Emma. Aquela garota que conheceu há tantos anos, havia se tornado uma mulher, a mais bonita que seus olhos já viram em toda sua vida. Apesar de a amargura causada por aquela súbita perda da visão, Emma continuava, segundo Regina, extraordinariamente linda.
Embora seu coração ainda sentisse a dor da desilusão cada vez que as lembranças do passado invadiam-lhe a mente, Regina não conteve a emoção e a alegria de saber que Emma finalmente aceitou se submeter a um tratamento e posteriormente, a uma cirurgia para tentar recuperar a visão.
Assim que estacionou seu carro, seu celular tocou e no visor, o nome Milah piscava insistentemente. Dentro de uma hora e meia, realizaria uma cirurgia e uma conversa com Milah agora resultaria em aborrecimentos e discussões. Dessa forma, ela optou por não atender aquela chamada.
— Ela não atendeu — disse Milah, suspirando em seguida.
— Não entendo como você aguenta essa mulher — comentou Anita, reitora da universidade onde recentemente Regina proferiu uma palestra sob o tema ética médica.
— Eu a amo, amo com paixão…
— Mas pelo visto ela não te ama.
— Regina me ama sim, ela apenas…
— Te trata mal o tempo todo — interrompeu Anita. — Sorte que ela não te proíbe de sair — acrescentou.
— Eu bem que queria que ela me proibisse de sair — Milah falou, suspirando em seguida. — Sabe, eu queria que ela fosse possessiva comigo, que sentisse ciúmes quando me visse conversando com alguém que ela não conhecesse e que brigasse comigo, para logo em seguida, fazermos as pazes na cama. Mas ela não liga pra nada disso e na maioria das vezes, só fazemos amor porque eu a procuro — confessou, exibindo um semblante triste.
— E você ainda diz que essa mulher te ama?!
…
Ingrid não se continha de felicidade, uma vez que sua filha finalmente aceitou se submeter a alguns exames e a um tratamento que diagnosticaria com cem por cento de precisão, se aquele dano em sua visão causado por um acidente de carro, seria irreversível ou não. No momento em que o médico revelou aquela notícia impactante sobre sua cegueira, Emma pareceu entrar em estado de choque, entregando-se a solidão, trancada praticamente o dia inteiro em seu quarto. O divórcio, a pedido de Killian e a visita inesperada de Regina, foram de grande incentivo para sua decisão de tentar mudar aquele fato.
— A Dra. Mills acabou de ligar informando que sua consulta será amanhã cedo no Hospital Central — disse Elsa, sentando-se à mesa onde seus pais e sua irmã já se encontravam a postos.
— Mas esse hospital é público! — exclamou James, nitidamente desconsertado.
— Mas é lá que o médico, amigo da Dra. Mills trabalha, e ela também — Elsa argumentou.
— Não confio em hospitais públicos e…
— James, por favor! A Dra. Mills é séria e competente, e foi graças a ela que Emma aceitou se submeter aos exames e tratamento! — vociferou Ingrid, claramente aborrecida.
— Papai, está tudo bem… — disse Emma, tateando a mesa em busca de sua mão.
Na manhã seguinte, Ingrid ao lado de Emma, se dirigiu ao hospital indicado por Regina. Chegando lá, foram encaminhadas para a sala do oftalmologista Dr. Victor Whale. Tão logo se acomodaram, Regina apareceu, adentrando à sala, uma vez que havia prometido tanto a Ingrid, quanto a Emma que acompanharia de perto todos os exames, o tratamento, e uma possível operação.
Enquanto Ingrid relatava as causas daquela sequela, Regina se perdia em pensamento ao tomar conhecimento de que Emma realmente havia se casado com aquele rapaz do “sorriso de galã de novela”. Se perguntava onde estaria Killian, já que em momento algum o nome dele foi mencionado em outra situação que não fosse o acidente, além disso, já tinha reparado que Emma não usava aliança. Teria ele morrido? Se perguntava mentalmente, todavia, foi tirada de seus pensamentos quando levemente, a mão de Emma roçou na sua, causando-lhe um arrepio indescritível.
Após o relato, Dr. Whale a examinou e solicitou outros novos exames onde os resultados apontariam o caminho para uma possível operação, ou confirmariam o diagnostico dado pelo primeiro médico que a examinou.
— Dra. Mills, muito obrigada por acompanhar, mesmo que essa não seja a sua especialidade — disse Ingrid, cumprimentando-a com um aperto de mão.
— Não precisa agradecer. O que estiver a meu alcance, o farei com prazer — ela disse.
— Dra. Mills, mesmo que recuse os agradecimentos, eu, mais do que minha mãe, tenho que agradecê-la — Emma falou, estendendo-lhe a mão.
— Não há de que, senhorita Swan — disse ela, tocando-lhe a mão com firmeza pela primeira vez.
Aquele cumprimento demorou mais do que o necessário, e se não fosse por Regina que resolveu quebrar o contato, talvez tivessem permanecido por mais alguns minutos, uma apertando levemente a mão da outra. Regina ainda parecia duvidar de que aquela mulher era a mesma que conheceu através de um site de relacionamento, a mesma que lhe causou a pior de todas as dores: A dor da perda do primeiro amor.
Emma foi conduzida por Ingrid até o carro e embora não soubesse dizer com certeza qual era a razão, seu coração acelerava cada vez que a voz de Regina se fazia presente, e aquele contato físico, só serviu para aumentar um pouco mais seus batimentos cardíacos.
Depois de uma longa cirurgia realizada numa vítima de “bala perdida” atingida na cabeça, Regina deixou o hospital e seguiu em direção ao seu apartamento. Tão logo abriu a porta, deparou-se com Milah esperando-a no sofá da sala. Naquele momento, ela se auto repreendeu por tê-la entregado uma cópia da chave.
— Eu sabia que você ignoraria as minhas chamadas e que viria direto para cá — disse ela, levantando-se e se colocando diante de Regina.
— Não ignorei. Estava trabalhando e se vim direto para cá, é porque estou cansada e quero descansar.
— Cansada do trabalho ou de mim?
— Milah, não comece.
— Desculpa…não estou aqui para discutir, estou aqui para cuidar de você — ela disse, envolvendo o pescoço de Regina com seus braços.
— Eu vou tomar um banho e quando eu sair, você me faz uma massagem, o que acha? — Regina sugeriu, na tentativa de se redimir pela forma grosseira que lhe havia tratado um dia atrás.
— Acho ótimo, meu amor! Vem, vamos para o quarto…
Após o banho, Regina vestiu um dos seus pijamas, embora Milah argumentasse que o melhor seria não vestir nada, uma vez que seus planos após a massagem estavam martelando em sua cabeça. Diferente do que Milah pretendia, Regina acabou adormecendo, tendo apenas Emma como protagonista em seus pensamentos.
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