Enquanto dirigia em direção ao seu apartamento, Regina travava uma batalha entre a razão e o coração, se perguntando se era por causa de Killian Jones que Emma havia adiado a conversa que teriam com Ingrid a respeito do relacionamento delas. Tão logo chegou ao lugar de destino, jogou-se sobre sua cama e se pôs a chorar imaginando que a mulher de sua desventura, planejava dormir apoiada no ombro daquele homem que a abandonara sem qualquer consideração. Essa visão a dilacerou, mas não fez nada para reprimi-la, pelo contrário, desfrutou sua dor.

Emma, por sua vez, derramava seu pranto envolvida no abraço apertado de sua melhor amiga, Ruby. E embora ela não escondesse sua antipatia por Regina, admitiu que no lugar dela, teria reagido da mesma forma.

— Ela poderia ter me escutado! Mas não, ela sempre foge como uma covarde! — exclamou Emma, entre soluços.

— E você sempre esconde as coisas dela. Principalmente quando envolve Killian. Deveria ter falado com ela antes de aceitar fazer isso — disse Ruby.

— Eu ia falar, mas meu pai garantiu que…

— Emma, não seja ingênua! Eu sei que ele é seu pai mas convenhamos, o preconceito e James Swan andam juntos e de mãos dadas! Ele só está interessado na campanha e perdendo ou ganhando, não apoiará seu relacionamento com outra mulher independente de ser a Dra. Mills ou outra qualquer.

— O que você queria que eu fizesse? Que duvidasse dele assim, de cara?

— Depois do que ele fez com sua mãe, no seu lugar, eu teria duvidado sim — ela disse, recuando alguns passos. — Você não acha estranho que apenas a parte onde você e Killian apareciam juntos tenha chegado até ela? Porque a entrevista completa está disponível em vários sites, mas ela só viu a parte comprometedora.

— Se papai tiver planejado tudo isso para me separar de Regina, juro que não o perdoarei! — ela disse, enquanto procurava o nome de James em sua agenda telefônica. — Mas que droga! Ele não atende! — vociferou Emma, andando de um lado para o outro. — Preciso conversar com Regina, ela tem que me ouvir, tem que me entender…

— É melhor você esfriar a cabeça e falar com ela amanhã. Talvez ela esteja mais tranquila e compreenda as suas razões para fazer o que fez.

— Tem razão…falarei com ela amanhã no final do expediente.

Depois que se despediu de Ruby, Emma se deitou em sua cama mesmo que não sentisse sono. Instintivamente, as lágrimas começaram a se formar em seus olhos para logo em seguida, banhar-lhe o rosto. Era inevitável. O gosto das lágrimas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados.

[…]

Na manhã seguinte, Emma despertou com o barulho de batidas em sua porta. Ao olhar as horas no seu celular, percebeu que passava das nove horas da manhã. Ainda com o aparelho em mãos, ela suspirou aflita ao constatar que não havia uma resposta de Regina para suas inúmeras mensagens e ligações. Seus pensamentos foram interrompidos quando a voz de Ingrid adentrou o ambiente pedindo permissão para entrar.

— Bom dia, querida — disse ela, aproximando-se da cama.

— Bom dia, mamãe — Emma murmurou, nitidamente abatida.

— O que está acontecendo, filha? Sua irmã me mostrou um vídeo onde Killian dizia coisas das quais eu não quis acreditar…

— Não é verdade, mamãe. Papai armou aquela palhaçada por quê… — fez uma pausa, procurando as palavras adequadas para proferir. — Porque está tentando amenizar aquele escândalo e mostrar que ainda somos uma família, não sei — acrescentou, sem esconder seu aborrecimento.

— Quanto cinismo desse homem! James está passando dos limites…por que aceitou participar disso?

— Porque eu sou uma idiota! Porque senti pena dele! Mas eu vou resolver isso, não se preocupe.

— Falarei com ele hoje mesmo e…

— Não precisa, mamãe. Mas mudando de assunto, você não viajaria hoje?

— Sim, meu amor. Ainda tenho quatro horas para me organizar.

— Espero que faça uma boa viagem.

— Obrigada, querida — ela disse, envolvendo-a em um abraço apertado. — Você vai ficar bem? Eu posso adiar ou cancelar essa viagem se você quiser…

— Eu estou bem, mamãe…não se preocupe, por favor. Vá tranquila. Sei que esse trabalho voluntário é muito importante para você.

— Qualquer coisa, me ligue, está bem? — Ingrid falou, se retirando em seguida.

Depois de arrumar sua pequena bagagem, Ingrid se despediu de Emma e Elsa recusando a proposta de ambas as filhas para acompanhá-la até o aeroporto, uma vez que ela pretendia desviar o caminho para encontrar alguém de seu interesse.

— Dra. Mills, a senhora Ingrid Swan deseja lhe falar — disse a recepcionista do hospital.

— Pode pedir a alguém para conduzi-la até a minha sala, por favor — Regina falou mesmo hesitante. Alguns minutos depois, batidas na porta se fizeram presentes e rapidamente, ela se apressou em abrir.

— Dra. Mills! Espero não atrapalhar — Ingrid falou num tom divertido, enquanto Regina dava passagem para que ela entrasse.

— Ingrid, bom dia e não se preocupe, não está atrapalhando — disse Regina, fechando a porta atrás de si. — Em que posso ajudá-la? — ela perguntou, indicando uma cadeira para que a outra se acomodasse.

— Bom, eu viajarei essa manhã, dentro de duas horas e passei aqui para agradecer pelo apoio que você tem me dado, e para me despedir — ela disse, esboçando um meio sorriso.

— Já disse que não tem nada o que agradecer. Mas me diga, para onde viajará?

— Para Portland. Participarei do evento beneficente em apoio às crianças carentes.

— Fico feliz em saber que participará desse evento tão bonito. Eu, particularmente, adoraria estar presente mais uma vez.

— Já participou antes?

— Sim, todos os anos desde que voltei do Camboja.

— Oh sim, li sobre seu trabalho voluntário no Camboja. Mas e esse ano, não participará por quê?

— Estou dependendo da autorização da diretoria do hospital.

— Vou torcer para que consiga essa autorização — Ingrid falou, levantando-se em seguida. — Bom, não tomarei mais o seu tempo. Espero te encontrar por lá — acrescentou, enquanto Regina se aproximava.

— É, quem sabe! Boa viagem, Ingrid! — disse ela, beijando-lhe o rosto.

— Obrigada, Regina — disse Ingrid, retribuindo o beijo e se retirando em seguida.

O restante do dia transcorreu de forma tranquila, uma vez que Regina procurava uma forma e outra de entreter sua mente para que não acabasse pensando em Emma. Desejava com todas as suas forças que a diretoria do hospital a liberasse para que ela pudesse participar do evento, seria mais um escape para que Emma não invadisse seus pensamentos.

No final do expediente quando se dirigia até seu carro no estacionamento, Regina foi abordada por quem ela menos desejava encontrar naquele momento.

— Precisamos conversar, por favor…me escute… — disse Emma, parada diante do carro de Regina.

— O que você quer? Fazer-me de idiota mais uma vez?

— Quero explicar o que aconteceu! Quero dizer que nada do que ele falou é verdade, e se eu estava ao lado dele, era simplesmente para ajudar o meu pai em sua campanha!

— O que uma coisa tem a ver com a outra?

— Meu pai ficou sabendo do nosso relacionamento e imaginou que se esse fato se tornasse público, a campanha dele poderia ser prejudicada…

— Aí então você resolve adotar o cinismo do seu pai e se exibir diante de todos ao lado de um canalha que te abandonou em um dos momentos mais delicados de sua vida?!

— Eu fiz pelo meu pai!

— Você se expôs ao ridículo por uma maldita campanha que aquele cretino inventou!

— Você está falando do meu pai, Regina!

— Dane-se! — vociferou. — Pelo visto você não amadureceu depois de tudo e sinceramente, eu não tenho tempo a perder com garotas mimadas e imaturas! Agora se me der licença, tenho mais o que fazer! — ela disse, abrindo a porta do seu carro.

— Regina, eu imploro…me perdoa… — Emma suplicou.

— Escute bem, Emma…essa é a segunda vez que você me parte o coração, mas eu garanto que não sucederá uma terceira!

— Regina, meu amor…por favor…

— Acabou! Entre nós, tudo acabou! — dito isso, ela entrou em seu carro e sem pensar duas vezes, deu partida.

Emma permaneceu alguns minutos atordoada, descrente em relação às palavras de Regina. Subitamente as lágrimas preencheram os seus olhos, transbordando no exato momento em que ela se deu conta de que mais uma vez, havia perdido o seu primeiro amor.

…

— Calma, Emma…você já explicou os seus motivos e se ela não entendeu, paciência! Dê um tempo e talvez, ela te compreenda quando estiver mais calma — dizia Ruby, afagando-lhe os cabelos.

— Ela me deixou! Ela terminou tudo comigo! — dizia Emma, inconformada com a decisão de Regina.

— Vocês se acertarão…apenas fique calma e espere alguns dias para procurá-la…

Ruby permaneceu na mansão ao lado de Emma, acalentando-a da forma que podia, embora soubesse que apenas Regina seria capaz de conseguir reconfortar sua amiga.

Na manhã seguinte, antes de se dirigir ao hospital como de costume, Regina foi informada pela diretoria que estava liberada para comparecer ao evento beneficente em Portland, e sem demoras, ela reservou sua passagem aérea para aquela mesma manhã. Às dez horas em ponto, ela embarcou para a cidade de destino e assim que chegou ao hotel, banhou-se e em poucos minutos, já se encontrava devidamente pronta para se dirigir ao evento que aquela hora, já teria sido iniciado.

Tão logo desceu do táxi, ao longe, Regina avistou Ingrid Swan distribuindo presentes às inúmeras crianças carentes.

— Na noite de Natal, já sei quem entregará os presentes das crianças no hospital — Regina falou, mantendo-se ao lado de Ingrid.

— Regina! Que bom que você veio! — ela exclamou, envolvendo-a num abraço apertado.

— Deixe-me ajudá-la com isso… — disse ela, retirando alguns itens da sacola para distribuir entre os pequenos.

Por volta das quinze horas, enquanto almoçavam, Ingrid e Regina compartilhavam ideias sobre diversos assuntos dos quais ambas dispunham da mesma opinião.

— Admiro sua simplicidade, Regina. Você poderia trabalhar nos melhores hospitais privados do país, ou ter sua própria clínica, e no entanto, prefere fazê-lo nos hospitais públicos…

— Eu não nasci em berço de ouro, Ingrid. Nem sempre ocupei essa posição e já senti na pele o desprezo e o descaso de muitos profissionais da saúde em relação as pessoas humildes.

— Eu compreendo e fico feliz em saber que você não esqueceu suas origens, tampouco se mostra superior aos demais…

Depois de alguns minutos mais de conversa, ambas retornaram ao local do evento e só saíram de lá por volta das dezoito horas, quando o primeiro dia fora encerrado. Juntas, pegaram o mesmo táxi já que se encontravam hospedadas no mesmo hotel.

— Você jantará no restaurante do hotel ou em outro lugar? — Regina perguntou.

— Apesar da comida do hotel ser ótima, gostaria de sair um pouco, conhecer a cidade…

— Nunca esteve aqui antes?

— Não, essa é a primeira vez.

— Acho que gostará de um restaurante que conheço…é aqui perto.

— Isso é um convite? — Ingrid perguntou, num tom brincalhão.

— Por que não?! — respondeu Regina, esboçando seu belo sorriso.

Por volta das vinte horas, Regina e Ingrid já se encontravam sentadas à mesa, observando o cardápio enquanto o garçom destilava suas sugestões e combinações para aquela noite. Ingrid fez questão de mostrar seu agrado em relação aquele ambiente que até então, era desconhecido por ela.

— Fico feliz que o lugar tenha lhe agradado — comentou Regina, enquanto caminhava ao lado de Ingrid.

— Eu amei, de verdade! E a comida estava fantástica!

— Bom, está entregue! — Regina falou, num tom brincalhão, assim que pararam diante da porta do quarto de Ingrid.

— Não quer entrar e tomar uma taça de vinho?

— Acho que…

— Está cedo ainda.

— Tudo bem, já que insiste…

A noite para elas não poderia ter sido mais agradável. Naquele momento, Regina conseguiu esquecer todos os seus problemas e mágoas, especialmente aquelas deixadas por Emma. Ingrid se encontrava da mesma forma, e embora o escândalo envolvendo seu ex marido a tivesse abalado, ela se sentia leve, como se um grande peso tivesse sido retirado de suas costas.

— É melhor eu ir…está tarde — Regina falou, caminhando em direção à porta.

— Obrigada pela companhia, pela noite agradabilíssima que me proporcionou…

— Disponha! Boa noite, Ingrid…e até amanhã.

— Boa noite, Regina — ela falou, beijando-lhe o canto dos lábios.

Após a saída de Regina, Ingrid se deixou cair em sua confortável cama. Instintivamente seus olhos se fecharam e seus dedos tocaram os próprios lábios imaginando um possível contato mais íntimo com aquela mulher que pouco a pouco, tomava mais espaço em sua mente.

— Isso é loucura… — ela murmurou, perdida em pensamentos.