Eu julgava precipitado dar passos mais ousados, posto que ainda não te conhecia o suficiente para uma eventual declaração de amor, caso fosse amor e recíproco também, contudo a conversa entre meus avós aliviou (e muito) o fardo dos meus ombros porque para saber se era viável alimentar esperanças, só havia um caminho: enfrentar a timidez, te olhar nos olhos e verbalizar.

Até hoje, quando tenho a oportunidade de tomar café com leite em algum lugar, me lembro de quando nos sentávamos ao lado um do outro na lanchonete da faculdade e irritávamos o dono por ocuparmos sempre a mesma mesinha, espalhar nossos livros e cadernos e prosearmos tarde adentro, muitos frequentadores comentavam sobre sermos um casal cheio de sintonia e até a boçal da Priscila nem escondia o despeito quando nos via juntos porque não estou sendo presunçosa, ela queria estar no meu lugar, seduzir você e encenar uma comédia romântica adolescente de qualidade duvidosa. Nós tínhamos tantos sonhos, planos, afinidades e pela primeira vez eu me sentia livre para ser eu mesma sem receio dos julgamentos porque você me retribuía com semelhante transparência.

Veio o carnaval, a minha primeira viagem sem a família, aquela última noite de acampamento em que quando demos por nós, estávamos completamente entregues ao desejo. Você sabia, claro, mas eu não quis cortar o clima gostoso contando que você seria o primeiro, o primeiro para quem eu me entregaria com todo consentimento do mundo, o primeiro com quem eu cogitaria dar um passo tão grande.

O problema é que muitos moralismos provenientes da minha criação e também da nossa cultura machista me deixaram desconcertada. Porque sempre foi enfatizado que mulher não poderia gostar de sexo, que as que se entregavam não se davam ao respeito e eu me senti numa corda-bamba porque quando me conectei a você, gostei da experiência, da forma que fui tratada, não vi nada de anormal e imoral em duas pessoas que se curtem estarem juntas, todavia, o receio dos maus julgamentos me paralisou. Minha avó casou-se virgem com o meu avô e dava indiretas de que se eu "provocasse" certas coisas em você, teria má fama. Temi que aos seus olhos, aquela noite não tivesse passado de diversão.

Ergueu-se um muro entre nós e alguns mal-entendidos por pouco não colocaram um ponto final na nossa parceria. Eu não estava dentro da sua cabeça para atinar o mecanismo que regrava o mundo dos garotos porque era diferente de uns anos antes, quando eu jogava bola e brincava até escurecer com a molecada na rua apinhada de crianças. Eu havia crescido. Ninguém mais montava o time dos sem camisa contra os com camisa, nem colocava duas latas vazias de azeite para marcar o gol. Ninguém mais montava carrinho de rolimã para descer uma ladeira próxima ao prédio onde meus avós moravam. Beijo não era mais brincadeira. Quando era salada mista, eu corria, sempre dizia pera e uva, isso quando não arredava o pé.

Demorou até eu olhar nos seus olhos e não me sentir suja nem inadequada, até você me ajudar a perceber que para o mundo mudar, não adiantaria eu gritar num megafone até induzir as pessoas a nutrirem pensamentos mais progressistas e menos inquisitivos, graças a você eu entendi que gostar de sexo não me fazia uma pessoa indigna de respeito e que ter desejos era algo perfeitamente normal.

Quebramos todas as regras, lembra?

Fomos um casal de amigos. Chegamos a namorar outras pessoas, a confessar nossos segredos mais puros e até aqueles mais obscuros, mas fizemos o percurso montanha-russa juntos. Finais de semestre, professores carrascos, seminários tensos, colegas futriqueiros, corações partidos. Apesar de a formatura ainda ser algo distante, queríamos celebrar aquele momento que nossas famílias aguardavam tanto quanto nós.

A perda do seu progenitor te tirou o chão, apesar de ele nunca ter desamparado a sua família e de antemão prever que nada lhes faltaria. Por anos você sustentou a pecha de “garoto problema” para esconder o medo do mundo. Comigo você foi franco e se livrou da necessidade de provar aos outros o que quer que fosse.

Você não se sentia amado pelo seu pai, ainda que eu tenha notado na condição de observadora que era uma inverdade. Ele se orgulhava de você, apenas tinha dificuldade em externar esse afeto. Havia um desencontro de demonstrações. Entretanto, tudo mudou quando aquela sentença tão cruel te roubou o chão e ao olhar para aquela ampulheta invisível, havia apenas mais um punhado de areia, quase ínfimo, prestes a cair. Ninguém sabia com precisão quando seria o derradeiro momento.

Lembro-me da sua amável vigília todas as noites em que seu pai, já desenganado, lutava pela vida amargando as dores horríveis daquele tumor que cresceu silenciosamente e foi diagnosticado quando pouco podia ser feito, senão prolongar os dias com uma réstia de dignidade. Por mais que as atividades da vida adulta o cansassem sobremaneira, lá estava você, de corpo e alma presentes, enviando amor, carinho, positividade.

Você até hoje se lembra daquele acordo que fizemos, o de que quando tivesse chegado a hora, você me escreveria um torpedo de celular com uma carinha triste.

Eis que naquela madrugada, meu celular vibrou debaixo do travesseiro. Ninguém além de você me mandava torpedos. Eu já sabia. Meu avô também já não era mais o mesmo, porém sempre bradava que "quem procurava, achava!" e relutava em realizar um check up completo, dizia que "era coisa da idade". Enquanto eu tomava um banho rápido, escovava os dentes e separava na bolsa tudo de que iria precisar pelo tempo que ficasse fora, sentia o peito doer como se fosse o meu próprio pai que tivesse partido, porque eu te contei sobre o quanto a perda precoce da minha querida madrinha Zuleica me desestruturou porque ela era minha melhor amiga no mundo inteiro.

Você segurou na mão dele quando chegou a hora de dizer adeus. O garoto problema, que se julgava tão fraco, tão incapaz de lidar com dificuldades, fez-se homem. Nos últimos instantes que vocês estiveram juntos, compartilharam muito amor, puderam se conhecer e dizer um ao outro o quanto se amavam, deixar para trás mal-entendidos fomentados pelo ciúme, pelo medo da rejeição, pela insegurança de que quem sempre quis se sentir amado.

Seu intercâmbio estava previsto para depois da sua formatura, porém você acreditou que nem mesmo concluir o curso fazia sentido àquelas alturas e meu conselho de tomar uma decisão clara quando o coração estivesse mais sereno te fez crer que uma peregrinação por um país estrangeiro pudesse lhe ajudar.

Trancar o curso, então. Não nos formaríamos juntos, como tanto planejamos lá no começo, quando mal sabíamos o que nos aguardava. O tempo de intercâmbio serviria para você se recolher e viver a dor do seu modo, além de repensar os rumos da sua vida e por mais que eu te amasse, desejasse arrancar seu coração para remover dele todos os espinhos que o feriam, não tinha poder para isso e nem meu amor era o bastante para te manter de pé, por maior que fosse.

Você precisava ir.

E, no fim das contas, por mais egoísta que fosse, o meu mundo caiu.

Notas finais
Bom, em 2009, coincidentemente, o ano em que o mundo teve o surto de H1N1, eu passei em Letras na UTFPR (último vestibular antes de a instituição de ensino aderir ao Sisu como critério de seleção para novos alunos) e as "férias suínas" acabaram no dia 24 de agosto, início do segundo semestre. Eu cursaria Letras-Inglês (licenciatura) e a ideia do coordenador do curso era a de que nós alunos nos formássemos com fluência em inglês. Eu poderia falar que inglês era a minha matéria favorita e tudo o mais, mas vou confessar que estava tristinha porque as meninas da minha sala tinham aquele arzinho soberbo, sabe? Em menos de dez minutos eu já não tinha ido com as fuças de duas, uma metida a nerd que se achava superior por só ouvir banda alternativa que ninguém conhecia e outra que se gabava de ter um namorado que estudava engenharia e falou "porque o meu namorado..." umas cem vezes até enfim a professora chegar. Quando eu já ia me acostumando com a ideia de estudar com as sebosas, a porta da sala se abriu e entrou um menino lindo de viver, lindo mesmo. Eu não sou assim de achar qualquer cara bonito, sou bem chatinha rs. Aquele era. E como era. Na hora meu corpo todo reagiu, o coração disparou, senti frio na barriga, fiquei boba. Como a gente tinha que se apresentar, todo mundo falou o nome e eu descobri que ele se chamava Roberto. Eu não gostei do curso porque não queria ser professora e as disciplinas do primeiro semestre eram bem maçantes, só Inglês e Literatura se salvavam por me despertarem algum interesse. O Roberto era estiloso, o jeito como Ceci descreve o Cid fisicamente é como eu descreveria o Roberto. Na minha sala tinham muitas boçais como a Priscila, essas meninas que se acham a última bolacha do pacote, mas... pela primeira vez eu notava que o menino que eu estava olhando também me olhava. Ele sorria às vezes. Numa vez que eu cheguei quase atrasada pra aula de inglês, ele segurou a porta pra mim (prevejo feminista revirando os olhos e já o julgando como machista, fodam-se vocês, eu gosto quando alguém segura a porta pra mim) e me abriu aqueeeeele sorrisão. Até as meninas, mesmo sendo malas, perceberam que ele estava me "secando" e falavam que ele só não tinha pedido pra ficar comigo porque era mais tímido do que eu. Imagina só, eu, euzinha na vida real travo na frente de crush, ou falo bobagem ou não consigo falar nada. Elas me diziam que ele devia gostar de mim. Nossa, pra quem era tida como feia no ensino médio por meninos que nem bonitos eram pra me chamarem de feia, um gato daqueles me "secar" era o que me motivava a me arrumar, estar sempre bonita. O Roberto não participou daquele trote idiota, não pagava pau pra veterano, não se metia a fazer adendo só pra se mostrar intelectual e querer estrelinha de bom menino, ficava na dele, acho que ele chamava a atenção porque era extremamente difícil descobrir algo sobre ele. Bom, o signo sim, sabendo a data de aniversário, você descobre o signo... ele era de... escorpião... siiiiim, escorpião, que nem eu... Só que conforme os dias se passaram e as promessas de conversar, de pedir o msn, continuavam sendo só promessas, eu me frustrava, chorava muito, imagina estar afim de alguém tão tímido quanto você e não ter como nem sequer chegar nele... eu chorava mesmo... Daí quando ele largou o curso, eu, que já estava mal porque na mesma época uma tia minha morreu de acidente de carro e porque odiava ir pra aula, ele era o motivo que me fazia aguentar tudo, larguei a faculdade. Sei que parece estupidez dizer que larguei a vaga de uma universidade federal por causa de um menino, mas eu estava tirando a vaga de alguém que talvez quisesse mais estudar letras do que eu. No ano passado, 10 anos depois, eu garimpei o Google pra achar a lista de aprovados daquele vestibular e saber "por onde anda". Olha, eu não sei exatamente se ele casou, tem filho, é hétero, gay, não tenho essa informação, só sei que ele é inteligente pra caramba e continua reservado, o Instagram dele é privado... Ficou na cabeça o "e se...". Quando estudei Jogos Digitais, em 2013, só estudei com piá, mas a maioria já tinha namorada, na época eu estava apaixonada por outra pessoa e tive um melhor amigo, porém nunca foi amizade colorida, realmente foi amizade entre um rapaz e uma moça, sem segundas intenções. A irmã dele leu aquela versão de ST aqui no Nyah. Teve outro rapaz, o Miguel, mas infelizmente, também ficou só no "e se...".