Primeira e única
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Notas iniciais
— Até breve, meu amor!
Chorando, te abracei, desejando ir embora com você. Estávamos em seu quarto, onde em tantas outras ocasiões rimos, brincamos, estudamos, nos amamos, filosofamos sem chegar a nenhuma conclusão capaz de mudar os rumos do mundo. Aquele cantinho onde você passou boa parte da sua vida também te dizia adeus.
Sua mãe prometeu não tirar nenhum móvel do lugar, prontificando-se apenas a fazer limpezas esporádicas, pois por mais que não te trouxesse de volta, era como dizer que não importasse o que viesse a acontecer, você sempre teria um lugar para chamar de lar.
— Não chora assim que o meu coração fica apertado! — Você me pediu.
— Eu sei que a maior prova que posso dar é deixar você ir, mas eu não posso mentir que queria arrancar toda a dor do seu coração, trazer o seu pai de volta, fazer tudo ser como era no começo...
Você segurou no meu rosto, me olhou fundo nos olhos e aquela lágrima resignada que correu pelo seu rosto foi a sua resposta mais contundente aos meus tantos argumentos para não soltar sua mão.
— Me guarda aí dentro, Ceci. — Você fechou o punho direito e o levou até a altura do peito. — Eu volto!
— É esse o problema, amore! Você será o mesmo Cid que agora me pede isso? Porque eu não vou ser a mesma Ceci que você deixou.
— Você vai colocar outra pessoa no meu lugar?
— É mais fácil que você nem volte, justamente por ter encontrado alguém bem melhor do que eu.
— Não seja tão insegura, meu amor. Eu vou embora, dói em mim também, mas nesse momento eu não tenho condições de te dar o amor que você merece, eu não sei mais quem eu sou e se quem eu sou vai ser o bastante para você. Eu espero que você algum dia consiga me perdoar.
— Não se lembra de Love Story?
E nós repetimos juntos...
— Me escreve, pelo menos... — Você me sorriu, aquele sorriso de quem se esforça para não desabar na frente do outro.
— Se você me escrever também.
— Não sei se vou conseguir escrever umas três páginas frente e verso, mas vou dar um jeito de estar perto de você. Me manda foto, cartão, qualquer coisa, porque eu vou tentar até te ligar, se der... não sei se com o dinheiro que eu juntei, vou conseguir me manter por um ano, tudo vai depender do meu teste, se vai ser necessário ficar longe por um ano, mas não importa, eu preciso desse tempo e mais ainda de você, por mais magoada que você esteja, eu preciso do seu apoio.
— Não precisa gastar com correspondência, me manda e-mail. Eu vou imprimir e guardar tudo que você me escrever.
— Mas o e-mail me parece frio, impessoal, a fonte é padrão, eu vou me sentir um robô escrevendo...
— E eu não vou poder matar a saudade da sua letra... sim, é verdade, mas por outro lado, você pode me escrever quantos e-mails quiser... e quem disse que os seus sentimentos serão minimizados numa correspondência virtual? Você terá até mais liberdade para desenvolver seus sentimentos. Só, por favor, não me esqueça.
— Esquecer de você seria apagar justamente o que torna a minha vida um fardo suportável.
— Será que algum dia a gente vai se ver de novo?
— Vai. E a gente vai se abraçar apertado como se todo esse tempo que passou nunca tivesse existido, confia em mim!
— Eu sou meio impaciente, mas vou tentar não ser egoísta...
— Eu consigo, consigo de verdade entender como você está sentindo. No seu lugar eu não agiria diferente, também estaria devastado.
— Você... você é meu melhor amigo!
Voltei a chorar e você me abraçou. Chorei no seu peito e então demos o nosso último beijo, o último de verdade. Suas lágrimas molhavam meus lábios, eu sabia que precisava te deixar ir, mas ainda assim era difícil me convencer de que esperar era o verbo mais prudente.
Soltar a cordinha do balão. Guardar a última boneca dentro da caixa. Reconsertar o coração após perder a inocência. Num último beijo despedir-se de um amor que se faz eterno por sê-lo enquanto cada parte se prontifica a vive-lo com intensidade. Ressignificar a existência e as longas horas preenchidas pelo ar rarefeito da saudade. Aprender a dizer o seu nome em voz alta sem ser traída pelas lágrimas.
Na calada da noite lembrar do seu riso a preencher o ambiente, do quão quente era o seu braço, muito mais do que duas camadas de cobertores, daqueles instantes em que seu corpo pesava sobre o meu e o tempo passava no mesmo compasso do nosso amor, mas ser apenas uma confidência com a escuridão, meu toque não foi um substituto de você. A cama estava vazia e eu sentia tanto frio, aquele aperto no peito me perseguia porque eu conversava com muitas pessoas no meu dia-a-dia, mas aquela intimidade que eu tinha com você, não tinha com mais ninguém. Abracei o travesseiro na esperança de reconhecer o aroma do seu xampu, todavia nas fronhas haviam apenas as marcas de todos os meus gritos mudos, inconformados.
O travesseiro é a maior testemunha de todas as vezes em que fechei a porta do quarto e cobri o rosto para que ninguém do lado de fora ouvisse que sentir sua falta foi tudo que fiz por muito tempo, até me anestesiar e compreender que por mais forte que fosse nosso amor, não estávamos destinados a ficar juntos.
Seguir adiante não implica dizer que a lembrança não dói. É um daqueles espinhos que um amor posterior deseja arrancar do meu peito para que eu me entregue em plenitude, porém o que ninguém compreende é que me amar como sou também quer dizer isso, respeitar o meu passado, a minha história, até mesmo as marcas que outros amores deixaram, primeiramente porque cada amor possui a sua relevância.
Eu sei, você sabe... nosso amor se tornou aquela grande amizade... sei que posso contar com você, que se eu me esquecer da música do meu coração, você irá assobiar a introdução para me encorajar a cantar o restante... e eu te agradeço tanto por esse ciclo maravilhoso que vivemos, se não fosse você me mostrar que amar é para quem tem coragem, talvez eu nunca tivesse aberto meu coração tantas e tantas vezes para me permitir, simplesmente isso, curtir cada eternidade e recordar que apesar da presença dos espinhos, não necessariamente preciso endurecer meu coração e jogar sujo, ainda posso amar como se nunca tivesse sido ferida.
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