Primeira e única
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Naquela segunda-feira de fevereiro lá do ano 2000, quando acordei bem mais cedo do que o habitual e meu avô fez questão de me deixar na porta da faculdade, eu dava passos importantes para cruzar a ponte que separava a adolescência do início da fase adulta. Se enfrentei contratempos quando me despedi da infância, não seria diferente naquele momento em que a dinâmica do mundo se transformava.
Ao mesmo tempo em que todas aquelas meninas apinhadas num corredor vivenciavam semelhante situação, também eram concorrentes, ainda que tal termo seja refutado, não sejamos hipócritas, a sororidade feminina está bem longe de ser realidade. Elas pareciam ter se juntado em um grupinho e me excluído como se eu fosse uma intrusa. Apesar da insegurança e do medo, respirei fundo. Se suportei mais de 10 anos de escola, aos trancos e barrancos encararia cada um daqueles oito semestres.
Parecia até cena de novela quando você apareceu, um tanto quanto perdido quando adentrou a sala, vestindo uma camisa de algodão azul-escura, uma calça jeans Levi's, uma mochila preta, calçando nos pés um allstar azul-marinho e abrindo aquele sorriso tão amável que me contagiou.
Já te ocorreu o fato de um simples sorriso valer todo o seu dia?
Eu nunca tinha sentido nada parecido antes. Na escola, em geral, os meninos me ignoravam, isso quando não faziam piadinhas jocosas sobre a minha aparência. Por sorte, eu focava em estudar e nenhum deles também fazia o meu tipo. Contudo, com aquele olhar tão aprazível e um sorriso gentil, meu jovem coração disparou dentro do peito e quando você se apresentou em classe, sucinto em suas colocações, gravei o seu nome: Cid.
Aquelas meninas que se garganteavam queriam te impressionar, eu não sou nenhuma idiota, todas almejavam a sua atenção e enumerar todos os predicados era cômodo, não dizem que a primeira impressão é a que fica?
Murchei na carteira.
Eu era uma garota simples que morava com os avós em um prédio antigo que por sorte tinha elevador, meus conhecimentos em inglês não eram lá grande coisa e a viagem mais longa que eu tinha feito até então tinha sido dentro do Sul mesmo, nunca havia entrado num avião, não tinha parentes ricos e conhecidos, nem cursava outra faculdade no contra turno. Não era loira, não tinha olhos claros, nem mesmo possuía uma medalha na estante. Com isso, pensei, as chances de você me notar seriam bem pequenas, isso é, se você já não fosse comprometido.
Não, eu não desistiria do curso por um motivo tão frívolo, pois ele era uma pequena amostra do mundo. Tudo se supera. Beleza, inteligência, dotes. Cabe a cada um de nós entender nossa unicidade no Plano Maior e caminhar sem comparar nosso percurso com o do fulano que fala dez línguas, cursou o ensino médio fora do Brasil, toca piano e lê a obra completa de Shakespeare no idioma original. Eu não desperdiçaria todo esforço feito para que eu pudesse estudar. Era a única forma de eu mudar a minha história, construir o meu legado, tijolo a tijolo.
Sim, pode ser um pouco traumático ter de lidar com essa torrente de sentimentos provenientes de deixar a adolescência para ingressar na fase adulta.
Ironicamente, aquele que apenas se apresentou como Cid, me despertou mais interesse e curiosidade do que todas aquelas meninas que só faltaram contar a história do trabalho de parto delas para a classe ouvir. A boçal da Priscila seria capaz disso.
Apesar de ser bobo sentir ciúmes da Priscila por acreditar que ela, ao se apresentar quase como uma Mary Sue, teria mais chances de ser notada, eu me sentia sem graça, minha vidinha parecia tão boba, tão sem sentido, eu me encontrava paranoica por razões que antes me eram indiferentes. Eu nunca entrei nessas de gostar do menino mais bonito, de idolatrar ator, pagodeiro, roqueiro, carinha de boy band, nem vizinho, nem colega de turma. Nunca gostei de caras muito disputados porque nunca nem sequer tinha gostado de um cara até então. E eu tinha comigo que sujeitos desse tipo deviam ter um ego inflado.
Eu estava muito assustada e o fato de ser bastante introvertida também não colaborava. Eu não queria gostar de você. Eu não queria por nada nesse mundo que meu corpo me traísse quando você me cumprimentava e sorria, meu coração disparava, as borboletas no estômago entravam em cena, as pernas amoleciam e meu pensamento se dirigia a você.
Lá no começo, quando eu ainda mal conseguia balbuciar mais do que um cumprimento e ensaiava mil maneiras de me aproximar de você, pelo menos para me convencer de que tinha algum controle sobre os meus sentimentos, um simples sorriso valia todo o meu dia. Perdi a conta de quantas vezes me distraí no ônibus e parei no ponto errado, porém nem isso tirava minha paz porque lá estava eu, mais tarde, abraçando um travesseiro e a imaginar como seria se no lugar dele fosse você.
Eis que foi. E quando seus braços envolveram a minha cintura, a sensação de acolhimento, ternura e vontade de nunca mais te soltar foi incomparável.
Quando rolou o primeiro sorteio para trabalhos em equipe, fiquei sobrando e você disse ao professor que eu já estava no seu grupo, pois seria vexatório entrar num grupo aleatório com pessoas que nem sequer me dirigiam à palavra. Foi nesse dia que você pediu permissão para me chamar "só de Ceci". Combinamos de almoçar na lanchonete e depois passar na biblioteca para iniciarmos as atividades. Conversamos tanto que anoiteceu e você se ofereceu para me levar até em casa.
Os primeiros comentários que ouvi sobre você foram esses e os transcrevo na íntegra por ainda serem tão nítidos:
— Agora eu entendi por que essa menina vive distraída! — Iniciou vovô, pensando que eu estava dormindo. — Você notou que essa menina até parece que vive no mundo da lua?
— Que a Ceci sempre foi mais quietinha, eu sempre soube, mas eu bem que desconfiava que estava acontecendo alguma coisa, ah, eu sabia...
— Ele é namorado dela? — quis saber o meu avô.
— Não sei, ela não se abre, não fala nada, mas que rapagão bonito! Ela está apaixonada! Pela primeira vez na vida a Ceci está apaixonada! Agora eu percebo que o tempo passou... aquela nossa menininha espoleta, que jogava bola na rua com a molecada, trepava em árvore para brincar de pirata e nunca apareceu com ninguém, cresceu... não só cresceu, como está apaixonada! E que rapagão!
— Sei não, tem jeito de fanfarrão.
— Deixa de ciumeira, Ariosvaldo velho! Se depender de você, a Cecília não vai namorar nunca!
— Eu não quero que nenhum fanfarrão machuque a Cecília, ainda mais esse aí... vou confiar desconfiando...
— Ô homem ciumento! — ralhou vovó.
— Pelo bem da minha neta.
— É melhor você ir se acostumando, Ariosvaldo. A Ceci cresceu e agora vão aparecer muitos rapazes. Se não for esse Cid, vai ser outro... você vai cismar com todos?
Vovô se calou, mas com a cabeça no travesseiro eu me lembro de ter chorado.
Foi tão estranho chorar por estar apaixonada e ao mesmo tempo bom para lavar a alma e aceitar de uma vez por todas que, sim, havia acontecido comigo e se era inevitável, por que problematizar?
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