A pizza desceu com gosto de lágrimas. Tentávamos todos desviar o assunto porque verbalizar o adeus acentuaria a angústia. Era sua última noite no Brasil e ao lado dos amigos. As malas já estavam prontas, o voo marcado para o meio da tarde, nada te faria ficar. Nada nem ninguém.

Naquela noite dormimos feito dois irmãos cujos pais se encaminharam para a maternidade para o trabalho de parto do caçula. Abraçados, amedrontados, mas juntos. Cochilávamos, acordávamos, pelo menos o meu corpo doía sobremaneira.

O último café da manhã. Sua mãe disfarçando a voz embargada cantando uma música chiclete das muitas que faziam sucesso naquela época, a comida entrando sem sabor, sem ser verdadeiramente degustada. As malas no corredor. Ela te perguntando se todos os seus documentos estavam em mãos, te fazendo milhares de recordações e até alguns telefonemas gentis de pessoas que não puderam comparecer no rodízio de pizza que você marcou para a noite anterior, cujas fotos eu também guardo com carinho até hoje.

Suas pretensões de embarcar para fazer um intercâmbio sempre foram claras desde o princípio, você costumava dizer que se preparava para não morar em Curitiba, não por não gostar da Terra do Pinhão, do nosso sotaque, do nosso jeito de levar a vida, e sim porque era um aventureiro sem os recursos necessários para explorar o mundo. Aprimorar a fluência em inglês era uma das suas expectativas, entretanto, seu discurso salientava também que passar uma temporada noutro continente seria esplendoroso: conhecer outros costumes, outra cultura, observar as pessoas, a diversidade de pensamentos.

Eu sabia que você se aventuraria depois de formado e talvez nem voltasse mais para o Brasil, porém não era um assunto que me roubasse o sono porque havia chances de seus planos mudarem, em razão do curso, caso você fosse efetivado no estágio e emendasse uma pós-graduação, todavia, quando seu pai se foi, seu mundo ruiu e todo o resto perdeu o sentido.

Você me dizia que não havia mais tempo para desperdiçar, adiando planos, esperando a tal da condição perfeita para executá-los, porque até o mais primoroso dos planos pode ceder com um imprevisto e comentou você que eles são hábeis, sorrateiros, não deixam nada no lugar. O brilho dos seus olhos negros desapareceu por um bom tempo, a tristeza o nublou e a impressão era a de que nunca mais você voltaria a sorrir e fazer graça das coisas, que você havia sido enterrado junto com o seu pai.

Apenas amigos verdadeiros entenderiam que palavras, por mais reconfortantes que fossem, não aliviariam a dor, que você tinha o direito de se recolher, se sentir triste e vivenciar na carne o luto, para no seu próprio tempo retomar a vida do jeito que seu pai iria gostar de ver. Nesse isolamento, você poderia se reconectar com suas raízes e se entender melhor, se perdoar e recordar que apesar de nada mais voltar a ser como era, o que sobrou de você era o suficiente para recomeçar a jornada.

Em você a fonte de amor nunca deixava de jorrá-lo, de modo que você, por mais que tivesse um espinho no coração de lembrança daquela tragédia, ainda poderia ser inteiro e amar todas as pessoas que ficaram e as que ainda viriam a cruzar o seu caminho.

Notas finais
O Cid antes era só aquele cara gato e enigmático, mas conforme escrevo-o sob o ponto de vista da Ceci, começo a imaginar que aquele sonho inacessível pode ser acessível e se mostrar tão frágil quanto uma flor despetalada, com todos os seus espinhos. O sorriso de Cid escondia o sentimento de não ser um orgulho para o pai dele, de ser filho do meio e totalmente diferente do irmão mais velho, aquele que fazia tudo certo, tudo perfeito, ainda mais porque antes de se envolver com a Ceci, isso eu vou explorar melhor caso pintem ideias para criar histórias aleatórias de CeCid, ele se entendia como sendo gay, motivo pelo qual se sentia deslocado. Cid só se assumiu de verdade em 2017, publicamente, antes disso outros caras por despeito o acusavam e amigos íntimos sabiam, mas era tudo muito discreto. A Ceci teve uma amizade colorida com uma menina chamada Diana na adolescência, mas achou que foi só uma fase, que gostava era de beijar, abraçar, posto que os meninos da turma dela não a achavam bonita, daí ela se assustou quando conheceu o Cid porque a atração foi muito forte. Ele também se assustou: Ceci foi a primeira e única menina/mulher que ele amou! Nessas tramas eu não menciono muito a Diana porque ela terá o momento certo de ser inserida no contexto. Vocês entenderão.