Dylan Montgomery observou pela janela do carro em silêncio profundo, capturando com os olhos cada detalhe esquecido das ruas de sua cidade natal — que há muito não visitava.

Para manter a vista de fora, vez ou outra precisava erguer o punho e limpar o vidro embaçado da janela, manchado pelos pingos d’água daquele início de tarde chuvoso que era tão comum na Inglaterra.

Dylan não era o maior fã de Londres — a maior parte de suas memórias naquele lugar eram dolorosas —, mas ele tinha consciência de que aquele lugar, por mais difícil que fosse, era onde devia estar.

Onde sempre deveria ter estado.

Além disso, era uma bela cidade… Quantos lugares em Londres seriam cartões-postais espalhados pelo mundo? Ele apreciava coisas bonitas, e se apegava àquele pequeno detalhe como um consolo em seu retorno.

Embora não fosse um entendedor de artes, de vez em quando o rapaz gostava de representar suas visões em rabiscos num caderno — paisagens, rostos de estranhos ou a beleza de um animal parado.

Londres, sem sombra de dúvidas, seria um prato cheio de inspiração.

Seus pensamentos foram interrompidos quando o carro parou em frente ao Three Lights, um simpático restaurante com visual de trailer que exalava o clima de anos 80 — e não tinha absolutamente nada a ver com sua personalidade.

Ele sentiu a mão da tia apertar seu joelho, chamando sua atenção.

— Pronto?

O sorriso de tia Dara era ansioso, e Dylan se obrigou a retribuir.

Não acreditava estar pronto, mas sabia que nunca estaria. Mesmo assim, apertou a mão da tia materna com carinho, e acenou com confiança.

— Claro que sim.

Os Montgomery enlaçaram os braços, como costumavam fazer em momentos difíceis. Desceram do carro juntos, e juntos, seguiram até o restaurante.

♪

Damen Lopez não queria estar ali.

Mesmo que o Three Lights fosse seu restaurante favorito, nada jamais compensaria a desagradável presença de Byron Montgomery, seu pai biológico que há muito deixara de cumprir aquele papel.

Sentado entre Santana Lopez — sua mãe adotiva e tia paterna — e o pai, ele ainda não conseguia entender os motivos por trás daquele desnecessário reencontro.

Até onde sabia, aqueles meio-irmãos tinham sido distantes a vida inteira, e desde que havia se mudado para a casa de Santana, aos dez ou nove anos de idade, sua relação com Byron era basicamente inexistente.

Aparentemente, algo tinha mudado e su madre optara por estreitar os laços familiares.

A senhora Lopez era uma mulher forte em opinião e personalidade, e Damen a respeitava mais do que qualquer pessoa no mundo.

Também estava muito consciente de que reclamar só tornaria as coisas mais difíceis, então guardou os resmungos para si próprio, comeu o hambúrguer gigante e aproveitou seu milkshake favorito sem dizer nada, esperando ansiosamente pelo fim daquela tarde.

Quando pensou que seria impossível tornar aquela situação mais desagradável, Dylan e Dara Montgomery adentraram ao restaurante — e ele percebeu que aquela seria uma reunião e tanto.

Do outro lado do restaurante, Dylan prendeu o ar nos pulmões quando seus olhos encontraram as três pessoas reunidas na única mesa ocupada: Byron, Santana… E Damen.

Sua família — ou ao menos o que deveria ser sua família.

Sentiu as pernas se moverem sozinhas até lá. Puxou uma das cadeiras para a tia, e tomou o lugar vago ao lado dela, ajeitando o paletó azul enquanto disfarçava seu nervosismo.

Por dentro, sentia como se estivesse sendo lançado para o abismo — a ponto de afundar em águas geladas, profundas, sem nenhuma perspectiva de salvação.

Por fora, Damen só conseguia enxergar um garoto rico, que certamente havia passado toda a vida sendo mimado pela criação da tola Dara, sua tia materna.

— Que estranho ver o herdeiro dos Montgomery em um lugar como esse. — Zombou, incapaz de conter a acidez na voz.

Dara sorriu afável, como sempre.

— Não seja bobo, Dam. É um ótimo lugar, e Santana achou que se sentiria melhor aqui. É o seu restaurante favorito, não é?

Santana Lopez acenou em concordância, mas não falou muito. Ela nunca tinha se sentido confortável perto dos Montgomery, embora soubesse que precisaria conviver com eles daqui para frente.

— Vieram visitar?

Os lábios de su madre se estreitaram diante a pergunta, mas foi Dylan quem o respondeu.

— Não, irmão.

Os olhos castanhos de Damen se ergueram na direção do mais jovem.

— Voltamos para ficar.


~ ♫ ~


Notas finais
Um bom filho a casa retorna. Escrever sempre foi a coisa que eu mais amei fazer e depois de anos, consegui voltar ao que me faz feliz, concluindo meu primeiro trabalho original. Primeira Melodia é o primeiro livro da duologia Em Família - que já tem seu primeiro rascunho completo. Depois de terminar o segundo livro, decidi tomar coragem para voltar ao site que um dia minha casa e compartilhar com boas almas que tenham vontade de espiar. Bem-vindos à família Montgomery! Espero que meus personagens - apesar de suas problemáticas - conquistem seu coração assim como conquistaram o meu. Aos leitores das minhas fanfics inacabadas (não sei se algum deles viria para cá depois de tanto tempo, mas acho justo dar uma justificativa), quero esclarecer que The King e 50tdU nunca sairam do meu coração. Podem levar anos (e já levaram anos), e eu não prometerei um momento certo, mas tenho a esperança de conseguir terminá-las algum dia, independente do número de visualizações. Se você era um leitor antigo que chegou aqui de alguma forma, espero que também se apaixone por personagens criados pela minha mente. sz