Primeira Melodia

2 CAPÍTULO I – Alice.


Alice Cornélia Darcy sempre foi uma garota romântica.

Talvez fosse culpa das músicas que criava, das histórias que lia ou dos filmes que via, mas ela acreditava em finais felizes, mesmo que nunca tivesse sido uma garota muito alegre.

Na realidade, tinha vivido de forma solitária ao longo de seus dezesseis anos de idade, apesar dos privilégios inegáveis de sua posição — crescera como a filha única de uma executiva rica e um ator bem-sucedido no mundo do teatro, que hoje se dedicava à produção das próprias peças.

Embora seus pais fossem igualmente ocupados, Alice era especialmente apegada ao pai, que a tinha introduzido ao mundo da música.

Ela tinha apenas cinco anos quando Robert Darcy a puxou para o colo e ensinou quais teclas devia pressionar para reproduzir Clair de Lune, e gostou tanto da melodia que nunca mais parou.

Desbravou novos sons e arranjos e descobriu-se em um infinito mundo de possibilidades nas notas musicais. Hoje, orgulhava-se de ser o maior nome da música clássica da British Arts School.

A música era a coisa mais real em sua vida.

Ela não era muito boa em palavras, mas com o piano, a coisa era diferente: se tocava algo triste, as pessoas na plateia enxugavam as lágrimas e se escolhesse algo alegre, todos se levantavam para aplaudi-la antes do fim da música.

Transmitir seus sentimentos a um público a fazia se sentir viva, e era a única coisa capaz de acelerar seu coração — ao menos até seus quatorze anos, quando pela primeira vez, algo além da música capturou sua atenção.

Damen Lopez era dois anos mais velho, mas Alice o conheceu na turma avançada de piano da British. Na ocasião, o garoto tocou uma música tocante que ela não conhecia, e Alice não conseguiu mais tirar os olhos dele.

Lopez era um conquistador, e graças à sua personalidade carismática, conseguia ser amigo de todos ali — inclusive ela, uma jovem musicista, introvertida ao ponto de ser considerada estranha por seus pares.

Ally passava os dias em seu próprio mundo, com a música alta sempre ligada aos ouvidos e os olhos perdidos entre partituras e anotações para suas criações.

De vez em quando, seus colegas se viam no direito de tentar fazer graça com ela.

Kloe Smythe, em especial, adorava assumir o papel de vilã em sua história: sumia com seus fones e CDs, roubava os livros de seu armário e rabiscava suas composições, caso Alice cometesse o erro de esquecer o caderno na sala de aula.

Sendo filha de um dos professores mais queridos da instituição, ninguém reparou — ou se importou — com a implicância particular da senhorita Smythe sobre a esquisita do piano... Ao menos até o último ano, quando indo contra todas as expectativas, Damen mudou seu destino.

Para a surpresa de toda a British, ele pediu Alice em namoro em uma tarde de neve em seu último ano escolar — e ninguém entendeu nada.

Ela era uma garota com poucos amigos e uma quota de fobia social, mas o relacionamento automaticamente aumentou seu status. De repente, ela não era mais tão estranha assim.

Tinha sido um ano mágico e feliz, mas o conto de fadas terminara ao fim do ano letivo, quando Dam deixou o colégio para estudar música na faculdade.

Ela sabia que retornaria à base da pirâmide social — e honestamente não se preocupava tanto com isso, embora a perspectiva de retornar a ser um alvo da senhorita Smythe não a agradasse em nada.

O que a preocupava era a consciência de que sua relação não seria a mesma.

O mundo universitário era cheio de novas experiências e Damen Lopez, definitivamente, era um viciado em aventuras.

Ally não se considerava grande coisa: tinha uma altura mediana (mais baixa do que alta), cabelos castanhos ondulados problemáticos e uma tez pálida. Seus seios eram pequenos demais, os olhos escuros comuns e suas conversas, sem graça.

Quando a distância os afastasse, Damen não teria muito a perder abrindo mão dela.

Ele era dono de uma personalidade naturalmente paqueradora, e não era difícil imaginá-lo interagindo com mulheres mais velhas, mais interessantes... Conversando coisas que iam muito além da música que os uniu um dia.

— All, o café está pronto!

A voz da mãe a despertou dos devaneios.

Alice sabia que precisava sobreviver àquele ano, e percebeu que o primeiro passo devia ser justamente evitar pensamentos como aquele.

No primeiro dia de seu penúltimo ano escolar, ela vestiu o impecável uniforme azul que carregava o brasão da British. Ajeitou os cabelos castanhos com sua tiara vermelha favorita e ligou o CD Player no volume mais alto antes de descer até a cozinha.

No balcão, um sanduíche com pasta de amendoim a esperava, ao lado de uma xícara com chocolate quente. Ela ignorou a tigela de cristal carregada de frutas e comeu, espiando a mãe no sofá, ocupada com o trabalho no notebook corporativo.

Ao longo do café da manhã, seus olhos inevitavelmente perderam-se na sucessão de fotos que registravam seu crescimento presas à geladeira.

Na primeira imagem, uma garotinha de cabelos escuros tocava piano com o pai e na sequência, a mesma garotinha posava ao lado de sua melhor amiga na primeira aula de ballet.

Uma premiação no primário, quando os professores começaram a tratá-la como uma espécie de prodígio, seguida por sua entrada no colégio, apresentações elegantes… E ao lado de toda sua história, uma única foto da verdadeira filha da família Darcy: Amanda.

Ela era um bebê recém-nascido perfeito, eternamente parado no tempo — uma lacuna eterna no coração de seus pais.

Alice sabia que os Darcy a amavam, mas de vez em quando, em seus momentos melancólicos, se perguntava como seria aquela família se pudessem ter criado sua filha de verdade, ao invés de uma substituta.

Talvez todos se juntassem à mesa do café, por exemplo.

— Querida.

Ela se voltou para a mãe, que afastara um dos fones de sua orelha.

— Seu amigo está buzinando lá fora.

Alice recuou a cadeira e, pela janela da cozinha, enxergou o carro de Damen parado na entrada de casa. Segurou o resto do sanduíche com a boca ao se levantar, ajeitou a bolsa no ombro e partiu, deixando a mãe com o aceno antes de correr para fora de casa.

♪

Damen recebeu a namorada com um beijo carinhoso.

Colocou uma música que sabia que ela gostaria de ouvir no rádio, fez perguntas superficiais sobre a última semana de férias e escutou um breve resumo de Ally sobre a estadia na casa dos avós paternos.

Ficou tão aliviado ao perceber que ela estava distraída o bastante para não perguntar sobre o final de suas férias, que só notou o nervosismo de Alice ao estacionar o carro em frente à British.

Damen pousou a mão no joelho dela, que se movia em um tique nervoso, e sorriu quando os olhos escuros se ergueram em sua direção.

— Tudo bem?

Alice engoliu em seco e acenou, mesmo que não se sentisse bem.

— Não fique assim... Tudo vai dar certo, Ally. Tenho certeza que vai ter uma penca de aulas com Amélia e Bells.

Ele deu um beijo delicado no rosto da garota, que acenava com incerteza.

— Obrigada pela carona. — Ela tentou sorrir.

Inclinou-se para roubar um beijo tímido do rapaz, e desceu do carro antes que seus receios pudessem atrasá-lo.

Do carro, Damen a observou correr pelo estacionamento até as escadas de pedra que abririam caminho aos prédios do colegial — mas a perdeu de vista quando um carro prateado estacionou em frente ao seu.

De lá, Dylan Montgomery surgiu — ajeitando o paletó impecável do uniforme perfeito.

Ele se despediu do motorista com um agradecimento polido e tomou o mesmo caminho de Ally, mantendo os ombros erguidos e a expressão tranquila, como se já fosse um dos donos da escola.

Damen se sentiu nauseado.

Ligou o carro, deu partida e saiu de lá o mais rápido que podia.

♪

Alice parou de andar quando Kloe se colocou à sua frente, como uma parede inconveniente.

— Parece que estamos juntas de novo, Darcy.

Apesar de ouvi-la perfeitamente, ela retirou um dos fones e fez-se de desentendida, franzindo o cenho com falsa inocência e murmurando um “perdão?”, enquanto torcia para que a Smythe apenas revirasse os olhos e a deixasse passar.

— Pensei que tinha perdido esses antes das férias.

Ela puxou os fones cor-de-rosa sem cuidado ou permissão, e Alice encolheu os ombros quando o cabo soltou do CD Player com um estalo preocupante.

— São novos... — Tentou fingir indiferença. — Sempre me dão fones de presente.

— Nem consigo imaginar o porquê.

Kloe devolveu os fones com um suspiro desinteressado, ao mesmo tempo em que retirava a tampa de seu copo de café para dar um gole curto.

A Darcy permaneceu parada, sem saber ao certo como agir.

Quando Kloe deu um segundo gole, mantendo os olhos castanhos fixos em seu rosto, ela acenou suavemente em uma despedida silenciosa, e tentou dar um passo à frente nas escadas, ansiosa para se livrar de sua Nêmesis.

Mas nada era fácil com Kloe Smythe.

Não tão inesperadamente, ela se virou em sua direção — quase como se tivessem ido para o mesmo lugar por coincidência — e tropeçou em um degrau de um jeito que fez o copo aberto voar de sua mão na direção da outra.

O gritinho surpreso — falsamente assustado — não a convenceu em nada.

— Opa!

Alice pestanejou ao sentir seu corpo derrapar dois degraus abaixo — alguém puxara na direção oposta do copo fumegante.

Sua cabeça bateu em algo firme e os fones caíram sobre a escada, esquecidos pelo susto. Os braços de seu salvador envolviam seus ombros firmemente, impedindo que se esborrachasse também.

— Desculpe...

Ele murmurou quando a viu se desvencilhar, mortalmente envergonhada.

— Tentei evitar o acidente, mas você quase caiu... Aqui, isso é seu.

Era um novato, percebeu.

Por alguma razão, isso só tornava o constrangimento ainda maior.

Engolindo em seco, a Darcy acenou com a cabeça — era incapaz de erguer o rosto para encará-lo, e manteve os olhos fixos nos fones que ele colocou em suas mãos.

— Obrigada... Eu tenho que ir.

Murmurou baixo, ao mesmo tempo em que ajeitou as pecinhas em sua orelha e correu na direção do prédio.

Dylan observou, em silêncio, a garota correr para o prédio como se fugisse do diabo — os cabelos castanhos saltitando graças aos passos acelerados e a fita vermelha torta pela quase-queda que ele tinha provocado ao puxá-la.

— Ah, muito obrigada! Você foi um herói.

Voltou-se para aquela que devia ser a garota malvada de seu novo colégio.

O sorriso dela era tão doce que por um momento, ele se perguntou se tinha entendido mal a situação. Talvez ela só fosse desajeitada, afinal...

— Kloe Smythe.

Ele apertou a mão estendida.

— Dylan... Você se queimou? — Inevitavelmente, se voltou para o caminho que a garota da fita tomara. — Porque acho que aquela menina pode ter se machucado... O café pode ter pegado na perna dela ou algo assim.

— Ah, não... Eu estou bem, tenho certeza que ela também está. — Ela riu, dando tapinhas descontraídos no ar. — Você foi o herói da manhã.

Apesar do sorriso gentil no rosto delicado, Dylan percebeu que a senhorita Smythe não parecia particularmente preocupada com a ideia de ter ferido uma colega.

— Então você é um dos novatos?

— Ah, com certeza. — Ele concordou. — Por isso preciso me apressar. Me encontrar, sabe?... Nos vemos por aí, senhorita Smythe.

Despediu-se com um aceno, torcendo para não topar com Kloe Smythe de novo tão cedo — ele já tinha tido sua cota de bullying ao longo da vida, e não pretendia se envolver com alguém assim.

Mas Kloe o segurou pelo braço, impedindo sua fuga.

— Na verdade, eu sou sua guia hoje, Dylan.

♪

Dylan nunca se sentiu confortável com garotas.

Tia Dara se culpava por tê-lo colocado em escolas para garotos desde o início da vida, mas ele ficava sinceramente muito feliz em não ter sido obrigado a lidar com meninas em sua primeira infância.

Como qualquer Montgomery, Dylan era popular em certos ciclos sociais — uma vantagem de seu sobrenome, não de sua personalidade. Mas embora soubesse lidar com pessoas, isso não significava que gostava disso.

Garotas, especificamente, o deixavam tímido demais.

Ele também nunca tinha se interessado o suficiente para se envolver com uma delas — nem no sentido romântico, nem em nenhum outro —, então preferia evitá-las.

Kloe Smythe era linda — dona de uma pele oliva quente, cabelos castanhos na altura dos ombros, olhos negros e um rosto oval com traços harmoniosos que o atraíam —, mas era insistente ao ponto de ser desagradável.

Ela o arrastou para cada canto do colégio, incluindo os que ele não tinha a mínima vontade de conhecer.

Dylan não demorou a perceber que devia tê-lo reconhecido como um Montgomery. Tinha total consciência de que não era uma pessoa interessante o bastante para chamar a atenção de uma garota bonita, muito menos uma garota popular.

— Você vai ficar para a apresentação?

Ela perguntou de repente. E embora não tivesse a mínima vontade de socializar, ele se forçou a sorrir.

— Claro... Vai participar?

Como a maior escola de artes em Londres, o primeiro dia letivo na British Arts School era basicamente uma grande vitrine para atrair novos alunos ricos.

Com apresentações de todos os tipos, e arte de todos os gêneros espalhadas por cada corredor da escola, não era de se surpreender que o preço para ser um aluno daquele lugar fosse tão alto.

Dylan podia adorar artes, mas só estava ali pela tia, que tinha frequentado a British em seus anos dourados, e tinha memórias tão preciosas que basicamente empurrara o sobrinho com a esperança de que ele aproveitasse tanto quanto ela.

Kloe passou os próximos vinte minutos falando sobre sua canção — trecho de alguma peça que o rapaz não se importava em conhecer.

Durante aquela falação, ele se distraiu com os quadros expostos pelos corredores, assinados pelos novos colegas.

Percebeu alunos arrastando coisas para lá e para cá — para a preparação do grande evento, imaginou — e se perguntou se a senhorita Smythe devia mesmo estar ocupada com um novato em um dia tão importante.

Em um corredor do segundo andar, uma sucessão de fotos mostrava uma linhagem de músicos de sucesso formados pela escola. Com as mãos afundadas nos bolsos, Dylan caminhou lentamente, os olhos atentos à parede, analisando cada retrato...

Até parar em frente ao de uma mulher que ele sabia não ser musicista.

— Você quer entrar?

Ele franziu as sobrancelhas, saindo de seu transe particular, e voltou-se para Kloe com os olhos confusos.

— É a sala de música. — Explicou. — Se quiser entrar... A responsável é a senhora Winter, que é meio chata, mas deve estar ocupada com o palco.

Com as mãos nas costas, ela se aproximou com um sorrisinho cúmplice.

— Deve estar vazio há essa hora.

Mas havia alguém lá, quando Kloe abriu a porta.

Inicialmente, Dylan só conseguiu ver as costas do uniforme e os cabelos castanhos pesados de uma garota, contidos por fones de ouvido enormes, que o impediam de ouvir a melodia do piano que ela tocava.

Ele se aproximou devagar, curiosamente, dando a volta no instrumento — e imediatamente reconheceu a moça da fita vermelha que tinha salvado do café de Kloe naquela mesma manhã.

Ela estava imersa na própria música, tão distraída que não os notou.

— Você não devia estar aqui.

Kloe havia puxado o plugue dos fones, mas Dylan só ouviu duas notas antes da desconhecida percebê-los.

Ela respirou fundo antes de afastar os fones da cabeça.

— Eu devia. — Explicou delicadamente. — A senhora Winter me pediu para testar o piano antes de levarem ao palco para a apresentação...

E então, os olhos negros foram de um, para o outro.

— Vocês deviam estar aqui?

A pergunta soou inocente, mas Dylan percebeu a satisfação da estranha ao devolver o constrangimento à Smythe — que enrubesceu como se tivesse recebido um ataque.

Ele cruzou os braços ao se voltar para a guia.

— Parece que não devíamos estar aqui. — Brincou com um meio sorriso, mas Kloe estava irritada demais para retribuir com leveza.

— Dylan Montgomery.

Dylan estendeu a mão para a garota do café, que não parecia reconhecê-lo.

— Alice.

Quando apertaram as mãos, percebeu que a pianista evitava seus olhos.

— Você estava bem concentrada. Nem nos ouviu entrar...

Inclinou a cabeça inconscientemente, tentando capturar o olhar dela.

— Ah... Sim, eu acabo deixando os fones altos demais.

— Vai acabar surda. — Ele voltou a sorrir. — Devia ter tocado para ouvirmos. Todos aqui são fãs de clássicos, não é?

Alice finalmente sorriu, como se a ideia a divertisse.

Quando os olhos escuros se ergueram brilhantes, dando uma visão completa do rosto bonito, Dylan sentiu uma pancada na boca do estômago, e perdeu o fôlego momentaneamente.

Ela era parecida com Kloe, mas os cabelos eram mais densos, longos e ondulados. Seus olhos eram mais redondos e mais escuros e a pele pálida parecia não ver o sol há um tempo...

— Nem tanto...

A anfitriã bufou alto, chamando a atenção dos dois.

— Eu ainda preciso te mostrar o resto da escola. — O lembrou.

— Hunter não costuma fazer essas coisas?

Kloe comprimiu os lábios e encarou Alice com irritação.

— Ele está ocupado com as apresentações.

Hunter Bedwyn era o representante do conselho estudantil e sempre estava ocupado, mas isso nunca o impedia de mostrar o colégio aos novos colegas. Afinal, aquela era uma das atividades mais importantes de seu cargo, e até onde Alice sabia, o tour era sempre conduzido em grupos — não de forma individual.

Kloe devia estar muito interessada naquele cara para perder seu tempo bancando a guia turística em um dia de festival.

— Hunter?

Voltou sua atenção à Dylan.

Ele era inegavelmente bonito... Tinha ombros largos e uma postura de gente importante. Cabelos fartos cuidadosamente ajeitados em um penteado com gel e os olhos castanhos claros que brilhavam em curiosidade.

Alice o reconheceu como a pessoa que a tinha resgatado na escada pelos pingos de café que maculavam seu uniforme quase perfeito, mas não era corajosa o bastante para voltar a agradecê-lo.

No fundo, esperava que ele não notasse que era a garota desastrada daquela manhã, embora seu uniforme também tivesse ficado manchado pela travessura da senhorita Smythe.

— Hunter é um dos representantes do conselho. Geralmente, ele leva o grupo de novatos para conhecer o colégio juntos... Mas Kloe está certa. Ele deve estar ocupado hoje, é um dia agitado.

Pela expressão da pianista, Dylan não achava que ela acreditava naquela história.

— Então somos todos colegas?

Mais uma vez, Alice sorriu para ele — um sorriso tímido enquanto olhava diretamente para seus olhos, que fez um enxame de borboletas inconvenientes se agitarem no estômago do Montgomery.

Ele se obrigou a quebrar o contato visual, nervoso demais com aquela sensação.

— Uma hora vou te ver tocar, então. — Pigarreou.

Nenhum dos dois se importou quando Kloe saiu da sala, batendo a porta.

— Imagino que ela não seja uma de suas fãs.

Os ombros de Alice murcharam.

— Nem de longe...

Dylan tentou espiá-la mais uma vez, se sentindo meio idiota em estar nervoso por uma troca de olhares. Preferia não lidar com garotas, mas num geral não era tão ruim assim quando conversava com elas.

— Você tem muitos fãs?

A garota franziu os lábios, refletindo antes de negar.

— Aqui? Não muitos...

— Então não deve ser tão boa assim.

Estalou a língua, esperando que ela entendesse a brincadeira..., mas Alice estreitou as sobrancelhas como se realmente estivesse cogitando aquela possibilidade. Deu de ombros e concordou, contendo uma risada sem jeito.

— Talvez eu não seja.

Ele abriu a boca, apavorado com a ideia de tê-la ofendido, mas Kloe voltou a aparecer antes que pudesse explicar a brincadeira — o lembrando, de um jeito nada gentil, que precisava terminar a tour antes de sua apresentação.

Alice voltou a colocar os fones enquanto ela reclamava, e ele notou que devia se desculpar depois, ao invés de voltar a interrompê-la.

Eram colegas, afinal...

Iriam se ver de novo, e ambos ficariam mais confortáveis longe da presença de Kloe.

Pensando nisso, ele seguiu sua anfitriã até a porta — espiando Alice uma última vez antes de fechar a porta da sala de música.

~ ♫ ~

Notas finais
Sempre gostei da sensação ler história e sentir que mesmo personagens secundários são os protagonistas de suas próprias histórias. É assim que eu escrevo e, por isso, Em Família é uma história grande, e com coadjuvantes guiados por sua vida própria. Apesar do capítulo gigante, espero que quem ler possa se divertir do mesmo jeito que eu me diverti ao escrever sz