Primeira Canção
1 Viagem
Notas iniciais
Beijinhos da autora louka akii!
Boa Leitura !~
Ela ficou calada por toda a viagem, os fones de ouvido atolado em seus ouvidos no volume máximo, até sua mãe, sentada no banco da frente dirigindo, podia escutar com nitidez o rock pesado que se passava no MP3. Desde que havia saído de casa e pisado dentro do carro começou a pensar na mesma coisa. A razão que a havia levado a viajar ainda era uma incógnita, até mesmo pra ela. Passar o verão todo com o pai não era algo que estava em seus planos, pegou-a desprevenida e ninguém sabia o que tinha acontecido pra aceitar a proposta.
Ela e seu pai não se davam bem desde a separação, há dois anos. Fazia 18 meses que não falava com ele, e isso não a incomodava. As cartas que seu pai a enviava estavam na gaveta de sua cômoda bem lá no fundo para que fugissem de sua vista, nenhuma aberta. Ela apenas as pegava na caixa do correio e colocava no guarda roupa sem ao menos olhar diretamente pra ela. Sua mãe sempre a dava broncas por fazer isso, mas de uns tempos pra cá, ela não dava a mínima atenção ao que sua mãe dizia ou não dizia, apenas entrava em um ouvido e saia no outro. Os telefonemas nunca eram atendidos e as visitas nunca aceitas, ela sempre dava um jeito de sair no dia de sua chegada e voltava no dia seguinte quando ele já havia saído, com a desculpa de que dormiu na casa de uma amiga.
Na verdade virava a noite em uma boate qualquer e depois ia dormir em uma amiga, voltando no horário exato em que seu pai saia de casa. Sempre fora assim depois que ficou sabendo de toda a verdade. sempre fora assim depois que os viram discutindo no quarto aos sussurros achando que ela já estava na cama, em uma noite fria de junho.
Perdida a esses pensamentos nem percebeu que já estava na metade do caminho. Sua mãe parou o carro e desceu dando conselhos para que ficassem no carro, quietos, já que seu irmão não parava de se debater no banco de trás, para que ela fosse buscar algo para comer.
Pela expressão facial da Sra. Swan ela não estava muito feliz por ter que dirigir de Santa Catarina até Angra dos reis. Nunca foi muito fã de volante ou cozinha. Sempre preferiu pegar um taxi para ir ao trabalho ou até mesmo um ônibus lotado do que ficar a frente de uma maquina de “alta periculosidade”, como costumava dizer. Seus meninos sempre deram graças a Deus por isso, ela não era o que se podia dizer ótima motorista, na verdade não chegava nem perto de ser boa, era razoável apenas.
Nesse tempo de viagem mãe e filha já haviam trocado de posição quatro vezes. Para nenhuma se cansar dessa tão entediante estrada. Algumas pessoas a achavam interessante, com o horizonte se estendendo em uma linha reta ao longe, em um beijo com o céu azul límpido, como ele estava naquele dia. A vegetação escassa a imensidão de barzinhos e lanchonetes com uma higiene não exemplar. Ela não achava nada disso bonito, a única coisa que queria agora era estar no seu quarto, escutando um rock pesado e escrevendo coisas sem nexo que vinham sempre da idéia insistente da sua cabeça que consistia em um romance mal acabado. Eram apenas frases, uma abaixo da outra, como uma musica. E era essa comparação que tanto a irritava.
Quando criança gostava de ouvir o pai tocar o piano de cauda preto que existia em sua sala de estar. Aprendeu a tocar as mais difíceis canções, apresentou-se para pessoas importantes com menos de quatorze anos de idade. Poderia entrar facilmente em qualquer escola de musica sem ao menos fazer uma audição simplesmente pela sua fama singular que desenvolveu ao longo do tempo como musicista. Amava tocar, era sua paixão. Uma paixão desmoronada após saber toda a verdade.
Seu pai achou melhor levar o piano para a casa de praia, onde mora atualmente. Ela corria um serio risco de destrui-lo a qualquer momento, devido aos acessos de raiva que ela tinha causado pelo estresse, que ninguém nunca descobriu de onde veio.
Já tentou vários psicólogos. Foi forçada a fazer uma porção de exames para saber seu verdadeiro estado mental. Não encontrou nada. Nada. Nenhum vestígio. Nem mesmo a famosa depressão – como todos os médicos gostam de apelidar uma tristezazinha passageira, não que todos os casos sejam dessa maneira. após varias tentativas fracassadas de descobrir se sua filha era louca, Sra. Swan optou pela decisão mais trágica. Ela não soube educá-la muito bem.
Voltou a prestar a mínima atenção ao que seu irmão dizia no banco de trás. Falava coisas, como se ela estivesse escutando, como as praias de lá eram lindas e como essas seriam as melhores ferias de sua vida, porque seria a primeira que passaria apenas os três, sem sua mãe para dizer para parar de comer doces ou ir dormir cedo. Mas de uma hora para outra ele parou de falar e se virou para sua irmã com olhos cautelosos. Vendo isso ela tirou os fones e esperou que ele dissesse a primeira palavra.
– Bella, promete uma coisa pra mim? – ela apenas esperou que ele continuasse – promete que vai dar o seu melhor para que essas férias sejam as melhores possíveis? Que não vai fazer papai chorar como faz com a mamãe todas as noites? Que vai se comportar e pelo menos uma vez na vida será uma boa garota?
Ela considerou aquilo por um momento. Primeiro se prendeu ao fato de ele saber que sua mãe sofria por sua filha ser uma rebelde sem causa, que se envolvia com uma galera da pesada. Segundo, ela viu que aquilo era sincero, que ele realmente queria que tudo desse certo. E por ultimo, mas não menos importante ela percebeu que daria tudo de se, apenas para ver um sorriso de alegria brotar daqueles olhos lacrimejantes do garoto que tanto amava.
Seus devaneios foram interrompidos por ver sua mãe entrar no carro com um pacote nas mãos e reclamando do quanto demorou o atendimento e blá blá blá. Voltou a por os fones de ouvido e se concentrou naquela paisagem detestante.
Depois de uma curva para a esquerda a paisagem começou a tomar forma. Antes as montanhas detestáveis para as praias na baixada. Eram lindas, claro não havia como negar. As águas quase verdes que apenas Angra tinha, combinando com a areia branca e fina e pedras que exibiam uma forma perfeita em lugares estratégica e acidentalmente estonteantes.
Sua mãe percorreu as ruas da cidade com extrema rapidez, como uma conhecedora nata dos arredores. Considerando o fato de que ela era nascida e criada ali isso não era de se surpreender. Parou em frente a uma casa grande, mas não muito luxuosa em uma rua quase deserta que dava vista nos fundos para uma praia desocupada, que era sempre assim. Felipe foi o primeiro a descer, correndo para os braços do homem de cabelos grisalhos, parados na varanda com um sorriso garboso no rosto. Sra. Swan foi a segunda, antes de mais nada suspirando e depois abrindo a porta.
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