Primavera Tempestuosa
8 Temor superficial
Notas iniciais
Temor Superficial
As sombras quase não podiam ser vistas, moviam-se com rapidez e agilidade. Eram poucas, quatro ao todo. Todavia, não eram apenas sombras, muito mais do que aquilo; homens, com os olhares mais corajosos possíveis, isso para quem avistasse os olhares, pois sua rapidez era impressionante.
Não demorou para que os quatro homens adentrassem os locais mais nobres do palácio. A Vila da Folha era também conhecida por sua estabilidade, alguns nobres e outros pobres, mas uma vila rica e sua riqueza maior pertence a tribo Uchiha, ou melhor, pertencia.
O mais alto e mais musculoso, acenou do outro lado para que ambos os homens se escondessem entre os pilares, todos fizeram o ordenado, ninguém estava disposto a desobedecer o príncipe Uchiha, pois hoje estava com um humor pior do que o diário.
Sasuke Uchiha fez um pequeno sinal com a mão, algo como um “Fiquem onde estão” e pôs-se a caminhar com destreza entre as sombras do local, estavam no salão de danças, onde ocorriam as festas e bebedeiras dos cavalheiros.
Mas depois de alguns minutos e algumas técnicas silenciosas — para que os guardas dormissem —, finalmente encontrava-se em seu destino; os aposentos de Tsunade Senju.
Não bateu a porta, afinal não estava para lhe fazer uma visita e sim para estabelecer um acordo, e caso não o fosse feito, a sua vingança tornar-se-ia o principal.
— Tsunade — a pegou desprevenida, é claro, Tsunade não esperava sua pequena visita.
Virou-se repentinamente, naquele momento escovava seus longos cabelos dourados enquanto apreciava seu saquê, mas a voz — inconfundível — tirou-a de seus caprichos e prazeres.
— Não ouse! — sussurrou Sasuke, alertando-a antes mesmo que Tsunade gritasse por ajuda.
— Mate-me, Uchiha. Se o fizer não sairá bem, sabe disso — nada mais era prazeroso a Sasuke do que ver sua inimiga com medo, temerosa, mesmo que não aparentasse, ela era boa em esconder seus sentimentos, por fim.
— Desde quando tornou-se tão medrosa, Tsunade? Se não me falha a memória, era uma das mais temidas da tribo, ou não lembra-se que fez parte da tribo Uchiha um dia? — caminhou entre os móveis, o quarto era enorme e Tsunade encontrava-se longe de Sasuke, mas a distância ficava menor a cada passo dado pelo Uchiha.
Sasuke percebeu o quão simplório era o aposento de Tsunade, ao contrário do que ditavam as histórias, todas decretando que as paredes tinham o tom dourado e podiam ser confundidos com os cabelos de Tsunade, mas não passavam de histórias feitas por algum fanático.
— Diga o que quer, Sasuke. — antecipou-se antes de qualquer palavra, Sasuke parou subitamente, seus olhos miravam os castanhos medrosos de Tsunade.
Ela sabia o motivo dos olhos vingativos do Uchiha, ela sabia, mas não admitia que a culpa era sua, porque no final de tudo, não era.
Entretanto, como dizer isso a um Uchiha? Como convencê-lo de que ela não foi a culpada pelo sangue nas mãos dele, pelo sangue dos próprios companheiros, pelas vidas que tirara? Pensara nisso por trilhões de vezes, mas não chegara a conclusão alguma. Sentia-se medrosa, mas jamais diria isso a ele, jamais imploraria por sua vida, porque no fim de tudo, ela era e sempre seria Tsunade Senju, aquela que prometeu cuidar de ser reino.
— Matou todos eles. Todos. Um por um, você tirou a vida deles, os torturou, os estuprou, os matou. Todos eles! — vociferou Sasuke, a fúria estava sendo contida, por um certo tempo ou tudo despencaria com a vinda dos guardas para lhe prender.
— Não, eu não o fiz. Não dei ordem para que matassem o seu povo, sequer eram meus homens — a verdade encontrava-se em seus olhos e suas palavras, mas não era vista pela fúria que Sasuke sentia.
Sentimentos podiam ser as armas mais lentais do processo, pois elas não só o denunciava, como também o omitiam da verdade, pois a raiva era demais para poder ver o que lhe era mostrado, ela ocultava a verdade e matava os inocentes.
— Fez um acordo com os da Areia, não fez? Queria nossas terras, queria vingança, você sempre quis. Depois que os Senjus morreram por causa dos Uchihas, você quis o nosso sangue. Depois que saqueamos suas casas, você queria o nosso sangue. Porque tínhamos as terras mais ricas de toda Vila da Folha, você as queria. E pelo visto não era só a grande Rainha, os da Areia também almejavam, e aproveitou-se disso para fazer um acordo e nos matar — vociferou as palavras tão duras que por um momento pensou falar com as paredes.
— Não! Acha mesmo que eu faria algo assim? Não sou uma vingadora, Uchiha! Eu não tenho o seu sangue, jamais tiraria vidas por causa de um sangue tão sujo como o seu! — a voz feminina tornou-se elevada, podiam escutá-la do lado de fora, mas ninguém ousara intervir, pois não tiveram chances com Naruto, Fuyuki e Jun.
— Então diga-me, diga-me que não sabia que mais de duzentos homens nos atacariam, diga-me!
— Eu não sabia, Sasuke. Não faria aquilo, juro. Pela amizade que eu tinha com sua mãe, jamais o faria — pareceu lhe implorar, mas o tom de autoridade não desprendia de sua voz.
Jamais, jamais, jamais, jamais. Aquilo repetia-se em sua cabeça. Não havia motivos para descordar de Tsunade, por mais que a raiva tomasse conta de seu corpo, deveria ser sensato e analisar os fatos.
Tsunade havia pertencido a sua família, fora fiel por anos a Mikoto, sua mãe, e ao seu pai. Fora uma das mulheres que o trouxe ao mundo e cuidou de si quando criança, Sasuke sabia que Tsunade jamais teria grande coragem, jamais.
— Quero um lugar para ficar, eu e as minhas pessoas, podem ser sujas aos seus olhos, mas aos meus são as pessoas mais dignas de permanecer neste lugar — o olhar derrotado de Tsunade veio logo a seguir.
Não teria outra maneira senão consentir, sabia que de nada adiantaria resistir, no fim Sasuke ainda poderia ser útil, ele e aqueles homens que o mesmo julgava dignos.
— Como confiarei em você?— Claro que teria de esconder de todo o seu povo os novos hóspedes, o que não seria fácil.
— Não acha que eu deveria fazer essa pergunta? — o sorriso de escárnio podia ser evidente até mesmo pelos que não encontravam-se presentes no aposento.
Ao lado de fora, Jun tinha olhos azuis por todos os cantos, Fuyuki olhava para o aposento da Rainha, seus olhos estavam tão fixos como os ouvidos que tudo escutava. Naruto, inquieto, cuidava das duas entradas para o salão, esperando qualquer ataque ou ordem.
— Não me traga problemas, Uchiha. Já os tenho por demais. — sentia-se exausta, negociava com Sasuke mais de quarenta minutos, ele sabia ser insistente e persuadir, mas Tsunade não poderia correr tantos riscos.
— Não posso fazer isso. O povo odeia os Uchihas, acham que a guerra acontecerá por sua culpa. Não posso contradizê-los, Sasuke.
— Serei útil, as pessoas virão até nós, nos ajudarão, serão tão uteis como eu. Confeccionaremos nossas armas, daremos nosso sangue, tudo o que eles querem agora é um lugar para dormir e uma mesa para comer.
— Eles querem isso, compreendo. Mas e você, o que você quer Sasuke? — seus olhos castanhos ameaçaram a janela, podia ver o grande movimento dos guardas naquele instante, provavelmente já havia descoberto as novas presenças, descobriram muito tarde, pois Tsunade já poderia estar morta nesse tempo.
Era incompetentes, homens mal treinados e sem espírito de vontade, com força nos braços, mas tornavam-se inúteis com uma espada na mão. Teria de admitir; precisava do Uchiha.
— Estamos com pouco ouro, nos resta apenas os pagamentos das colheitas, tudo está indo mal e guerras, Sasuke, guerras são caras.
Sasuke alargou seu sorriso, ele sabia do que Tsunade precisava e o melhor; ele tinha.
* * *
Tenten caminhava pelo salão, os braços estavam eretos ao lado do corpo, mas a vontade era de esticá-los e rodopiar pelo salão, era grande e bonito e aquilo atraía sua atenção.
Mesmo depois de quatro dias instalada no castelo, não havia se acostumado com a ideia de que moraria naquele lugar, mesmo temporariamente. Já havia se perdido duas vezes, e o mesmo homem havia lhe ajudado, um Cavalheiro qualquer, que mais parecia uma mulher.
Ele tinha olhos estranhos, tão claros que poderia confundi-los com a limpidez das nuvens, eram esbranquiçados e limpos, mas naquela limpeza nada se enxergava, no final das contas ele apenas tinha olhos bonitos, pensava. Ainda lembrava-se de seus cabelos longos, que mais pareciam o de uma mulher, que homem teria cabelos tão grandes como ele? Nenhum homem se prezaria a parecer com uma mulher, e Tenten duvidava de sua masculinidade, até porque, depois de tanto lhe irritar, ele não fizera nada, sequer dirigiu-lhe um olhar.
“Não seja incomoda” foi tudo que o dissera, nada mais saía de sua boca a não ser essas três simples — e frustrante — palavras.
— O que faz aqui? Deseja se perder novamente? — a voz baixa e cuidadosa de Sakura, lhe despertou da breve lembrança.
— É tudo que não quero, imagine só se aquele homem me encontra aqui novamente, seria um motivo para me incomodar, ou talvez eu o incomode com minha presença, já que pareço incômoda aos seus olhos — os olhos caramelados revirara-se algumas vezes enquanto tagarelava caminhando pelo salão vazio.
— Ainda acha que ele é uma mulher? Pois ele é o melhor cavaleiro da Vila da Folha, acredita que também é o conselheiro da Rainha? É muito respeitado e deveríamos fazer um mesmo — Sakura caminhava ao seu alcance, tinha um vestido de seda ao seu corpo, atraía olhares e desejos despertos.
— Pois eu o respeito, mas ele não faz o mesmo. É apenas um homem que pensa saber segurar uma espada, como qualquer outro — Tenten era contra a Vila da Folha, por algum motivo que Sakura desconhecia.
— Certo. A Rainha fará um banquete a noite, compareça e não se atrase. — caminhou oposto a Tenten que apenas assentiu sorrindo.
* * *
Nenhum vento levava seus problemas para longe, nenhum vento levava suas angustias para o nada, mas havia aquela árvore, a árvore que lhe trazia certo conforto, como se nada pudesse temer.
A árvore de folhas cinzas continuava intacta, nem mesmo o vento a balançava.
— Gosta daqui? — algo familiar aquela pergunta já havia sido feita para Sakura. Levou seus olhos a figura de respeito.
Assentiu preparando-se para ajoelhar-se diante a Rainha, mas então lembrou-se de que não fazia isso, ao menos sabia como o fazer.
— É um lugar lindo, jamais vi igual — comentou com a mão firme na grande e velha árvore, seu sorriso deu espaço para um suspiro cansado.
— Dizem que ela veio antes mesmo dos homens, veio antes mesmo de tudo — disse a Rainha referindo-se a árvore em que Sakura escorava-se.
Pelo visto não era apenas a Rainha que sentia-se incomum perto daquela árvore, todos os dias levava uma garrafa de saquê enquanto parecia desabafar com a árvore, era estranho para olhos distantes, mas ninguém imaginaria o poder que a árvore tinha sobre certas almas.
— Acredita nisso? — indagou Sakura.
— Acredito no que vejo, mas também acredito no que sinto. — passou a sentar-se ao lado de Sakura, estava em sua casa no fim das contas, poderia se portar como quisesse, mesmo que fosse errado.
— E o que sente? — a garota era petulante, acredita Tsunade. Algumas perguntas deviam ser esquecidas, mas jamais ignoradas. Entretanto, Tsunade começava a achar que deveria as ignorar.
— O que você sente? — Tsunade fechou os olhos para não ver a dor nos olhos ao lado, mas do que adiantava fechar os olhos se poderia sentir a raiva borbulhando no sangue da garota? No fim de tudo, a tribo Uchiha era toda igual.
— Às vezes, Sakura, devemos derramar sangue para uma nova vida, nunca lhe disseram isso? — Sakura lembrava-se das palavras, apenas não soube dizer quem as dissera.
— Quanto sangue para quantas vidas? Não vejo nada, apenas meus amigos mortos — era evidente a frustração que sentia, pois não podia fazer nada em relação as mortes, por mais que sua vontade fosse gigantesca.
— Você não entende garota. Sacrifícios são necessários, mas recompensados. Alguns deuses gostam de ganhar mais do que dar — Tsunade levantou-se ficando a frente do corpo de Sakura, ela tinha olhos verdes, mas não era isso que enxergava. Enxergava sofrimento como vingança, algo parecido com os olhos negros que avistara dias antes.
Pobres tolos, pensava. Enxergavam com o coração e não com os olhos.
— Mas eles sempre recompensam, Sakura. —a mão da Rainha tocou gentilmente o ventre de Sakura, por cima dos panos ela podia sentir algo bom, mas que não soube dizer a Sakura o que era exatamente.
A menina lobo pensou em protestar, arrancar a mão da Rainha e até mesmo calar sua boca, mas era diferente. Algo nela — tal como a árvore — era incomum, lhe passava uma paz vasta, não só amenizava seus sentimentos como os evaporava.
Sakura levou seus olhos até seu ventre, a mão da Rainha ainda se encontrava calma e sossegada em cima dos panos. Algo a fez levar suas mãos ao seu ventre, como se pudesse o segurar, o proteger e nunca permitir que algo acontecesse.
— Oh criança doce, não sabe o que lhe espera — e diferente do que pensava, as palavras não a fizeram temer, apenas suspirar.
Algo lhe dizia que a Rainha se encontrava certa, seu destino podia ser como a Primavera, uma época bonita e especial, mas a Primavera não é contínua, e em algum momento ela acaba.
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