Primavera Tempestuosa
6 Lágrimas do passado
Notas iniciais
Lágrimas do passado
Suspirava e revia todas as suas alternativas, e uma segunda vez naquele dia a dor de cabeça lhe atingia impossibilitando-o de prolongar seus pensamentos. Frustrado e irritado, poderia dizer, mas o mais certo; cansado. Por uma primeira vez, não soube o que fazer, como agir e como pensar.
Se meu pai estivesse aqui… Se meu pai estivesse aqui… Se meu estivesse aqui… Mas ele não está.
As rajadas de vento se tornavam onipresentes, e seus pensamentos corriam pelo campo. Havia pego seu cavalo pela manhã, e trotado por aí, a fim de espairecer. Mas nada lhe adiantava quando os problemas surgiam em sua cabeça.
As palavras calmas de Tsunade lhe deram raiva imensa, ouvir um não de alguém não era bem-vindo ao Uchiha.
Ninguém diz não a um Uchiha.
Mas não havia nada que pudesse fazer, Tsunade, a rainha, fora bem clara quando lhe disse que recusaria juntar os seushomens fiéis aos homens sujos de Sasuke. Tentou uma segunda vez, porém o rosto de Tsunade não foi convidativo, então pôs-se a lembrar que um Uchiha não se ajoelha a Reis e Rainhas, e talvez esse seu grande ego mataria todos da tribo, e Sasuke tinha esse conhecimento.
Se não fosse apenas o conflito dos reinos, ainda tinha suas esposas que reclamavam e as vezes até lhe impediam de tocá-las, por um ciúme bobo sobre Sakura, bem, era isso que escutara mais cedo. Os boatos diziam que Sasuke Uchiha tornaria Sakura como sua esposa, mas aquilo estava longe de acontecer, e Sasuke tinha essa certeza.
Mulheres podem ser mais complicadas que guerras.
A tribo sempre foi assim, cada um com suas coisas, e sem dividi-las por muito tempo. Isso lembrava de sua mãe, que fazia caretas e olhares de aviso as mulheres que lançavam olhares sugestivos para seu pai. Aquilo lhe fez dar um pequeno sorriso. Talvez estivesse na hora de falar com ele.
Não devia procurá-lo, pois sabia que receberia um não, mas ele era seu irmão, no final das contas, e um Uchiha sempre ajuda o outro.
* * *
Sasuke concentrava-se em descobrir onde ficava a velha cabana de muitos anos atrás. Escondida entre as milhares árvores, tornava o local quase inacessível, além dos animais selvagens que eram um grande perigo.
Desceu de seu cavalo, amarrando-o no tronco de uma árvore. Estreitou os olhos e, por fim, nada enxergou. Não podia ter se perdido.
Quando pensava em voltar para sua tribo, vendo que aquela não era uma boa ideia, uma flecha atingiu o tronco da árvore, assustando seu cavalo e o assustando. Seus olhos miraram a flecha que parou a centímetros de seu rosto, o cabo preto e penas brancas na ponta.
— Irmãozinho tolo, parece que anda distraído. — a voz grossa e rouca atrás de si lhe despertou de qualquer sensação que sentia.
Virou-se dando de cara com um homem alto e pouco velho, seu rosto continha expressões dos anos que se passavam, além de suas inconfundíveis marcas embaixo dos olhos, também tinha inconfundíveis olhos negros assim como seus cabelos longos.
— Itachi — sussurrou seu nome vendo o rosto inexpressível do irmão mais velho. Itachi aparentava seus quarenta e cinco, mas tinha apenas trinta e nove. Marcas de lutas e tempos difíceis, tornaram Itachi Uchiha um homem mais velho.
— O que tu faz aqui? — caminhou até a árvore, retirando sua flecha e lançando um olhar a Sasuke.
— Preciso de sua ajuda — foi direto. Sabia que nada havia de pedir a seu irmão, ele já havia sofrido demais nas mãos de seu pai, por mais que fosse o filho preferido de Fugaku.
Lembrava-se que Itachi tomava grandes decisões enquanto seu pai limpava a bunda e bebia vinho, transando com suas putas e degustando de um leitão. E quando pequeno tinha admiração pelo pai, mesmo sendo Itachi quem tomava conta de tudo.
No final de tudo, Itachi pôs-se a matá-lo, assim como matou Madara, Óbito e Shisui, tendo sua mãe apavorada colocando fim a sua própria vida.
Seu ódio pelo irmão mais velho tornou-se ainda maior quando viu sua mãe se matar, quando viu Itachi fugir. Mas então, quando todos clamavam por um novo líder, quando todos sentiam a rebeldia em seus sangues, Sasuke soube que estava na hora se assumir o lugar de seu pai, com quinze anos, apenas. Era um garoto imaturo, mas nunca desonesto. Fizera por sua vila, mas tudo tem suas consequências. Conheceu a carga do poder, conheceu o peso das reclamações e a força que deveria demonstrar como uma referência para a sua família, para a sua tribo.
E isso o fez perceber o quanto Itachi se sentia, isso o fez perceber o quanto seu pai era estúpido, mas um estúpido certo. Afinal, tinha vontade de beber e não fazer nada, mas Sasuke não tinha Itachi, Sasuke não tinha ninguém para lhe ajudar, e o peso ficou todo em suas costas.
Por mais que sentisse ódio do irmão por ter matado a família, ele soube o motivo, no fim das contas. Qualquer pressão como aquelas tornaria um homem louco.
— Não posso fazer nada a ti — respondeu enfim Itachi, caminhou rumo sua cabana que ficava há alguns metros.
O ódio se tornou amor, quando por fim viu seu irmão uma vez depois da morte de seu clã. Pode por toda sua raiva para fora, perguntando-lhe porque o deixara vivo, porque o fizera aquilo, porque… Mas o Uchiha mais novo já sabia as respostas, apenas precisava ouvir da boca do irmão.
Eram épocas difíceis, tempos de dor e relutação, por conta de sua família. E quando enfim tornara um homem de vinte anos, matou um homem queimado. Mostrando a todos da sua tribo que aquele era Uchiha Itachi, para que assim, todos parassem de procurar o Uchiha mais velho, a fim de matá-lo por dizimar o clã Uchiha.
Sasuke mentiu por seu irmão. Mesmo que tendo um pequeno espaço de ódio por ele, o amava. No final das contas, ele era seu irmão, sangue do seu sangue, e jamais seria forte o suficiente para matá-lo. Não seu irmão, não um Uchiha.
— A Vila da Areia atacará, recebemos informações cuidadosas e confiáveis. Dez dias, atacarão em dez dias, estamos nos preparando, mas creio que não será o suficiente. Mesmo fazendo parte do reino de Tsunade, ela não nos quer por perto. Não deixará nossos homens lutarem com os dela. Isso significa que somos duzentos homens contra um exército de sete mil. — Sasuke gesticulava enquanto ficava atrás do irmão, não perdia sua pose inabalável, mas sua voz parecia mais fraca que o habitual, algo que lhe dizia para ir embora.
Entretanto, não podia desistir dessa chance. Precisava de seu irmão como jamais precisou antes.
— Entro onde? — indagou Itachi agarrando o machado preso em um tronco a frente de sua casa. Como se não houvesse um convidado, o machado prendeu-se nas madeiras, precisava de lenha para aquela noite, uma noite fria e chuvosa vinha pela frente.
— Preciso que me ajude a fazer as estratégias. Estou confuso, desnorteado, não sei o que farei — o irmão mais novo soltou um suspiro de reprovação pelo desabafo que saía de sua garganta.
— Desculpe, irmãozinho. Não poderei te ajudar — rangeu os dentes enquanto a frustração tomava conta de seu corpo. Tanto caminhado para nada, tanto perdoada para absolutamente nada.
— Estou ordenando que me ajude, Itachi. Eu sou o líder agora e eu estou ordenando você…-
— Se é o líder então tome suas própria decisões. Já é um homem, acredito que não tenha apenas força nesse corpo e sim inteligência, saberá o que fazer. — não soube quanto tempo se passou, mas tudo que lembrava-se era das lembranças caminhando sobre suas memórias, lembrava-se de ver Itachi levando o machado com toda a força que lhe restava, de ver suas expressões cansadas e suas mãos sujas de sangue, sangue de sua família, por mais que não houvesse nada lá.
Algo rapidamente o despertou.
Longe, realmente longe de onde estava, a fumaça negra misturada com a branca espairecia sobre o céu, levantando-se do chão até alcançar o topo. Parecia grande e Sasuke podia sentir o cheiro até ali, por mais que a distância fosse consideravelmente grande.
Fumaça significava fogo, e fogo significava problemas.
* * *
O medo a corroía por dentro, mas soube que era normal. Um homem sem medo era apenas um ninguém. E Sakura não era um ninguém, ela fazia parte da grande e temida tribo Uchiha, era uma guerreira acima de tudo.
Mas não podia deixar passar de lado o fato de que suas mãos tremiam.
Havia fogo nas casas de palha, havia fogo nas tendas, havia fogo nos homens. Algumas mulheres corriam em direção a floresta para então serem apunhaladas por soldados da Vila da Areia.
Algumas outras mulheres eram estupradas por homens brutais e incrivelmente poderosos. As crianças, as mais miúdas, escapavam de suas casas e corriam até onde as pernas os levassem.
Homens lutavam por suas famílias, por sua gente, por sua casa. Homens morriam por suas famílias, por sua gente, pro sua casa.
Lembrava-se de acordar pela manhã, ao lado da cama vazia. Resolvera visitar Naruto e então tudo isso aconteceu.
E tudo foi rápido demais.
O fogo que começou na tenda que antes estava, alastrou-se pelas amontoadas casas e outras tendas. Todos tentaram apagar o fogo, mas foi impossível com uma grande quantidade de homens lhe atacando.
Vestidos de vermelho e marrom, estes tinhas suas lanças, flechas, espadas e facas. Eram fortes e rápidos, tão rápidos como os homens da tribo. Eram, aproximadamente, novecentos homens.
— Está tudo bem? —perguntou Naruto, na entrada da toca, seu braço tinha um grande corte, mas nada comparado com os homens que lutavam agora.
Sakura escondia-se em uma toca perto da batalha, era uma toca considerável para seu tamanho e para o tamanho do bebe que carregava nas mãos.
— Sim. Como está lá fora? — a batalha já durava uma manhã e uma tarde. Tudo parecia destruído e nada parecia vivo.
— Uma merda. Está uma merda. Preciso voltar, grite se alguém te atacar, entendeu? — Sakura assentiu olhando o pequeno embrulho em seus braços.
Quando avistou uma mãe tentar fugir e ser atacada pelas costas, não pode deixar de enfiar uma faca no coração daquele homem, foi o primeiro que havia matado, mas havia tanta raiva dentro de seu corpo e isso a impulsionou a ter orgulho de si própria. E o que mais lhe assustava era que não havia se arrependido. O homem matou uma de sua família, uma de sua tribo, o homem mataria o pequeno bebe, Sakura não poderia fazer nada mais do que matá-lo. Então assim que suas mãos tornara-se rubras, pegou a criança e escondeu-se no lugar que lhe protegeria.
Sentia medo, com toda certeza seu medo fazia parte de seu corpo. Sentia medo pelo bebe em seus braços, pelos outros bebes da tribo, pelas crianças, por sua amiga; Tenten, por Naruto, por Sasuke. Onde estava Sasuke?
O líder não era visto desde o amanhecer. Aquilo não lhe assustava, o que a assustava era pensar em todas as formas que o Uchiha estaria; morto, emboscado, preso, esquartejado. Tudo lhe passava a cabeça, menos a palavra bem.
O tempo passou rapidamente, a garoa já caia e as rajadas de vento tornavam-se brutais. A fumaça tornava-se branca, e os gritos quase inexistentes. Ouvia algumas almas agoniando, e jurava que aquilo nunca mais sairia de sua cabeça.
O bebe em seu colo não chorava, não tinha os olhos abertos e não se mexia, parecia morto, gelado e com fome. Mas não dava protestos. Não chorava de dor ou fome. Apenas sentia-se no luto assim como Sakura. O medo passou aos poucos, quando nenhum grito foi ecoado pela floresta, e quando nenhum pingo de sangue caiu ao chão. Nada podia ser ouvido, apenas o barulho da chuva e a vista da fumaça.
Estava tudo calmo, calmo demais.
Saiu da toca, sentindo seu corpo protestar pelo tempo em que ficara ali.
Não sentia-se exatamente uma inútil, afinal, o medo a mataria, mas também tinha que cuidar daquela criança, Sakura era sua única proteção.
— Naruto…? — sussurrou caminhando lentamente dentre as árvores, seu braço latejava pelo tempo longo em que segurou a criança no colo.
Mais alguns passos e pode avistar a cena carmim. Corpos manchavam as terras férteis com o rubro de seus sangues, algumas armas jaziam no chão sem alguém para empunhá-las. As casas estavam em ruínas, negras e cinzas jazidas. As tendas já não podiam ser vistas.
Mas o que mais lhe amedrontava era os gritos inexistentes. Os sussurros inaudíveis. O que mais lhe assustava era a garoa caindo sobre seus cabelos, os colando em sua testa. Caindo sobre os olhos do recém-nascido. Caindo sobre suas pertubações e suas angustias.
— Naruto! — dessa vez gritou, sentindo lágrimas caírem de seus olhos verdes.
— Tenten! — chamou o segundo nome e o vento lhe abençoou.
— Ino! — o terceiro foi respondido com um forte trovão vindo das nuvens mais altas.
— Sasuke — sussurrou já sem forças para qualquer coisa.
Seus joelhos foram de encontro ao chão, lágrimas misturaram-se com a chuva e suas mãos antes trêmulas, agora agarravam com força o embrulho em seus braços.
A resposta de seus gritos veio logo depois. Levantou a cabeça enxergando dois homens saindo dos escombros de uma casa, do outro lado havia uma mulher ferida gravemente na perna. Mais uma mulher, de idade, havia saído das árvores e chegava mais perto cada vez mais. Percebeu então ser os sobreviventes de todo sangue jorrado, de todas as vidas perdidas, de toda a morte causada.
Já amanhecia, e Sakura não havia visto Naruto ou Sasuke. Mas isso não durou muito tempo. Quando ambos sentavam-se e choravam sobre as pessoas mortas, o loiro apareceu apoiando-se no corpo machucado de Sasuke.
Os olhos verdes miraram a cabeça baixa e os cabelos molhados, o corpo ferido e coberto por sangue, assim como o de Naruto. Mas ambos pareciam bem, por mais que estivessem exaustos.
Sakura deixou a criança nas mãos da velha senhora, enquanto correu até os dois, abraçando-os. Não se importava que Sasuke era seu líder e que Naruto devia ter seu enorme respeito, agora concentrava-se apenas em abraçá-los.
No fim das contas, não existia nada melhor do que um corpo quente ao seu lado, um corpo vivo ao seu lado.
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