Primavera Tempestuosa
7 Almas amarguradas
Notas iniciais
Almas amarguradas
Tinha as mãos ensanguentadas, o braço ferido e o dorso dolorido. Em sua perna havia um grande corte, mas que as mãos delicadas com o serviço, o remendavam e o cuidava.
Seu olhar era voltado para o nada, uma confusão de sensações habilitavam seu corpo. Culpa, raiva e até mesmo medo.
Estavam abrigados em uma caverna não muito longe das terras férteis. Naruto e outros sobreviventes haviam pego tudo que sobrara e levado para o abrigo provisório. Sakura ficara cuidando das quatro crianças que restaram vivas, incluindo o recém-nascido. Também cuidava dos ferimentos dos homens, em especial, Sasuke. Não estava gravemente ferido, mas seu estado emocional a preocupava.
Quieto, impassivo, pensativo e calculista, podia ter algumas dessas características no dia a dia, mas hoje estava tão pensativo como jamais esteve. Nada parecia despertá-lo e Sakura perguntava-se o que ele estaria pensado. Talvez nas vidas perdidas, talvez na batalha em que lutou ou até mesmo estivesse se sentindo culpado.
Mas não havia nada que pudesse fazer, tentou despertá-lo perguntando se seu corpo ainda doía, mas ele nada lhe respondera, então, por fim, decidiu que seria melhor deixá-lo sozinho.
Sua preocupação não era apenas com Sasuke. As crianças encontravam-se quietas demais, e o recém-nascido não havia piado em nenhum momento, aquilo a preocupava, já pensava que era uma criança morta, mas este ainda se mexia, por mais que pequeno e calmos movimentos.
Todos os outros homens e Naruto encontravam-se nas terras, há alguns quilômetros da caverna. Estavam procurando mais pessoas vivas e vasculhando por novos inimigos.
Sakura olhava para suas mãos, lembrando-se do sangue que havia nelas há pouco tempo, o sangue que a chuva levara para longe, mas que a mancha não vista jamais sairia. Ela havia assassinado um homem, e por mais que fosse seu dever, aquilo lhe assombraria pelo resto da vida.
Pense nas pessoas que esse homem matou. Pense nas mulheres que ele estuprou. Pense nos bebes que ele arrancou dos braços dos pais. Ele era apenas um inútil. Um inútil que precisava ser morto.
* * *
Naruto caminhava entre as folhas vivas e as terras manchadas. O sangue escorria pelas terras assim como as possas de chuva que se formavam. Ainda havia fumaça branca, indicando que o fogo já estava apagado. As casas estavam todas destruídas, algumas em cinzas, outras em escombros, de nada serviriam.
Já havia arrastado dez corpos para o canto de uma árvore, queimaria todos os corpos, sem exceção, assim fora a ordem do Uchiha.
Depois de mortos eles nada ouviam e nada enxergavam, eram apenas carcaças que deveriam sumir, a tribo agia assim, queimando-os ou os jogando em um buraco ou atém mesmo em um rio. Acreditavam que a alma de uma pessoa, quando morre, já se encontrava onde deveria.
Todos acreditavam que o sangue fornecia mais alimento, como um adubo para as terras. Mas não havia apenas o sangue da tribo, havia também o dos malfeitores que acabaram com famílias.
O menino raposa estava quieto, fazia o seu dever assim como os cinco homens que lhe ajudavam. Lembrava-se de lutar ao lado do último Uchiha, lembrava-se de ver algo que jamais presenciou em sua vida toda. Olhos vermelhos com alguns pontos negros, um vermelho tão rubro como o sangue derramado dos homens, tão poderoso quanto um título de nobreza, tão pesado quanto uma espada, e tão habilidoso quanto o próprio Uchiha, era o Sharingan, ele sabia. Sakura já havia contado histórias como aquelas para Naruto, acreditava que todas eram lendas, isso até lutar ao lado de Sasuke.
O que ele fizera com uma espada, nem mesmo os seus olhos conseguiram acompanhar. Era rápido demais, forte demais e ágil demais. Naruto não era uma escolha viável para uma luta naquele momento, e tudo que pode fazer era avistar com seus próprios olhos os mais de cem homens que Sasuke havia matado. Todos agoniando enquanto Sasuke perfuravam-lhes com uma enorme espada, enquanto os olhos torturavam homens e previam os movimentos do inimigo, enquanto Naruto apenas olhava, surpreso demais para qualquer movimento.
— Naruto! — a voz preocupada de um homem lhe despertou, ele abanava uma de suas mãos enquanto todos tentavam ajudar a mulher que estava a baixo dos escombros. Naruto correu para socorrê-la, chegou perto analisando o rosto sujo e coberto por cinzas, os cabelos longos e castanhos que ele bem conhecia, tratava-se de Tenten, amiga sua e de Sakura.
— Está viva? — perguntou enquanto retirava uma das longas madeiras da perna de Tenten.
— Ainda respira. Vamos levá-la, Sakura fará alguma coisa — um dos homens, o mais forte, carregou Tenten no colo a caminho da caverna.
A chuva havia dado trégua, fazendo com que apenas as nuvens negras continuassem no céu, tão tristes quanto os sobreviventes do ataque.
* * *
— Temos apenas algumas velhas senhoras, garotas jovens, crianças e homens incapacitados para uma luta. Como perdemos tantas pessoas? — o corpulento e nada agradável homem, distribuía as palavras na roda feita pelo Uchiha.
Sasuke observava Naruto a sua frente, um homem gordo ao seu lado — ao qual nem sabia o nome — e Fuyuki do outro.
— Eram muitos, com armas melhores que as nossas e treinamento mais adequado. Fomos feitos para a guerra e eles para matar — pronunciou-se Fuyuki uma primeira vez.
Foram feitos para a guerra. Era o que todos diziam sobre a tribo, não havia um lema, apenas as palavras; Foram feitos para a guerra.
— E o que faremos agora? — sussurrou para o vento, como um pedido que aguardava uma resposta, mas ninguém saberia respondê-la.
Naruto olhou para o céu, assim como todos os homens ao seu lado. Tão perdidos que não pareciam ser aqueles de quem todos comentavam. Restaram tão poucos, gritava a voz em sua mente, dizendo-lhe para seguir seu caminho, longe de uma guerra ainda maior, longe de todas aquelas pessoas que passariam fome e lutariam até morrer, mas Naruto não poderia largar a sua família, não, Naruto nunca poderia o fazer.
— Vamos lutar — anunciou o menino raposa atraindo a atenção de todos os presentes, pensou até mesmo ter visto o rosto de Sakura e das crianças espiando sua conversa do lado de fora da caverna.
— O que? Está louco? — o homem corpulento, que se bem lembrava chamava-se Ryo, olhou-o assustado.
— Perdemos todos os amigos, familiares e irmãos, por nada? — as palavras eram baixas, mas cheias de confiança.
— Isso não nos diz nada, devemos ser sensatos. Não temos armas, não temos homens e não temos confiança. Somos apenas o que sobrou, e todos nós estamos assustados e com fome, Naruto. Por enquanto, não há o que fazer — Fuyuki decretou, levando a última palavra. Todos esperavam algo vindo de seu príncipe, mas foi Naruto quem se pronunciou.
— Temos apenas trinta pessoas. Aya, que cuidava dos feridos, está morta. Sobraram apenas trinta pessoas, nós realmente vamos deixar como está? — a voz raivosa foi temida por todos os homens, exceto Fuyuki e Sasuke que mantinham suas poses eretas com o rosto autoritário e um olhar imutável.
— Não, Naruto. Não vamos deixar como está. Vamos fazer uma pequena visita a Tsunade, daqui alguns dias. — anunciou o príncipe pela primeira vez. Era o mais temeroso entre o grupo de homens.
* * *
A noite havia chego tão rápido quanto as lágrimas. A longa extensão de corpos não era mais vista, pois era corroída pelo fogo.
Não podiam chamar a atenção de novos inimigos com uma fogueira tão alta, mas aqueles que permaneceram vivos não poderiam conviver com os corpos desfalecidos no chão. Então, quando a noite fria caiu, todos foram queimados.
— Akiye, Akiyo, Kaya, Reiko, Asaye, Hideki, Hideo, Jiro, Jun, Tenten, Naruto, Sasuke, Fuyuki, Ryo, o menino sem nome, Michio, Cho, Lain, Saya, Sakura… — os nomes saiam de sua boca sem que notasse, os olhos estavam tão fixos nas chamas que se alastravam que poderiam confundir facilmente o fogo com os olhos de Sakura.
— O que está dizendo? — sussurrou-lhe Jun ao seu lado.
— Os nomes dos sobreviventes. Só conheço vinte, faltam dez — a voz era fraca assim como suas pernas que mal aguentavam parar em pé. Seu sorriso que todos os dias permanecia, hoje encontrava-se ausente, indisponível para qualquer situação.
Não conseguia permanecer feliz, nem mesmo sabendo que Tenten estava viva, mesmo que muito ferida. Estava de luto, sabia. E não era a única, todos ao seu lado prestavam o silêncio como forma de agradecimento pelas nobres existências e pelas batalhas — mesmo que perdidas.
Encontravam-se em uma extensa fila, uns na frente dos outros, mas todos com os olhos pregados no fogo ou nas cinzas que esvoaçavam até as árvores grandes e vivas.
Sasuke era o único que mantinha seu olhar distante, já estavam todos acostumados com a crise que o Uchiha passava, no fim das contas, ele não era o único.
— Estou um pouco preocupado com Ino — comentou Naruto para Tenten, mas foi Sakura quem escutou.
Seus olhos arregalaram-se por alguns segundos, ao menos se lembrou de Ino. Não que fossem grandes amigas, mas Ino era a esposa — diga-se preferida — de Uchiha Sasuke e também lhe ajudara muito quando precisou.
— Porque preocupado? — perguntou Tenten envolvendo os braços entorno do corpo, tentando se aquecer o máximo. Tinha as pernas feridas, assim como seu rosto. Mas a dor não era nada comparada ao frio que sentia.
— Ino foi pega por alguns deles. Não sei o que queriam, mas pegaram algumas mulheres e alguns homens, incluindo Ino. Não pude nada fazer.
Na verdade você podia, mas não fez. Sua mente gritou, acusando-o de mentiroso. Entretanto, Naruto não sentia-se culpado, pois se todos pudessem ver o que Uchiha Sasuke era capaz de fazer, jamais conseguiriam desprender os olhos naquele momento.
— Será que estão os torturando? — sussurrou para si mesma sentindo um frio ainda maior atingir seu corpo.
A caverna a qual se abrigavam protegia-os do frio, mas ainda sim, podiam sentir a corrente gelada de ar caminhar por seus corpos.
— Estão todos alimentados? — Fuyuki surgiu das sombras com a voz elevada e o corpo ereto, seus cabelos estavam mais desengrenhados e em seu corpo poucos hematomas.
Todos assentiram, as crianças queriam ainda mais, mas não era uma boa hora para a caça. Comeram peixes e beberam a água do rio, estavam bem, mas não o suficiente. Por enquanto, pensava Sakura, é tudo o que precisamos; água, comida e uns aos outros.
— Devemos dormir, amanhã procuraremos armas e confeccionaremos as nossas, sei que estão todos exaustos, mas preciso da ajuda de todos para nos mantermos vivos. — dessa vez fora Sasuke quem se pronunciara. Estava sentado o mais afastado possível, emerso nas sombras com o corpo desleixado.
— O que faremos? — perguntou a mulher de idade avançada.
— Naruto, Fuyuki, Jun e eu iremos até a Rainha. Ainda sou o príncipe de vocês, eu tomarei tudo aquilo que nos tomaram, mas isso demorará um tempo e espero que saibam aguardar — era a primeira vez que falava tão abertamente com seus companheiros, como um verdadeiro líder, mas não era a primeira vez que o título Rainha saía com tanto escárnio de sua boca.
Sakura levou os olhos até o príncipe, parecia perdido e abatido. Seria a primeira vez que dormiria sem que os olhos negros lhe observassem — nem que por até mesmo alguns segundos. Não seria a primeira vez que dormiria sem o seu calor, mas seria a primeira vez desde que se apegou a Uchiha Sasuke.
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