Primavera Tempestuosa
5 Espinhos da Primavera
Notas iniciais
Espinhos da Primavera
As pétalas rosas voavam e caiam em seu rosto. Seu sorriso logo se transformou em uma deliciosa gargalhada. Seus olhos fechados continham o fascínio pela estação. A primavera, a tão desejada primavera. Onde os tempos são mais calmos, e as folhas são mais novas. Onde as flores das árvores nascem tão encantadoras e elegantes.
— A primavera te agrada? — perguntou a voz grossa e amena.
— A primavera é minha estação preferida. Nada pode estragá-la — decretou Sakura, deu um segundo giro no gramado enquanto as pétalas faziam cócegas em suas mãos.
— Os homens podem estragá-la — sua voz era rouca e baixa, apreciava o momento de uma criança sorridente, brincando entre as árvores e gargalhando sobre as piadas inexistentes, especificamente; Sakura.
— Os homens podem destruir sonhos, objetivos, prazeres, mas jamais destruirão a primavera. Ela sempre continuará bonita e sorridente, ela sempre estará na guerra, mas os homens ocupam-se demais para percebê-la — tão confiante quanto os passos dados, Sakura dançava entre as folhas, tamanha era sua alegria ao visitar o bosque real.
Quando criança, seu sonho era visitar o bosque real, escondido atrás do palácio, apenas as pessoas mais nobres o visitavam. Quando soube que Sasuke faria uma visita a Rainha Tsunade, logo o insistiu para que visitassem o bosque.
Diziam que haviam mais de trezentos tipos de árvores, todas diferentes e mágicas. Mas tudo que Sakura encontrou foi algumas cerejeiras e milhares de flores graciosas e de beleza encantadora, talvez fosse essa a magia, apreciar o apreciável.
— Temos de voltar agora — anunciou Sasuke. Sua condição para que trouxesse Sakura, foi simples. Queria que a mesma dormisse consigo, todas as noites. Sakura recusou a proposta, mas pôs a persuadir o príncipe até que o eterno durasse apenas um dia, dormiria apenas um dia com o príncipe, e ele prontamente aceitou.
Sussurrou um adeus as flores, como se elas pudessem lhe escutar, e pôs-se a acariciar o tronco das árvores centenárias. Havia uma árvore, em especial, que Sakura gostara. Era alta e tinha mais de mil anos, suas folhas eram cinzas, como jamais vista. Parecia assustadora, mortal, mas para Sakura, encantadora. Era uma árvore como todas as outras, mas, com um toque diferente, algo a fazia especial, algo que ela não soube identificar. Também se despediu desta árvore, algo lhe dizia que não seria a última vez a vê-la.
Sakura observou as casas pequenas em silêncio, as pessoas estavam todas escondidas. Algumas traumatizadas por anos atrás, outras por apenas ouvir os boatos da tribo.
— Porque as pessoas têm tanto medo de você? — perguntou Sakura, seus olhos ainda fixavam as figuras escondidas através das janelas.
— Talvez eu lhe conte em outro momento — respondeu ele, observando as casas que sumiam segundos depois.
Sasuke reconheceu a pequena e antiga vila perto das terras férteis, onde algumas famílias de camponeses moravam, há muito tempo. Ele sabia que fora ele um dos grandes culpados por destruir a vida de muitos, e matar o restante. Isso sempre lhe assombraria, e por mais que tentasse esquecer e conseguisse, os sonhos a noite lhe perturbavam e duravam dias, meses e anos, pareciam lhe assombrar todos os dias, às vezes mais frequentes, às vezes mais amenos, ainda sim, todos os dias.
Sakura avistou uma mulher ao longo do caminho, tinha roupas velhas, sujas e pouco rasgada, seus cabelos eram de um tom castanho, tão escuro quanto seus olhos. Era corpulenta e desajeitada, e assim que avistou os cavalos, pôs a frente deles.
— Príncipe Uchiha! — gritava ela, sua voz era rouca e facilmente confundida com a de um homem, a mulher abanava os braços como um pedido de ajuda e procurava o príncipe com o olhar, provavelmente em dúvida de qual realmente era o Uchiha.
— Saia da frente! Vá embora — disse um dos homens, a frente de Sasuke, o homem com barba rasa e olhos azuis, impunha ordens em seu cavalo cinza, uma cor tão bela que o distingua facilmente do grupo. Se chamava Fuyuki, exilado da Vila da Areia, era conhecido por sua rapidez e agilidade. Diziam também que Fuyuki era ainda mais excelente quando o inverno chegava, como dito seu nome, era uma incrível e bela árvore do inverno.
Mas suas ordens não foram o suficiente para que a mulher se afastasse.
— Por favor, não como há dias, meu filho não se alimenta há muito tempo. Por favor Príncipe Uchiha, forneça-me um pouco de comida — suplicava ajoelhando-se na frente do grupo, os quatro homens olhavam fixamente para a mulher, sem nada a dizer com um olhar, sem nada a declarar com a boca.
Príncipe Uchiha então desceu de seu cavalo, caminhou até a mulher e agachou-se em sua frente. Os olhos piedosos desta tornaram-se alegres, e seu sorriso mostrava os dentes pobres, apresentava expressões cansadas no rosto, e a aparência de velha senhora.
— Levante-se e vá embora — ordenou.
Sakura observava montada no cavalo negro de Sasuke, queria descer e cuidar da mulher, dar-lhe comida e água, ajudá-la com as crianças que tinha, mas nada podia fazer, seu lugar não era com aquela mulher e seu dever também não comparecia a ela.
Sasuke retirou um saco de moedas do bolso, era escuro e leve, mas havia moedas suficientes para alimentar três pessoas.
— Que os deuses te recompensem — ainda ajoelhada caiu nos pés do Uchiha e então levantou-se como ordenado, olhou uma última vez para os homens e uma última vez para Sasuke. Rapidamente os olhos castanhos caíram no corpo esguio de Sakura, sorriu-lhe e caminhou rumo a sua casa.
Sakura perdeu o olhar na mulher que adentrou a densa floresta, quando se deu conta, Sasuke já se encontrava montado no cavalo e a viagem tornava-se exaustiva mais uma vez. Sabia que estava perto, faltava algum tempo, e então chegariam em casa e finalmente poderia ver Naruto uma segunda vez.
* * *
Era diferente, sempre seria. A cada beijo uma sensação enigmática. Um tocar desigual, mãos abusadas e lábios ferozes, tão rápido quanto imaginara, mas ainda sim, parecido com seus sonhos.
As roupas já estavam jogadas pelo chão, os corpos já se encontravam suados e exaustos, porém as carícias continuavam.
Passou a acariciar o cabelo róseo, macio e brilhante. Beijava-lhe a testa e descia para bochecha e então chegava em seus lábios, com a pressa de um predador.
Não havia sentido falta do corpo quente na cama, gemendo e gritando por seu nome, não havia sentido falta de cabelos sedosos ou bocas macias, pois ele tinha tudo aquilo, todas as noites e quantas vezes precisasse.
Entretanto, sentira fata sim, mas sentira falta de Sakura. De seus olhos desiguais, de suas mãos pequenas e afetuosas, de seu corpo pequeno e formidável, de suas palavras incompreensíveis e seus gestos calmos.
Sentira falta até mesmo de sua petulância para consigo.
— Sasuke — sussurrou seu nome atraindo seu olhar.
Algo nos olhos de Sasuke, algo em Sasuke, conversava com Sakura todas as noites. Alguma língua estranha, algo que ela não entendia, e aquilo despertava sua curiosidade. Todos os dias, quando cruzava olhares rápidos com o príncipe, era como se seus olhos lhe dissessem para esperar, como se dissessem para tentar. “Tentar o que?” ela perguntava, mas não obteve respostas, no fim das contas, eram apenas olhos negros e imutáveis.
— Meu pai. — sussurrou perto de seus lábios enquanto o olhar curioso e confuso recaia sobre ele.
— O que tem seu pai? — remexeu-se sentindo-se inquieta, gostaria de sentir o vento lá fora, mas prometera ficar uma noite com Sasuke, e devia cumprir.
— Ele cuidou dessa tribo desde que nascera, cuidou dessas terras desde que crescera. Ele tinha a alma feita para a luta, ele tinha o coração feito para a liderança, tinha as mãos feitas para o sangue. Ele era sujo e confiante, e eu o admirava. Sentávamos em frente a fogueira, todas as noites, eu o escutava contar suas vitórias e suas piadas, todas inexistentes. — sentou-se na cama e agarrou Sakura, com rapidez a colocou em seu colo.
Homens gostavam de falar sobre seus feitos, gostavam de expor os sentimentos de uma batalha que venceram, eles sempre davam o braço a torcer. Se uma mulher o agradasse, eles não fechariam a boca por um bom tempo. De certo modo, isso deixava Sakura contente. Algo que se tornou uma preferência, foi ouvir a voz do príncipe, conversando consigo e deixando o líder no canto de fora, por um tempo.
— Seu pai ordenou para que levasse a tribo até a vila, e então vocês os atacaram, como um aviso ao seu pai, um aviso dizendo que você podia, que você sabia liderar, não é? — interrompeu-lhe Sakura. Os homens não eram os únicos que falavam, Ino adorava lhe contar as histórias que ficava sabendo com outras mulheres.
— Exato. Quando ataquei a vila, há onze anos, eu tomei a liderança. Meu pai morreu pouco depois, e então eu me tornei o último Uchiha. Agora sabe porque todos me temem. — acariciou mais uma vez os cabelos róseos e o olhar duro ainda estava no seu rosto. Acabava se surpreendendo por dizer aquelas coisas há uma garota, mas sabia que ela já devia ter escutado de outras mulheres que gostavam de boatos.
— Diga-me príncipe Uchiha, conte-me porque estou aqui, nesta tribo. O que havia em mim que você precisava? — os olhos negros mais uma vez lhe gritaram algo, não sabia o que era e começava a achar que o cansaço lhe trazia alucinações.
— Nunca precisei de nada de uma criança. Apenas trouxe-lhe para cá, sem uma razão especifica. Você e o menino raposa — Sakura lhe sorriu e decidiu parar de falar.
Havia muitas perguntas que gostaria de dizer, havia dúvidas presas em sua garganta, como também desabafos. Mas nada podia fazer agora, era uma simples mulher contra um príncipe, podia ser julgada a qualquer momento, afinal, nunca saberia quando o bom humor do Uchiha acabaria.
Por enquanto, nada lhe perguntaria. Ainda sim, amanhã seria outro dia, e outra fase para talvez mais uma pergunta.
— Espero que amanhã esteja disposto a caçar — sua voz soou baixa e rouca, embriagada pela exaustão.
— Desaprendeu o que lhe ensinei? — indagou virando-se para o lado oposto e aconchegando-se nos lençóis.
—Não, apenas quero te mostrar o que posso fazer. — houve um silêncio, e Sakura pensou que o príncipe já dormia.
— Não te subestimo — foi tudo que escutou antes de se surpreender.
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