Primavera Cativa
2 02. Parte I: Doce
Ela não estava acreditando no que via. Era isso, aquilo não podia ser real. Nem nos seus amados sonhos ela poderia pensar naquilo.
Um lugar cheio de doces. Totalmente coberto por todos eles. Achava que estava naquele conto de fadas, João e Maria. Ao contrário da história infantil, não tinha somente uma casa feita de doces, era um lugar inteiro assim. Melhor ainda, nada de João e Maria, parecia mais a Fantástica Fábrica de Chocolate com tudo aquilo. Ela não sabia o que estava acontecendo, nem como foi para ali, mais de uma coisa ela sabia: não iria se fazer de rogada.
Era um lugar simples: algumas árvores, umas três casas de cores primárias e um pequeno rio que ela suspeitava que era de chocolate. Resolveu experimentar para sanar as suas dúvidas e sim, estava certa. Gemeu em contentamento, fechando os olhos, se deliciando com aquele sabor que preencheu suas papilas gustativas.
Resolveu aproveitar o que ela acabou chamando de presente. Veja bem, ela acabou de acordar num lugar estranho onde não sabe como foi parar ali e somente sabia que estava indo trabalhar e puff, como um passe de mágica foi parar naquele lugar. Achava que se lembrava de algum cupcake em cima da sua mesa, não sabia direito. E bom, mesmo não sendo seguro, resolveu aproveitar a oportunidade de se empanturrar com aqueles maravilhosos doces.
Como sua imaginação não era das melhores, resolveu chamar aquele lugar de Vale dos Doces. E assim, depois de refletir sobre sua situação, resolveu fazer o que fazia de melhor: comer.
Começou a comer desesperada, quase não mastigando o que comia. Não era por nada, não havia um motivo, apenas era como tudo apareceu ali do nada possuía medo de sumir dali do nada também. E nunca iria rejeitar doces de graça, jamais. Não tinha fome, mal tinha tomado café da manhã quando saiu de casa, mas, sempre tinha espaço para mais comida, principalmente os doces. A cada mordida, chegasse no nirvana. Todo aquele açúcar que circulava em seu sangue não era suficiente. Parecia que o mundo ia acabar com cada mordida que dava em cada pedaço de doce encontrado. Balas, chocolates, algodão doce, bolos, tudo parecia a mais maravilhosa dádiva que estava vendo e presenciando. Comer era perfeito, como se cada guloseima fosse feita pelos melhores confeiteiros do mundo. Nada se parecia com aquilo.
E isso a fazia feliz. Nada mais importava. Parecia que quanto mais ela comia, mais feliz estava, quanto mais se empanturrar, mais satisfeita ela parecia. E mesmo assim, não parava de comer.
Estava cheia, ela sabia, ela sentia, mesmo assim ainda comia. Uma hora vomitou o que comeu antes para poder comer mais. Era como um feitiço jogado sobre ela, ou melhor, jogado sobre aquele lugar. Tudo a chamava para aquele momento em que comia mais e mais. Parecia que estava vazia, não por comida, já que estava comendo mais do que devia e sim vazia de alguma coisa que a comida não pode preencher dentro dela, algo que faltava.
Ainda comia desesperada, nunca era o bastante. Todas as coisas se encaminharam para uma tragédia enorme se aquilo continuasse assim.
Foi quando aconteceu.
Começou com uma sensação estranha na barriga, depois meio que uma coceirinha na cabeça. Essa sensação subia e descia sua coluna, como se estivesse estudando o caminho de ida e vinda. Uma dor de cabeça terrível a acometeu, o que deveria ter alertado de que ela deveria parar de comer tanto aqueles doces de modo tão desesperado assim. Foi então que a dor começou a ir pela cabeça. Uma dor de cabeça tremenda apareceu, uma dor que a fazia tremer o corpo todo só de sentir.
As coisas pioraram um pouco mais. Sua cabeça começou a inchar e inchar, como se fosse um balão de festa colorido. A cada segundo, sua cabeça inchava mais e mais. Começou a se desesperar. E quanto mais se desesperava, mais sua cabeça enchia.
Até o momento em que tudo explodiu.
Sua cabeça se espatifou em vários pedacinhos, como confetes. Seu corpo saiu em um baque surdo com tudo no chão.
E foi assim que seu corpo foi encontrado horas depois. Um corpo onde no lugar da cabeça eram apenas confetes espalhados pelo chão. Quando Ela soube que alguém estava ali, não imaginou que seria uma pessoa tão tola que faria aquilo consigo mesma. Uma alma tão cheia de caraminholas na cabeça acabou sentindo necessidade de se preencher com aquilo que não precisava, acabando por se explodir no final. Ela balançou a cabeça, um pouco com pena, um pouco resignada. Mais uma pessoa acabou caindo no encanto daquele lugar e mais uma pessoa se perdeu.
No fim, o que restava para Ela era juntar os pedacinhos e recolher o que sobrou.
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