Notas iniciais
Boa leitura!

O frio fez com que eu me encolhesse em meu casaco pesado, o breu seria sinistro se não fosse pelos faróis do carro iluminando a estrada a nossa frente.

Não havia passado muito tempo desde a hora do jantar. Então, como não era tão tarde, o vilarejo ainda estaria movimentado, ou seja, sem riscos. Mas mesmo assim Helena e Tommy fizeram questão de me acompanhar na missão de ver Caitlin. Meu irmão me contou que ela começou a trabalhar em uma taberna da vila como garçonete. Uma taberna não era lugar para Caitlin, não era lugar para nenhuma mulher trabalhar, ainda mais a noite, enquanto homens nojentos e bêbados frequentavam lá.

⁃ Eu acho isso um absurdo — Tommy reclamou pela décima vez enquanto dirigia

⁃ Eu não pedi para vir comigo — bufei já cansada das suas reclamações

⁃ Me desculpe por prezar pela segurança da minha digníssima irmã — bufou de volta

⁃ Eu não quero um… — comecei, mas fui interrompida

⁃ Parem vocês dois — Helena revirou os olhos — Vamos fazer o que temos que fazer e voltar para casa — ordenou como uma futura condessa — Tommy devemos isso a sua irmã — deu a palavra final e meu irmão assentiu e eu ri

⁃ Tá rindo de que? — perguntou ele olhando rapidamente para mim

⁃ Você — dei língua — Parece um cachorrinho domado pela dona

⁃ Vou largar você nessa estrada, loirinha — parou o carro na intenção de me assustar

⁃ Você não ousaria…

⁃ Chega vocês dois! — minha cunhada praguejou — Agora!

⁃ Sim, amor — e calado dirigiu

Como um perfeito cachorrinho.

Eu amava implicar com meu irmão. Não tinha noção da falta que ele me fazia no meu dia dia até passar algumas horas com ele.

Não demorou muito para que enxergássemos as casas iluminadas, pouquíssimas pessoas andavam pela rua. Estava frio demais, não eram todos que gostavam de se aventurar na geada da noite, mesmo não estando tão tarde.

Depois da minha conversa com Helena, ela me contou onde Caitlin havia conseguido um emprego . Minha amiga havia cortado relações com a minha família e Helena disse que não sabia o que era feito com o dinheiro que eu mandava mensalmente para manter Caitlin empregada. Mas eu não queria saber de nenhum dinheiro, queria saber apenas de minha amiga.

Pedi ao meu irmão que me mostrasse qual carro eu poderia usar e ele decretou que iria comigo, logo Helena se juntou a nós. Tommy pestanejou, mas ele não tinha voz com a esposa dele.

⁃ Chegamos — Tommy falou estacionando

Descemos do carro e coloquei o capuz do casaco que eu vestia. Eu não tinha medo de ser reconhecida, mas estava frio demais. Com certeza estava perto de nevar.

⁃ A mãe de vocês iria dar um chilique se nos visse aqui — Helena riu colocando seu capuz

⁃ Daria tudo para ver o show dela — falei enquanto andávamos, meu irmão estava a nossa frente atento

⁃ Laurel não fez por mau — Helena disse suspirando — Na cabeça dela, estava fazendo o certo. Sabe-se lá o motivo que ela despediu Caitlin.

⁃ Na cabeça dela, ela sempre esta certa, Helena — suspirei

⁃ Mas ela não tem culpa sobre o…

⁃ Eu sei — me apressei em dizer com medo de Tommy ouvir

Eu sabia que Laurel não tinha culpa do que estava acontecendo entre mim e Oliver. Por mais que ela fosse a futura noiva dele, ela não sabia de tudo que havíamos vivido. Do amor que sentíamos… Bom, do amor que eu pensava que ele sentia por mim. Nada disso era culpa dela. Ela apenas queria um bom casamento e um título. Também não era culpa de Oliver o fato de seu pai o colocar contra parede. Ou casa ou perdem tudo. A culpa que Oliver carrega é de ter mentido para mim. Ele teve várias oportunidades de me contar, eu poderia te-lo ajudado.
Mas, não… Entre mim e a mentira, ele preferiu a mentira.

Eu o amava tanto. Me casaria… Sim! Eu me casaria com ele às pressas se fosse preciso, apenas para ajudar a sua família. E também para viver ao seu lado o resto dos meus dias. Que era o que eu mais desejava. Mas eu precisava tirar esse amor de dentro do meu coração e jogar fora. Ele seria o meu cunhado, até então.

Andamos por uns dois minutos na calçada de pedras até entrarmos em um beco estreito onde carro nenhum passava, lá haviam várias portas e de uma delas saia um som abafado. Música, identifiquei. Tommy empurrou a porta e eu e Helena passamos tirando o capuz de nossas cabeças. Várias rostos masculinas se viraram para nós, eu ignorei varrendo o local a procura de Caitlin.

O lugar era estilo medieval, acho que era proposital, mas as luzes e a música deixava com um ar moderno. Algumas mulheres uniformizadas serviam as meses e outras — com vestidos ousados — estavam abraçadas a alguns homens que bebiam, fumavam e jogavam cartas,

Tommy respirou fundo.

⁃ Vamos sair daqui — falou segurando a cintura da esposa — Antes que confundam vocês

⁃ Elas são…? — perguntei

⁃ Sim — ele respondeu

⁃ Caitlin?

⁃ Garçonete — Helena disse — Apenas

⁃ A gente não tem como saber — meu irmão acrescentou e eu o olhei feio

Caitlin não se submeteria a esse tipo de serviço. Certo? Ela tinha a mãe dela, dona da melhor alfaiataria da nossa região. A madame Snow não deixaria a filha largada a esse tipo de função. Quis acreditar que não.

Olhei mais uma vez o ambiente e percebi uma porta, perto do balcão, com um homem gigante parado. Estaria Caitlin lá dentro? Ele era algum tipo de segurança?

Respirei fundo e andei em direção a porta. Mas meu irmão me parou.

⁃ Onde você pensa que está indo? — ralhou

⁃ Procurando Caitlin — respondi

⁃ Felicity, eu tenho que concordar com seu irmão — Helena disse — Estamos chamando atenção demais, amanhã durante o dia podemos voltar.

⁃ Vocês podem ir embora — me soltei das mãos de Tommy e ele bufou ao mesmo tempo que uma garçonete se aproximava.

Ela vestia saias pretas com suspensório, camisas de manga comprida verde e meias brancas. Esse uniforme era padrão das garçonetes, acho que para diferenciar das…

⁃ Boa noite! — sorriu forçado — Não sabia que a realeza frequentava esse lugar. Milorde, miladys — fez uma reverência de má vontade, vi Helena revirar os olhos — Gostariam de uma mesa? — assentimos e ela nos guiou a uma mesa perto da porta que o gigante tomava conta, agradeci mentalmente. — Me chamo Iris, o que vão querer?

⁃ Nada — Tommy falou e a menina fez cara feia

⁃ Para ficar no estabelecimento…

⁃ Três cafés, por favor — pedi

⁃ Não vendemos…

⁃ Três águas — Helena disse sem paciência

⁃ Mais alguma coisa?

⁃ Na verdade — comecei — eu gostaria de uma informação. — a menina, Iris, assentiu esperando que eu continuasse — Caitlin Snow trabalha aqui? — percebi o semblante dela mudar. Ela não gastava da Caitlin, deduzi.

⁃ A Snow? O que querem com ela?

⁃ Ela está aqui ou não? — minha cunhada perguntou

⁃ Aparentemente ela é bonita demais pra zanzar pelo salão — bufou — Fica servindo os riquinhos lá dentro — apontou para a porta onde o gigante estava e saiu andando

Em um rompante eu levantei, ouvi protestos de Tommy e Helena, mas ignorei. Poderia parecer tolice da minha parte essa necessidade de encontrar minha amiga. Porém, uma vozinha dentro de mim dizia que era isso que tinha que ser feito. Que ela precisava de mim. E eu estaria lá por ela.

Eu vivi tanto tempo sozinha em Nova York até conhecer Thea e Oliver, após a morte de Cooper. Eu ia da fábrica pra casa, de casa para fábrica. Sentia falta de ter pessoas como Caitlin, Helena e Tommy se metendo na minha vida.

Caitlin sempre esteve lá por mim. Me ajudou a fugir, cuidou de tudo para que eu não fosse pega. E eu sabia que ela precisava de mim agora.

Parei em frente ao gigante e ele me analisou bem, olhou minhas roupas e arqueou as sobrancelhas.

⁃ Como eu faço pra entrar aí? — sorri amarelo

⁃ Aqui é um clube de homens, senhora — falou com a voz grossa — Creio que jogos, charutos e mulheres não sejam a sua preferência de diversão.

⁃ Não são — remexi o bolso e puxei uma nota de cem libras — Mas isso me ajuda a entrar aí?

⁃ Com certeza — assentiu pegando a nota e abrindo a porta.

Foi mais fácil do que eu pensei. Comemorei internamente pelo meu pequeno suborno e quando passei pela porta logo escutei ela sendo fechada atrás de mim. Respirei fundo sentindo o nervosismo pelo ambiente desconhecido à minha frente. Passei por um corredor que devia ter uns 10 metros e à frente uma porta vai e vem de madeira. Dava pra ouvir as risadas e a música, o cheiro forte de charuto tomava conta de tudo. Ali devia estar a elite de Wiltshire.

Respirei fundo novamente e passei pela porta. Como eu suspeitava, a elite da cidade estava lá. Homens bem vestidos, com seus melhores ternos — competindo entre si quem estava mais arrojado — sentavam em volta de mesas de jogos de cartas, damas e xadrez, ou apenas sentados em poltronas fumando, bebendo e conversando entre si. Um ou outro tinha uma mulher em seu colo, mulheres diferentes da taberna. Essas estavam bem vestidas, como se fossem dançarinas ou bancadas por homens ricos.

A repulsa veio. A maioria desses homens eram casados, com belas esposas, mas bancavam amantes de luxo para inflar seus egos na frente dos amigos.

Tomei fôlego mais uma vez sentindo uma ânsia tomar conta de mim. Andei até o bar para perguntar sobre Caitlin até que uma mão me puxou na direção contrária.

⁃ Tommy, eu já falei que não pedi que viesse comigo — ralhei — Eu posso me virar sozinha.

⁃ Eu sei — a voz bufou me paralisando — Pior que eu sei

Eu ainda não havia olhado o dono da mão que havia me puxado. Eu estava certa que era meu irmão, mas eu estava completamente errada. Aquela voz, aquele toque, aquele maldito olhar que fazia todo o meu mundo girar.

Oliver estava impecável em seu terno, sua barba por fazer — destruindo toda a estiqueta de que a nobreza devia ter o rosto limpo de pelos — graças a Deus ele não ligava para a etiqueta. — e com uma cara de aborrecido.

⁃ Oliver — falei

⁃ Oi, amor — acariciou meu rosto, desviei

⁃ Xiiiu — empurrei sua mão — Não me chama assim.

⁃ O que faz aqui, Felicity? — ladrou aborrecido

⁃ Eu vim procurar uma pessoa — fiz menção de sair de perto dele, mas ele me impediu — Me deixa em paz

⁃ Aqui não é lugar para você.

⁃ Mas pelo visto, é para você, não é mesmo? — olhei ao redor e a repulsa voltou com tudo — O antro da cafajestagem — olhei feio para ele

Eu não ia ser hipocrita e mentir, ia ser sincera comigo mesma. O bichinho do ciúme começou a se agitar dentro de mim. Será que Oliver estava com alguma daquelas mulheres? Será que ele era tão libertino a ponto de frequentar esses locais para conseguir um transa rápida com uma mulher qualquer? Eu sabia que ele não era flor que se cheirasse quando me envolvi com ele pela primeira vez, mas desde que demos o primeiro beijo ele jurou que nunca mais havia encontrado outra mulher além de mim.

Será que até isso fora uma mantira?

⁃ Eu não vim aqui fazer o que você está pensando — suspirou

⁃ Eu não tenho que pensar nada sobre você — me soltei dele — Não temos nada

⁃ Felicity, por favor — suplicou e eu quase vi verdade ali — Eu preciso que você me escute

⁃ Eu já falei que não temos nada para conversar — cruzei os braços a minha frente, tentando meu proteger dele e de mim mesma. — Eu preciso encontrar minha amiga — mudei de assunto

⁃ Amiga?

⁃ Caitlin Snow, ela… — olhei ao redor e Oliver simplesmente me puxou.

Comecei a reclamar e olhos curiosos nos encaravam. Droga, amanhã teriam michiricos de que a filha do Conde estava no salão de homens sendo arrastada pelo Queen. Maravilha! Mamãe ia morrer!

Oliver ignorou todos os meus protestos e me guiou até a porta do que parecia ser um banheiro. Sussurrou algo “Vou ficar bem aqui” e me colocou lá dentro fechando a porta atrás de mim. Eu estava pronta para gritar por ele ter me prendido no banheiro quando escutei um soluço e procurei o interruptor acendendo a luz.

A dona da cabeleira cor de caramelo e dos soluços estava sentada no chão, de cabeça baixa, chorando tanto que todo seu corpo balançava.

⁃ Caitlin? — perguntei e ela levantou a cabeça no susto

⁃ Ah meu Deus — minha amiga levantou e voou em mim me abraçando forte — Eu não acredito que você está realmente aqui. — retribuiu o abraço com força e percebi que também chorava.

Nos separamos e reparei que Caitlin usava um uniforme semelhante ao de Iris, só que todo preto e mais sofisticado. Ela tinha um batom vermelho borrado e o nariz vermelho pelo choro.

⁃ O que aconteceu? — perguntei secando uma lágrima dela — Cheguei hoje e não estava lá. E esse choro?

⁃ Muita coisa mudou, Lissy — suspirou se encostando na parede — Tenho tanto para contar

⁃ Pode começar pelo motivo desse choro — me encostei na parede em frente à ela.

⁃ Esse trabalho é difícil — fungou — Eles não aceitam um não — mordeu o lábio segurando o choro — Eles acham que mulher é um pedaço de carne, só porque algumas se submetem… Se submetem a certas situações… Eles acham que todos são iguais. Eles passam a mão quando servimos a mesa e …

Eu sabia que ser mulher não era fácil. Eu sentia na pele, no meu dia dia. Ser presidente de uma fábrica de medicamentos sendo mulher, não era nada fácil. Ninguém te apoiava, nem mesmo o nosso próprio sexo. E os homens não toleravam ver uma mulher sendo chefe deles. Muitas vezes eu pedi que Curtis desse alguma ordem, pois eles não escutavam a mim e me venciam pelo cansaço. Mas eu não imaginava o que era passar pelo assédio, mesmo que eu já tivesse passado pela agressão… Mas assédio? Nunca. Então eu não sabia o que a Caitlin estava sentindo. E nesse momento eu só queria embala-lá em meu colo e dizer que estava tudo bem agora.

Ela não precisaria voltar pra esse emprego.

⁃ Eu sinto muito — disse por fim

⁃ Eu sei que sente — riu fraquinho — O seu semblante diz muito

⁃ Eu não sei disfarçar — fiz careta

⁃ Você nunca soube — riu — Eu preciso desse emprego, mas está cada dia mais difícil.

⁃ Volta comigo pra casa — pedi e ela me olhou atentamente.

Percebi várias emoções passando na face de Caitlin. Medo, raiva, tristeza, cansaço. E por um momento eu percebi que ela choraria novamente. Seja lá qual tenha sido o motivo dela ter ido embora, não era algo tão bom. O olhar dela dizia isso.

⁃ Eu não posso — disse — Sua irmã me expulsou de lá

⁃ Você pode ir comigo para Nova York — prendi os lábios entre os dentes

⁃ Eu não posso — suspirou — Felicity, é complicado.

⁃ Eu não quero uma empregada, Cait — segurei o choro — Eu sinti sua falta lá comigo, aconteceram coisas comigo e eu não tinha você lá — já sentia as lágrimas rolando — Eu posso te ajudar, posso te dar um emprego na fábrica e você não precisa morar com a minha irmã na mansão. Eu vou embora depois do ano novo e não pretendo voltar pra cá, e mesmo se eu voltar você não precisa vir. Nova York pode ser sua casa também…

⁃ Eu tive um filho — me interrompeu e eu me calei a olhando assustada

⁃ O que?

⁃ Eu tive um bebê — abaixou a cabeça — Laurel descobriu quando fiquei grávida, ela disse que uma mulher desonrada não merecia viver no mesmo teto de uma família nobre. Disse que mancharia a reputação dela. Ela estava certa, sabemos como a sociedade é. Mas ela foi tão rígida comigo.

⁃ Caitlin… — eu não sabia o que dizer.

Laurel expulsou Caitlin no momento em que ela mais precisava de amparo e proteção. Eu sabia o que era estar grávida e sozinha, mas eu tinha Thea e tinha a fábrica que não me desampararia.

⁃ O pai do bebê era um soldado que esteve de passagem durante a guerra, ele fraturou a costela e não pode voltar para o combate. Quando a amesticio foi declarado, ele foi embora. Eu não esperava que tivéssemos um futuro. Mas eu fui burra o suficiente para não me cuidar e acabei grávida.

⁃ Ele não sabe sobre o bebê? — ela negou com a cabeça e eu a abracei — Você não sabe onde ele está? — negou novamente- Está tudo bem. Eu não ligo para essas coisas, você sabe.

⁃ Eu sei que você não liga — me abraçou de volta — Mas sua família não vai me querer lá

⁃ Eles não tem escolha — olhei em seus olhos — Você é como uma irmã e o seu bebê… — sorri — Meu Deus, Caitlin, você tem um bebê. — a animação tomou conta de mim de uma força que eu não esperava.

Eu nunca me imaginei sendo mãe, ou segurando um bebê. Até que eu tive certeza que uma vida crescia dentro de mim e eu percebi que ser mãe era tudo que eu queria, mas não sabia. Perder aquela parte de mim me fez enxergar o mundo de outra forma. E cada pequena criança que eu vejo, eu sei que é um pingo de esperança em mim. Crianças são a luz da vida de seus pais e de toda sua família. Eu não via a hora de conhecer a luz de Caitlin, e eu nem conhecia esse bebê e já estava apaixonada por ele.

A única certeza que tenho é que essa luz na vida da minha amiga passaria a ser a luz da minha também. Eu protegeria esse bebê contra qualquer um, mesmo sendo da minha família.

⁃ É uma menina — falou sorrindo — Rose

⁃ Rose… Eu preciso conhece…

Fui interrompida pela porta sendo escancarada e Oliver adentrando no pequeno banheiro. Ele era tão grande e o banheiro tão pequeno, ele ocupava todo o espaço. Comecei a hiperventilar quando o cheiro do perfume dele inundou o local. Mordi o lábio e vi Caitlin me encarar um uma sobrancelha erguida em interrogação.

Merda.

Ela percebeu.

⁃ Condessinha, seu horário aqui acabou — ele disse me olhando

⁃ O que? — perguntei

⁃ Seu pai chegou

⁃ Vocês se conhecem? — Cait perguntou desconfiada

⁃ Não — falei ao mesmo tempo em que Oliver dizia: — Sim

Olhei feio para ele e ele sorriu para ela.

⁃ Eu pedi ela em casamento — falou

⁃ Mas ele é o noivo da Laurel — respondi e foi a vez dele me olhar feio

⁃ Eu não propus e nem irei propor, amor, você sabe

⁃ Eu não sei de nada. — bufei — O que meu pai faz aqui? Veio olhar prostitutas com você?

⁃ Felicity- suspirou — Ele quer que eu me hospede na casa de vocês. Eu ia negar novamente, mas pensando por outro lado, eu vou aceitar. Ficarei mais perto de você — piscou

⁃ Você não ousaria…

⁃ Ah! Eu ousaria sim!

⁃ Vocês já transaram, não é? — minha amiga perguntou

⁃ Não — falei ao mesmo tempo em que Oliver dizia: — Sim

Caitlin riu meneando a cabeça em diversão. Ótimo! Virei atração principal de alguma piada romântica, ou desgraça romântica.

⁃ Srta. Snow, a verdade é que sua amiga é o amor da minha vida. Mas eu errei demais com ela. — me olhou tão intensamente que eu engoli em seco — Não esqueçam que o Conde está lá fora — piscou e saiu.

⁃ Felicity…

⁃ Não começa, Caitlin

⁃ Você ama o Sr. Queen — riu — Está estampado na sua cara

⁃ Conhece o Oliver? — perguntei sentando no chão.

⁃ Um lorde de merda tentou me beijar a força e o Sr. Queen me ajudou e me escoltou até aqui. — trancou a porta e se sentou ao meu lado — Me conta.

E eu contei. Contei tudo. Nos mínimos detalhes, mas não contei do meu bebê. Não sei porque, mas não tive coragem. Eu não queria mentir para Caitlin, mas não tive coragem. Outra hora e em outras circunstâncias eu contaria do meu bebê e de como ele foi tirado de mim. Hoje eu só queria a alegria de ter reencontrado a minha amiga e saber que ela tinha uma surpresinha para me apresentar.

Não sei quanto tempo ficamos naquele chão, mas conversamos muito. Graças a Oliver. Respirei fundo ao pensar nele. Porque as coisas tinham que ser tão complicadas? Conhecer, se apaixonar, casar, ter filhos e ser feliz pra sempre. Porque tudo tinha que ser como uma montanha russa cheia de obstáculos perigosos? Era pedir muito ser feliz? Eu não merecia ser feliz? Porque o homem pelo qual eu era completamente apaixonada era o provável noivo da minha irmã? Porque eu me sentia na obrigação de abrir mão da minha felicidade pela felicidade dela?

Ela faria o mesmo por mim?

Bom, era essa pergunta que Caitlin tinha acabado de me fazer e eu olhava pra ela igual uma retardada sem saber o que responder.

⁃ Deixa que eu respondo pra você: Não — ela disse como se fosse o óbvio — Laurel não é uma bruxa, mas tenho certeza que ela não desistiria desse casamento para você ser feliz transando com o noivo delícia dela.

⁃ Ele ainda não é noivo dela — me senti na obrigação de dizer

⁃ Ah, você me entendeu.

⁃ Você o ama, e ele te ama — falou — Não tem motivos para estarem separados, Laurel vai arrumar outro noivo.

⁃ Ele mentiu para mim — cocei a testa, esse assunto me deixava extremamente nervosa e a ponto de desabar — Ele… Ele não precisava me enganar.

⁃ Talvez ele só quisesse te poupar, meu bem — falou doce — Ele nunca ia imaginar que vocês seriam irmãs. Talvez ele quisesse apenas se livrar desse problema quando chegasse aqui, para logo depois ficar com você. Já pensou por esse lado?

⁃ Não. — suspirei

E eu realmente não havia pensado. Será que Caitlin estava certa? Mas Oliver não precisava esconder de mim. Ele poderia ter sido sincero comigo, e nada teria mudado entre nós. Ele teria me poupado dessa dor, dessa angústia. Teria me poupado de me sentir suja por desejar tanto ele a ponto de não ligar para minha irmã.

⁃ Pois é, as vezes ele só queria resolver e depois te encontrar e te contar. Felicity, esse homem é completamente apaixonado por você. Quem olha pra ele percebe.

⁃ Você só viu ele uma vez.

⁃ Exatamente, eu só o vi uma vez e percebi isso.

⁃ Vamos sair daqui — falei mudando de assunto e ela meneou a cabeça rindo.

Saímos de fininho do banheiro e vi de longe Oliver conversando com papai. Papai estava de costas para mim e eu agradeci, o futuro conde Queen quando me viu deu um leve sorriso e eu não me segurei, retribuiu. O que o deixou ainda mais agitado em sua poltrona.

Eu era tola demais!

Sai daquela sala puxando Caitlin comigo até a porta que o gigante havia deixado eu passar, abrimos ela e não havia mais ninguém tomando canta. Fui até a mesa em que Helena e Tommy deveriam estar. Mas estava vazio.

Ótimo.

Eles me largaram a pé.

⁃ Vira comigo para casa? — perguntei

⁃ Você tem certeza? Somos eu e uma bebê de quase uma ano, não quero causar intrigas ou problemas.

⁃ A partir de hoje você é auxiliar na área de armazenamento de medicamentos, passará por três meses de treino quando voltarmos e depois será contratada — estiquei a mão e ela apertou sorrindo — Eu quero conhecer a Rose, se não será demitida imediatamente.

⁃ Até que enfim — Tommy apareceu nos interrompendo — Srta. Snow — cumprimentou

⁃ Milorde.

⁃ Onde está Helena? — perguntei

⁃ Levei ela embora e voltei para te buscar, pela sua demora deduzimos que havia encontrado a Srta, e Helena quis preparar o quarto.

⁃ Como sabiam que eu ia aceitar voltar? — Caitlin perguntei curiosa e meu irmão riu

⁃ Quem diz não para a cara de chorona da minha irmã? — rimos e dei língua para ele — Vamos embora…

⁃ Antes temos que fazer uma parada — falei e ele me olhou desconfiado — Caitlin passe o endereço ao nosso motorista. — ele fez careta

E assim tomamos rumo a casa que minha amiga estava morando de favor desde que o bebê nasceu. Ela havia me contado que um adorável casal, que eram conhecidos de sua mãe, a abrigou e cuidavam do bebê para que ela pudesse trabalhar. Harrison e Tess Wells eram um casal de idosos cujo a única filha havia se casado e ido morar com o marido em Boston. Tess cuidava de Caitlin quando a mesma era pequena e a mãe ficava no ateliê. Digamos que a Madame Snow tenha renegado a filha após a gravidez, e Tess a acolheu.

Sim, Caitlin me contou tudo isso enquanto estávamos no banheiro.

Contou também o nome do pai do bebê, Barry Allen, que foi um soldado que serviu na frente de combate na segunda fase da guerra — Guerra de Trincheiras. O que me fez lembrar, que Oliver poderia ter conhecido Barry. E assim saber como encontrá-lo. Mas essa última parte eu não contei a Caitlin, não queira dar esperanças a ela.

E cá estava novamente, meus pensamentos em Oliver.

⁃ Chegamos — Cait disse — Essa casa à frente

Tommy estacionou e descemos, a casa era colonial simples de parede de pedra cinza e pouco iluminada. Padrão das casas do pequeno centro de Wiltshire, Cait havia dito que o Sr. Wells era dono da barbearia que ficava ao lado da loja de sua mãe.

Ela deu três batidas na porta e uma senhora de cabelos loiros grisalhos apareceu sorrindo.

⁃ Querida, já chegou — sorriu ao se dar conta que eu e meu irmão estávamos no encalço de Caitlin — Irmãos Smoak, como cresceram — olhei para Tommy e ele deu de ombros — Entrem, entrem todos. Meu marido dorme, estou cuidando da pequena Rose.

⁃ Ela deu muito trabalho? — Caitlin perguntou

⁃ Rose é um amor, diferente de você, que bagunçava tudo quando era pequena — rimos

Caitlin explicou a Tess o que estava acontecendo e eu vi o desespero no olhar da gentil senhora quando entendeu que minha amiga e a bebê estavam de patida. Tommy quando bateu os olhos na criança faltou desmaiar, e nós contamos que a bebê havia sido o motivo de Laurel ter expulsado ela de nossa casa. Tommy não gostava de injustiças, e não gostou do que ouviu. Ele disse que teria acolhido Caitlin e a bebê, e eu sabia que se ele soubesse teria feito exatamente isso, eu não esperava menos dele.

Quando meus olhos bateram em Rose, todo o meu corpo se arrepiou. De emoção. A menina era a cara do pai, eu não o conhecia, mas ela não era a cara da mãe. Isso era nítido. Ela tinha de Caitlin a cor dos olhos e do cabelo. Rose era rechonchuda e tinha as bochechas rodadas. Um sorriso banguela gostoso e por um momento minha mente traiçoeira voou para o passado, um passado não muito distante, onde eu acariciava minha barriga e ficava imaginando como seria o rosto do bebê que estava lá dentro. Do bebê que amava me dar chutinhos e arrancar meus mais puros sorrisos. O bebê se pareceria comigo ou com Oliver?

Suspirei embalando Rose em meu colo e a olhando com devoção. Eu ajudaria Caitlin no que fosse preciso.

⁃ Você estava com quantos meses? — ela me perguntou enquanto terminava de fechar a mala da bebê

⁃ O que? — perguntei sem entender, sem desviar os olhos de bebê que me encarava curiosa

⁃ Quando você perdeu o seu bebê? — Olhei para ela por alguns minutos em choque. Como ela havia descoberto? Eu não lembrava de ter contado, muito pelo contrário. Só Helena sabia, Helena e Lyla — O jeito que você olha pra ela, como se tivesse disposta a protegê-la, mas não tem nenhum perigo aqui. O jeito que você a segura, com devoção, tenho certeza que está pensando que poderia ser o seu bebê aí. E o jeito que nesse momento está com uma das mãos na barriga…

⁃ Caitlin…

⁃ Porque não me contou?

⁃ Me sinto culpada e fraca.

⁃ O bebê era o Coop? — neguei — Oliver? — assenti — Ele sabe? — neguei — Isso explica muita coisa.

⁃ Explica o que?

⁃ Você mente pra ele também, não perdoa, porque sabe que vai ser difícil pra ele perdoar você. — falou como se fosse o óbvio — Você está escondendo um filho dele, ele só te poupo da notícia de um casamento que aparentemente nem vai acontecer.

⁃ Caitlin…

⁃ Não! Você vai ouvir! — falou autoritária e Rose riu. Ótimo! Não tinha nem dente e já estava a favor do Queen! — Você que deixa tudo complicado. Ele te ama, você o ama. Deixa ele se explicar e não se sabota. Façam mais bebês, vocês são lindos, as crianças serão impecáveis. — revirei os olhos — Faz quanto tempo?

⁃ A criança teria uns dois anos e meio para três anos. Eu estava com três meses e não quis saber o sexo quando médico tirou o feto. Eu não queria sofrer mais em pensar como seria, um menino ou uma menina. — respirei fundo — Já era doloroso demais não sabendo, Oliver estava na guerra.

⁃ Como aconteceu?

⁃ Eu não… — meus olhos encheram de lágrimas

⁃ Não precisa falar, já que te dói tanto — veio perto de mim e acariciou meu rosto — Mas você tem Rose e George, pode aperta-los o quanto quiser e já já os minis conde Queen estarão correndo por aí.

⁃ Pare de baboseiras e vamos logo.

O caminho para casa foi extremamente diferente, Rose chorou o caminho todo, pois não estava acostumada com o carro. Eu, Tommy e Caitlin fomos cantando músicas aleatorias para ver se distraia ela. Até que a única coisa que a fez parar foi quando Cait jogou um pano por cima das duas e deu de mama. Tommy nem ligou, disse que George era assim também. Mas ficou o tempo olhando apenas para a estrada, encabulado.

Homens e suas imaturidades…

Quando chegamos na propriedade, Helena tomou um susto quando nós viu com um bebê. Mas logo morreu de amores pela mais nova moradora da casa. Deixamos ela a par de toda a história e a mesma ficou muito chateada, pois Caitlin não a procurou para nada. E minha cunhada disse que teria ajudado e mantido e emprego. Helena fez Tommy pegar o berço que era de George e colocar no quarto de vestir que ficava ao lado do meu, junto com uma cama. Prometi ser um quarto provisório até que arrumássemos o quarto de hóspedes. Caitlin quis saber que horas eu acordaria para me arrumar, e eu disse que a partir daquele dia ela era hóspede e não empregada. Sendo apenas funcionária da fábrica.

Ela não gostou, mas eu não estava nem aí. Ela não ia me servir.

Me despedi de todos e fui para o meu quarto. Já era madrugada quando chegamos e meu corpo gritava cama. Minhas pernas latejavam e eu sentia uma pequena cólica no pé da minha barriga. Acho que o fuso horário AméricaXEuropa estava começando a fazer efeito.

Quando entrei no banheiro eu agradeci mentalmente por papai amar modernidade e sempre estar atualizando alguns cômodos da casa. Um deles era o banheiro, liguei o chuveiro e deixei a água encher a banheira enquanto eu me despia e escovava meus dentes, separei minha camisola e por fim entrei na banheira. Deixei a água morna trabalhar em toda célula tensa do meu corpo. Tentei relaxar e não pensar em tudo que Caitlin havia me dito.

Também me recordei das palavras de Helena.

Estariam elas certas?

Helena disse que eu tinha uma família com Oliver, Caitlin disse que devíamos lutar pelo nosso amor mesmo que isso traga a infelicidade da minha irmã. Mas ela não amava o Oliver. Ela não sofreria…

Meu Deus.

Afundei meu corpo inteiro na banheira e reprimi um grito. Um grito de agonia. A um mês atrás a minha única preocupação era se eu veria novamente o Oliver um dia. Hoje a minha vida está uma bagunça.

Emergi na água e me levantei. Me enrolei na toalha e fui para o meu quarto. Quando eu já estava apenas de combinação me joguei na cama e apaguei. Não sonhei. Apenas dormir pesadamente. Eu estava cansada demais.

(…)

Acordei escutando leves batidas na porta. De início eu achei que era apenas um sonho, mas as batidas não paravam. Xinguei e procurei por um robe o colocando rápido, preocupada achando que poderia ser Caitlin com Rose.

Olhei no relógio. 5:00 da manhã, o despertador estava previsto para as 7:00.

Abri a porta em um rompante e quase caí pra trás ao me deparar com Oliver na porta me olhando agoniado. Ele vestia um terno clarinho e tinha os cabelos molhados como se tivesse acabado de tomar banho.

Ele dormiu aqui?

⁃ Oliver — suspirei

⁃ Oi — ele disse olhando para os dois lados do corredor, provavelmente com medo de ser pego por alguém.

⁃ Entra logo antes que alguém te veja aqui — dei passagem e ele entrou com cuidado olhando detalhadamente o quarto — O que você tá fazendo aqui? — fechei a porta

⁃ Você me chamou pra entrar — falou como se fosse o óbvio parando no meio do quarto e cruzando os braços

⁃ Na minha casa — falei me aproximando dele, mas também mantendo uma distância segura

⁃ Eu falei que viria — suspirou — Mas posso ir embora se você quiser. Eu só queria ficar perto de você. Eu só queria que você me escutasse. Eu te amo e…

⁃ Oliver… Não fala que me ama, você mentiu pra mim.

— Você pode me pedir para dizer que não te amo, mas eu nunca vou mentir para você de novo. Eu sei que você vai dizer que não tem nada para falar comigo, tudo bem, não fale . Só me escuta, por favor. — passou as mãos nos cabelos — E depois de me ouvir, se você quiser, eu pego o primeiro trem pra Londres e você nunca mais vai me ver. — algo dentro de mim mudou com aquele discurso. Eu nunca mais o veria? Mas não era isso que eu deveria querer depois de toda a mentira? Eu deveria não querer mais olhar na cara dele. Mas não, eu estava aqui feito uma idiota mordendo o lábio doida para pular no colo dele e fazer muito sexo na minha cama que estava milimetricamente arrumada. Mas eu me segurei e apenas assenti. — Senta — levantei a sobrancelha — Por favor — assenti novamente fazendo o que ele pediu. Eu está tão cansada da viagem, da corrida para trazer Caitlin, parecia que eu nem tinha dormido, eu não tinha mais forças para debater. — Você está bem? — ele perguntou franzindo o cenho e eu assenti novamente — Felicity?

⁃ Eu estou bem — me aconcheguei na poltrona — Eu só estou cansada, foi muita coisa em um só dia

⁃ Você está pálida — observou

⁃ Eu estou bem — repeti e ele assentiu ainda desconfiado — Pode falar — respirei fundo

⁃ Pra começar, eu não aceitei vir me hospedar aqui por causa da sua irmã — gesticulou e eu assenti exausta — Eu só queria ter essa oportunidade com você, de falar com você. Eu planejava ir embora hoje mesmo, planejo, se não quiser que eu fique. Minha família só irá embarcar no trem com o meu aval.

⁃ Thea não vem? — perguntei sentindo um pequeno aperto no peito

⁃ Quer que ela venha? — assenti devagar — Posso pedir que ela venha… Felicity, você está realmente bem?

Tirando a cólica no pé da barriga, o sono, a eminente falta de açúcar no meu sangue — que estava me deixando tonta — e as pernas formigando. Eu estava ótima.

⁃ Eu estou ótima. Porquê fica perguntando isso?

⁃ Bom… Você está pálida e terrivelmente quieta.

⁃ Prefere que eu grite com você?

⁃ Eu prefiro — falou sincero e nos encaramos por um tempo

Ali, parado no meio do meu quarto, me olhando preocupado, estava o homem que eu acreditei ser o homem da minha vida. Foi ele que eu passei noites em claro me perguntando se o veria novamente, se ele estava vivo… A pessoa que por um tempo eu sonhei passar o resto da minha vida. E agora ele está parado bem na minha frentes, tão perto, tão alcançável, mas parece que existe um abismo entre nós. Uma distância enorme cheia de obstáculos que no momento eu estava cansada demais para driblar.

Ontem, no caminho para casa eu chorei tanto. Acho que eu nunca tinha chorado naquele intensidade, eu nunca tinha sentido aquela dor, aquela sensação.

Traição.

Eu me sentia traída por Oliver.

Mas será que ele se sentiria assim quando descobrir que seu bebê de apenas 3 meses fora assassinado ainda dentro de mim? O lugar onde ele deveria se sentir seguro. Ou ele se sentiria tão culpado quanto eu, quando soubesse que o bebezinho fora tirado de nós e ele não estava lá para nos proteger. Ele se sentiria traído ou se sentiria culpado? Por mais que a única culpa fosse minha.

Talvez eu estivesse sendo extremamente hipocrita escondendo isso dele e o julgando pela mentira.

Mas ele estava sendo melhor que eu nesse momento, ele queria de retratar. Enquanto eu continuava a esconder.

⁃ Não estou no clima para brigar — suspirei — Estou com sono

⁃ Você quer que eu saia? — neguei — Ok! — ele andou até mim e agachou na minha frente, ficando quase da minha altura — Desculpa por ter mentido para você. Eu te amo! Eu te amo demais e não queria te aborrecer com um assunto que na minha cabeça já estava resolvido — mordi o lábio controlando um comentário ácido e deixei ele continuar — Eu já tinha planejado desembarcar em Londre, vir a Wiltshire e me desculpar com o Conde, dizer que eu não poderia me casar com a filha dele, porque eu estava apaixonado por alguém. Dizer que eu sabia que esse alguém também me amava e que eu não podia deixar ela escapar. Eu sabia que ele não se oporia, e eu não estou mais ligando pra herança. Você é minha herança, Felicity. O que eu quero construir com você é a herança que eu quero deixar. Eu só não esperava ter que dizer ao Noah que eu quero sim me casar com a filha dele, só que com a filha mais nova.

Eu não sei em qual momento eu comecei a chorar. Só sei que sentia tímidas lágrimas escorrerem pela minha bochecha. Eu amava demais aquele homem. Mas… Ainda assim…

⁃ Você não confiou em mim, mesmo assim mentiu para mim.

⁃ Eu não queria te aborrecer por um assunto que, para mim, já estava resolvido. Vou fazer de tudo para salvar minha família, mas não vou me casar com alguém que não amo.

⁃ Oliver…

⁃ Eu sabia que você surtaria com esse assunto, e eu não queria estragar a sua viagem. Só tentei te poupar e esse foi meu erro. Me perdoa. — passou à mão pelos cabelos — Eu não sei mais o que fazer, Felicity. Pra você me perdoar. Se você achar que nunca vai conseguir, eu vou embora. Já falei com seu pai que não pretendo me casar com a sua irmã.

⁃ Já?

⁃ Sim, ele pediu que eu ficasse aqui até o aniversário dele, que o convite estava de estendido a minha família. Mas posso ir para casa e garantir que apenas Thea venha…

⁃ Oliver, eu não quero que você vá embora — falei acariciando seu rosto — Eu estou magoada, parece que você vai mentir novamente para mim a qualquer momento, mas… Eu não quero ficar longe de você.

⁃ Você não sabe o quanto me deixa feliz ouvir isso, amor — sorriu fraquinho e pegou a mão que estava em seu rosto, beijando-a

⁃ Fique, aceite o convite do papai — falei me levantando e ele me acompanhou — Traga sua família. Estou com saudades de Thea — ele assentiu — Preciso me arrumar para o café da manhã, poderia me dar licença, milorde? — Oliver estampou um sorriso descarado no rosto e eu sabia que viria alguém comentário indecente — Não e não, pode tirando esse sorrisinho da cara.

⁃ Ok, se é assim que condessinha prefere, estou saindo. — andou em direção a porta

⁃ Oliver? — ele se virou e me encarou segurando a maçaneta — Como sabia onde era meu quarto?

⁃ George — e saiu

Notas finais
Oi, amores! Esse capítulo foi leve. Mas no próximo teremos a reação de Laurel ao saber que o Oliver não quer mais casar com ela, vai ter a família descobrindo que Felicity levou a Caitlin pra lá. Vai ter Donna percebendo uns olhares entre nosso casalzinho. Será que ela vai gostar, ein? Felicity está ficando doente né? Tadinha! Algum palpite de como ela perdeu o bebê? Acham que já está na hora do Oliver descobrir sobre o bebê? Ou deixa eles se envolverem de novo… Hmmm tenho planos pra essa descoberta. A famosa hipocrisia. Comentem o que acharam… Beijos e até a próxima!