⁃ O que você está fazendo aqui? — disse ríspida para controlar o choro que já estava na minha garganta enquanto ele se acomodava na poltrona a minha frente. Passando a existir uma mesa entre nós dois. Seria tudo tão mais fácil se só existisse uma mesa entre nós dois.

⁃ Estou sendo transportado pelo trem, amor- falou como se fosse o óbvio — Agora você vai me ouvir, não tem para onde fugir…

⁃ Volte para a sua poltrona, tenho certeza que não é essa — olhei em seus olhos e minha barriga revirou com o nervosismo. Eu precisava ser forte — Não temos nada para conversar, Oliver. Tudo já foi dito.

⁃ Não — meneou com a cabeça — Eu não disse, eu não me expliquei. Eu não consegui te falar o motivo de estar nesse trem. Você não me deixou explicar.

⁃ Você está nesse trem, pois está a caminho de Wiltshire para conhecer minha irmã. Com quem se casará e terão lindos bebês mentirosos igual a você — eu não costumava ser prepotente, petulante ou sarcástica. Mas ou eu chorava, ou eu o tratava mal. E eu não podia chorar, eu não podia desabar toda vez que encontrasse ele. Porque eu iria vê-lo constantemente. Mamãe dizia que o sarcasmo não fazia parte da etiqueta feminina, uma mulher não devia ser irônica ou prepotente diante de um nobre. Devemos sempre ser educadas e elegantes a todo momento. Laurel era assim, eu não. — Sai daqui.

⁃ Eu não vou sair até que me escute.

⁃ Eu vou chamar alguém que te tire daqui — estiquei minha mão para tocar o pequeno sino que chamaria um funcionário, mas Oliver foi mais rápido pegando o sino e o jogando pela janela que estava entreaberta — Ei!

⁃ Você vai me ouvir — insistiu

⁃ Oliver, — fechei os olhos com força controlando a vontade de chorar — Por favor! — supliquei olhando nos olhos dele novamente — Estou cansada de pedir por favor, respeita o meu espaço. Você mentiu para mim, você me enganou. Me usou. — ele abaixou a cabeça com a minha última fala — Eu estou quebrada, como jamais estive.

Todo o meu corpo doía, minha alma doía. Eu só não desabei completamente, pois eu tinha que chegar em casa, mas eu tinha certeza que assim que chegasse em minha antiga cama, no conforto do meu antigo quarto. Ninguém me tiraria de lá de dentro. Ah! Como eu queria poder voltar para Nova York, como eu queria a correria da minha rotina, a burocracia da fábrica, a pilha de contratos e aprovações de remédios para assinar.

Quando Cooper morreu eu sofri, sofri muito. Me vi sozinha em uma nova realidade. Doeu tanto que eu fiquei uma semana presa em casa. Mas a dor que eu estava sentindo agora, era diferente. Me arriscava dizer que era maior. E eu me sentia mal por sentir tanto por Oliver, ele não merecia. Cooper sim, ele merecia. Depois quando eu perdi me bebê eu sofri tanto, passei dias chorando e quase sucumbindo à uma depressão. Doeu tanto, dói até hoje. Só de lembrar, às vezes, a vontade de chorar vem com tudo. E só de lembrar o que Oliver fizera comigo a vontade de chorar vinha com tudo.

⁃ Eu me odeio por ter feito isso com você — passou as mãos no rosto — Eu me odeio por ter sido covarde, tive medo de te perder e…

⁃ Você perdeu — falei por fim — Você perdeu e não vai ter de volta.

⁃ Felicity… — massageou as têmporas e me encarou — Deixa eu me explicar, você vai entender, deixa eu falar…

⁃ Se você me der licença — levantei, peguei minhas coisas e sai

Quando virei as costas para ele, mesmo sob seu chamado, eu desabei. As lágrimas rolaram sem pedir licença e eu chorei. Assustei algumas pessoas que estavam sentadas, não me importei, adentrei a outra cabine do trem soluçando e logo uma funcionária veio até mim perguntando se estava tudo bem. Pedi que me arrumasse um novo lugar, prometi que pagaria por ele, ela me pôs perto da cabine do maquinista e fiz toda a viagem chorando.

Antes de entrar no trem eu fiz todo o caminho de táxi aos prantos, assustando o motorista que não perguntou nada. Apenas me deixou chorar. Tentei ao máximo me acalmar para fazer as 3 horas de trem tranquila. Não esperava encontrar Oliver, e ele conseguiu me desestabilizar. Eu tinha que conseguir erguer o muro, o muro que me protegeria de qualquer sentimento para com ele.

Eu tinha que ser forte. Eu precisava ser.

Percebi ser a última parada do trem, ele já estava praticamente vazio, eu me encolhi em meu lugar sentindo minha barriga roncar um pouco.

Droga.

Havia deixado a comida de lado. Agora teria que esperar o jantar na casa dos meus pais, mas com certeza eu não queria confraternizar de um jantar junto com Oliver e o resto da minha família.

Passei as mãos em meu rosto para secar as lágrimas e me obriguei a me recompor, eu já estava com uma forte dor de cabeça de tanto chorar. E com certeza minha feição não era uma das melhores. Rezei para que ninguém fosse me buscar na estação, seria tempo suficiente para passar uma maquiagem e fingir que meu rosto inchado era cansaço.

Pouco tempo depois eu já conseguia avistar a pequena Wiltshire pelas janelas do trem. E um arrepio passou por todo o meu corpo, um sentimento de reconhecimento, lar. Não achei que fosse me sentir assim quando chegasse.

Ansiedade. Nervosismo. Saudade. Agonia.

O lar que me traria conforto era o mesmo que seria o meu inferno particular a partir do momento em que eu pisasse dentro daquela enorme propriedade.

Suspirei pesadamente quando o trem parou na estação. As poucas pessoas a minha volta começaram a se movimentar para sair e eu permaneci no meu lugar. Abracei meu corpo com força e fechei os olhos. Eu não podia desabar. Eu não podia deixar que a presença de Oliver me abalasse tanto. Eu tinha que ser forte.

O crepúsculo dava um show de beleza no céu quando sai do trem e o vento gelado tomou conta de todo o meu sistema me fazendo arrepiar, xinguei mentalmente por não ter trazido um casado mais pesado. Aquela época do ano era extremamente fria na Inglaterra, porém a neve ainda não tinha caído.

Abracei meu corpo esfregando as mãos em meus braços em uma tentativa ridícula de me esquentar. Caminhei até o local indicado para pegar minhas malas quando senti o tecido quente sendo colocado nos meus ombros.

⁃ Eu sempre vou cuidar de você, mesmo não querendo — Oliver passou por mim me deixando estagnada e puxando a minha bolsa. Me aconcheguei em seu blaser sentindo meu corpo reagir ao perfume, e em segundos o frio se dessipara.

Observei ele abrir a minha bolsa e estregar ao despachante o meu bilhete e logo minhas malas estavam depositadas aos pés de Oliver, logo após ele entregou seu bilhete e em seguida as malas dele estavam ao lado das minhas. Eu quis brigar. Ah! Como eu quis brigar. Quem ele pensava que era pra tomar a frente? Primeiro a comanda do navio, agora isso… Eu não podia falar nada, porque olhos curiosos me observavam atentamente. Eu poderia ser reconhecida por qualquer um e virar fofoca.

Respirei fundo e andei até ele que pegava uma última bolsa com o despachante das malas.

⁃ Obrigada, Conde — dei o meu melhor sorriso falso e falei educadamente. Mamãe ficaria orgulhosa! — Acredito que não conseguiria sozinha. — o funcionário riu assentindo e eu retribui também.

⁃ A senhorita irá precisar de ajuda para levar suas malas — o rapaz perguntou, abri a boca para responder, mas Oliver foi mais rápido.

⁃ Não, ela tem a mim.

⁃ Oliv… Senhor Queen, não será preciso — sorri novamente, mas acho que esse sorriso ficou mais parecido com uma careta — O motorista…

⁃ Felicity!! — escutei alguém gritar ao fundo e me virei. Meus olhos encheram de lágrimas ao encontrar Tommy de braços abertos embaixo da placa escrito “Saída”, sem pensar muito eu corri até ele e me permitir ser erguida e rodopiada no ar. — Que saudade, baixinha! — sussurrou me abraçando ainda mais forte

⁃ Eu nem acredito — ri — Tommy! Tanto tempo! — o apertei contra mim.

Tommy era o o meu irmão favorito, ele não era filho da minha mãe, ele era filho de Rebecca Merlyn e papai. Rebecca faleceu devido a uma tuberculose muito grave quando Tommy ainda era bebê, poucos anos depois James Noah conheceu mamãe e tiveram Laurel e eu. Donna tratava Tommy como um filho, mimava Tommy como um filho. E ele a chamava de mãe, e de mamãe quando queria alguma coisa. Cresci com Tommy implicando com Laurel e com Laurel implicando comigo. E na lógica, Tommy me defendendo dela. Coisas de irmãos!

⁃ Você está tão diferente. Mais bonita! — sorriu puxando meu cabelo — Que cara é essa? Andou chorando? — seu olhar varreu todo o eu rosto e eu abaixei a cabeça

⁃ Eu estou cansada da viagem. Dormi demais. — disfarcei — Doida para deitar e fofocar com você e Helena sobre os anos que eu estive fora. George deve estar enorme. Tommy, eu não vejo a hora de apertar meu sobrinho todo.

⁃ Ah, você vai se encantar com ele e… — Tommy foi interrompido por um pigarreio atrás de nós, ele olhou sugestivamente por sobre meu ombro e depois para mim e para o blaser que eu usava, e depois olhou para atrás de mim de novo e eu me virei dando de cara com Oliver de braços cruzados sem o blaser e segurei a vontade de xingar — Você é o…? — meu irmão olhou para ele ameaçadoramente, e foi retribuído com o mesmo olhar.

O de Oliver dava mais medo. Arriscaria dizer que ele estava com ciúmes, já havia visto ele assim algumas vezes em bailes que frequentávamos em NY. Quando algum outro homem me tirava para dançar, era assim que Oliver o encarava toda vez que o encontrava.

⁃ Obrigada pelo agasalho, senhor Queen — sorri forçado tirando o blaser e entregado a Oliver — Acredito que dentro do carro não irei precisar.

⁃ Queen? — Tommy olhou para nós dois erguendo uma sobrancelha — Oliver Queen? — o loiro assentiu — Sou Thomas Merlyn Smoak — estendeu a mão e Oliver apertou sorrindo simpático, seu semblante suavizando ao entender de quem se tratava — O que seu blaser fazia em Felicity?

⁃ Tommy… — comecei mas fui cortada por Oliver

⁃ Está muito frio e ela estava tremendo demais — se explicou — Os lábios estavam roxos, não achei certo deixar alguém sentir tando frio.

⁃ Porque está com as malas dela? — Tommy perguntou desconfiado

⁃ Ele só quis ser gentil, Tommy. Ele é o…

⁃ Filho do Conde de Starling — assenti — Como sabe?

⁃ Nos esbarramos no trem — me apressei em resumir — Acabou o interrogatório? Vamos embora? Acredito que o Oli… o Conde irá conosco.

⁃ Na verdade… — Oliver começou se ajeitando — Eu não vou com vocês.

⁃ Não? — Tommy perguntou sem entender e eu suspirei aliviada

⁃ Não. Vou ficar em uma pousada até resolver minha questão com o pai de vocês e ir embora. — ele me encarou intensamente e eu devolvi o olhar cheia de questionamentos — Não pretendo me hospedar na propriedade de vocês.

⁃ E seus pais? — Tommy insistiu no interrogatório e eu fiquei quieta, queria saber as respostas

Ele não se hospedaria na minha casa? Não cortejaria Laurel?

⁃ Virão para as festividades de fim de ano, não serão desgostosos em recusar um convite feito com tanto carinho pela mãe de vocês — terminou de ajeitar o blaser em seu corpo — Mas eu não ficarei, pretendo voltar para Londres ainda na semana que vem

⁃ Mas e o casamento? — Tommy também não estava entendendo nada, mas Oliver apenas deu de ombros

⁃ Se me dão licença — deu as costas e saiu levando sua bagagem.

Assenti e suspirei um pouco aliviada. Fingir que não conhecia o Oliver seria muito difícil, agradeci por ele não ir para a mansão. Porém estava doida para saber o motivo dessa mudança de planos.

Tommy ajudou o nosso motorista a abastecer o carro com minhas coisas. O veículo não era tão grande assim, mas fora o suficiente. Meu irmão e eu sentamos atrás e começamos a conversar amenidades. Ele não tocou no nome do Oliver e nem falou sobre o casamento e isso me deixou extremamente aliviada.

Pela janela reparei no centro de Wiltshire, as casas e comércios um ao lado do outros davam um ar de de calmaria ao local. Reparei que a pequena praça onde corria um rio estava ainda mais bela, haviam plantado mais árvores e colocado bancos novos de madeira. Observei três novos comércios que não existiam quando fui embora, um ateliê, uma confeitaria e um alfaiate. Mesmo com a pouca iluminação dava para perceber que a minha cidade estava ainda mais bela.

Meu coração acelerou quando deixamos o centro para trás e pegamos o caminho que eu não sabia que sentia tanta falta até o asfalto virar cascalhos de areia e a imagem das casas e comércios virar árvores e breu.

Estávamos chegando.

Suspirei com força quando o carro parou e Adrian desceu para abrir o grande portão de ferro. Será que um dia conseguiríamos abrir um portão daquele tamanho apenas apertando um botão?

Adrian dirigiu mais um pouco até a enorme residência se mostrar presente. Estava tudo calmo do lado de fora, apenas as luzes que vinha de algumas janelas do pequeno palácio. E então o carro parou.

Aquela ansiedade veio com tudo. A fachada da casa continuava a mesma. Que saudade que eu estava!

⁃ Cadê a grande recepção? — perguntei sarcástica quando não vi ninguém na porta de entrada.

Era habitual, quando recebíamos visitas, que toda a criadagem e a família estivesse devidamente alinhada na porta de casa para recepção.

⁃ Você não é visita — ele riu — E você odeia isso.

⁃ É algo completamente desnecessário.

⁃ Você não nasceu para ser Condessa — caçoou abrindo a porta

⁃ Nasci para ser presidente de uma fábrica — pisquei para ele passando pela porta e sentindo todo um deja vu tomar conta de mim.

O hall continuava o mesmo, uns vasos e uns quadros diferentes de quando fui embora, mas a arquitetura antiga e nobre era exatamente igual. A era vitoriana exalava naquela casa. E isso me trazia uma sensação acolhedora. Eu amava a modernidade a América, mas nenhum sentimento era melhor do que estar na nossa casa. Independente de qualquer situação, que nesse momento eu gostaria de deixar em último plano.

Memórias vieram com tudo assim que cheguei aos pés da escada. Toque no corrimão de madeira que brilhava devido ao verniz. Fora ali que eu quebrei a perna uma vez, por descer as escadas correndo e não segurar naquele corrimão. Fora naquelas escadas que eu desci no meu primeiro baile — debutar as jovens era algo comum na Inglaterra, ser apresentada para a alta sociedade. Eu odiava essas ideias conservadoras, mas a lembrança era acolhedora. A minha infância, bailes e festas, jantares. Não sabia que sentia tanta falta até retornar para casa. Minha casa. Que não importa pra onde eu vá, ou onde eu passe a morar, aquela sempre continuaria sendo a minha casa.

⁃ Pedida em lembranças? — a voz, aquela voz, me tirou dos meus devaneios e meus olhos se encheram de lágrimas novamente, estava chorosa demais ultimamente. Me virei e encontrei o par de olhos azuis que mais me acalentavam, me entendiam. — Não mereço nem um abraço? — abriu os braços

⁃ Papai! — corri até ele, não aguentei e solucei em maio à lágrimas. Ele me apertou tão forte, e me perguntei como fiquei tanto tempo sem esse abraço.

⁃ Oh, minha princesa! — beijou meus cabelos — Você está tão diferente — se separou de mim — Deixa eu te olhar… — reparei que ele se segurava para não chorar. — Está mais linda que antes, querida, por mim você nunca mais vai embora — e me puxou novamente.

⁃ James, ela já… — escutei a voz de mamãe ecoar pela casa e meu coração acelerou ainda mais. Saudade e angústia tomaram conta de mim. Como eu queria minha mãe do meu lado quando descobri o meu bebê, como eu queria ela ao meu lado quando, tão precocemente, eu o perdi.

Donna parou a uns dez passos de distância e me encarou por um tempo, surpresa, acho que não esperava que eu já tivesse chego. Me separei de papai, minha respiração estava ofegante demais. Eu sentia um nervosismo que não esperava. A última vez que encontrei a minha mãe, eu estava fugindo e ela praguejava o quanto estava desgostosa da minha atitude. Gritava a quatro ventos o quanto eu a decepcionei. Em toda minha vida, eu nunca tinha visto a Condessa de Wiltshire gritar com ninguém, bastava um olhar frio que todos a entendiam. Meses depois nos reconciliamos por cartas, mas, nunca mais a vi pessoalmente.

Ela estava impecável, como sempre, trajava um vestido azul com detalhes prateados que realçavam a cor dos seus olhos azuis cobalto. Seus fios loiros estavam milimetricamente presos em um coque com ondas marcadas no topo.

⁃ Mamãe — sussurrei tentando controlar a vontade de chorar ainda mais

⁃ Felicity — ela falou baixinho como se quisesse ter certeza que não estava vendo uma miragem e sim eu de verdade — Oh meu Deus — ela veio até mim, me pegando de surpresa e me embalou em um abraço de urso, abraço esse que recebia quando era criança. Lógico, eu retribui. Estava morrendo de saudades dela. — Minha filha, meu bebê, eu nem acredito que voltou para nós.

⁃ Ela está de volta, Donna — papai se juntou ao abraço e eu ri, estava me sentindo com 5 anos novamente.

⁃ Que cena mais tocante — escutamos Tommy falar e nós separamos

⁃ Você também quer um abraço? — fiz careta e ele cruzou os braços

⁃ Eu não — arqueou as sobrancelhas

⁃ Você tem certeza, Tommyzito? — retruquei dando um passo até meu irmão, ele deu outro para trás.

⁃ Você não é mais criança, Felicity — segurou o riso — Eu não…

Tarde demais, eu já está voando para os braços dele que me ergueram com a maior facilidade. Escutei mamãe e papai rindo ao fundo e também ouvi algo como: “Senti falta da luz dessa casa” vindo de mamãe, mas ignorei. Não sabia sobre o que se tratava.

Depois que me separei de Tommy, e meus pais deram ordens para que minhas coisas fossem levadas para o meu antigo quarto, mamãe nos guiou para a pequena sala de estar e mandou um dos empregados nos servir um chá. Ah! O famoso chá inglês… Não senti nenhuma falta, amava um café bem forte e quente. Ainda faltavam algumas horas para o jantar.

⁃ Onde estão os outros? — perguntei colocando leite na xícara — Laurel, Helena, meu sobrinho?

⁃ Laurel está terminando seu banho — falou mamãe bebericando seu chá — Ela cavalgou essa tarde com Lorde Palmer

⁃ Lorde Palmer? — franzi o cenho

⁃ Um nobre barão que se mudou da Alemanha para cá, virou amigo da família — explicou — Helena estava com eles, já deve estar descendo, juntamente com George.

⁃ Creio que o Sr. Palmer queria algo além de amizade com a Laurel, mamãe — Tommy riu em tom de deboche, recebendo um olhar questionador de nossos pais

⁃ Laurel ja tem um pretendente, Thomas, não fale asneiras — Donna repreendeu e eu senti o meu sistema falhar por alguns segundos quando o noivado foi mencionado. Foi como se todo o meu ser saísse de órbita.

⁃ Encontramos o Sr. Queen na… — meu irmão começou e agradeci quando a porta foi aberta por um pequeno furacão de cabelos negros e olhos azuis marcantes, o cortando no meio da frase.

⁃ Sr. George — a babá do pequeno garoto vinha arfando atrás dele com um semblante cansado, com certeza correu pelas escadas também. — Sr. George, não corra assim.

⁃ Papai! — o garotinho se jogou no colo do pai e lá estavam novamente as insistentes lágrimas nos meus olhos.

⁃ Campeão! — Tommy o ergueu para logo depois o abraçar com força. — O que conversamos sobre correr da Bah dessa forma?

⁃ Eu posso machucar a mim e a ela.

⁃ Isso.

⁃ Desculpas, Bah — George olhou para a babá que sorriu terna se derretendo pelos olhinhos arrependidos

Quando fui embora George havia acabado de completar um ano de vida, eu passava tanto tempo com ele. E eu chorei tanto de saudade quando percebi que não poderia voltar para casa. Por sorte Tommy sempre me mandava fotografias de seu desenvolvimento, seus aniversários e descobertas. Ele não se lembrava de mim, com toda certeza, mas eu fiz questão de me fazer presente, mesmo de longe.

⁃ Sem problemas, queridos — a empregada olhou para todos e seus olhos caíram em mim, sorri para ela e ela retribuiu — Lady Felicity, é bom vê-la em casa. — assenti — Milady — fez reverência para minha mãe — Milordes — olhou para papai e meu irmão — Se me derem licença, levarei Sr. George para um passeio no jardim antes que escureça

⁃ Ele não pode ficar? — perguntei depositando a xícara na mesa e me levantando — Ele já jantou? — ela negou — Deixe que jante conosco — olhei para meu irmão suplicante — Tommy.

⁃ Felicity, não é certo uma criança tão pequena jantar com os adultos — ignorei mamãe e andei até o meu sobrinho

⁃ Oi, George — ele me olhou timidamente, mas sorriu — Você sabe quem eu sou? — ele assentiu — Sabe?

⁃ Sim, tia

⁃ Tommy? — as lágrimas que eu segurava escorreram com tudo

⁃ Eu não deixei que ele se esquecesse de você, ele pode não lembrar dos momentos que vocês passaram juntos, mas sempre mostrei suas fotografias e sempre contei nossas histórias na infância

⁃ Você é a tia Lissy — o pequeno acariciou meu rosto

⁃ Sou sim, querido — afaguei seus cabelos — Posso te pegar no colo? — ele assentiu e então eu o fiz

O cheirinho bom de criança inundou minhas narinas e por um pequeno momento, pequeno mesmo, me lembrei do meu bebê. Como seria a sensação de te-lo em meus braços? Qual seria seu cheirinho? Seria uma linda menininha ou um futuro conde, assim como George?

Apertei forte meu sobrinho contra mim e olhei para minha mãe.

⁃ Ele fica — afirmei — Me responsabilizo por ele, mamãe. Por favor. — ela me analisou por um breve momento e depois sorriu. Donna sorrir facilmente é raro demais.

⁃ Não vejo problema — Tommy falou — Felicity está em casa, e temos que ficar juntos.

⁃ Eu concordo — papai saiu em nossa defesa como sempre fazia — George precisa contar para o vovô sua aventura com os cavalos hoje. E precisa ser durante o jantar, querida

⁃ Vocês três juntos não dá certo — mamãe riu novamente — A vovó também quer saber dessas aventuras, George. Não ficou com medo?

⁃ Não, sou corajoso como o papai!

⁃ Acredito que seu pai seja um pouco medroso, meu amor — ri me sentando com o pequeno ainda em meu colo, ele pesava, afinal de contas, não era mais um bebê — Uma vez, uma cobra subiu na pena dele quando fazíamos um piquenique e ele gritava tanto.

⁃ Igual um maricas?

⁃ George! — Tommy repreendeu encabulado e eu gargalhei

⁃ Igual um maricas, George

⁃ Felicity! — agora foi minha vez de ser repreendida, apenas dei língua para ele

⁃ É esse tipo de comportamento que você trouxe de New York para ensinar ao meu filho?

⁃ É — agora foi a vez dele de me dar língua

Tommy seria o conde mais infantil de toda Inglaterra.

Minutos depois Helena apareceu, sempre deslumbrante a futura Condessa de Wiltshire, com um vestido rosa de brilhos também rosa, seu coque deixava mexas soltas pelo seu rosto tão branco quanto o leite. E seus olhos azuis vibrantes e maternais deixavam qualquer pessoas se sentindo tranquila. Minha cunhada vem de uma família nobre italiana, não que isso tenha sido o motivo do casamento dela com meu irmão. Eles se conheceram quando Tommy estava na Itália visitando uma das prioridades rurais que nossa família tem por lá. Ele e Helena se encontraram em um baile e nós nos deslocamos para lá um mês depois para o casamento. Viramos grandes amigas, confidentes até. No ano seguinte, George nasceu.

Helena ficou surpresa quando soube que o filho iria se juntar a nós no jantar, segundo ela, mamãe nunca permitia que as crianças se juntassem a mesa.

⁃ E Laurel? — perguntei agoniada

⁃ Achei que o irmão preferido era eu — Tommy zombou e eu ri

⁃ Estou com saudade da minha irmã.

⁃ Que bom! — a porta abriu e uma Laurel sorridente se fez presente — Sua irmã também estava com saudades — hesitei por um segundo. Eu estava com saudade dela, morrendo de saudades. Mas aí olhá-la… Ao olhá-la um sentimento apossou de mim. Me senti suja. Suja demais para tocar a minha irmã. Parada ali na minha frente estava a futura esposa do homem que eu amo. Do homem que até ontem estava na cama comigo, me beijando e trocando juras de amor. Do homem que era pai do meu bebê que não havia chegado a nascer, mas ele era o pai. Esposa do homem pelo qual eu desejei que fosse meu. E lá no fundo, em um espaço profundo e egoista do meu ser, eu ainda desejava que fosse meu — Não vai me abraçar? Eu sei que não sou a melhor irmã do mundo, mas acredite, eu estava morrendo de saudade de você, Lissy. — sorriu terna encurtando o espaço entre nós, mas eu fui mais rápida e a abracei forte.

⁃ Senti a sua falta — sussurrei e ela afagou minhas costas. Eu brigava para que as lágrimas não rolassem.

⁃ Eu também, irmã! — ela se afastou e olhou em meus olhos — Prometa que não sumira mais.

⁃ Prometo. — funguei e abracei de novo

⁃ Ah! Que meigo — escutei a voz de Tommy e ri — Nem parece as pentelhas que viviam brigando

⁃ Cala a boca, Tommy — Laurel e eu falamos juntas.

(…)

O jantar percorreu como o esperado, fui bombardeada de perguntas. Papai queria saber como andava a fábrica, Helena queria que eu contasse sobre a moda na América — mas eu sabia que ela só estava disfarçando, a fofoca aconteceria quando estivéssemos sozinhas -, mamãe perguntou se eu havia conhecido algum pretendente por lá, alguém com quem eu pudesse fazer um bom casamento, eu desconversei dizendo que não pensei sobre durante a guerra. Havia mundo tensão para pensar em matrimônio, ela se conteve com essa resposta, por hora, eu sabia bem. Tommy queria saber sobre os novos lançamentos automobilísticos dos EUA, e eu não entendia nada disso, Oliver talvez… Laurel não perguntou sobre nada, apenas comentava quando o assunto lhe interessava. George foi um perfeito cavalheiro, sabia a hora de falar, sabia a ordem dos talheres, sabia a posição de cada item e sabia se portar com os empregados que nos serviam. Esses últimos estavam contentes com a minha chegada, para o desespero de mamãe, nosso jantar fora interrompido várias vezes para que nossos funcionários me cumprimentassem.

Raisa, nossa governanta, e Martin, nosso mordomo, estavam radiantes. Ficariam mais ainda quando vissem o presente que trouxe para eles.

⁃ Encontrei o Sr. Queen na estação hoje — Tommy começou após engolir sua sobremesa e eu prendi a respiração, senti o sangue sair do meu corpo.

⁃ Oliver? — papai perguntou — O filho do Starling?

⁃ Sim, oras, quem mais seria? — meu irmão encheu novamente a boca de pudim. Me remexi na cadeira e esse movimento não passou despercebido por Helena, que me olhou sugestivamente. Apenas sorri, mas acho que saiu como uma careta, pois ela arqueou as sobrancelhas.

⁃ Achei que ele se hospedaria aqui — mamãe falou olhando para meu pai, se sentindo contrariada — Mandei que preparassem um quarto para ele e sua família.

Eu sentia o meu corpo suar, sentia a minha pele fria e meu coração estava acelerado demais. Meu estômago estava embrulhado. E meu desconforto devia ser bem nítido, pois Helena não parava de me encarar.

⁃ Ele disse que iria ficar em uma pousada até resolver as questões dele com o papai, e depois iria embora.

⁃ Que questões? — Laurel perguntou, percebi que estava nervosa, pelo tom da sua voz — E a família?

Tommy era um fofoqueiro.

⁃ Ele disse que a família viria, mas ele, não — bebericou sua água como se fosse algo normal falar da vida dos outros — Ele irá embora.

⁃ Que questões o Sr. Queen tem para tratar com você, James? — mamãe perguntou com o mesmo tom de voz de Laurel, ambas estavam nervosas.

⁃ É… — ele olhou para Laurel e depois para a mamãe — Coisa de empresa.

⁃ Coisa de empresa? — dessa vez Helena se pronunciou, sem entender

⁃ É — bebeu seu vinho — Amanhã falarei com ele sobre negócios, já está tudo acertado.

De uma coisa eu sabia, de uma coisa eu tinha certeza.

Papai estava mentindo.

Laurel e mamãe não sabiam do que estava por trás desse noivado. Elas nem sonhavam que Laurel estava, querendo ou não, sendo usada como moeda de troca entre papai e Robert Queen.

Oliver pode ter sido um canalha comigo, pode ter mentido para mim, me usado. Mas ele estava sendo tão usado quanto a minha irmã. Sendo posto na forca. Ou casa, ou a família iria a falência.

Papai só devolveria as ações da empresa deles é todo o dinheiro que pegou na mesa de jogo se esse casamento acontecesse, e mamãe nem sonhava com isso. Ela nunca deixaria a sua precisa Laurel ser trocada por dinheiro. Por mais que, um casamento por amor, não é algo que uma pessoa que procura títulos irá encontrar. Mas uma coisa é uma casamento por conveniência, outra é ser usada para pagãmente de dívidas.

O jantar terminou e eu continue perdida em pensamentos. Realmente perdida, pois eu não parava de pensar em Oliver. Todo o meu corpo gritava por saber que ele estava tão perto de mim, mas ao mesmo tempo tão longe. Era só subir em um cavalo e cavalgar até a Beechfield Hause*— única pousada provável onde Oliver se hospedaria — e me jogar em seus braços. Mas eu não podia, e eu não devia. Ele não era mais meu, isso se um dia foi.

⁃ Onde está Caitlin? — perguntei enquanto subia as escadas e me dei conta da falta dela, Raisa e Helena esgavam em meu encalço, elas se entreolharam e eu arqueei a sobrancelha — Então?

⁃ Ela não trabalha mais aqui, milady — Raisa respondeu de cabeça baixa

⁃ Eu sempre mandei, mensalmente, o ordenado dela — parei de andar quando chegamos no topo da escada — Até mês passado, eu fiz questão que ela continuasse com o emprego mesmo eu não estando aqui — ralhei

Eu sabia que Raisa era quem cuidava das contratações e demissões juntamente com o Sr. Harrison, se Caitlin não trabalhava mais nessa prioridade, ela saberia onde minha criada pessoal e amiga estava.

⁃ Raisa não teve culpa, Felicity — Helena a defendeu

⁃ Então, o que aconteceu? Onde está Caitlin?

⁃ Laurel a demitiu. — Helena disse por fim — Pode cuidar dos seus afazeres e se recolher Raisa — olhou para a governante e a mesma assentiu — Mostrarei o que mudou para a Felicity e contarei sobre Caitlin. Assumo daqui.

⁃ Com licença, miladys — e saiu

⁃ Helena…

⁃ Calma! Vamos dar um beijo de boa noite em George e depois iremos para o seu quarto.

Assenti a contra gosto e seguimos até o quarto do pequeno. Era do mesmo jeito que eu me lembrava, a diferença era que o berço fora substituído por uma cama.

O pequeno já estava deitado e Tommy lia um livro para ele, lhe joguei um beijo de longe e ele retribuiu. Helena foi até o filho e o marido, beijo ambos na testa e cochichou algo no ouvido do meu irmão. Esse último me olhou e depois assentiu para a esposa.

Seja lá o que fosse que Helena queria me contar, eu não gostar… E eles sabiam disso.

Já no meu quarto, uma nostalgia tomou conta de mim. Tudo estava exatamente no mesmo lugar, tudo. O local estava limpo e arejado. A grande cama com o dossel, paredes verdes escuras e o grande rodapé branco, portas brancas, minha penteadeira que fora presente de vovó no meu aniversário de quinze anos. As poltronas, espelhos, as cortinas e as portas que davam acesso a janela. Tudo no mesmo lugar. Do jeito que eu havia deixado.

⁃ Seu pai não deixou que mexessem em nada — Helena entrou e se jogou na cama — Uma vez por mês uma limpeza era feita, tudo lavado. Laurel quis muito o seu quarto, mas seu pai não deixou. — fiz uma careta, o meu quarto era o que tinha a melhor visão da propriedade e onde batia o sol maravilhoso da manhã.

⁃ Laurel sempre quis esse quarto, mesmo o dela sendo bem maior — reparei que as minhas malas já haviam sido desfeitas e tudo estava guardado no closet. Raisa. Ela sabia que eu odiava desfazer malas. Agradeci mentalmente — Mas onde está Caitlin, Helena? — perguntei me jogando ao seu lado na cama. Ela me encarou por uns segundos e respirou fundo.

⁃ Laurel a demitiu — falou por fim. Arqueei as sobrancelhas e foi a minha vez de encara-lá por um tempo, incrédula.

⁃ Como é que é?

Caitlin Snow era a minha criada pessoal, ela me ajudada a me preparar para os grandes jantares — aqueles chatos que exigiam penteados exagerados e roupa muito bem alinhada. A mãe dela era uma modista da vila e ficará muito agradecida quando ofereci esse emprego para sua filha. Cait ajudava a mãe no ateliê, não recebia muito. Quatro anos depois eu fui embora, mas não deixei desamparada. Pedi a papai que mantivesse o emprego dela, caso ela quisesse, e continuei a pagar seu ordenado todo mês. Nos quatro anos em que ela ficou comigo, viajamos, passeamos e nos divertimos. Eu nunca a tratei como uma criada qualquer, posso dizer que ela foi minha primeira amiga de verdade. Antes de Helena e Thea.

Ah, Thea… Que saudade.

⁃ Ela disse que não tinha necessidade dos serviços de Caitlin e a dispensou — mordeu o lábio — Estávamos em Londres, quando voltamos, seus pais pediram que a menina retornasse, mas ela não quis.

⁃ Laurel a insultou?

⁃ Eu não estava, Lissy — segurou minhas mãos — Eu não sei o que exatamente aconteceu.

⁃ É inacreditável! — levantei e comecei a andar de um lado para o outro — É inacreditável como a Laurel se mete em tudo que é meu! Tudo! Ela sempre fez questão de me diminuir quando éramos mais novas — esbravejei — Ela queria os vestidos parecidos, ela queria o meu quarto, dela demite a Caitlin e ainda vai se casar com o… — me calei quando dei conta da minha gafe

⁃ Se casar com o? Com o Sr. Queen? — Helena arqueou as sobrancelhas e eu neguei com a cabeça

⁃ Você entendeu errado — me apressei em desfazer o maldito erro — Eu não… Não eu conheço o Oliver. — garanti

⁃ O Oliver? — riu — Não conhece e o chama pelo nome

⁃ É que na América nós…

⁃ Felicity, eu vi o quanto ficou tensa quando seu irmão tocou no assunto — se adiantou em dizer — Eu vi que o sangue sumiu de sua face e a colher tremeu em suas mãos. Tenho certeza que se pudesse sair correndo, sairia.

⁃ Está vendo coisas — me virei e fui mexer na penteadeira. Eu era uma péssima mentirosa. Como consegui esconder as coisas de Thea por tanto tempo? Se bem que… Eu sempre desconfiei que ela sabia. As vezes esperava que eu contasse, ou seu irmão.

⁃ Felicity — insistiu — É nítido que conhece Oliver Queen.

⁃ Eu não… — olhei para ela que cruzou os braços e arqueou as sobrancelhas, típico de uma mãe querendo arrancar uma confissão do filho. George estava ferrado. — Tudo bem — respirei fundo me dando por vencida e ela sorriu vitoriosa.

Eu podia confiar minha vida a Helena, ela não me deduraria e me ajudaria a fugir de qualquer ocasião que me obrigasse a ficar muito tempo perto do maravilho casal.

Contei tudo, ou quase tudo, falei sobre como conheci os irmãos Queen, falei das festas que íamos e dos passeios que dávamos pelo Central Park. Contei de como o Oliver era um libertino, quando que havia me conquistado e se disposto e ser apenas meu pelo tempo que eu quisesse. Contei da nossa primeira vez no tapete da minha sala em frente à lareira após um maravilhoso jantar que ele havia feito. Contei do como fugíamos a noite para pegar a última sessão do cinema, com medo de sermos pegos no flagra. Contei das diversas vezes que ele subornou o dono do restaurante para que fechasse as portas e ele pudesse me levar para jantar em paz. Contei da manhã em que soubemos que ele iria partir para a guerra. Contei da nossas despedida. Contei sobre como eu e Thea fomos a fortaleza uma da outra. Contei do nosso reencontro no navio. Contei do pedido das declarações de amor. E no final, quando as lágrimas já não paravam de cair e Helena me olhava com ternura. Eu contei de como descobri sobre o noivado. Contei que Laurel estava sendo uma moeda e troca e que ele havia me usado descaradamente como uma despedida de solteiro. Omiti a parte do meu bebê. Não sei porque, eu não conseguia falar com a minha família sobre, eu não queria o julgamento ou olhar de pena. Lyla não me olhou com pena, Lyla não me julgou. Mas qual seria a reação de Helena. Eu deveria contar?

⁃ Helena — sussurrei entre lágrimas — Tem mais uma coisa

⁃ Tem mais coisa, nessa história toda — me olhou abismada e eu assenti

⁃ Semana após a partida dele, eu… — respirei fundo — Eu descobri que eu estava… Oliver não sabe e… Ninguém sabe, mas…

⁃ Ah, Felicity… — me abraçou — Onde está a criança? — e então eu solucei, um soluço alto e doído que fez com que ela entendesse a minha dor e me apertasse ainda mais forte — Eu sinto muito, meu amor. — falou com a voz embargada — Sinto muito que tenha passado por tanta coisa sozinha. Mas olha aqui, — olhei para ela e percebi que também chorava — Você não está mais sozinha. Entendeu? — assenti — Eu estou aqui com você e não quero que passe por mais nada sozinha — ela secou minhas lágrimas com o dedão — O Oliver te ama, Felicity. Eu não o conheço, sinto ódio pelo modo como ele lhe contou sobre o noivado, mas ele te ama. — neguei e abri a boca para falar — Agora eu falo, mocinha — assenti abaixando a cabeça — Se ele não te amasse, ele estaria aqui, como era o combinado entre as famílias. Se ele não te amasse, ele não teria te poupado de ficar no mesmo ambiente que ele. É nítido que esse noivado não vai acontecer.

⁃ A família dele está sem dinheiro algum…

⁃ Existem outras formas de resolver isso, quando eu conhecer esse Sr. Queen irei falar poucas e boas para ele. — falou autoritária e eu ri de leve — Mas sou a favor de vocês juntos, vocês se amam, são pais de um bebê. Vocês tem uma história e ninguém tem o direito de passar por cima dela.

⁃ É complicado.

⁃ Você confia em mim?

⁃ Com a minha vida! — garanti

⁃ Então vamos buscar a Caitlin.

Beechfield Hause* — Existe e é um hotel lindo em Wiltshire, pesquisei no Google rs

Notas finais
Desculpem a demora! Eu não estou conseguindo conciliar meu tempo. Pós, filho, casa, trabalho, marido. Vou surtar… De verdade! Mas as histórias ficam rondando a minha cabeça e eu senti necessidade extrema de colocar pra fora. Então aí vai mais um capítulo e eu espero que vocês gostem, comentem e me perdoem pelo atraso. Alguém adivinha onde a Caitlin está trabalhando? Alguém adivinha quem vai estar no mesmo lugar que a Caitlin? Um beijo!! Comentem!! Desculpem qualquer erro, não revisei. Quis logo postar.