Pretty Normal

4 Uma notícia que destrói meu mundo


Duas semanas se passaram sem que eu falasse com as pessoas que conheci na praia, aos poucos comecei a me aproximar das garotas que eram minhas parceiras em ciências e química 2. Kate, Holly e eu formamos um bom trio de nerds que não tem nada em comum, mas que sempre acham algo sobre o que falar.

É engraçado pensar sobre isso porque as duas jamais se tornariam amigas se não fosse por mim, graças ao desastre que eu sou em tudo que faço, nenhuma de nós tem que passar o almoço sozinha. Kate tem um cabelo loiro bem claro e os olhos castanhos, já Holly é ruiva, mas seu cabelo tem um tom lindo de vermelho escuro.

-Então é só aplicar regra de três?- Holly perguntou, Kate acenou com a cabeça como se fosse óbvio.- Bem, a Sra. Goodweather poderia ter dito isso logo. Isso é ridículo!

Eu comecei a rir, como sempre faço quando Holly faz careta. Elas me olham como se eu fosse uma idiota.

-Tá, mas mudando de assunto, alguém aí já terminou o trabalho de inglês? É para amanhã.- Comentei.

Bem, é como dizem, cada nerd com sua matéria. A matéria de Holly é química, a de Kate é história e a minha é literatura. A verdade é que eu acho o assunto interessante, é bizarro, mas eu gosto. O corredor inteiro está fedendo porque as pessoas do primeiro ano fizeram bomba fedorenta no primeiro período da manhã e eu e minhas amigas parecemos ser as únicas que não se importam.

-Você tem que parar de se preocupar tanto, Sarah.- Holly queixou-se, coçando o nariz com as costas do dedo.- Ei, o que acham de uma sessão pipoca mais tarde?

Kate concorda na hora, já eu mordo o lábio, sem saber como dizer que vou ter que deixar para a próxima. Além do fato de estar completamente ferrada em algumas matérias e ter que me esforçar um pouquinho mais do que minhas amigas para garantir notas boas, prometi ao meu avô que visitaria alguém com ele hoje.

-Desculpa, meninas.- Disse eu, apertando meus cadernos contra o peito.- Meu avô quer visitar a tia Rachel e eu vou ter que ir com ele.- dei uma olhada rápida para o relógio e constatei o que temia.- Droga, estou atrasada.

Elas reviraram os olhos. Eu desviei de algumas garotas que caminhavam de braços entrelaçados e comecei a correr até minha sala, mas acabei trombando com alguém na metade do caminho. Era alguém forte, porque eu caí sentada.

-Olha por onde anda!-ele ralhou.

Reconheci sua voz e levantei meus olhos para encarar Ethan, me sentindo tão decepcionada que quase perdi o ar. Quando eu me afastei de Carlie, me afastei dele. Pelo menos fisicamente, porque ultimamente ele tem estado em minha mente o tempo todo. Durante as aulas ele sempre faz comentários engraçados e palhaçadas, nos corredores tem sempre alguém falando sobre ele e o time de football e ainda tem o fato de eu estar morando a duas quadras de sua casa e vê-lo o dia todo.

Não sei se foi por causa do meu olhar de decepção, mas ele pareceu realmente culpado depois de olhar para meu rosto. Eu comecei a juntar minhas coisas e ele ficou apenas olhando. Depois que já tinha tudo em mãos, saí andando. Podia sentir o olhar dele me queimando e o observei pelo canto do olho enquanto entrava na sala.

Não tinha reparado antes, mas ele tinha cortado o cabelo recentemente e estava mais bonito ainda. Vestia uma camiseta regata preta e uma calça jeans, mas não estaria melhor se vestisse um terno.

-Sonhando acordada, Black?- Carlie sussurrou em meu ouvido, quando percebeu para onde eu olhava. Respirei fundo e a observei com o melhor olhar de indiferença que pude- Sabe que não deve mexer com ele. Ethan tem dona.

Inclinei minha cabeça para o lado.

-Mesmo?-perguntei.- Porque eu não estou vendo nome algum nele- Ela trincou o maxilar e se aproximou, não tinha medo dela, mas também não queria arrumar confusão.- Só fique longe de mim, Carlie.- disse, antes que ela falasse qualquer coisa que me fizesse voar em seu pescoço.- Eu não sou o tipo de pessoa com quem se arruma briga.

Eu ia passar andando por ela, mas Carlie gargalhou e agarrou meu braço antes que eu pudesse me afastar, suas unhas postiças se fincando superficialmente em meu braço direito.

-Isso é uma ameaça?- perguntou, aproximando-se um pouco mais.- Porque eu não tenho medo de você, queridinha.

Eu soltei meu braço de suas garras e me afastei, o que fez com que ela quase caísse pela brutalidade com que o fiz.

-Isso foi um aviso, também não tenho medo de você -retruquei e fui me sentar em meu lugar, deixando uma Ateara com cara de tacho para trás.

(...)

Tirei a cadeira de rodas de meu avô do carro e tio Paul o ajudou a se sentar. Eu, obviamente, me sentia constrangida. Não conhecia meus tios e meus primos, meu pai nunca nem ao menos mencionou que tinha família. Quer dizer, a gente sabia que ele tinha família, mas nunca o vimos falando com algum deles ou algo parecido. Leah mencionava raramente os nomes de meus tios, por isso eu os conhecia.

Paul gemeu de exaustão ao largar meu avô na varanda, três degraus acima de onde eu estava.

-Você é realmente um fracote, Paul!-uma mulher xingou, mas havia um sorriso em sua face.

Por um minuto me senti extremamente invisível, havia uma criança em seu colo e todos ali se olhavam com muito amor, como se fossem a família perfeita. Estar longe de minhas irmãs, de minha cidade, de meus amigos era...terrível. A saudade corroía cada célula de meu ser e eu sentia uma tremenda vontade de chorar.

Estava pensando se saía correndo ou fingia um desmaio quando minha tia se virou para mim. De repente ela parecia pálida, sua boca se abria e fechava várias vezes. Por que todos tem essa reação quando me veem? Vovô fez o mesmo quando foi me buscar no aeroporto ao lado de Brady.

-Ah, vamos, Sarah. Suba logo e venha conhecer seus tios.- Meu avô ordenou. Eu tentei parecer confiante enquanto subia as escadas, mas não pareceu funcionar muito. Fiquei parada em silêncio, deixando que minha tia me analisasse com seus olhos críticos e escuros.- Anda, menina. Será que o idiota do meu filho não te ensinou nada?

Não respondi, até onde sei, meu avô também nunca nos procurou. Continuei parada lá, como uma besta, sabia que isso irritava meu avô, mas eu não podia evitar.

-Você é muito parecida com sua avó.- tia Rachel disse, tocando meus cabelos negros. Ela deu um riso constrangido e secou algumas lágrimas que caíram.- A não ser pelos olhos, os dela eram negros. Eu mordi o lábio e o fui soltando aos poucos, terminando em um sorriso.

Rachel passou seu filho mais novo nos braços do marido e se jogou em cima de mim, me abraçando. Demorei um pouco para reagir, mas logo a abracei de volta, me sentindo extremamente confortável com seu aperto carinhoso. Minha tia cheirava a canela. Sempre fui alérgica a canela, mas adorava o cheiro que tinha. Quebramos o abraço cedo demais e eu novamente senti vontade de chorar.

Cumprimentei meu tio e descobri que o nome de meu primo mais novo é Will. Meu primo mais velho, Matt, ainda está trabalhando e por isso não está em casa. Tia Rachel começa a tagarelar sobre sua juventude e sobre o quão insuportável meu pai era, acho que ela também comenta sobre a decisão imbecil que ele teve de me mandar para cá, mas a verdade é que não estou ouvindo. Minha atenção está voltada para o filme que passa na tevê, e imediatamente percebo que é um filme de meu tio. Seth Clearwater.

Sempre achei estranho o fato de meu tio ser apenas um ano mais velho que eu, sempre achei terrível o jeito que ele sorria para mim e aquelas borboletas que voavam no meu estômago quando ele chegava perto. Foi por causa dele que comecei a desconfiar de que Leah não fosse minha mãe. Ele não me tratava como sobrinha, ele sabia de algo. Estava implícito em suas palavras quando ele disse: “Eu não sou adotado, nem você, mas não somos parentes. Mesmo assim não podemos ficar juntos e nem vamos”

Tá, eu era completamente apaixonada por ele, mas Seth me queimou de sua lista há oito meses, quando partiu meu coração dizendo que não me queria. Quatro meses depois eu o beijei em uma première, fazendo com que o mundo inteiro me chamasse de pervertida e louca. Meu pai imediatamente inventou uma história sobre ser uma “forma exagerada de chamar atenção à nossa causa” e nos obrigou a fazer uma campanha sobre relacionamentos familiares. Depois disso as pessoas até me elogiaram por ser tão comprometida com meu trabalho.

Repreendi-me por estar pensando nisso de novo e então logo a imagem de Ethan me veio à cabeça. Estava tão distraída que perdi o final do filme e só percebi que o programa de fofocas havia começado quando citaram o meu sobrenome. Rachel aumentou o volume da tevê, deve ser assim que eles ficam sabendo sobre nós já que nunca entramos em contato.

-A filha do meio de Jacob Black, Elizabeth Black, agora rouba a atenção- que há muito tempo cai sobre sua irmã mais velha, Lucy Black- e traz mais uma polêmica para a coleção de sua família.- Uma repórter diz, parecendo muito satisfeita por ter conseguido um furo desses.- Ex-empregados recentes da mansão onde a família mora, afirmam que haviam testes de gravidez no lixo do banheiro da garota e que Jacob e ela passaram muito tempo trancados no escritório e que muitos gritos podiam ser ouvidos.

Eu prendi a respiração, ciente de que o olhar de todos estava cravado em mim assim como seus ouvidos estavam na tevê.

-Em nota oficial os representantes de Jacob afirmam que ele está, sim, com problemas familiares, mas não confirmaram nada sobre a suposta gravidez adolescente.- Então ela deu um sorriso presunçoso e uma imagem de Leah sentada em um sofá típico de entrevistas apareceu ao fundo, no telão.- Porém Leah deixou escapar essa manhã em um programa de tevê, que está muito satisfeita com o aumento de sua família. Será esse o começo do fim da honra dos Black?

Tia Rachel desligou rapidamente a televisão e nós mergulhamos em silêncio, minutos mais tarde ouvimos a porta se abrir e risadas soarem no corredor. Segundos depois meu primo passava pela soleira da porta, ainda sorrindo e encarava a mãe, sem perceber que todos pareciam em choque.

-Oi, mãe.- Matt cumprimentou, sem me olhar.- Espero que ainda tenha lugar na mesa, porque eu trouxe companhia para o jantar.

E foi nesse exato momento que Ethan Uley passou pela porta.