Notas iniciais
Enjoy, b*tches...

Toda garota tem uma melhor amiga, ou um grupo de garotas com o qual elas compartilham seus segredos mais obscuros. Elas não partilham apenas coisas que enterraram em seus diários, mas também dividem mais do que elas gostariam que fosse exposto ou usado contra elas no futuro.

Todo grupo de garotas tem uma líder. Aquela que faz você se sentir especial e que promove a união do grupo. Aquela que tem o corpo invejável, o cabelo perfeito e as roupas mais caras. Todas querem ser como ela, estar com ela, falar com ela. Essas são as piores.

Imagine como seria difícil perder a sua melhor amiga. Todos os noticiários mostrando o que você não queria mais ver. Como seria possível alguém que sempre teve tudo o que quis perder a vida de uma forma tão abrupta? Ashley Meltbeck era o que todas suas amigas queriam ser. Segura de si. Pelo menos era isso o que elas achavam.

***

Faltava apenas uma semana para o termino do oitavo ano e Ashley não poderia estar mais ávida pelas férias que estavam por vir. Ela e suas amigas tinham todos os dias planejados e cheios de afazeres que elas fariam juntas. Elas tinham muitos episódios de muitas séries de TV para colocar em dia, ainda tinham que treinar para entrar para a equipe de torcida (Ashley era a única aluna do ensino fundamental na equipe e só estava ajudando as amigas a entrar por que estava farta de ouvi-las implorando), elas iriam atuar dali uma semana nos testes para a equipe de teatro e também tinham que praticar tênis para o campeonato que a família de Mindy iria participar.

Enquanto terminava de pintar as unhas dos pés com o esmalte azul que havia ganhado de Ellie no seu décimo quarto aniversário, Ashley viu Annie sair do carro e acenar para mãe, que fez o retorno e buzinou antes de ir embora. Mindy e Ellie surgiram na esquina com suas bicicletas, pedalando furiosamente em uma corrida em que Mindy levava vantagem. Tyra vinha logo atrás, caminhando com sua maleta de rodinhas cor-de-rosa.

- Oi, Ash! – Annie foi a primeira a se aproximar, apertando ainda mais seu rabo de cavalo acastanhado. Ela vestia um suéter de lã e saia plissada com sapatilhas pretas.

- Oi, Annie. – Respondeu Ashley, ascendendo o olhar na direção da amiga. Mindy e Ellie deixaram as bicicletas no gramado dos Meltbeck e se juntaram as outras, arfando.

Mindy estava com seu uniforme de tênis oficial, composto por tênis com meias até os joelhos, camisa pólo verde limão e saia branca. Ellie usava short jeans e uma camisa regata que valorizava os seios que ela nem sabia que tinha. Tyra foi a última a chegar, arrastando as rodinhas da maleta pelo gramado até o circulo de garotas.

- Eu trouxe a maquiagem, meninas! – O cabelo loiro de Tyra estava bipartido em duas tranças e seu cardigã preto a fazia suar desde que saíra de casa.

Ashley se levantou e guardou o vidrinho de esmalte no bolso, pisando na grama com cuidado para evitar estragos na suas unhas recém pintadas.

- Vamos para o meu quarto, meninas, quero mostrar uma coisa para vocês.

Dentro da casa de Ashley o calor ainda era infernal. Tyra se livrou do cardigã e Mindy das meias. Annie estava vermelha e suando, mas se recusava a tirar o suéter de lã alegando que sua mãe havia dito que faria frio naquele dia.

Sob o ar condicionado dos Meltbeck elas passaram a tarde toda se maquiando e confidenciando segredos sobre o que elas pretendiam fazer no ano seguinte, pintaram as unhas e assistiram filmes em preto e branco com uma tigela imensa de pipoca e copos de limonada bem gelada.

Annie desistiu de ser uma garota obediente e jogou o suéter pingando em um canto do quarto de Ashley, agradecendo pelo vento gelado que envolveu seu tronco. Ellie trançou o cabelo de Mindy, Tyra e Annie da mesma forma que o seu, mas teve que se desdobrar para conseguir trançar os cabelos ruivos de Ashley, atendendo ao desejo dela de ter uma trança diferente e muito mais elaborada. Mindy derrotou Ellie, Annie e Tyra no xadrez com cerca de três e quatro movimentos, mas sua partida contra Ashley foi acirrada e ela não gostou nem um pouco quando Tyra declarou que elas haviam empatado.

Tyra acabou ganhando a competição de mímica por que ninguém entendia sua imitação precária de um pinguim. Annie vasculhou o guarda-roupa de Ashley e separou peças para elas usarem enquanto a amiga maquiava as outras.

Todas se vestiram e se maquiaram, simulando um desfile sobre o assoalho reluzente de Ashley. A líder do grupo bateu o pé e convenceu todas que ela era a mais bonita e que por isso tinha que desfilar primeiro – todas concordaram.

E no final do dia, quando o céu se tornava alaranjado e o sol começava a desaparecer por trás das montanhas que cercavam Rosewood, as cinco melhores amigas se despediram dos pais de Ashley que foram a uma peça de teatro. Assim que ficaram sozinhas e que o carro da família Meltbeck sumiu na esquina, Ashley se transformou.

- Vocês não vão acreditar no que eu descobri sobre a vaca da Demetria. – Os olhos de Ashley quase faiscavam de raiva. Demetria Eartell era a irmã gêmea de Johnattan Eartell, ambos cursavam o mesmo ano que elas e eram terrivelmente esquisitos. Demetria tinha tantas mechas coloridas em seus cabelos loiros, que a cor natural quase se perdeu no meio do seu arco-íris capilar. Ela estava quase entrando no estágio de obesidade mórbida e não tinha um pingo de bom senso no meio de toda a gordura acumulada. Johnattan era seu extremo oposto. Seus cabelos eram loiro-acinzentados e seu tipo físico fazia os garotos rirem nos vestiários nas aulas de educação física. Ele era franzino e desengonçado, usava um óculos com aro de tartaruga com lentes mais grossas que seus tornozelos e os elásticos de seu aparelho odontológico beiravam o suicídio social. Eram ainda mais coloridos que os cabelos da irmã gêmea. – O pai dela vai pagar em dinheiro pela entrada dela na equipe de torcida.

Annie emitiu um guincho assustado e Mindy bufou em desdém. Ellie e Tyra crisparam os lábios, desgostosas.

- Ele não pode comprar elasticidade, dedicação e boa forma – disse Mindy.

- Ele deveria pagar uma academia para ela, não uma vaga na minha equipe de torcida. – Ashley colidiu o punho contra a coxa, demonstrando toda sua irritação.

Sem que as outras garotas pudessem reagir, o celular de Ashley vibrou sobre o assoalho e ela o pegou. Suas sobrancelhas se arquearam enquanto ela lia a mensagem de texto e ela trincou os dentes.

- O que foi, Ash? – Perguntou Ellie, estendendo a mão para o telefone da amiga. Havia algum tempo desde que Ashley recebia mensagens e bilhetes que ela não permitia que nenhuma delas visse ou lesse. Sempre que recebia um, seu humor dava guinadas desastrosas.

- Vamos fazer algo que não fazemos há anos, meninas. – Ashley fechou o celular e o guardou no bolso do short jeans. – Vocês se escondem, eu conto.

Ashley se virou, ainda sentada, e cobriu os olhos com as mãos. As garotas não queriam brincar de se esconder, Ashley sempre ganhava esse jogo quando elas eram pequenas por que ela conseguia ficar horas escondida sem aparecer até que todas desistissem de procurá-la. Mesmo assim, levantaram e correram todas para o mesmo lugar, desesperadas com a contagem que chegava aos dez números finais.

Dentro do banheiro, Annie se esgueirou para trás da porta enquanto Ellie, a mais magra, se enfiava dentro do armário sob a pia. Mindy e Tyra se jogaram na banheira e fecharam a cortina.

- Prontas ou não, lá vou eu! – Elas ouviram a voz abafada de Ashley ressoar no corredor.

O piso de madeira rangia sob os passos da garota enquanto as amigas se escondiam no banheiro. Mindy espiou por uma fresta entre as cortinas de plástico e viu uma silhueta escura passar pela porta do banheiro, seguindo na direção do fim do corredor.

A expressão de Tyra sugeria que ela queria saber o que Mindy estava vendo, mas a garota estava ocupada demais ouvindo os passos no corredor. Ela não precisava ter uma audição perfeita para ouvir dois tipos de passos. Um mais pesado e sorrateiro e os passos estabanados de Ashley procurando por elas.

Mindy se virou para Tyra e moveu os lábios em um Tem alguém aqui!, silencioso.

A porta do banheiro se fechou bruscamente e ambas saltaram, com os corações quase escapando pela garganta.

Mindy abriu as cortinas e viu Ellie sair de dentro do armarinho sob a pia, com a mesma expressão assustada que suas amigas.

- Ashley? – Annie, que estava mais próxima da porta, tentou girar a maçaneta, mas a estrutura de madeira se recusou a ceder. – Ashley! Isso não tem graça! Você sabe que eu sou claustrofóbica! Ash!

- Não foi a Ashley. Tem mais alguém nessa casa! – Quando as palavras saíram por entre os lábios de Mindy alguém esmurrou a porta do banheiro e elas gritaram em uníssono. Outro grito, vindo do lado de fora do banheiro, fez as quatro amigas congelarem. O grito de Ashley foi abafado por algo ou alguém e elas não ouviram mais nada.

- Ashley! – Quatro pares de mãos esmurraram a porta de madeira, fazendo a estrutura toda sacudir. Elas estavam desesperadas demais para cogitar a possibilidade de que estavam muito mais seguras lá dentro. – Ashley!

- Meninas, precisamos fazer isso juntas. No três, tudo bem? – Tyra, Annie e Ellie manearam a cabeça, exibindo a mesma expressão de terror. – Um.

Todas recuaram da melhor forma possível pelo espaço limitado do banheiro.

- Dois...

De repente a expressão de medo no rosto de todas se transformou em determinação e movendo-se em sincronia, as quatro se prepararam para o impulso.

- Três! – Mindy gritou e as quatro se jogaram contra a porta, depositando toda a força que tinham no golpe. O batente rachou e a porta se abriu ainda mais bruscamente do que quando havia sido fechada. – Ash!

Mesmo atordoadas, Tyra, Mindy, Annie e Ellie correram para o quarto de Ashley e o encontraram vazio. As luzes estavam acesas e um vento quente soprava pelas janelas abertas. As cortinas de cetim da garota ondulavam sombriamente com o vento.

- Ashley?

Ellie caminhou vagarosamente até a janela. Ela se debruçou pelo parapeito e olhou para baixo, emitindo um grito tão agudo que as outras se encolheram. Ellie recuou apressadamente, tropeçando nos próprios pés e caindo sentada pelo assoalho.

Mindy e as outras se adiantaram em direção a janela e se empoleiraram ao mesmo tempo para ver o que deixara Ellie tão abalada.

Sobre o gramado verdejante e bem aparado dos Meltbeck jazia um corpo estatelado e sem vida. A silhueta curvilínea e esguia de Ashley estava estirada na grama. Os cabelos ruivos estavam espalhados ao redor da cabeça e a perna se dobrava em um ângulo estranho e completamente assustador. Seus olhos azuis estavam abertos e congelados, olhando para o céu noturno. Os galhos da macieira arranharam os braços de Mindy e ela prendeu a respiração.

Tyra e Annie recuaram assim como Ellie e Mindy reprimiu um grito. As lágrimas queimaram em seus olhos, mas ela estava assustada demais para chorar.

Mindy correu em direção à porta e a trancou, seguindo em direção ao armário de mogno maciço de Ashley. Tyra saiu do seu estupor e ajudou Mindy a empurrar o armário em frente à porta, bloqueando a entrada da pessoa que elas ouviram andar pelo corredor.

- Precisamos chamar a polícia, agora! – Annie pegou o telefone e começou a ligar para o 911. – Alô? Precisamos de uma ambulância, nossa amiga caiu do segundo andar.

Ellie abraçou os próprios joelhos e limpou freneticamente as lágrimas que escorriam pelos seus olhos. Tyra também chorava, mas Mindy se manteve firme pelas amigas.

- Mindy, quantos metros tem da janela até o chão? – Perguntou Annie, tampando o telefone com as mãos. A voz da garota estava tremula e Annie estava na beira das lágrimas.

- Sete metros? Oito? Que diferença isso faz, Annie? Ela foi jogada da janela! – Mindy não pretendia soar tão áspera, mas seu nervosismo se manifestava como irritação.

Annie repassou a informação para quem quer que estivesse do outro lado da linha e acrescentou:

- Sejam rápidos, achamos que quem a empurrou ainda está nessa casa. – Ouve uma pausa em que Annie não conseguiu controlar as lágrimas e murmurou uma resposta com a voz embargada. – Nos trancamos no quarto, estamos seguras, mas venham logo.

Enquanto ela desligava, Tyra foi até Ellie e puxou a amiga e direção à cama de Ashley onde todas se juntaram. Suas mãos tremiam e suas lágrimas rolavam sem controle, borrando toda a maquiagem infantil que elas haviam feito minutos antes para desfilar pelo quarto da melhor amiga.

Tyra se encolheu e abraçou o travesseiro de Ashley, fazendo um envelope deslizar pela fronha até o colchão.

- O que é isso? – Ela perguntou enquanto Ellie pegava o envelope e o entregava a Mindy, sem nem olhá-lo.

Mindy rompeu o lacre feito com um adesivo de coração e puxou um bilhete do seu interior. O bilhete era escrito com a caligrafia floreada e angulosa de Ashley.

“Eu estou farta. Não posso continuar com isso. Desculpe-me, meninas, mas eu não posso mais lutar por vocês. Vocês são meu A Team, minhas abelhas rainhas. Amo vocês e espero que um dia possamos nos encontrar novamente.

Com amor,

A.

Mindy sentiu um nó imenso subir pela sua garganta, ela não tinha mais forças para segurar as lágrimas. O bilhete foi passado de uma para a outra e a reação era a mesma para todas. Elas não podiam acreditar que Ashley havia se matado. Ela sempre fora tão segura de si, tão linda, inteligente, tão popular! Não haviam motivos para que ela desistisse de tudo e se jogasse da janela do seu quarto. Não fazia sentido.

- Ela não... – A voz de Tyra foi sumindo até desaparecer completamente.

A mente de Mindy estava entrando em curto circuito. Quem era a pessoa que estava seguindo Ashley no corredor? Onde ela estava agora e o que queria? Ash teria mesmo se matado ou havia sido obrigada a escrever esse bilhete? O agressor – se é que havia um – havia tido tempo de fazê-la escrever aquilo ou ela mesmo havia feito enquanto elas se escondiam?

Os minutos se arrastaram mesmo com a urgência na voz de Annie quando ela fez o telefonema. Depois de meia hora sentadas, abraçadas e afogadas nas próprias lágrimas, as garotas ouviram as sirenes da polícia e da ambulância. As quatro, juntas, empurraram o armário para liberar a passagem e saíram correndo pelo corredor, descendo as escadas de mármore polido em direção à porta de entrada.

Havia cerca de três viaturas e uma ambulância. O carro dos pais de Ashley estacionou do outro lado da rua e eles correram, passando pelos guardas e seguindo até o quintal aberto que unia a propriedade Meltbeck com a dos vizinhos.

Alguns policiais se aproximaram das garotas e Mindy entregou o bilhete suicida de Ashley, contando toda a história duas vezes já que nenhuma das outras parecia se lembrar de como dizer algo.

Um policial se aproximou delas, esmagando a grama bruscamente com as botas. Sua expressão não era absolutamente nada amistosa quando ele as alcançou, fuzilando cada uma com os olhos castanhos.

- Onde vocês disseram que viram o corpo de Ashley Meltbeck? – Sua voz sugeria que era melhor elas serem honestas, mas elas não tinham o que esconder.

- Bem embaixo da janela do quarto da Ash, no quintal. – Sussurrou Tyra.

A expressão do policial ficou ainda mais assustadora e seu maxilar se projetou para frente com a irritação.

- Não há corpo nenhum no quintal dos Meltbeck.

Notas finais
Love,
-A.