Pretty Little Liars - A's freak show
2 DeAd girls don't send SMS
Notas iniciais
Mindy Fassrelt não gostava de aniversários. Ela achava hipócrita comemorar a aproximação de algo que todos temem. No fim, todos nós morremos. Qual o sentido de contarmos os anos que permanecemos vivos se no final todos viríamos a morrer – ou ser morto?
O que ela mais detestava era quando as pessoas se reuniam para um aniversário de morte. Sua filha se jogou da janela e o corpo nunca foi encontrado? Sirva uma xícara de café com biscoitos!
Os Meltbeck estavam movendo céus e terras para conseguir reunir todas as pessoas importantes de Rosewood, os parentes e os amigos mais próximos da família. Eles queriam erguer um memorial para Ashley, sua filha suicida desaparecida, no meio da praça central da cidade. A reunião em prol de Ashley aconteceria naquela tarde e Mindy não estava pronta para encarar o fato de que vira o corpo de sua melhor amiga estatelado no gramado há um ano.
Ela e as amigas foram interrogadas diversas vezes sobre o que aconteceu, todos os depoimentos coincidiam um com o outro por isso os policiais deixaram de lado as suspeitas sobre elas. Eles não esqueceram, só não insistiram mais. Mindy sabia que a carta suicida descartava a palavra “assassinato” dos registros, mas ela também sabia muito bem que Ash nunca teria se matado. À noite em que elas foram trancadas no banheiro e Ashley morreu era completamente enevoada agora, mas as quatro amigas concordavam em um ponto. O corpo de Ashley havia sido levado. Ela estava morta, não podia simplesmente fugir correndo pelo quintal.
O quarteirão todo dividia o quintal, separando os lotes com pequenas cercas, mas a parte dos fundos dava para a floresta de Rosewood. A polícia havia feito inúmeras buscas pela área, e fizeram de novo e de novo. O corpo de Ashley simplesmente havia sumido para sempre.
– Mindy, querida, você vai se atrasar. – A mãe de Mindy já estava vestida para a reunião-barra-aniversário de morte de Ashley. Ela usava seu melhor e mais caro terninho, saia plissada e seus sapatos Jimmy Choo. – Suas amigas estarão lá, não é educado deixar as pessoas esperando.
– Fico pronta em dez minutos, mamãe.
Quando Esther Fassrelt saiu do quarto, Mindy fechou os olhos e engoliu o choro. Já fazia um ano desde que Ashley morrera. Quantas lágrimas ainda restavam até que ela simplesmente parasse de sentir medo?
Mindy e as amigas não se falavam muito desde que Ash havia desaparecido. Elas não eram mais melhores amigas, eram apenas colegas de sala e mal se cumprimentavam quando se viam no supermercado ou nos corredores da escola.
Ellie passou o verão viajando pela Europa para colocar em prática tudo o que aprendera nas aulas de fotografia. Ela havia passado todo o primeiro ano do colegial apresentando peças de teatro e fotografando paisagens exuberantes.
Annie havia mudado completamente. Ela não era mais a filhinha da mamãe que era até a oitava série. Agora ela se vestia como queria e não como a mãe a obrigava. Suas roupas eram caras e ela não costumava repeti-las uma única vez. Se alguém tinha problema com moda, Annie dava um jeito.
Tyra não havia entrado para nenhuma equipe no ano anterior e Mindy sabia que se a garota quisesse entrar em uma universidade de renome, teria que fazer muito melhor do que estava fazendo. A única coisa que Tyra fez o ano todo foi se aplicar arduamente em suas aulas de direção. Ela havia reprovado nas outras quatro tentativas desde que completara dezesseis anos no meio do ano anterior.
Já Mindy? Ela não tinha tempo para respirar. Todos os dias de sua agenda estavam cheios de tarefas, incluindo aos domingos. Ela praticava tênis três vezes por semana para os campeonatos familiares entre as cidades de Rosewood e Ravenswood. Era tutora de francês e italiano para os estudantes do ensino fundamental, era presidente do grêmio estudantil e oradora da turma. Trabalhava como voluntaria na igreja de Rosewood aos sábados e passava o domingo dedicando-se para ingressar na UPenn.
Mindy não gostava de pensar nas antigas amigas. Ela achava que a culpa por não terem ficado juntas era exclusivamente dela. Nas reuniões com conjunto com uma psicóloga, Mindy havia dito coisas horríveis sobre Ashley. Ela não mentiu uma única vez, mas disse coisas que as outras achavam que deveria morrer com elas. Elas não tinham divida nenhuma com Ash. Ela podia tê-las unido, mas as bombardeava diariamente com piadas de mau gosto e brincadeiras que sempre magoava alguém.
Ash era uma vadia e gostasse de admitir ou não, Mindy quase se sentia aliviada com o sumiço dela. Se Ashley havia desaparecido, os segredos delas estavam seguro.
O telefone de Mindy vibrou dentro da sua bolsa e ela caçou o aparelho por entre as milhares de coisas que carregava. Quando ela o encontrou, uma notificação de nova mensagem piscava na tela. Mindy clicou em LER e arqueou as sobrancelhas para o número bloqueado. Ela achava que era impossível enviar mensagens com número restrito.
O que você faria se todos descobrissem que você é uma ladra de namorados? –A
Os olhos de Mindy não poderiam ficar mais arregalados. Ashley estava viva!
Tyra Destrie queria ir para casa. Ela estava odiando cada segundo daquela reunião bizarra que os pais de Ashley fizeram para lembrar todos os cidadãos de Rosewood o quão chocante o desaparecimento dela foi.
Era ridícula a forma como eles usavam a morte, desaparecimento, sequestro, assassinato, suicídio ou o que fosse, de Ashley como uma forma de atrair todos os holofotes para a adorável família Meltbeck.
– Tyra, querida, aceita um canapé? – A sra. Meltbeck se aproximou dela, sorrindo encantadoramente como se aquilo fosse uma festa e não um segundo funeral. – Aproveite, docinho, Ashley não iria querer que você passasse fome!
A menção do nome da antiga melhor amiga de Tyra teve o mesmo efeito que tivera inúmeras vezes antes. O estômago dela se revirou e ela agradeceu por não ter comido canapé algum. A sra. Meltbeck se afastou educadamente e Tyra arrebitou o nariz, colocando uma mecha loira atrás da orelha. Ela havia chorado muito por um ano inteiro, ela não deveria ser capaz de produzir mais lágrimas.
– Tyra? Você veio. – A garota se virou e viu Annie Daercott usando um vestido curto de uma das mais recentes coleções Armani. Ele era preto e uma cinta prateada trançada e delicada envolvia sua cintura escultural. Os cabelos acastanhados de Annie estavam presos em um coque desleixado, o que deixava seu visual ainda mais urban conceitual. – Pensei que eu seria a única.
– Ellie está em algum lugar com a família dela e vi a Mindy entrando não faz nem cindo minutos. – Tyra ficou na ponta das sapatilhas para tentar enxergar onde estavam suas antigas amigas, mas não as viu em lugar nenhum. – Devem ter ido ao banheiro, ou sei lá.
Annie assentiu e se balançou sobre os saltos dos seus Louboutin. Tyra ficou feliz em saber que não era a única desconfortável com tudo aquilo.
– E então? Como foi o seu verão? – Ela perguntou, tentando quebrar o clima constrangedor que começava a se condensar sobre elas. Annie pareceu surpresa, se era por Tyra estar puxando assunto ou por demonstrar real curiosidade, era difícil saber.
– Ah, bem... – Ela mordeu o lábio inferior e coçou o antebraço com as unhas. – Meus pais e eu fomos para Paris assistir um desfile de moda, eu até fui chamada para desfilar e sai nas capas de umas revistas francesas. Tomamos café sob a Torre Eiffel, passamos as noites entre a elite parisiense e depois voltamos para Rosewood. E você, Ty? O que fez de emocionante?
– Joguei palavras cruzadas com a minha mãe. – Tyra sentiu o rosto queimar. Ela detestava quando as amigas falavam sobre as viagens que faziam por que ela nunca tinha dinheiro o suficiente para sair de Rosewood. Ela já achava muito bom ter dinheiro para pagar a gasolina que usava para ir à escola. – E fiz mais um teste de direção. Vou pegar os resultados a semana que vem e tudo mais.
A expressão animada de Annie, que havia desmoronado quando Tyra disse o que fizera o verão todo, voltou com a mesma velocidade com a qual outrora havia desaparecido.
– Você vai conseguir, Tyra. Eu vi o quanto você se esforçou da última vez. – Annie estendeu a mão afetuosamente e Tyra a segurou por alguns instantes, sorrindo. Quem sabe elas não pudessem voltar a ser amigas?
O celular de Tyra emitiu ruído em sua mão vaga e ela soltou Annie para ler a nova mensagem. Seus olhos passaram pelo número restrito até a letra que assinava a mensagem de texto.
Tyra no volante é perigo constante! Você se lembra do que aconteceu da última vez? –A
Seu coração se apertou dolorosamente. Ela olhou por cima dos ombros, esperando ver uma cabeleira ruiva em algum lugar.
– Ashley? – Sua voz não passava de um sussurro, mas foi o bastante para fazer os olhos de Annie se arregalaram.
– O que você disse? – Perguntou Annie, arqueando uma sobrancelha perfeita.
– Eu? N-nada, eu só... Eu tenho que ir. – Tyra ignorou os protestos de Annie e se afastou da garota, atravessando a união de corpos bem vestidos. Seu coração martelava freneticamente. Ashley estava viva?
Ellie Caldree queria voltar para a Europa. Havia sido um máximo assistir as peças de teatro parisienses e londrinas. Ela havia amado fotografar cada centímetro cúbico de cada um dos doze países europeus pelo qual ela passara. Claro que havia sido estranho ver o rosto de Annie em várias capas de revistas francesas, mas ela podia lidar com isso.
Ellie viu Tyra e Annie conversando próximas à sala de jantar dos Meltbeck e sentiu um nó na garganta. Ela sentia falta das antigas amigas, como sentia.
Com o canto dos olhos ela viu Damien Lebeorth e sua respiração ficou acelerada. O que diabos Damien Lebeorth estava fazendo no aniversário de morte da Ash?
– Oi, Ellie. – Por tudo o que era mais sagrado, por que Damien tinha que ser tão lindo?
– Oi, Damien.
Damien era um típico garoto de Rosewood. Ele tinha um tipo físico de causar inveja em muitos frequentadores de academia, tinha olhos azuis e cabelos negros deliciosamente desgrenhados. Quando estavam no último ano, Ellie e Damien tiveram um namorico adolescente. Ellie, mesmo sendo a mais comportada, se permitiu levar e acabou indo além do que deveria com ele. Ashley viu mais do que deveria e guardou uma foto da amiga no seu momento mais intimo. Desde aquele dia, Ash usava aquela foto para obrigar Ellie a fazer tudo o que ela queria. Uma das ordens de Ashley? Nunca mais se aproxime do Damien, Ellie. Se você falar com ele de novo, eu conto.
– Ellie? – Ele olhava para ela de um jeito estranho, como se esperasse que ela respondesse uma pergunta ou algo assim.
– Sim? Desculpe, eu estava distraída. – Ela se amaldiçoou por corar, mas simplesmente era impossível conversar com alguém como Damien sem simplesmente ficar toda animada.
– Seu telefone está apitando. – Ele arqueou uma sobrancelha e Ellie ouviu os miados que seu celular fazia. Maldita hora para trocar o toque daquela coisa!
– Ah! – Ela enfiou a mão na bolsinha e se apoderou do aparelho, clicando em LER no novo e-mail que ela havia recebido.
Pensei que você estava proibida de falar com Damien! Quebre as regras de novo e eu conto. –A
Ela clicou no anexo que vinha no e-mail, sentindo as mãos tremerem. Era impossível, não era? Ashley não podia estar viva!
A conexão não era das melhores, por isso só metade da imagem carregou. Ela conseguia ver a si mesma no oitavo ano, de costas para quem tirara a foto. Seus cabelos loiros estavam presos em um rabo-de-cavalo alto e ela estava nua da cintura para cima, sentada sobre o abdômen musculoso de Damien.
Ellie emitiu um gritinho e encarou o garoto, sentindo-se acuada. Ela girou nos calcanhares e correu pelo hall, desviando das outras pessoas e deixando um Damien completamente confuso para trás.
Annie Daercott estava se sentindo sozinha. Ela não achava Ellie e lugar nenhum, Tyra havia fugido como diabo da cruz e Mindy estava cercada pelo grêmio estudantil (Annie tinha uma política muito forte contra qualquer tipo de nerd que fizesse questão de mostrar que era mais inteligente que ela).
Ela ficou em pé no meio da sala de estar dos Meltbeck, sentindo-se deslocada enquanto várias pessoas andavam para lá e para cá, conversando sobre qualquer coisa que não fosse o aniversário de morte de Ashley. Annie não conseguia entender o motivo de alguém reunir as pessaioas em homenagem ao sumiço-barra-morte da própria filha.
Ela já estava ficando sem ar com tanta gente ao seu redor, por isso pegou sua bolsa Prada e se esgueirou para o quintal, cumprimentando algumas pessoas conhecidas pelo caminho.
Se arrependimento matasse...
Assim que chegou ao quintal, Annie chegou à conclusão de que não era uma boa ideia estar ali. O lugar estava completamente diferente o que estava no oitavo ano. A macieira por onde Ashley se pendurava para fugir de casa havia sido cortada. Um gazebo havia sido construindo próximo à entrada para a floresta de Rosewood, gazebo onde três garotos do ensino fundamental fumavam descaradamente. Eles vestiam camisetas sociais com as mangas dobradas até os cotovelos e estavam completamente alheios a enxurrada de lembranças que começavam a atormentar Annie. Ela precisava sair dali e rápido. Não valia a pena borrar a maquiagem em um aniversário de morte idiota. Ela se virou e começou a voltar para dentro da casa dos Meltbeck.
– Ei, garota! Ei! – Annie girou nos calcanhares, semicerrando os olhos para o garoto que segurava um cigarro Marlboro entre os dentes.
Annie se amaldiçoou por reconhecer a marca do cigarro mesmo à distância.
– Por que você não vem aqui passar um tempinho com a gente? – Os amigos dele riram como idiotas e Annie revirou os olhos.
– Quando vocês saírem das fraudas, quem sabe? – Ela volveu o corpo em direção a casa, mas seu celular apitou em sua mão. Ela desbloqueou a tela e abriu a nova mensagem, franzindo o cenho para o número bloqueado.
O que você prefere que eu conte primeiro, An? Seu histórico como Papa-Anjo ou seu histórico na reabilitação? –A
Ela quase engasgou com o próprio ar que respirava. Ashley tinha morrido. Fantasmas não podiam contar segredos. Podiam?
Mindy estava isolada na sala de jogos dos Meltbeck. Ela se lembrava de como, há um ano, Ash havia aberto a porta com um grampo de cabelo. Ela precisava ficar sozinha, por isso achou que não teria problema nenhum se isolar de tanta hipocrisia.
Tyra foi a primeira invadir seu santuário. Ellie veio em seguida e depois Annie. Todas tinham a mesma expressão aterrorizada no rosto, a mesma expressão que estavam há um ano, quando viram o corpo de Ashley caído na grama, com os olhos vidrados.
– Eu não consigo fazer isso... – Murmurou Tyra, abraçando a si própria. – Ela está em todos os lugares, eu não consigo fingir que superei isso.
Mindy estendeu a mão e Tyra a aceitou, parecendo estar agradecida com o gesto afetivo.
– É difícil superar algo que não acabou, Ty. Não sabemos o que houve com o corpo dela, não sabemos se ela morreu mesmo ou se esta viva por aí, brincando com a gente. – Mindy jogou a isca e as três morderam ao mesmo tempo. Ellie gemeu baixinho e Annie engoliu em seco. O aperto de Tyra na mão de Mindy diminuiu. – Oh, meu Deus! Vocês também receberam?
– Mensagens de texto da nossa melhor amiga morta ameaçando contar as únicas coisas que só ela sabia? – Perguntou Annie, suspirando em conseguinte. – Como essa vadia pode fazer isso conosco?
– Isso leva a expressão morto-vivo a um nível completamente assustador – resmungou Ellie, abatida.
– O que dizia na mensagem de vocês? – Perguntou Tyra, mesmo sabendo que não responderia se a pergunta fosse dirigida a ela.
Mindy hesitou. Seu segredo não era nada demais na época. Ashley só não contara nada por que sairiam como perdedora e isso ela nunca permitiria. Mas agora, se esse segredo vazasse muitos holofotes poderiam se virar para ela e Mindy não queria encabeçar a lista dos suspeitos.
– É pessoal. – Ela disse por fim, vendo Annie e Ellie concordaram com um menear do queixo.
Tyra ia responder, mas seus olhos passaram de Mindy para algo sobre os ombros da garota. Annie e Ellie prenderam a respiração ao mesmo tempo e Mindy se virou para ver o que elas encaravam.
O projetor usado para passar a imagem do vídeo-game para a parede mais afastada e livre de sofás e almofadas estava ligado. A imagem do vídeo não era de boa qualidade, mas elas podiam claramente ver um corpo ruivo deitado no assoalho envelhecido e corroído. Os cabelos de Ashley estavam sujos de terra e havia folhas enroscadas em um emaranhado ruivo. A data no vídeo mostrava que ele era de uma semana após o desaparecimento de Ash.
As garotas assistiram, horrorizadas, enquanto a câmera dava um zoom no rosto pálido e sujo de lama de Ash. Elas seguraram um grito quando a imagem desceu e uma folha de papel entrou em foco. Os dedos de Ashley haviam sido colocados de forma que parecesse que ela segurava o papel. O zoom se aprofundou e elas puderam ler o que estava escrito.
Estejam prontas para a próxima rodada, suas vacas. Eu já estou dando as cartas. –A
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