Pretty Little Liars - A's freak show
3 Beware who you run over!
Um ano e um mês inteiro desde que Ashley Meltbeck havia morrido e Ellie ainda não havia se conformado com o fato dos pais de Ash dedicarem todo o verão em organizar uma reunião em prol do sumiço da única filha. Ela havia desaparecido no inicio do verão, a reunião havia sido no último dia do verão do ano seguinte, no dia anterior à volta as aulas. Algo que não saia da mente de Ellie e que estava destruindo seu humor era o vídeo que mostrava Ashley uma semana após o seu desaparecimento.
Ela mal conseguira dormir de noite, imaginando quem teria matado e levado o corpo de sua antiga melhor amiga. Seria a mesma pessoa que estava mandando mensagens para elas? Como A sabia tanto sobre elas? Quem era A e que tipo de jogo ele ou ela achava que estava jogando?
O que mais assustava Ellie era a foto íntima dela no oitavo ano, com Damien Lebeorth. Ela sabia que todas tinham segredos que preferiam que fossem enterrados com elas, mas o dela parecia mil vezes pior. Por um momento, ela achara que Ashley estava viva. Isso até o vídeo horripilante.
O telefone de Ellie vibrou em suas mãos e ela congelou. Sua mãe, Agnes, ergueu os olhos do jornal e os baixou novamente, bebericando um gole do seu café.
Por favor, que não seja A!
Ela quase gemeu de alivio quando viu o nome de Tyra aparecer no identificador de chamas. Ellie apertou ACEITAR na tela do seu telefone e se levantou, correndo pelas escadas até chegar ao seu quarto.
– Alô?
– Você recebeu outra mensagem? – Tyra perguntou, recusando-se a usufruir da boa educação. Bom dia pra você também.
– Não recebi, não. – Depois que o projetor parou de reproduzir o vídeo, Mindy tentou encontrar um computador escondido em algum lugar ou até algum cabo conectado no projetor. O aparelho nem sequer estava ligado. – Você recebeu?
Ellie ouviu Tyra hesitar antes de responder.
– Não... Mas eu estive pensando sobre ontem e acho que deveríamos contar para a polícia sobre o vídeo. – Aquilo já havia sido discutido antes, cinco vezes.
– Não podemos, Tyra. Mesmo que contássemos, não temos o vídeo.
Ellie ouviu a antiga melhor amiga suspirar e se deu por vitoriosa.
– Tudo bem, mas vamos manter o combinado, certo? Se recebermos alguma coisa nós alertamos as outras. – Aquela conversa também já tinha sido repetida várias vezes.
– Sim, Ty. Na mesma hora.
– Obrigada, Ellie. – Ela percebeu que Tyra estava desconfortável e se perguntou se ela havia sido sincera quando disse que não havia recebido mais nenhuma mensagem. Será que A tinha contado a Tyra sobre ela e Damien? – Nos vemos na escola?
– C-claro, Ty.
A ligação ficou muda e Ellie também.
Mindy estava pronta para começar o segundo ano em Rosewood Day. Ela estava com seu uniforme branco e azul bem passado e engomado. A gravata estava dentro do seu blazer, a camisa branca de botões estava completamente abotoada e a saia plissada estava exatos dez centímetros acima do joelho, como mandava o regulamento.
Ela desceu as escadas correndo e se apoderou do expresso que sua mãe havia comprado para ela. Mindy nem viu o caminho enquanto dirigia até a escola. Ela não podia se permitir parar para pensar em absolutamente nada, por que, se fizesse isso, o vídeo e a ameaça de A voltariam aos seus pensamentos.
Mindy estacionou o BMW da sua mãe na vaga de presidente do grêmio estudantil (ao lado da vaga do diretor e do zelador) e saltou do carro, colocando a bolsa Prada cheia de livros e cadernos nos ombros.
No ano anterior ela era acompanhada todos os dias até o interior da escola. Todos que compunham o grêmio a paparicavam e a seguiam como cachorrinhos aguardando por um osso. Naquele dia, Mindy estava completamente sozinha no estacionamento de Rosewood Day.
Ela empurrou as portas duplas da escola e encontrou o corredor abarrotado de alunos, todos conversando e se encaminhando para suas aulas. Suas amigas estavam reunidas no final de um dos corredores adjacentes e Mindy percebeu a nostalgia mórbida no ar. Antes elas se reuniam com Ashley, agora estavam juntas novamente, mas com um pedaço importante delas faltando.
– Oi, meninas. – Ela se aproximou de onde elas estavam e percebeu a expressão desconfortável que se espelhava no rosto de cara uma delas. – O que foi?
Annie jogou os cabelos acastanhados para trás e apertou os livros contra o peito antes de trocar olhares com Tyra e Ellie.
– Os Eartell voltaram para Rosewood. – Annie disse por fim. Mindy não conteve a expressão de incredulidade. Demetria e Johnattan haviam se mudado desde a morte de Ashley, o que quase despertou o interesse da polícia. Eles tinham o álibi perfeito, estavam em Ravenswood para uma apresentação de jazz de Demetria, a Baleia Maravilha. — Como se Rosewood Day fosse grande o bastante para dividir espaço com ela.
– Annie! – Repreendeu Ellie, estupefata com o comentário da amiga.
– Falávamos coisas piores, Ellie – disse Annie. – Não vamos ser hipócritas.
Os olhos de Mindy se fixaram em um casal no final do corredor e ela precisou se lembrar de como fechar a boca.
– Mindy? – As garotas seguiram o olhar da amiga e clonaram sua expressão de extrema surpresa. – Meu Deus!
Eles estavam completamente diferentes do que eram um ano atrás, mas ainda tinham os mesmo traços fortes e muitas vezes assustadores. Demetria havia emagrecido visivelmente e as mechas coloridas estavam banidas dos seus cabelos loiro-platinados. Sua silhueta era extremamente curvilínea, com curvas angulosas nos lugares certos. Ela vestia o uniforme de Rosewood Day que ficava surpreendentemente magnífico e seu novo corpo escultural.
– Onde ela conseguiu aqueles peitos?! – Grunhiu Annie ao lado de Mindy.
Os olhos das quatro passaram, de forma sincronizada, para Johnattan Eartell. Ele não era mais o perdedor franzino e magricela que era no oitavo ano. Johnattan não usava mais os óculos com aro de tartaruga e tinha crescido consideravelmente em todos os sentidos possíveis. Ele tinha o triplo da massa muscular que tinha antes e era um exemplo vivo de que os modelos Calvin Klein podiam ser reais. Os olhos extremamente verdes dele estavam fixos nelas enquanto Demetria conversava naturalmente com um grupo de garotas que a cercavam.
– Ele está olhando pra gente! – Sibilou Tyra, quase em um sussurro.
– Por que ele não para de olhar e vem aqui para eu tirar uma casquinha? – Perguntou Annie, mordendo o lábio inferior.
– Annie! – As outras três resmungaram em uníssono, olhando feio para a garota.
Ela deu de ombros e Mindy voltou à atenção para os irmãos Eartell. Johnattan continuava encarando-as e agora Demetria também lhes olhou de soslaio, ocupada demais em ser o centro das atenções.
Ao mesmo tempo, o iPhone de Mindy, o Nokia de Tyra, o Sidekick de Ellie e o LG de Annie apitaram descontroladamente e vibraram em suas bolsas. Elas olharam uma para as outras antes de procurar os aparelhos e verem a nova mensagem na caixa de entrada.
– Vocês acham que... – Tyra não continuou.
Todas apertar em LER e deslizaram os olhos pela tela dos celulares. Os aparelhos foram passados de uma para a outra, para que todas pudessem ver a mensagem idêntica.
Admirem bastante, vadias. Enquanto eles sobem, vocês caem. –A
Elas olharam para os lados, procurando quem poderia ter enviado a mensagem. Mais da metade dos alunos de Rosewood estava com o telefone em mãos, digitando mensagens ou fazendo telefonemas. A podia ser qualquer um.
Annie estava muito irritada. A primeira mensagem que A enviou para ela já havia sido ruim pelo fato de alguém, além dela e Ash (que descanse em paz), saber sobre sua passada rápida na reabilitação e sobre o outro assunto. A segunda havia a feito ter pesadelos a noite toda. Antes de Mindy chegar, todas estavam quietas e completamente desconfortáveis. Ela sabia que todas estavam assustadas com o vídeo e ainda mais assustadas por não saberem como ele havia sido mostrado a elas. Essa terceira mensagem fez seu humor ruir ainda mais, atingindo um nível de irritação estranhamente exacerbada.
Ela se despediu das meninas e foi para sua aula de Álgebra, atravessando os corredores adjacentes até a sala 3B. Annie se acomodou na primeira carteira, mesmo sabendo que não iria entender absolutamente nada até o final do ano. Demetria Eartell entrou na sala e seus olhos verdes dela esquadrinharam a sala que começava a ficar lotada até chegarem à carteira ao lado de Annie.
Como se todos os deuses do universo divino estivessem rindo da cara de Annie, Demetria desfilou até a carteira e se sentou, cruzando as pernas e puxando a saia plissada para que as coxas torneadas não ficassem à vista. Vadia.
Demetria se virou para Annie e a pegou encarando-a.
– Perdeu alguma coisa, querida? – A voz de Eartell estava tão melódica. Annie se lembrava que toda vez que Demetria falava o oitavo ano parecia que um gato havia sido preso dentro de um triturador de alimentos.
Ela não gostou nada da ênfase que a garota havia colocado na palavra “querida”, o que só fez seu humor se inflamar mais. Demetria poderia ser A.
– Não, Demi. – Os olhos de Annie faiscaram e ela abriu o sorriso mais falso que conseguiu. – Mas acho que os médicos esqueceram as abóboras de Halloween nos seus peitos quando você foi fazer a cirurgia plástica.
Annie não esperava que Demetria risse, mas foi exatamente o que a loira fez.
– Eles são naturais, mas uma das minhas empregadas operou recentemente. – A sombra de um sorriso de escárnio surgiu nos lábios carnudos e vermelhos de Demetria. – Posso conseguir o número da clínica já que você precisa.
Annie pensou em responder, mas o professor de cálculo, o sr. Jackson, entrou na sala e ela foi obrigada a ficar quieta, com a irritação beirando a agressividade.
Quem aquela garota pensava que era para falar com ela daquela forma?
Tyra foi para seu último exame prático de direção com sua bicicleta obsoleta e pelo caminho foi repensando no básico para se dirigir um carro. Ela passou a noite acordada, com medo de dormir e a imagem de Ash sem vida, segurando uma mensagem assustadora de A, voltar para assombrá-la. Ela não precisava ficar ainda mais nervosa do que já estava para conseguir aquela maldita carteira de motorista.
A mensagem que ela havia recebido no aniversário de morte de Ashley já fizera um estrago enorme na sua autoconfiança, fazendo-a lembrar do que havia acontecido no oitavo ano quando ela... Não. Ela não iria se permitir pensar sobre aquele acidente, não quando estava prestes a superar o seu trauma.
Tyra estacionou a bicicleta nos fundos da auto-escola e atravessou o estacionamento cheio de carros velhos e ainda mais obsoletos que sua bicicleta. O prédio era um bloco cinzento e retangular de tijolos cinza. Havia uma placa ao lado da porta com os horários das aulas e também com os preços por casa aula.
Tyra deslizou a mão pela sua saia plissada e afrouxou a gravata de Rosewood Day. Ela amarrou os cabelos loiros em um rabo-de-cavalo desleixado e respirou fundo uma dez vezes. Suas mãos tremiam e ela estava suando em lugares que ela nem sabia que existiam.
É só um teste, Tyra. Você consegue, garota.
Ela foi até a última ala, onde ficava o espaço aberto para os testes práticos da aula de direção. Seu professor particular, o velho e careca sr. Howard, estava esperando por ela com um prancheta em mãos. Ele vestia um casaco de tweed e calça social. A careca lustrosa estava coberta por um capacete de ciclismo. Que encorajador!
– Olá, senhor Howard! – Tyra o cumprimentou, amaldiçoando-se por parecer animada demais. O professor levantou os olhinhos miúdos por de trás dos óculos imensos e fungou discretamente. A barba branca contrastava com a pele escura dele.
– Olá, senhorita Destrie. Está pronta para começar? – Algo no tom dele dizia que um dos dois não estava nem um pouco pronto para começar e Tyra quase podia apostar que era ele.
Howard foi seu avaliador nas últimas três vezes em que ela tentara tirar sua carta de motorista. Ele a havia reprovado as três vezes por que ela simplesmente não conseguia ligar o carro sem ter uma crise de nervos ao lembrar da noite do acidente.
Dessa vez, Tyra queria fazer diferente. Ela havia praticado muito para conseguir essa carta e estava pronta para superar o seu pânico por automóveis.
– Estou pronta para começar.
Eles entraram em um dos carros, o que sr. Howard achou mais apropriado para o exame, e Tyra respirou fundo mais algumas vezes. Ela sabia o que tinha que fazer e sabia o que tinha que ser feito. A chave já estava no painel e o sr. Howard já estava com o cinto de segurança. Ela fez o mesmo que ele, prendeu o cinto e levou a mão até o espelho retrovisor. Tyra viu o reflexo de alguém atrás do carro. Ela tentou ajudar o espelho novamente para ver melhor, mas não havia ninguém atrás do carro.
Pelos breves segundos que ela viu o estranho ela pode perceber que ele era alto e parecia um homem com moletom preto largo e capuz. Ela não pôde ver o rosto de quem estava sob o capuz, mas seus dedos apertaram o volante com força.
– Senhorita Destrie? – O avaliador arqueou uma sobrancelha e ele anotou alguma coisa na sua prancheta.
– Tudo bem, eu estou pronta. – Tyra girou a chave na ignição e pisou na embreagem. O carro ganhou vida e movimentos, avançando conforme Tyra ia pisando no acelerador.
A pista que havia sido feita para o seu exame estava molhada e havia manequins vestidos como típicas famílias de Rosewood espalhados por todos os lados. Alguns manequins tinham sacolas de supermercado presas aos braços, outros estavam posicionados como se jogassem bola.
Tyra acelerou o carro e fez uma curva ampla e perfeita. Ela não se sentia tão mal e começou a relaxar aos poucos. Ela obedecia às placas de trânsito e permaneceu dentro do limite de velocidade imposto. Na terceira volta ela já se sentia confiante o bastante para chegar perto da quilometragem permitida. Olhando de soslaio para o sr. Howard, ela viu a expressão dele mudar para aprovação.
Ela sorriu consigo mesma e acelerou mais um pouco, mantendo-se no limite de velocidade. Quando se aproximou da curva ela pisou no freio e ouviu um estalo, o pedal amoleceu sob o seu pé e o carro continuou avançando, pela ladeira.
– Senhorita Destrie, poderia frear?
– Não consigo! – Tyra agarrou o volante com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos. Ela afundou o pé no freio, mas ele se recusava a obedecer. – Essa coisa está sem freio!
A grade de proteção onde uma família de manequins com pai, mãe e filhos, fazia um piquenique estava cada vez mais próxima e Tyra não conseguia frear.
– Destrie! Pare esse carro imediatamente!
Tyra mais uma vez afundou o pé no freio, mas o carro continuava ganhando velocidade ao descer a ladeira. As mãos do sr. Howard voaram para o volante e ele o puxou bruscamente para o lado. Ao invés de fazer a curva, o carro girou e os pneus cantaram. Tyra gritou e o carro girou mais vezes atingindo os manequins e destruindo-os antes de se chocar contra a grade.
Ela estava completamente atordoada e o sr. Howard não estava em melhores condições. Os olhos de Tyra seguiram para os destroços dos manequins. O pai e a mãe haviam sobrevivido sem grandes estragos, mas as crianças haviam sido reduzidas em uma pilha de destroços.
– Senhorita Destrie, você está bem?
Tyra não teve tempo de responder. Seus olhos captaram algo vermelho escrito em letras grandes, feitas com batom no peito do papai manequim. Ela arfou, sentindo o coração dar um galope desesperado.
Quantas famílias você pretende destruir, Tyra? Da próxima vez... pode ser a sua! –A
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