Pretty Little Liars - A's freak show
4 Merry Christmas, my besties!
Notas iniciais
Dezembro, dois anos atrás.
O clima em Rosewood não poderia estar mais agradável. A neve havia chegado esse ano como nunca antes. O vento frio das manhãs fazia a parte mais alta dos pinheiros oscilarem, soprando a geada noturna. As casas recendiam ao odor inebriante de biscoitos recém saídos do forno, enquanto as ruas emanavam o odor perspicaz dos aromatizantes dispostos em cada esquina.
As ruas de Rosewood eram o orgulho de todos os moradores. Elas estavam enfeitadas com bonecos de neve, renas e duendes comprados às dúzias pela prefeitura da cidade. Um imenso Papai Noel luminoso ocupava o centro da praça, ostentando sua magnitude com os braços estendidos como se esperasse um abraço tamanho família.
As lojas estavam meticulosamente enfeitadas, todas prontas para receber compradores fanáticos que haviam deixado para comprar os presentes para os seus familiares na última semana antes do grande dia. Todos estavam mais compenetrados no clima de festividades do que estiveram em todos os anos que antecederam desde a sua existência. Aquele seria o primeiro ano em que Rosewood Day faria uma apresentação especial de natal.
Sob uma densa e abafada cacofonia de cores não muito longe do centro de Rosewood, Ellie Caldree e Mindy Fassrelt caçavam frenéticas as fantasias para a apresentação natalina em que Ashley havia inscrito todas elas.
– Se não acharmos essas fantasias nós estamos perdidas! – Ralhou Mindy, enfiada até a cintura dentro do seu imenso closet. Ellie gemeu baixinho e afundando as mãos em uma das várias caixas que a mãe de Mindy havia separado para doar à caridade.
Ellie havia deixado sua fantasia com Mindy para que a garota pudesse ajustar a barra da saia de couro, mas depois de um intenso furacão de arrumação chamado sra. Fassrelt, nenhuma delas conseguia encontrar onde estavam as malditas fantasias.
– Achei! – A voz de Mindy estava abafada em meios as roupas. Ela puxou duas fantasias idênticas e um pouco amassadas, com um sorriso vitorioso no rosto.
Ellie olhou novamente para as tiras de pano que Ashley chamava de vestido, sentindo o rosto esquentar só de se imaginar usando aquilo. A fantasia era feita de couro vermelho, com uma cinta preta grossa – a fivela era o símbolo da Chanel, claro -, a bainha da saia e das mangas eram revestidas com pêlos brancos e felpudos.
Mindy arremessou os vestidos sem nenhum cuidado na sua cama e Ellie empurrou as duas caixas de sapato na direção da amiga.
Ambas haviam evitado abrir aquelas duas caixas imensas desde que elas haviam sido entregues. Os presentes de Ash costumavam exigir que elas aprendessem algo completamente novo.
Juntas, abriram as caixas e se depararam com imensas botas de salto absurdamente alto. Mindy soltou um palavrão e Ellie ficou horrorizada com o vocabulário da amiga. As botas iam até o meio das coxas e, por Deus, pareciam uma arma de tortura. Elas teriam que aprender a andar sem quebrar o pescoço, maravilha!
– Lembre-me de queimar os presentes da Ash antes de abri-los – pediu Ellie, fechando sua caixa e olhando novamente para a fantasia promiscua. Elas estavam no oitavo ano do ensino fundamental, isso não queria dizer que deveria sair por aí parecendo um grupo de vagabundas nojentas!
Mindy empurrou a armação dos óculos pela ponte do nariz e fungou, certamente prestes a ter um ataque de espirros depois de se enfiar no guarda-roupa.
– É melhor nos apressarmos – resmungou a garota. – Quero acabar logo com isso.
Ashley Meltbeck estava deslumbrante! Seus cabelos ruivos estavam perfeitamente ondulados nas pontas, cascateando como bronze líquido por suas costas. Ela ajeitou o gorro na cabeça e retocou o rímel meticulosamente no cílios, realçando os imensos olhos azuis.
O corpo curvilíneo deslizara para dentro da fantasia que acentuavam todas as suas curvas com imensa facilidade. As botas recém-adquiridas iam até suas coxas torneadas, fazendo-a ficar quase vinte centímetros mais alta. O batom vermelho cobrindo os lábios carnudos davam-lhe mais alguns anos do que ela realmente tinha.
– Ah, querida! Você está tão linda! – A mãe de Ash estava parada à soleira da porta, admirando o reflexo da garota.
Ashley abriu um sorriso venenosamente calculado e angelical, fitando o os olhos da mãe pela superfície do espelho.
– A beleza está no DNA, mamãe.
A mãe de Ash sorriu e entrou no quarto, segurando um embrulho pequeno e simples nas mãos. A caixa era dourada e um laço vermelho enfeitava a tampa.
– Deixaram isso pra você hoje de manhã. – Ashley pegou a caixa e olhou incisivamente para a mãe, como se perguntasse o que ela ainda estava fazendo ali. – Vou deixar você terminar de se arrumar, querida.
Ashley só permitiu que o sorrisinho falso morresse em seu rosto quando a porta se fechou às costas da mãe. Ela se sentou na cama king size e cruzou as pernas, apoiando a caixa no joelho enquanto desfazia o laço.
Seu olhar flagrou os biscoitos no interior da caixa assim que ela a abriu. Havia cinco biscoitos com pernas e braços, cada um deles um nome escrito em glacê colorido. Eles tinham olhos coloridos feitos com confeitos e tinham até mesmo cabeço feito de bala cristalizada.
Os dois biscoitos da esquerda tinham cabelo loiros e os nomes Tyra e Ellie no corpinho de massa. Os dois da direita tinham cabelos feitos com chocolate, com os nomes Mindy e Annie escritos em letras cursivas e glacê cor de rosa.
O biscoito do meio tinha cabelo ruivo cristalizado, feito de bala. Diferentemente dos outros, que exibiam sorrisos e olhos coloridos, o biscoito ruivo tinha dois X no lugar dos olhos e a boca se curvava para baixo. O corpo era terrivelmente deformado e a cabeça estava separada do resto do biscoito.
Ashley não viu seu nome do corpo do biscoito, mas uma imensa letra A havia sido feita com glacê vermelho.
– Onde está a Ash?! – Sibilou Annie, minutos antes do inicio da apresentação.
As quatro amigas estavam o mais longe possível das outras garotas, atrás das imensas cortinas de camurça que separava elas do palco. Todas vestiam as fantasias de couro da apresentação e as botas idênticas que Ashley havia comprado para elas.
Mindy ajeitou a armação do óculos e deu de ombros, como se não estivesse surpresa com o atraso da amiga. Tyra exibiu um sorriso constrangido, exibindo seu aparelho odontológico.
– Meninas! – Demetria Eartell veio correndo na direção delas e todas, sem exceção suspiraram. Demetria quase podia fazer seu próprio terremoto sempre que andava. Seu corpo era absurdamente redondo e obeso, sendo o tema de todas as piadas sexto ano até o ensino médio. O irmão gêmeo dela, Johnattan, se aproximou também. Ele era pateticamente mago, o extremo oposto de sua irmã. – Vocês estão tão lindas!
Ela vestia uma fantasia de couro como a delas, mas ao invés de ter as curvas valorizadas, tudo o que aparecia era a gordura localizada que fazia dobras ao redor do seu corpo. Os cabelos coloridos dela estavam presos duas tranças que caiam aos ombros.
– Adorei o seu gorro, querida. – Comentou Annie. O gorro era a única coisa que não estava completamente ridícula em Demetria. – E as suas orelhas Johnattan.
Ele estava vestido como um duende de natal, exatamente como todos os meninos da turma delas. Seu corpo magricela estava dentro de um suéter verde e vermelho, os cabelos estavam enfiados dentro de um gorro com as mesmas cores e orelhas pontudas de plástico cobriam suas orelhas de verdade.
O comentário de Annie fez Johnattan ficar ainda mais vermelho do que as luzes que piscavam sobre a cabeça deles. A professora de canto, a sra. Hock, anunciou que a apresentação começaria em poucos minutos e as quatro garotas olharam ao redor, começando a imaginar se Ash teria armado para elas.
Em uníssono, quatro aparelhos celulares apitaram e vibraram compulsivamente. Mindy, Tyra, Annie e Ellie pegaram seus aparelhos nas bolsas e visualizaram a nova mensagem de texto.
– Se for quem eu estou pensando... – Tyra foi a primeira a apertar LER, seguida por todas as outras. – Bingo!
Larguem esses perdedores, vadias. Estou no banheiro feminino e trouxe presentes! –A
As quatro amigas olharam umas para as outras. Elas não tinham tempo para ir até o banheiro feminino, mas se Ashley estava lá queria dizer que tinha desistido.
– Algum problema? – Demetria abraçou o corpo roliço e mordeu o lábio, tentando parecer a subalterna prestativa que todos sabiam que ela era.
Elas ignoraram a garota e o irmão patético, estalando os saltos altos pelo assoalho até chegar à saída do auditório. Os corredores de Rosewood Day estavam completamente escuros e silenciosos. A luz da lua entrava preguiçosamente pelas janelas, criando intervalos regulares de claridade.
– Isso aqui é tão sinistro sem a bagunça diária – sussurrou Tyra, bambeando sobre os saltos antes de se desequilibrar e jogar o corpo de encontro aos armários, fazendo um estardalhaço ao se chocar com as portas. – Opa!
Atrás delas, uma sombra enorme se projetou ao caminhar sorrateiramente de um corredor para o outro. Ellie agarrou o braço de Annie e Tyra girou nos calcanhares, apreensiva. Mindy arrumou os óculos novamente, aumentando o tom de voz.
– Tem alguém aí?
Quando a sombra reapareceu, mantendo-se estática como se estivesse esperando para ser desafiada, as quatro concordaram subconscientemente que deveriam correr.
Movimentaram-se como podiam sobre aquelas armas de tortura com quase vinte centímetros de altura. Sempre que olhavam para trás, a sombra aprecia mais e mais próxima, sem nunca parecer pertencer a ninguém.
Annie olhou para o lado e através do vidro embaçado pela neve ela pode ver um vulto encapuzado do lado de fora. Seja quem fosse, corria junto com elas, projetando a sombra para dentro da escola.
– O banheiro! – Gritou Ellie, puxando Tyra em para a direita. Ambas empurraram a porta bruscamente e entraram, seguidas de Mindy e Annie.
As quatro olharam para trás, onde ainda era possível ver o vulto encapuzado, parado do lado de fora de Rosewood Day. O vidro ficou ainda mais embaçado com a respiração dele ou dela. O estranho-barra-pedófilo-barra-perseguidor-barra-criminoso-barra-maníaco passou o dedo onde sua respiração embaçava ainda mais o vidro. Ele traçou uma simples letra A ali antes de Tyra gritar, fazendo todas voltarem à atenção para o que estava acontecendo dentro do banheiro.
Ashley havia coberto os olhos de Tyra, que tentava se libertar desesperadamente. Mindy fechou a porta atrás de si, detestado os resquícios da presença do estranho. Tyra conseguiu se livrar as mãos de Ash e se virou para a garota, colocando a mão sobre o peito como se tentasse abafar as batidas descompassadas do coração.
– Ashley o que diabos você está fazendo aqui? – Sibilou Tyra, tentando parecer mais irritada do que assustada.
A ruiva não estava vestindo sua fantasia, na verdade vestia algo bem mais quente e aceitável. Ela tinha quatro caixas douradas nas mãos, pequenas caixas douradas com um laço vermelho na tampa. Ash sorriu de orelha a orelha ao estender a caixa que Ellie pegou visivelmente receosa. Mindy pegou a sua, logo depois Annie estendeu a mão para a caixa que continha seu nome na tampa. Tyra pegou a que fora designada para ela, franzindo o cenho.
– Abra! Abra! Eu mesma fiz! – Ash cobriu a boca, como se quisesse conter sua ansiedade em saber a reação das melhores amigas.
Quando desfizeram o laço e abriram a caixa, sentiram-se tão desesperadas em fechá-la que nem prestaram atenção na risadinha abafada de Ash.
A caixa de Ellie tinha um gilete ensanguentado, um pacote de presrvativo e um biscoito com forma de boneco. O biscoito era claramente uma representação dela, tendo seu nome escrito no corpinho de massa. Um dos braços do biscoito estava parcialmente destruído, como de alguém tivesse usado a gilete para retalhá-lo.
Mindy abriu a sua e se deparou com a foto do ex-namorado de sua mãe, o qual ela havia acidentalmente beijado alguns dias antes no aniversário dele. Havia ao lado da foto um biscoito de forma humana, com cabelos de chocolate e um sorriso congelado no rosto. O nome de Mindy havia sido escrito com glacê no bonequinho.
O biscoito de Tyra não tinha ambas as pernas e ao lado dele havia uma réplica vagabunda de plástico barato de um automóvel.
Annie soltou um gemido baixo quando viu um cigarro de maconha pronto para o uso dentro da sua caixa. Ao lado do baseado havia um boneco de biscoito e jogado de qualquer jeito estava o rótulo de papinha para bebê; “Anjinhos também papam!”.
Todas se apressaram para fechar a caixa enquanto Ashley sorria descaradamente para elas.
– Feliz Natal, amigas!
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