Pretty Little Liars

5 Capitulo 5 - ACHEI QUE FÔSSEMOS MELHORES AMIGAS UMAS DAS OUTRAS


Atualmente

Eu ainda estou aqui, suas vacas. E eu sei de tudo. -M

– Ai, meu Deus — sussurrou Viviane. A tela de seu BlackBerry mostrava a mesma coisa. E era o que também podia ser lido no Treo de Bia e no Nokia de Patricia. Durante a semana anterior, cada uma delas recebera e-mails, bilhetes e mensagens instantâneas de alguém que assinava com a letra M. Os recados eram, na maioria das vezes, sobre coisas que aconteceram no sétimo ano, o ano em que Marian desaparecera, mas mencionavam também novos segredos... coisas que estavam acontecendo naquele exato momento.

Milena acreditara que M pudesse ser Marian que, de alguma forma, ela havia voltado, mas isso agora estava fora de questão, certo? O corpo de Marian havia ficado preso embaixo do concreto. Ela estava... morta... há muito, muito tempo.

–Você acha que isso tem a ver... com a coisa com Cristina? — sussurrou Bia, passando a mão no queixo anguloso. Milena guardou o telefone de volta na bolsa de tweed Kate Spade.

– Nós não deveríamos falar sobre isso aqui. Alguém pode nos ouvir. — Ela deu uma olhada nervosa na direção dos degraus da igreja onde Rubens e Cristina estiveram parados alguns momentos antes. Viviane não viu Rubens desde antes do desaparecimento de Cristina, e a última vez que vira Cristina fora na noite do acidente, nos braços do paramédico que a carregava.

– Que tal os balanços? — sussurrou Bia, indicando o playground do setor de educação infantil de Rosewood Day. Era onde elas costumavam se encontrar.

– Perfeito. — Milena começou a abrir caminho no meio da multidão de pessoas enlutadas. — Encontro com vocês lá.

Era fim de uma tarde de outono, um dia claro como cristal. O ar recendia a maçãs e lenha queimada. Um balão flutuava bem alto no céu. Era o dia perfeito para a cerimônia póstuma de uma das meninas mais lindas de Rosewood.

Eu sei de tudo.

Viviane sentiu um calafrio. Tinha de ser um blefe. Quem quer que fosse esse M, não poderia saber de tudo. Não sobre a coisa com a Cristina... Na noite do acidente de Cristina, Milena testemunhara algo que suas amigas não tinham visto, mas Marian a fizera manter segredo sobre aquilo, mesmo de Patricia, Viviane e Beatriz. Milena queria contar a elas, mas como naquela época não podia, deixou o assunto de lado e fingiu que nada acontecera.

Mas... algo acontecera.

Naquela noite fresca de primavera, em abril, no sexto ano, logo depois de Marian ter lançado um rojão na janela da casa na árvore, Milena correu para fora. O ar cheirava a cabelo queimado. Ela viu os paramédicos tirando Cristina da casa na árvore pela instável escada de cordas.

Marian estava perto dela.

– Você fez aquilo de propósito? — perguntou Milena, apavorada.

– Não! — disse Marian e agarrou o braço de Milena. — Foi um...

Por anos, Milena tentou bloquear o que aconteceu em seguida: Rubens Vieira vindo na direção delas. O cabelo dele estava todo bagunçado e emplastado, e seu rosto, sempre tão pá-lido, estava todo vermelho. Ele foi direto para cima de Marian.

– Eu vi você. — disse Rubens que tremia, de tão bravo. Ele deu uma olhada para a garagem de sua casa, onde um carro de polícia estava estacionado. — Eu vou contar o que aconteceu.

Milena engasgou. As portas da ambulância se fecharam com um estrondo e as sirenes se afastaram da casa fazendo barulho. Marian estava calma.

–Tá bom, mas eu vi você, Rubens — disse ela. — E se você contar, eu vou contar também. Para os seus pais.

Rubens recuou.

– Não.

– Sim. — Marian o mediu com os olhos. Apesar de ela ter só mais ou menos um metro e cinquenta, de repente, pareceu bem mais alta. — Você acendeu o rojão. Você feriu sua irmã.

Milena agarrou o braço dela. O que ela estava fazendo? Mas Marian se soltou.

– Meia-irmã — murmurou Rubens, quase sem fazer som nenhum. Ele olhou na direção de sua casa na árvore e, depois, na direção do final da rua. Outro carro de polícia entrou devagar na casa dos Vieiras. — Eu vou pegar você — rosnou ele para Marian. — Pode esperar.

E então, desapareceu.

Milena segurou Marian pelo braço.

– O que nós vamos fazer? — perguntou Milena.

– Nada — disse Marian, de forma quase delicada. — Está tudo bem.

– Marian... — Milena piscou sem acreditar. -Você não escutou nada? Ele disse que viu o que você fez. Ele vai contar tudo para a policia agora mesmo.

– Eu acho que não. — Marian disse e sorriu. — Não com o que eu tenho contra ele. — Ela então se inclinou e sussurrou o que ela havia visto Rubens fazendo. Era tão nojento que Marian tinha esquecido que estava segurando o rojão aceso, até que ele estourou nas mãos dela e atravessou a janela da casa na árvore.

Marian obrigou Milena a prometer que não contaria para as outras nada sobre aquilo, e avisou que, se contasse a elas, ia dar um jeito de fazer com que Milena — e só Milena — levasse toda a culpa. Apavorada com o que Marian poderia fazer, Milena manteve a boca fechada. Ela não pensava que Cristina poderia dizer alguma coisa — certamente, Cristina se lembrava de que não fora Rubens que fizera aquilo, mas estivera confusa, tendo delírios... dissera que toda aquela noite era um borrão em sua memória.

Então, um ano depois, Marian desapareceu.

A policia havia interrogado todo mundo, incluindo Milena, perguntando se sabiam de alguém que queria machucar Marian. Rubens, Milena se lembrou imediatamente. Ela não conseguia esquecer o momento em que ele dissera: Eu vou pegar você. Mas dedurar Rubens significava contar aos policiais a verdade sobre o acidente de Cristina — no qual ela tinha sua parcela de responsabilidade. Sobre o qual ela sabia a verdade e não havia contado a ninguém. Significava, também, contar às suas amigas o segredo que estivera escondendo por mais de um ano. Por isso, Milena não disse nada.

Milena acendeu outro Parliament e saiu do estacionamento da igreja de Rosewood. Viu só? A não poderia saber de tudo, como dizia sua mensagem de texto. A não ser que, bem, M fosse Rubens... mas isso não fazia o menor sentido. Os recados de M para Milena falavam sobre um segredo que só Marian conhecia: no sétimo ano, Milena havia beijado Ian, o namorado de sua irmã. Milena havia contado isso para Marian e para mais ninguém. E M também sabia sobre Wren.

Mas os Vieiras moravam na rua de Milena. Com binóculos, Rubens pode ter conseguido olhar de sua janela. E Rubens ainda estava em Rosewood, embora fosse setembro. Ele não deveria estar no colégio interno?

Milena parou na entrada de tijolos do Colégio Rosewood Day. Suas amigas já estavam lá conversando, rodeadas pelos brinquedos do parquinho da escola primária. Era um lindo castelo, com torres, bandeirolas e um escorregador em formato de dragão. O estacionamento estava deserto, as passagens para pedestres, feitas de tijolos, estavam vazias e os campos de jogos estavam silenciosos; toda a escola tivera um dia de folga em homenagem a Marian.

– Bem, todas nós recebemos mensagens de texto desse tal de M? — perguntou Viviane, quando Milena se aproximava. Todas elas exibiram seus celulares, nos quais estava estampada a mensagem Eu sei de tudo.

– Eu recebi outras duas — disse Patricia, sondando o terreno. — Pensei que fossem de Marian.

– Eu também pensei! — arfou Viviane, batendo a mão no trepa-trepa. Beatriz e Milena concordaram com a cabeça. Elas se entreolharam nervosas, com os olhos arregalados.

Milena sentou-se em um dos degraus estreitos. Ela inspirou profundamente, esperando sentir cheiro de mato molhado e serragem. Em vez disso, sentiu cheiro de cabelo queimado, como na noite do acidente de Cristina.

– Bom, todo mundo aqui tinha segredos que só Marian conhecia? — perguntou Bia.

Todas concordaram. Milena bufou, brava.

– Achei que fôssemos melhores amigas umas das outras — disse Milena.

Aria se virou para ela e franziu a testa.

– Então, o que as suas mensagens diziam? — perguntou Beatriz.

– É um segredo que só Marian sabia, como o de vocês. — Ela colocou seu cabelo atrás das orelhas. — Mas M também me mandou um e-mail sobre algo recente. É como se alguém estivesse me espionando. — disse Milena.

– A mesma coisa comigo. — Diz Beatriz.

– Então, tem alguém vigiando todas nós — concluiu Patricia. Uma joaninha pousou com delicadeza em seu ombro, e ela espantou o bichinho, como se achasse que era uma coisa muito mais perigosa.

Milena se levantou.

–Vocês acham que pode ser... Rubens? — perguntou Milena.

Todas pareceram surpresas.

– Por quê? — perguntou Beatriz.

– Ele faz parte da coisa com Cristina — disse Milena, cuidadosa. — E se ele souber?

Bia mostrou a mensagem de texto em seu Treo.

–Você acha mesmo que tudo isso é sobre... A Coisa com Jenna? — perguntou Beatriz.

Milena passou a língua pelos lábios.

Conte a elas.

– Nós ainda não sabemos por que Rubens aceitou levar a culpa — sugeriu ela, testando para ver o que as outras poderiam dizer — diz Milena.

Viviane pensou por um momento.

– A única forma de Rubens saber o que fizemos é uma de nós ter contado. — Ela olhou para as outras com desconfiança. — Eu não contei. — diz Viviane.

– Nem eu — falaram apressadamente Beatriz e Patricia.

– E se Rubens descobriu de outro jeito? — perguntou Milena.

–Você quer dizer, se alguém mais viu Marian naquela noite e contou a ele? — Bia quis saber. — Ou se ele viu Marian?

– Não... quero dizer... eu não sei — disse Milena. — São só suposições.

Conte a elas, Milena pensou de novo, mas não podia, todas pareciam tão cuidadosas umas com as outras como haviam estado logo depois que Marian desapareceu, quando a amizade delas se desintegrara. Se Milena contasse a verdade sobre Rubens, elas a odiariam por não ter contado à polícia quando Marian sumiu. Talvez até mesmo a culpassem pela morte de Marian. Talvez elas devessem. E se Rubens realmente tivesse... feito aquilo?

– Foi só uma ideia. — Ela se ouviu dizendo. — É provável que eu esteja errada.

– Marian disse que ninguém sabia daquilo, exceto nós.- disse Patricia e seus olhos estavam úmidos. — Ela jurou. Lembra?

– Além disso — acrescentou Viviane — como Rubens poderia saber tanto quanto nós? Eu poderia acreditar nisso se fosse alguma antiga colega de hóquei dela, ou o irmão, ou a mãe, ou alguém com que ela conversasse de verdade. Mas ela odiava Rubens. Todos nós o detestávamos.

Milena deu de ombros.

– Você tem razão. — diz Milena.

Assim que disse aquilo, Milena relaxou. Suas preocupações não faziam sentido.

Tudo estava quieto. Talvez quieto demais. O galho de uma árvore estalou e Milena virou-se imediatamente. Estava se movendo como se alguém tivesse acabado de sair de lá. Um passarinho marrom, empoleirado no telhado de Rosewood Day, olhou para ela como se também soubesse algumas coisas.

– Acho que alguém está tentando mexer com a nossa cabeça — sussurrou Beatriz.

– É, sim — concordou Patricia, mas pareceu hesitante.

– Bom, e se nós recebermos outros torpedos? — Viviane puxou o vestido preto e curto sobre as coxas magras. — Nós precisamos, pelo menos, ter uma ideia de quem é.

– E se, quando recebermos outro torpedo, ligássemos umas para as outras? — sugeriu Milena. — Podemos tentar montar esse quebra-cabeça. Mas eu acho que nós não devemos fazer nada, tipo, maluco, temos que tentar não nos preocupar.

– Não estou preocupada — declarou Viviane, depressa.

– Nem eu — disseram Beatriz e Patricia ao mesmo tempo. Mas, quando uma buzina soou na avenida principal, todas pularam.

– Vivi! — Janu, a melhor amiga de Viviane, colocou sua cabeça louro-clara para fora da janela de um Hummer H3 amarelo. Ela usava grandes óculos de aviador cor-de-rosa.

Viviane olhou para as outras sem remorso.

– Tenho que ir — murmurou, antes de correr colina acima.

Ao longo dos últimos anos, Viviane havia se reinventado como uma das garotas mais populares de Rosewood Day. Comprara todo um novo guarda-roupa, cheio de roupas de grifes e, agora, ela e Janu — também uma ex-garota-esquisita — pavoneavam-se pela escola, boas demais para todos os outros. Milena se perguntava qual seria o grande segredo de Viviane.

– Eu também tenho que ir. — Bia arrumou a bolsa roxa e molenga num dos ombros. — Bom... eu ligo para vocês, meninas. — E foi andando em direção ao seu carro.

Milena ainda enrolou um pouco no playground. Patricia também, e seu rosto, geralmente alegre, parecia abatido e cansado.

–Você está legal? — perguntou Milena

Patricia balançou a cabeça.

– Marian. Ela está... — diz pausadamente Milena

– Eu sei. — diz Patricia

Elas se abraçaram desajeitadamente e, depois, Patricia saiu em direção às árvores, dizendo que ia pegar um atalho para casa. Por anos, Milena, Patricia, Beatriz e Viviane não haviam se falado, mesmo quando se sentavam uma atrás da outra na aula de história, ou quando estavam sozinhas no banheiro feminino. Ainda assim, Milena conhecia particularidades de todas elas — partes intrincadas de suas personalidades que só um amigo próximo poderia conhecer.

De volta ao seu carro, Milena sentou-se no banco de couro e ligou o rádio. Ela girou o dial e achou a 610 AM, a estação de esportes dos Phillies. Algo sobre aqueles caras com excesso de testosterona, gritando sobre os times Phillies e Sixers, a acalmava. Ela tivera a esperança de que falar com suas velhas amigas pudesse clarear um pouco as coisas, mas agora tudo parecia ainda mais... terrível. Mesmo com o enorme vocabulário que adquirira de tanto estudar para o vestibular, ela não podia pensar numa palavra melhor para descrever a situação.

Quando o telefone tocou em seu bolso, ela o pegou achando que deveria ser Patricia ou Beatriz. Talvez até mesmo Viviane. Milena franziu a testa e abriu sua caixa de recados.

"Milena, eu não a culpo por não contar às outras nosso segredinho sobre Rubens. A verdade pode ser perigosa, e você não quer se machucar, quer? — M."