Pretty Little Liars

6 Capitulo 6 - Viviane


Janu parou o carro de seus pais, mas manteve o motor ligado. Ela jogou o celular em sua enorme bolsa cor de conhaque Lauren Merkin.

– Tentei ligar para você — disse Janu.

Cautelosa, Viviane permaneceu na calçada.

– Por que você está aqui? — perguntou Vivi.

– Do que você está falando? — perguntou Janu.

– Bem, eu não pedi para você me dar uma carona. — Tremendo, Viviane apontou para seu Toyota Prius, no estacionamento. — Meu carro está logo ali. Alguém contou a você que eu estava aqui ou...?

Janu enrolou uma mecha de cabelo em volta do dedo.

– Saí da igreja agora e estou indo para casa, sua maluca. Eu vi você e encostei. — diz Janu dando uma risadinha. — Você tomou o Valium da sua mãe? Parece um pouco confusa.

Viviane tirou um Camel Ultra Light do maço de cigarros que estava em sua bolsa Prada preta e o acendeu. Claro que ela parecia confusa. Sua antiga melhor amiga havia sido assassinada e, durante toda a semana, ela vinha recebendo mensagens de texto apavorantes de alguém chamado M. Em todos os instantes daquele dia — enquanto se arrumava para o funeral de Marian, comprava uma Coca Diet no Wawa, dirigia em direção à igreja de Rosewood, ela tivera certeza de que alguém a estava observando.

– Eu não vi você na igreja — murmurou Viviane.

Janu tirou os óculos de sol.

– Você olhou bem na minha direção, eu acenei para você, nada disso soa familiar? — perguntou Janu, e Viviane deu de ombros.

– Eu... eu não me lembro — diz Viviane.

– Bem, acho que você estava ocupada com suas velhas amigas — respondeu Janu, ressentida.

Viviane se arrepiou. Suas antigas amigas eram um assunto delicado entre elas: um milhão de anos atrás, Janu era uma das meninas de quem Marian, Viviane e as outras tiravam sarro, ela havia se tornado o alvo preferido delas depois que Cristina se acidentou.

– Desculpa, a igreja estava lotada — diz Viviane.

– Não é como se eu estivesse me escondendo. — diz Janu, e pareceu magoada. — Eu estava sentada atrás de Sean.

Viviane respirou fundo. Sean.

Sean agora era seu ex-namorado; o relacionamento deles havia implodido na festa de volta às aulas de Noel Kahn, na noite da última sexta-feira. Viviane havia decidido que aquela sexta-feira seria a noite em que perderia a virgindade, mas, quando ela começou a se insinuar para Sean, ele a empurrou e lhe passou um sermão sobre respeitar o próprio corpo. Para se vingar, Viviane levou a BMW dos Ackard para dar um passeio com ela e Janu, e a arrebentou, batendo contra um poste, na frente de uma loja de material de construção.

Janu pisou no acelerador com seu peep-toe de salto alto, ressuscitando o motor de um bilhão de cilindros do carro.

– Então, escute. Temos uma emergência... nós ainda não temos companhia — diz Janu.

– Para o quê? — Viviane piscou.

Janu ergueu uma das sobrancelhas louras perfeitamente feitas.

– Alô-ô, Viviane!? Para a Foxy! É neste fim de semana! Agora que você chutou Sean, precisa convidar alguém legal.

Viviane olhou para os pequenos dentes-de-leão que cresciam nas fendas da calçada. Foxy era o baile de caridade anual, organizado pela Liga de Caça à Raposa de Rosewood — era daí que vinha o nome do baile. Uma doação de 250 dólares para alguma instituição de caridade garantia um jantar, dança, uma chance de ter sua fotografia publicada no Philadelphia Inquirer e no glam-R5.com — o blog de colunismo social da região — e era uma grande desculpa para usar uma roupa linda, beber e dar uns amassos no namorado de outra pessoa. Viviane havia pagado por seu lugar em julho, pensando que iria com Sean.

– Eu nem sei se vou — murmurou Viviame, tristonha.

– Claro que você vai. — Janu revirou os olhos e suspirou. — Olha, liga para mim quando reverterem sua lobotomia. — Dito isso, ela ligou o carro e saiu, cantando pneus.

Viviane andou devagarinho até o seu carro. Uma sensação desconfortável tomava conta dela. Janu era sua melhor amiga, mas havia toneladas de coisas que Viviane não estava contando a ela no momento. Como as mensagens de M. Ou sobre como fora presa no sábado de manhã por roubar o carro do senhor Ackard. Ou sobre como Sean é que dera um chute nela, e não o contrário. Sean era tão diplomático que dissera aos amigos apenas que eles "haviam decidido conhecer outras pessoas". Viviane achou que poderia mudar um bocadinho a história em seu benefício e, assim, ninguém descobriria a verdade.

Mas se ela contasse a Janu qualquer dessas coisas, isso mostraria que sua vida estava saindo do controle. Vivi e Janu haviam se reinventado juntas, e a regra era que, por serem, juntas, as musas da escola, tinham de ser perfeitas. Isso significava que deveriam permanecer magricelas, comprar os jeans skinny, antes de qualquer outra pessoa e nunca perder o controle. Qualquer fenda em suas armaduras poderia mandá-las de volta ao mundo das perdedoras fora de moda, e elas não queriam voltar para lá. Nunca. Por isso, Vivi tinha que fingir que nada horroroso acontecera na semana anterior, mesmo que, sem dúvida, tivesse acontecido.

Vivi nunca passara pela experiência de saber que algum conhecido seu tivesse morrido; muito menos assassinado. E o fato de essa pessoa ser Marian — somado aos recados de M — tornava a situação toda ainda mais assustadora. Se alguém sabia mesmo sobre a coisa com Cristina... e se contasse... e se esse alguém ainda por cima tivesse algo a ver com a morte de Marian, a vida de Viviane estava, definitivamente, fora de controle.

Viviane entrou com o carro na garagem de tijolos estilo georgiano de sua casa com vista para o monte Kale. Quando viu seu reflexo no espelho retrovisor do carro, ficou horrorizada ao constatar que sua pele estava manchada e oleosa, e seus poros estavam enormes. Ela se inclinou na direção do espelho e, então, de repente... sua pele estava perfeita. Viviane respirou fundo e de forma irregular algumas vezes, antes de sair do carro. Nos últimos dias, tivera um monte de alucinações como essa.

Tremendo, entrou quieta em casa e foi até a cozinha. Quando chegou nas portas-balcão de vidro, ficou paralisada.

A mãe de Viviane estava sentada à mesa da cozinha, com um prato de queijo e biscoitos na sua frente. Seu cabelo estava preso em um coque elaborado e seu relógio Chopard, incrustado de diamantes, cintilava à luz do sol da tarde. Seus fones de ouvido sem fio, da Motorola, estavam em suas orelhas.

E ao lado dela... estava o pai de Viviane.

– Nós estávamos esperando por você — informou o pai.

Viviane deu um passo para trás. O cabelo dele estava mais grisalho e ele usava óculos de aro redondo, mas, fora isso, estava exatamente igual: alto, olhos enrugados, camiseta polo azul.

Sua voz ainda era a mesma, profunda e calma, como a de um locutor de rádio. Fazia quatro anos que Viviane não o via ou falava com ele.

– O que você está fazendo aqui? — falou ela sem pensar.

– Eu estava na Filadélfia a trabalho — explicou o sr. Cicero, sua voz desafinando de nervosismo ao pronunciar a palavra trabalho. Ele ergueu sua caneca de café com a figura de um doberman. Era a caneca que ele usava quando morava com elas; Vivi se perguntou se ele havia procurado por ela no armário.

– Sua mãe me ligou para contar sobre Marian. Meus pêsames, Viviane — diz Cicero.

– Ah, tá. — Viviane pareceu distraída. Ela estava perplexa.

– Você precisa conversar sobre algum assunto? — A mãe Joana, mordiscou um pedaço de cheddar.

Viviane balançou a cabeça, aturdida. A relação da sra. Joana com Viviane era mais como chefe/estagiária do que como mãe/filha. Joana Inhudes havia lutado para abrir seu caminho no mundo dos executivos de publicidade na agência McManus & Tate da Filadélfia e tratava a todos como se não passassem de mais um empregado. Viviane não conseguia lembrar qual havia sido a última vez que a mãe lhe fizera uma pergunta gentil. Provavelmente nunca.

– Hum... então... está tudo bem. Obrigada assim mesmo — respondeu ela, um pouco arrogante.

Será que eles podiam mesmo culpá-la por ser um pouco amarga? Depois do divórcio, seu pai se mudou para Annapolis, começara um relacionamento com uma mulher chamada Isabel, herdando uma linda quase-enteada, Kate. O pai tornara sua nova casa tão pouco acolhedora para ela que Viviane o visite apenas uma vez. Seu pai não tentava ligar para ela, mandar e-mails, nada, havia anos. Ele nem sequer mandava presentes de aniversário — só cheques.

O pai suspirou.

– Esta, provavelmente, não é a melhor forma de discutir as coisas — disse Cicero.

Viviane olhou para ele.

– Discutir as coisas? — perguntou Viviane.

O sr. Cicero limpou a garganta.

– Bem, sua mãe me ligou também por outra razão. — Ele baixou os olhos. — O carro.

Viviane franziu a testa. Carro? Que carro? Ah.

–Já é ruim o suficiente que você tenha roubado o carro do sr. Ackard — continuou o pai. — Mas... abandonar o local do acidente?

Viviane olhou para a mãe.

– Pensei que isso tivesse sido resolvido — diz Viviane.

– Nada está resolvido. — A sra. Joana a encarou.

Tá, até parece, Viviane queria dizer.

Quando os policiais a soltaram, no sábado, sua mãe lhe dissera, de modo misterioso, que "estava dando um jeito nas coisas" e que Viviane não precisava se preocupar. O mistério foi resolvido quando ela pegou sua mãe com um jovem policial, Darren Wilden, dando uns amassos na cozinha da casa delas, na noite seguinte.

– Estou falando sério — disse a sra. Joana, e Viviane interrompeu seu sorriso malicioso. — A polícia concordou em arquivar o caso, sim, mas isso não muda tudo o que está acontecendo com você, Viviane. Primeiro, você roubou na Tiffany, e agora isso. Não sei o que fazer. Então, liguei para o seu pai.

Viviane encarou o prato de queijo, muito desconcertada para olhar para qualquer um dos dois nos olhos. A mãe também havia contado ao pai que ela fora pega por roubar na Tiffany?

O sr. Cicero limpou a garganta.

– Apesar de o caso estar encerrado para a polícia, o sr. Ackard quer continuar com o assunto de forma privada, sem levá-lo a um tribunal.

Viviane mordeu a boca por dentro.

– O seguro não paga por essas coisas? — perguntou Viviane.

– Não é bem isso — respondeu o pai. — O sr. Ackard fez uma proposta à sua mãe.

– O pai de Sean é cirurgião plástico — explicou a mãe dela — mas a menina dos olhos dele é uma clínica de reabilitação para vítimas de queimaduras. Ele quer que você se apresente lá amanhã, às três e meia da tarde.

Viviane franziu o cenho.

– Por que nós não podemos só dar o dinheiro a ele? — Perguntou Viviane.

O pequeno telefone LG da sra. Joana começou a tocar.

– Eu acho que isso vai ser uma boa lição para você fazer algum bem para a comunidade. Entender o que você fez. — diz Joana.

– Mas eu entendo! — Viviane não queria sacrificar seu tempo livre em uma clínica para pessoas queimadas. Se ela tinha que fazer trabalho voluntário, por que não podia ser em algum lugar mais chique? Tipo na ONU, com Nicole e Angelina?

– Já está tudo resolvido — disse a sra. Joana, bruscamente. Depois, gritou ao telefone: — Carson? Você fez os ensaios?

Viviane se sentou, as unhas cravadas nos pulsos. Na verdade, ela queria ir lá para cima tirar o vestido do funeral — ele estava fazendo suas coxas parecerem enormes ou era só seu reflexo nas portas da varanda? refazer a maquiagem, perder uns dois quilos e tomar um gole de vodca. Depois, poderia voltar e se apresentar outra vez.

Quando deu uma olhada para o pai, ele lhe deu um sorrisinho. O coração de Viviane deu um salto. Seus lábios se abriram como se ele fosse falar, mas então o celular dele também tocou. Ele ergueu um dos dedos, fazendo sinal para Viviane esperar.

– Kate? — atendeu ele.

O coração de Viviane encolheu. Kate. A linda e perfeita quase enteada.

O pai dela encaixou o telefone embaixo do queixo.

– Ei! Como foi a corrida? — Ele fez uma pausa e depois sorriu, radiante. — Menos de dezoito segundos? Isso é incrível!

Viviane pegou um pedação de cheddar do prato. Quando estivera em Annapolis, Kate nem sequer olhara para ela. Ela e Marian, que acompanhara Viviane para dar apoio moral, logo haviam se tornado as melhores amigas do mundo, excluindo Vivi completamente. Aquilo fizez Vivi devorar qualquer lanchinho num raio de um quilômetro e meio, tudo isso aconteceu no tempo em que ela era gorducha e feia, e comia sem parar. Quando ela se contorceu com as mãos na barriga de tanta dor, o pai apertara seu dedo do pé e perguntara "Minha porquinha não está se sentindo bem?" na frente de todo mundo. Depois disso, Viviane busca refúgio no banheiro e enfiara uma escova de dentes na garganta.

O naco de cheddar pairava, indeciso, na frente da boca de Viviane. Respirando fundo, ela o embrulhou em um guardanapo e jogou tudo no lixo. Todas aquelas coisas aconteceram há muito tempo... quando ela era uma Vivi bem diferente. Só Marian sabia sobre aquilo e Viviane enterrou esse segredo bem fundo.