Ela suspirou ao passar pela porta de entrada da pequena cafeteria. Acabar com as roupas abarrotadas e as meias umedecidas dentro do par de tênis velhos (caramba, eram as suas favoritas, com as mini ilustrações da Torre Eiffel na estampa que agora era suja de barro e areia) não estava dentro de seus planos. Mas se fosse marcar com um canetão um "X" em cada dia ruim que passara naquele mês, já não restaria estoque para o resto deste. Foram dez dias, com a única exceção de um domingo de sol que passara fazendo novas luvas de crochê para todas as colegas de trabalho e assistindo à filmes bregas em um canal pago. E o mês ainda nem havia chegado no meio.

“Espresso, com açúcar, por favor," pediu para a jovem atendente, e se voltou para a mesma mesinha de quatro lugares ao lado da janela que lhe trazia mais conforto do que o próprio sofá de seu minúsculo apartamento sem janelas.

Tirou a toca de tricô de cor violeta (também um trabalho de um dia bom em seu calendário do ano anterior) do topo da cabeça, libertando uma desordem de ondas castanhas que se enroscavam ao redor de seu rosto até a metade das costas, e a espremeu descuidadamente com as mãos gélidas, deixando os resíduos absorvidos da chuva pingarem sobre o piso de linóleo.

Olhou para a tela do celular. Zero mensagens. Já era cinco da tarde, e sem sinais do cara que convidara para um encontro. "É uma coisa super casual, só apareça por lá se estiver a fim" eles consentiram na noite anterior. Mas ela queria que ele estivesse a fim. Ela estava a fim. Após bater o cartão no trabalho de meio-expediente, passara a mão em sua bicicleta e pedalara até chegar ali, embaixo da chuva e tudo. E ele, confortável em seu fiesta sedan, com aquecedor e praticidade, ainda não havia chegado.

Enquanto esperava o café, tirou um livro da bolsa de carteiro. Era uma literatura leve, muito feminista e engraçadinha (de certo modo, gostava de pensar que isso espelhava sua personalidade), mas não conseguia se concentrar.

Olhou para a tevê de tubo sobre a estante atrás do balcão. Passava alguma comédia romântica, como a mídia adora passar todo ano no Dia dos Namorados.

Dia.

Dos.

Namorados.

Uma data tão babaca e capitalista e, ao mesmo tempo, tão melancólica. Nunca havia passado esse dia com ninguém. Na verdade, nunca havia realmente tido ninguém. Afinal, namoradinhos de terceira série não contam, certo? Nem o professor de Sociologia — estagiário, em seus vinte e poucos anos, mas ainda assim: estranho — com quem teve um breve caso, ou aquela garota que conhecera em uma viagem durante as férias de verão. Qual era o nome dela mesmo? Qual era o nome de todos eles? Nem lembrava direito. E se lembrasse: eram apenas nomes. Nunca significaram muito pra ela, de qualquer maneira. Gostava mais é de imaginar o seu par perfeito — a criatura utópica que gostaria das mesmas coisas que ela, que teria os mesmos pensamentos estranhos, e que compreendesse sua saudável loucura. Sempre gostou de imaginar que essa criatura ainda apareceria em seu caminho — mas também temia que alguma coisa a tiraria de sua vida: fosse um acidente de carro, uma doença terminal, ou uma depressão profunda. Em seu interior, mesmo esperando que as coisas dessem certo, havia sempre uma pontada de autodefesa e insegurança que lhe dizia: algo vai dar errado. Porque algo sempre dá errado.

Danielle observou as pessoas ao seu redor. Na mesa ao lado, uma mãe repreendia o filho por não terminar sua enorme torta de chocolate, “tem o olho maior que a barriga, agora dá nisso!”. Na frente dos dois, um velho homem dava a sua primeira abocanhada no bauru, o queijo cremoso caindo em sua barba, mas ele não percebia. Logo à sua frente, em uma das mesas da janela, havia um garoto que aparentava ser mais ou menos da sua idade. Estudante, percebeu pelos livros. Ele parecia choroso, com os olhos irritados. Mas também ansioso, estralando as juntas dos dedos.

Ela desvia o olhar novamente, vagando para a tela do celular. Suspira, conformando-se de que ele não viria.

Mas e o café, será que vinha?