O hora do rush começava, e os carros, que antes se moviam pelas ruas, agora formavam centopéias em preguiçosas filas. Os burburinhos começavam, e mais pessoas adentravam à pequena cafeteria que cheirava a desinfetante. Casais de mãos dadas se alojavam em algumas mesas ao seu redor, enquanto o garoto tentava se distrair com as teorias que anotara com desleixo na última aula de Física Experimental. Alguma coisa sobre Hádrons e um acelerador de partículas?

Finalmente, a atendente, equilibrando uma bandeja com dois cafés na mão, deixa o pires com a xícara sobre sua mesa, contendo o líquido que talvez (apenas talvez) lhe ajudasse a se empenhar ao revisar todas aquelas anotações.

A sede era tanta, que salivou ao sentir o aroma acre, sutilmente terroso do líquido escuro. Não gosta de adoçá-lo justamente por causa disso. A acidez que passa aquecendo sua garganta, é familiar com tudo o que tem por dentro: uma amargura pungente, quase sem explicação.

Quando deu o primeiro gole, sentiu algo estranho. O fundo adocicado invadiu sua boca, fazendo-o trazer a xícara de volta sobre o pires para analisá-la.

“Com licença?" Ele chamou a atendente, já de costas. Percebeu que uma outra voz, fina e aguda, disse a mesma coisa na mesa à sua frente. Eles se entreolharam.

A mulher com o uniforme da cafeteria tornou a atenção para eles. Seu cabelo preto estava preso em um coque desgrenhado, que enfatizava sua bagunça interior, assim como a mancha do batom rosa shocking nos dentes desordenados quando abriu um sorriso amarelo.

“Eu acho que você trocou o meu café." Ambos disseram, novamente em sincronia.

“Opa!" Ela riu, desajeitadamente. “Me desculpem, eu ainda sou nova aqui," e pegou a xícara de ambos.

Em um gesto quase natural, trocou os cafés. Tirou o dele (que estava com ela) e colocou na mesa oposta, e o dela (que estava com ele), na da frente. Ambos encararam as xícaras, incrédulos.

“Você tá falando sério?" Perguntou ele.

“Isso acabou de acontecer?" Perguntou ela.

Eles se entreolharam novamente, incrédulos.

Gabriel assistiu aos grandes olhos castanhos da garota se arregalando, sem jeito.

Danielle percebeu uma perplexidade irônica nos pequenos olhos verdes do garoto de cabeça raspada. Apesar disso, era possível notar que ainda pareciam muito tristes. Ela não sabia o porquê, mas ao dar um gole no café de seu vizinho-de-mesa, quase pôde sentir a sua amargura. Era tão simples. Óbvio. Seu coração estremeceu ao pensar na frieza que constantemente o cobria, dos pés ao couro cabeludo da cabeça. Uma estranha vontade de envolver os braços ao redor dos magros ombros daquele estranho lhe atingiu.

“Quê que foi? Vocês só deram um golinho, né?" perguntou a atendente do batom rosa shocking. “Só vão trocar um bocado de saliva." ela deu de ombros. “Olhem ao seu redor, o pessoal tá fazendo isso o tempo todo."

Eles olharam.

Havia um casal no canto da cafeteria entrelaçado em um tipo de abraço sufocante enquanto um sugava a energia vital do outro pelas bocas. Danielle torceu o nariz, incomodada.

Do outro lado, uma velha senhora, trazendo um prato com pães de queijo, sentou do lado do velhinho, que já terminava o seu bauru. Ela prontamente limpou a barba dele com um guardanapo, e deixou um tímido beijo em seus lábios finos e enrugados. Gabriel sorriu, comovido.

Por fim, uma outra garçonete, que havia assistindo à cena em silêncio, manifestou-se ao retirar o café das mesas dos dois e se desculpar, prometendo não trocar nessa próxima vez.

Quando voltou com os líquidos ferventes evaporando das xícaras, posicionou-os na mesa de seus devidos proprietários.

Danielle ergueu sua xícara em um gesto de cumprimento, como se brindasse com ele. Gabriel espelhou seu gesto, fitando as grandes íris castanhas da garota do café com açúcar. De uma forma efémera, quase sutil, a sua doçura o invadiu por dentro, naquele breve gole de café. Eles sorriram.

Naquela tarde, algo errado acabou dando certo. E eles acabaram trocando de saliva, no final das contas.

Notas finais
Muuuito obrigada, caso alguém tenha lido isso! Espero ter adoçado um pouquinho o dia de vocês. ^-^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!