“Preto, sem açúcar”, pediu ele para a jovem atendente pouco antes de se dirigir à uma das mesinhas de quatro lugares ao lado da janela.

Tirou o casaco encharcado e deu uma breve olhada nas notificações do celular — ou na ausência destas, apenas para se certificar de que ninguém naquele dia sequer lembrara de sua existência — e depois espalhou pela mesa uma pilha de cadernos com páginas preenchidas por cálculos inimagináveis.

Observou que era uma cafeteria razoavelmente nova, ou então nunca a percebera em seu caminho para casa. A mesa de madeira exalava a algum produto de limpeza, e brilhava sob a luz fluorescente que, por alguma razão, ofuscava o seu olhar. Ele comprimiu as pálpebras enquanto os olhos lacrimejavam, e quem o visse de fora, poderia acreditar que estava chorando. E esse não era um dia bom para ser visto chorando.

Quando o pensamento vagou por sua mente, rapidamente limpou o canto dos olhos com o polegar, e depois disfarçadamente passou os dedos pelos pêlos arrepiados de seu cabelo, que ainda estavam crescendo depois de ter passado a máquina zero em solidariedade a um amigo que batalhava um linfoma no estômago.

Passou o olhar para as ruas movimentadas através da janela. Pareciam mais um borrão por trás de todas as gotículas de chuva que se atiravam feito kamikazes contra o vidro, e então deslizavam, chorosas sob a superfície.

Um gosto agridoce de vingança banhou-lhe a língua ao pensar em todos os piqueniques e planos-a-dois que haviam sido cancelados pelo clima instável da cidade. Os cantos da boca formigavam ao conter um sorriso.

Era um pensamento meio egoísta, e até mesmo preocupantemente doentio como sempre torcia para as coisas darem errado. Não apenas para os outros, mas às vezes até para si mesmo.

Lembrava-se da época em que ainda era uma criança assistindo aos filmes da sessão da tarde. Quando a história chegava no terceiro ato, uma parte, tão minúscula, mas não menos aguda dentro de si, esperava que tudo desse errado: o herói não conseguiria passar pelas barreiras do guardião do limiar, e nunca concluiria sua jornada. Nada de finais felizes, recompensas, ficar-com-a-garota-no-final, ou retornos como elixir. Na vida real, nem tudo se desenvolve no terceiro ato. Na vida real, o herói não teria jornada alguma porque, para começar, na vida real nem existem heróis. Acreditava que todos eram como o caixeiro viajante em A Metamorfose que fora transformado em um inseto, e a partir daí, nada mais daria certo… o final era apenas definhar e esperar pela própria morte.

Entretanto, naquela sexta-feira de Dia dos Namorados, aquela mesma sensação o assolava. Surpreendeu-se ao perceber que secretamente suspirava o contrário: ansiava para que algo desse certo, dessa vez. Em um dia tão deplorável, úmido, e enfadonho, não sabia exatamente o que esperava. Pela primeira vez, jogara suas expectativas nas mãos do destino.

Olhou ao redor, ociosamente estralando as juntas dos dedos. Cadê esse café que não chega nunca?