Pressura

3 Porta giratória


Um dia se passou. Liz Daisy escutou o toque suave da campainha e largou as roupas no varal para ver quem era. Sentado na porta, Jason estava encurvado, nitidamente envergonhado.

– Posso entrar? – Seus olhos azuis abriram e olharam para cima, para o rosto perplexo de Liz.

– Claro. – Liz gaguejou. – Entre.

Ele entrou, desajeitado. Havia conseguido algumas roupas velhas na ala de doação da Igreja. Eram simples e abatidas, mas lhe serviam bem.

– Hoje uma amiga minha vem para o jantar. – Ela anunciou com um certo alívio. Não saberia explicar à amiga porque o novo hóspede não estava sentado à mesa com elas.

A campainha soou novamente. Liz atendeu e uma ruiva deslumbrante passou pela porta, cheia de vida, animada a tagarelar. O comportamento de Jane irritava Jason, mas não se sentiu tão desconfortável quanto pensou que se sentiria quando Jane veio se apresentar.

– Então você é o Jason? – Apertou sua mão, balançando os cabelos e sorrindo de uma orelha a outra. – Sou Jane, mas você já deve saber. Ai, estou com fome! Vamos comer?

Sentaram-se à mesa. Jason tomava cuidado para comer sem emitir ruídos e mal olhava para frente, evitando demonstrar qualquer sinal de socialidade. Vez ou outra observava os trejeitos daquela mulher, que falava e gesticulava com tanta convicção. Seu cheiro recendia a batom de marca e carmim. O jeito espirituoso de Jane nada tinha a ver com a sutileza de Liz.

– Então ficou até difícil, sabe, de administrar o depósito que entrava. Mas eu gosto de trabalhar na Ralph Lauren, não é por causa de um bobalhão como esse que vou largar meu emprego! Até parece... – Jane não parava de falar sobre seu emprego, homens, roupas, eventos... Jason ouvia superficialmente a conversa, mastigando devagar o arroz à piamontese. Liz concordava, ria e fazia comentários breves em pausas regulares.

O rapaz pediu licença para ir ao banheiro. Permaneceu sentado na privada por algum tempo, até que as moças se levantassem e começassem a se despedir.

– Nossa, ele é muito lindo, mas muito calado! – Jane disse a Liz entre a mesa e a porta. – Ele tem algum problema para falar?

– Jason não parece ser um cara de muitas palavras. – Liz respondeu, séria.

– Ah, de qualquer modo, parece ser um bom rapaz... – Jason abriu a porta, escutou Jane falando a Liz que ele parecia ser um bom rapaz, mas não entendeu o que ela disse, pois sua mente estava distante.

– Foi um prazer conhecê-lo, mocinho! – Jane o abraçou, apertando-o contra seu corpo. Jason inspirou bem forte seu cheiro de carmim e sentiu uma leve repugnância misturada a uma igualmente leve vontade de sorrir. Amor e ódio coexistindo numa porcentagem bem pequena, se revirando. Jane lhe parecia uma pessoa demasiado ignorável.

– Bem, estou indo, tenho que trabalhar amanhã. Depois te ligo contando sobre o Mark, amiga! – Jane deu dois beijinhos na bochecha de Liz e saiu.

– Ela é bem agradável, não é mesmo? –Liz comentou, sorrindo. Seguiu-se um silêncio. – Você pretende ficar aqui?

Eles se encararam por um momento. Os olhos pasmos de Jason transpareciam indecisão, e sem saber o que lhe dizer, Liz apenas se virou em direção ao quarto.

– Estou indo dormir. – Ela caminhou até seu quarto, olhar fixo nos pés. Contou seis passos até seu quarto e fechou a porta cuidadosamente. Jason se deitou no tapete da sala e observou a porta, a luz do corredor do prédio piscava. O vento castigava a madeira e a fazia ranger. Depois de algum tempo observando, a porta parecia girar devagar. Então ele adormeceu.