Os pés de Liz se mexendo nos seus faziam cócegas. Jason esfregou a língua nos dentes para atenuar o gosto amargo de sua boca. Pigarreou e sentiu os braços de Liz lhe afagarem.

– Bom dia!

O sorriso desajeitado dela ainda era gracioso. Desde a noite passada, todos os seus temores e anseios pareciam se esvair. Sentiu-se pronto. Jason se empertigou na cama, abriu a boca para falar, mas as palavras não saíam.

– Que foi? – Entre bocejos, Liz lhe perguntou, desconfiada. Ele olhou para os lados, pronto para evacuar cada palavra.

– Eu tive um pesadelo de novo. – Começou Jason. Houve uma pausa antes que retomasse seu monólogo.

– Sonhei que você estava se afogando no mar sem céu que me assombra nos sonhos. Estava com o roupão branco, caindo, e eu estava paralisado. Não consegui ajudá-la. – O rapaz lamentou. Liz cobriu seus seios com o lençol e passou os dedos em sua barba, com um olhar de piedade. Ele prosseguiu.

– Dessa vez, algo foi diferente. Acordei e senti sua respiração no pescoço, então relaxei. Eu soube diferenciar o sonho da realidade... – Jason olhou para frente e respirou fundo, se sentia cada vez mais tonto à medida que se aproximava da verdade.

– E como se sente agora? – Perguntou a donzela ali ao lado, ainda a mexer os dedos finos na barba loira e grossa.

– Sinto... como se precisasse falar. – Os batimentos cardíacos aceleraram. – Liz, eu tenho um segredo. Fugi para cá quando era muito novo, mas ela... a mulher loira... não me deixa em paz! – Urrou, ofegando.

Mais uma pausa. Voltou a falar, sua respiração ainda comprometida pela raiva.

– Ela volta para mim em pesadelos. Eu a vejo refletida em pessoas distintas, não sei dizer se são reais ou não. Ou eram reais. – O calafrio passou do seu corpo ao dela. – Preciso me libertar dela.

Jason arregalou os olhos marejados para Liz, as lágrimas rolavam tão abruptas quanto o seu recente relato. Liz não entendera o que ele quis dizer, mas sabia exatamente o que devia fazer.

– Precisamos retornar para o lugar do qual você fugiu. – Suas palavras foram sinceras, equilibradas pelo timbre dócil e a postura severa. No fundo, Jason sempre soubera que precisava voltar.

– Não sei se consigo encarar aquele lugar de novo. – Ele engoliu seco. Não parecia haver alternativa. Liz lhe entregou um bloco de notas e uma caneta e lhe encarou. Observou a caligrafia trêmula do rapaz revelar, aos poucos, um endereço:

Ilha Dionysus, Casa 22

Southern Bay, Isle of Man

– E como fazemos para chegar lá? – Indagou Liz, com certa inquietude.

– Devemos pegar o trem... – A voz do rapaz soava como se o próprio estivesse segurando um refluxo. – Demora aproximadamente uma hora e meia para chegar à ilha. Depois andamos pela ponte.

– Hoje é sexta, não é? Posso tirar o dia de folga e voltamos no domingo. – Já olhando para a mala que pendia em cima do guarda-roupa, Liz pegou algumas vestimentas nas gavetas e as jogou na cama. Tomou a liberdade de fazer a mala de Jason, uma vez que ele deixara claro não ter condições para sequer travar uma conversa.

De malas feitas, a donzela ligou para o hospital.

– Sim, descontem das minhas horas extras.

Ela acenava a cabeça ao falar ao telefone. A cena seria levemente cômica se Jason não estivesse perdido num transe. Só percebeu que a chamada havia sido encerrada quando Liz levantou sua mala e andou em sua direção.

– Eu levo isso. – Subitamente, as duas malas pendiam sobre as mãos largas de Jason. Liz não insistiu.

À sua direita, Liz observava a paisagem esverdeada. As duas pedras-de-sol repousavam pelas imagens trêmulas, tinham o brilho dos olhos de um sonhador.

– Meu pai costumava me dizer que todos nós temos fantasmas dentro da gente, e o único jeito de matá-los é descobrindo sua origem. – Ela disse, sem tirar os olhos da janela. – Quando era criança, eu imaginava vários fantasmas de filmes de terror grotescos, invisíveis e cobertos por lençóis, flutuando. Aí eu os encarava, puxava seus lençóis e palavras apareciam, revelando a causa do meu medo. Às vezes, temos de encarar nossos próprios medos.

Jason sentiu que a última frase que ela dissera ficaria gravada em sua mente para sempre. Sentia-se um tremendo covarde por ter levado tanto tempo. A segurança da presença de Liz amenizava suas dores mais fortes e lhe dava forças para tentar.

Chegaram a Southern Bay. A enorme ponte tinha o mesmo aspecto enferrujado de dez anos atrás. Atravessaram-na soturnos, ouviam apenas o barulho do vento batendo em seus corpos frios. Bem na entrada da Ilha Dionysus, havia um simples hotel. Instalaram-se no terceiro apartamento do terceiro andar.

– Uau. A vista daqui é tão bonita! – Liz estava dependurada no parapeito da janela. O cheiro de folhas molhadas, carregado pelo ar frio, invadiu as narinas de Jason. Ele odiava a familiaridade que o olfato despertou.

– Quer descer para o jardim? – O rapaz a convidou repuxando os lábios num sorriso torto. Estendeu a mão para Liz. Quando desceram as escadas, de mãos dadas, parecia estar voltando à sombra da cerejeira que abandonara. Foi surpreendido por um frio na barriga e riu, sem jeito.

Lá fora, os dois pararam lado a lado. Admiraram a vasta flora que os cercava e Liz pensou nunca ter visto um lugar tão bonito antes. Olhou para a esquerda: Jason olhava para cima com ar de serenidade, os olhos acinzentados devido ao reflexo do céu. A ventania de Dionysus fazia ondas irregulares em seus cabelos loiros. Ela reparou que os fortes músculos de Jason estavam descontraídos, como os de uma criança. Que cena emocionante!

Incapaz de conter suas emoções, Liz fechou os olhos e pressionou seus lábios sobre os de Jason com certa urgência. Queria lhe dizer o quanto era maravilhoso e, como se ele houvesse captado a mensagem, fechou os olhos e a correspondeu com calma.

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Fingiram passear descompromissados pela ilha, mas ambos procuravam pela Casa 22. O casal parou em frente a uma casa destroçada. Liz lhe lançou um olhar interrogativo e Jason acenou. Ver a antiga casa em ruínas fez com que um monte de lembranças ruins brotasse da sua mente: berço rangendo, choros, gritos, risadas doentias, garrafas quebrando, hora do banho, marcas vermelhas... Ele balançou a cabeça numa tentativa de afugentar as imagens mentais.

– Não podemos entrar ali. Não é seguro. – Alertou Liz, os dois apertando os olhos na ventania que fazia a casa balançar. Parecia-lhe óbvio que não era uma boa ideia entrar na casa, mas disse mesmo assim, por via das dúvidas.

Desolado, o rapaz se sentou no concreto e soluçou. O mal-estar que aquela casa lhe provocara, pensou que nunca seria capaz de encará-la de novo. No entanto, ali estava ele. Chorando como o garotinho de dez anos atrás, sentado com seu velho macacão surrado. Para que o tormento parasse, era necessário enfrentar a origem do medo. Bem, a casa onde tudo começara estava destruída, mas isso não o deixava nem um pouco melhor. O problema não era a casa. O problema era ela: a mulher loira.

E onde estaria ela agora?

– Onde ela está? Onde ela está? – Urrou Jason, batendo os braços no chão. – Desculpe, não consigo mais...

Os lábios de Liz tremiam. Arrependeu-se de tê-lo trazido até ali. Havia sido uma completa idiota ao imaginar que voltar àquele lugar, que parecia ser o palco de experiências traumáticas, fosse ajudá-lo. Até cogitara regressar, mas o pensamento fora reprimido por um impulso.

– Eu a procuro.