Essa era mais uma noite de festa. Jason topara com o festeiro Andrew durante um passeio à tarde.

– Hoje tem festa às nove da noite na casa do Wilsinho, dê seu jeito e apareça lá!

Era quase oito e meia quando Jason saiu de casa, Liz ainda estava trabalhando. Decidiu não deixar nenhum bilhete. Chegou na casa do Wilsinho por volta das nove e quinze.

– E aí, cara, quanto tempo! – Saudou Scott. Jason sorriu sem prestar muita atenção, passou os olhos pelo aglomerado de pessoas dançando.

Acenou para alguns conhecidos, sem desviar a atenção da pista de dança improvisada nem por um segundo. No canto direito da parede à sua frente estava uma garota loira, balançando ao som de Elvis Presley. Parecia chapada, dez anos mais jovem, e segurava um copo de cerveja preta na mão direita. Toda a região abdominal aparecia embaixo da blusa justa, que realçava o busto. Usava uma calça boca de sino, salto médio e um batom vermelho claro nos lábios pequenos.

– Quer dançar? – Jason a abordou sem cerimônias. Apoiou uma mão na parede, de frente à garota, entre ela e a amiga. Lançou um sorriso maldoso, travestido de inocente simpatia.

– Claro! – Ela o puxou pelo braço. Foram para o meio da pista de dança, se mexendo feito loucos. Dançaram até a garota perder o fôlego.

– Que tal a gente ir pra um outro lugar? – Jason sussurrou em seu ouvido. Era difícil se fazer ouvir em meio a tanto barulho.

– Já é. – Disse ela, estendendo a ultima vogal como se falasse em câmera lenta.

– Deixa que eu pago um taxi. – Ela assobiou e balançou os braços no meio da rua. Um taxi parou e Jason hesitou ao entrar.

– Ei, relaxa... – Os olhos azuis da garota atravessaram o rosto de Jason, completamente vagos e desatentos.

Chegaram ao seu destino. Ela pagou, disse ao motorista para ficar com o troco e tomou a liberdade de andar na frente, trôpega.

Exatamente como a deixara dez anos atrás. Cabelos curtos, drogada, insinuando-se a qualquer um. Só esqueceu de deixar a maquiagem borrada, constatou Jason. Impecável.

– Pode se sentar enquanto eu troco de roupa. – Jason anunciou com uma voz estranha, meio irônica, meio sádica. Não precisaria drogar a loira, que já estava estirada na cama, visivelmente zonza. Pegou então seus equipamentos no banheiro e voltou ao quarto, calças abaixadas.

Jason rasgou suas roupas com raiva, arranhando seu corpo vulgar. Esticou seu pescoço para cima, quase a sufocando, e a amarrou. O pênis doía, duro como pedra, ansiava por machucar aquela enorme boceta arrombada e ferir seu maldito útero.

Pegou o cinto e lhe aplicou vários golpes. O cinto estalava em chicotadas sonoras, Jason a espancava, arranhava, puxava seus curtos cabelos até arrancá-los com tanta fúria que mal podia ouvir seus gemidos.

Já estava preparado para fodê-la quando, subitamente, ela se desvencilhou das amarras das pernas e subiu em cima dele.

– É a minha vez. – Ela disse, seu rosto agora era lúcido, as pupilas dilatadas de prazer. Ela sorriu. Seu sorriso histérico imobilizou Jason, cuja expressão era de extremo pavor.

Ela sentou no pau meio amolecido de Jason, cavalgou nele com algumas partes do corpo ainda presas por nós, gemeu tão alto que parecia que seus tímpanos estourariam com o próprio grito. Então ela abaixou os olhos. As pupilas escuras como dois buracos sem fundo, o familiar sorriso esticado. Enfiou a língua na boca aberta de Jason. Ele sentiu aquela língua dura e gélida na dele e um arrepio se arrastou de sua cabeça aos pés. “Saia de cima de mim! Saia! Saia agora!” Um turbilhão de lembranças invadiu seu cérebro e escorreu por suas veias, como se injetasse água fria no braço, estremeceu sentindo frio e medo. Ele gritou.

Vestiu as calças às pressas e correu para longe dali, tomado pelo pânico. A loira o observou encostada na porta, já com os nós desatados, pensativa. “Será que fiz algo errado ou diferente demais?”, ela indagou a si mesma.

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Jason suava frio. Arrastou os pés pelo corredor mofado do prédio de Liz e esmurrou sua porta sem parar.

– Jason? Mas o que...

Liz Daisy fora interrompida por um abraço. Jason se jogou em seus braços, apertou os braços dela contra os dele, as mãos tremiam. Liz aconchegou a cabeça do rapaz desesperado em seu ombro, passou os dedos delicados pelo espesso cabelo loiro. Sentiu sua respiração desacelerar e os batimentos cardíacos se alinharem aos dela. Ela arfou. Permaneceram abraçados, como se estivessem colados um no outro, por um tempo que lhe pareceu uma eternidade. Liz sentiu que estavam ali perdidos no tempo, presos num momento atemporal.

– É ela! Ela voltou de novo, sempre volta, sempre volta... – Jason gaguejou com a voz embargada, os olhos marejados de lágrimas. – Eu a matei tantas vezes, mas ela voltou. Ela voltou...

– Calma, calma... – Liz ajeitou a cabeça de Jason em seu ombro novamente. “Vai ficar tudo bem”, ela sussurrou com a típica doçura que possuía.

Devagar, os dois se entreolharam. Jason encostou sua testa na dela, os olhos azuis cobertos pelas pálpebras. Respirou baixinho por um tempo e deixou seus lábios pendentes, para que eventualmente encontrassem os de Liz. Liz apressou o encontro e avançou. Os lábios dela tinham gosto de mel e ele abria e fechava os lábios várias vezes sobre os dela.

Lembrou-se de Anna. Lembrou-se da velha cerejeira, mãos dadas. Pensou na euforia que Anna, a magra e branquela Anna, lhe causara. Visualizou suas sardas no alto da bochecha, olhos de jabuticaba amendoados e cabelos muito pretos, presos em duas tranças. Era como se tivesse a oportunidade de voltar no tempo e dar o seu primeiro beijo de novo.

De repente, suas línguas se moviam em sincronia. O ritmo do beijo acelerava conforme o desejo crescia. Jason levantou Liz em seus musculosos braços e a deitou na cama. Seus lábios eram atraídos para os dela, como ímãs. Seus corpos se entrelaçaram e os movimentos fluíam de dentro para fora, dentro para fora... Virou-se para o lado, exaurido, e cobriu-se com os braços nus de Liz. Jason fizera amor pela primeira vez.