Pressura
2 Frêmito

A TV ainda estava ligada no Home and Health. Jason pegara no sono assistindo a um documentário aleatório, na poltrona da sala de estar. Acordou com o vento violento da manhã de inverno batendo em sua cara como um tapa. Lançou um olhar raivoso à janela: a ventania fustigava as velhas cortinas furadas desgastando-as mais ainda, o céu estava cinza devido à névoa que o cobria de ponta a ponta.
A antiga decoração vitoriana... Jason encarou as paredes, sentindo-se instantaneamente solitário e preso. Demorou algumas frações de segundo para situar-se e então se lembrou do dia anterior. Lembrou-se dos risos na casa de um amigo de Steve, toneladas de drogas, sensação boa que culminou em esquecimento, pancadas, machucados, sangue, dó, acolhimento e... Liz. Mas quem era Liz, mesmo?
Em um surto de pavor, o pobre rapaz assustado pôs-se a vasculhar o apartamento, urrando com selvageria, ofegando de raiva e medo; estava à procura de uma chave reserva. Tinha de estar em algum lugar... contou até dez, respirou fundo. Acomodou-se na poltrona, sentindo seu estômago se contorcer em piruetas de tanta fome.
Acenou a cabeça débil e freneticamente, numa espécie de auto-consolação. Em cima do armarinho empoeirado havia uma bolacha embolorada que Jason comeu mesmo assim. Já quase não possuía paladar devido às tantas drogas que usara até então. Um espanador de pó invadiu sua vista: queria ocupar sua mente, então por que não unir o útil ao agradável? Tirar pó do armário o manteria entretido e seria um favor à pessoa que ali morava.
Espanou furiosamente todos os cômodos da cozinha e do living, não satisfeito com um armário apenas. Retornou à cozinha para reforçar a limpeza e reparou que, à sua frente, jaziam duas pequenas portinhas debaixo da pia. Tomado por instantânea curiosidade, abriu a da esquerda. Um adesivo de uma caveira, com os dizeres ‘cuidado! Usar apenas com máscaras’, estava fixado nela. Ali dentro estavam guardados alguns produtos de limpeza, ao seu lado uma máscara respiratória. Jason destampou todos os recipientes, cheirou-os de uma vez só, e não se cansava; permaneceu cheirando até perder os sentidos, desmaiar e, então, sonhar.
–-----«------

Uma mulher, de rosto indefinido, caminhava despreocupadamente sobre as águas. O eu fantasmagórico do sonho de Jason olhou para cima e levou um susto: o céu também era água! Sorveu o ar, a fim de comprovar que estava em terra firme, e não sentiu absolutamente nada. Não sabia dizer se estava submerso num rio (e por isso enxergava o céu como uma enorme poça d’água), ou se havia rio por todos os lados, ou as coisas estavam de cabeça para baixo?, não importa. O que importa é que água e solo coexistiam ao mesmo tempo, o céu refletia o rio ao invés de ser justamente o contrário, e aquele vulto com traços femininos se arrastava sobre as águas tão densas...
As pupilas de Jason se dilataram e ele sentiu o suor frio escorrer pela sua cabeça e também pela sua mente, fazendo todo o resto do corpo se arrepiar. Ouvia passos se arrastando, alguém estava chegando. Lembrou-se que deixara os produtos de limpeza destampados. Tampou-os às pressas, afoito. Guardou-os, endireitou a coluna, verificou o hálito, mexeu no cabelo – mãos geladas, coração acelerado, pensamentos bloqueados...
Um cheiro adocicado de pólen silvestre invadiu todo o ambiente enquanto uma criatura de tez branquíssima passava pela porta, com seus cabelos pretos a esvoaçar. Jason podia sentir a energia que dela emanava o invadindo. A sensação de conforto era tão boa que fez com que ele se esquecesse de quem era, parecia que as lembranças ruins foram varridas de sua memória...
– Desculpe-me pela demora, mas é que hoje o serviço estava apertado, sabe... muitos doentes para poucos médicos... – A encantadora senhorita tirou o cabelo da cara com a delicada mão esquerda, revelando seus lindos olhos castanho-mel – que ao começo da noite pareciam duas pedras-do-sol. Jason olhou para dentro deles procurando respostas, mas nada encontrou além de um brilho ofuscante.
– Está tudo bem? Você está pálido! – Liz repousou sua mão na testa fria de Jason. – Oh meu Deus! -, segurou seu pulso e constatou que sua pressão estava baixa. – Sente-se aqui, já volto.
Os fatos giravam sobre a cabeça de Jason sem que este os pudesse assimilar. Encarou suas mãos. “Merda, estou tremendo!”, pensou.
– Ok, vamos lá. – Liz ajoelhou-se, de modo a ficar de frente a um Jason assentado. O rapaz fechou os olhos, repousou sua cabeça e encarou o teto por alguns minutos.
Jason se levantou assim que Liz se afastou. Foi para a janela na esperança de que uma brisa qualquer lhe refrescasse a mente. Uma mulher: desprezível como eram todas, traiçoeiras, pretensiosas. Prontas para dar o bote a qualquer hora, se aproveitar de você e da sua ingenuidade, corromper-lhe. Vultos da morte de rostos indefinidos, caminhando sobre a água... Pensar nisso lhe causava calafrios. Entretanto, ali estava ele, estranhamente tranquilo. Mais tranquilo do que jamais estivera antes.
O céu escurecia ainda envolto por uma espessa camada de neblina. Ouvia-se latidos, alguns carros passando na rua antiquada, quebrando o silêncio mortífero do apartamento. Aquela situação perturbava Jason, tirava-o de seu controle, feria-lhe o orgulho. Precisava falar com ela.
– Olá... – Jason articulou entre pigarros, levando a mão à boca. Quase a assustara, tão distraída que estava ao cantarolar e guardar os mantimentos que comprara no supermercado.
– Sim? – Liz indagou com uma doçura quase palpável. A ternura e a irritação que aquele "sim" lhe causara batalhavam em sua mente inquieta.
– Olhe, – Ele puxou a gola da blusa, para não se sufocar com as próprias palavras – não tenho condições de ficar aqui...
– Ah, vejo que está confuso. – Observou Liz Daisy. – Você não estava bem ontem, quero dizer, é por isso que eu o trouxe aqui. Você estava... está todo ferido, cortado, e sangrava compulsivamente. Meu plano era ajudá-lo e depois conduzi-lo até sua casa, mas você disse que não tinha uma, então deixei que ficasse mais alguns...
– Sim, entendo, consegui me situar assim que acordei. Ouça, Liz... esse é seu nome, certo?
– Certo. – Confirmou.
– Muito bem, olhe, não posso aceitar ficar aqui...
– Você tem para onde ir? – Ela o interrompeu.
– Não tenho, mas sempre me virei, entende? Agora não será diferente. – Percebendo o tom de agressividade em sua voz e a perplexidade estampada no rosto de Liz, Jason apressou-se a explicar:
– O que quis dizer é que você não me conhece.
Raios de angústia atravessavam o olhar de Jason, uma imensidão azul, porém tão lamentavelmente sombria! Liz, ao olhar para ele, sentiu seu coração se contorcer de dor e dó. Ela tentou se explicar, mas as palavras não saíam de forma coerente
– Sei que parece loucura da minha parte abrigar um estranho assim, sem mais nem menos, em minha casa... Sempre foi parte da minha natureza ajudar pessoas...
Jason fechou os olhos, aflito. E se ela descobrisse a sua natureza, o que faria? Abriu os olhos novamente e as esferas castanho-mel de Liz estavam a encará-lo numa espécie de súplica. Desvencilhou seu olhar do dela e se levantou, tomado pela raiva. Abriu a porta e a deixou bater sem a menor cerimônia.
Liz encarou a rançosa porta de madeira, com uma expressão de débil desmotivação. Seus olhos se encheram de lágrimas e sentiu seu coração apertar em sincronia com os ferozes passos de Jason.
Ele apertou os passos em direção à banca mais próxima. Olhava para os lados furtivamente: sabia que não tinha dinheiro para cigarros, então deveria partir para o plano B. Pensava numa tática para conseguir roubar sem fazer uso de nenhuma arma branca (pois não possuía uma) quando uma voz familiar invadiu-lhe os ouvidos:
– E aí, cara! Como anda essa força?
– Andrew, o que está fazendo aqui?
– Nada, só dando um rolê. E aí, o que tá aprontando? – Perguntou Andrew, o típico sorriso jovial estampado na cara.
– Preciso de uns trocados para comprar cigarro. – Disse, sem jeito.
– Tome aí e faça o que quiser. Aproveita e leva também essa desgraça de isqueiro velho.
Agradecido, Jason tomou as moedinhas e notas de um dólar na mão, como se aquilo fosse uma fortuna. Pagou o dono da banca e segurou, feliz, seu maço de Marlboro e seu novo velho isqueiro.
– Obrigado. Prometo te pagar assim que puder.
– Oh, nós dois sabemos que isso não vai acontecer, Loirinho. – Andrew brincou, sorrindo jovialmente de novo. – Mas pode deixar, vou fingir que não sei disso, está bem?
Jason esboçou um sorriso torto e apertou a mão do parceiro que, por sua vez, lhe entregou um número de telefone.
– Me dá um toque quando quiser vadiar. – Despediu-se o amigo.
Fale com o autor