Desta vez, Jason estava sentado na calçada. Os prédios cinzentos sob o céu diluído em neblina dava a ligeira impressão de que tudo era preto-e-branco, até uma silhueta com cores entrar em seu campo de visão. Olhou para ela fixamente, seus olhos azuis desprovidos de qualquer sentimento. Ele reconheceu a frieza. Ela usava uma capa de chuva transparente sobre o traje formal, provavelmente estava voltando do trabalho. Antes que atravessasse a rua, Jason se fez notar abrindo um largo sorriso. Ela sorriu de volta e ele se levantou, perguntou seu nome. Era irrelevante, obviamente ela não diria seu nome verdadeiro, mas mesmo assim perguntou. Perguntou para onde estava indo, se queria relaxar. Ele conhecia o lugar perfeito para isso.

A loira, séria, caíra no seu papo insosso. Jason teve a impressão de que seria difícil convencê-la, mas se lembrou de que ela sempre cai. Levou-a para a familiar casa branca, que por sinal a agradou mais do que ele esperava.

– Que vista bonita! – Ela exclamou, inspirando fundo e abrindo seu sorriso repuxado. – E que ar bom para respirar.

– O mato nos dá uma sensação de familiaridade, não é? – Jason reproduziu seu sorriso puro e inocente. Ela deu uma risada e concordou com a cabeça.

Passaram pelo jardim antes de entrar na casa. Jason a convidou a sentar-se na cama e ofereceu o seu tradicional copo d'água. “Especialidade da casa”, pensou maliciosamente. Então a observou caindo, perdendo o controle do corpo, sem entender direito o que se passava. Tomou o procedimento padrão: amarrou-a, lacrou sua boca, espancou-a, mas decidiu fodê-la no chão. Empurrou-a para fora da cama, de forma que ela caísse com a cintura curvada para cima.

Quando terminou, deixou sua boca deslacrada. Deu algumas voltas pelo cômodo, tentando decidir como a mataria dessa vez. O velho taco de baseball? Ou deveria deixá-la ali por um tempo e depois atirar?

– Por favor, não me mate. Faço o que você quiser, por favor... – Ela suplicava. Jason riu. Seria até comovente se ela não tivesse feito o que fez. Aquilo parecia pouco diante da desgraça que fizera de sua vida.

– Vou facilitar as coisas para você. – Jason disse, mal contendo o riso. – Vou tirar sua morte no cara ou coroa. Se der cara, você morre a pancadas com aquele taco de baseball, do seu lado esquerdo. Se der coroa, eu atiro na sua cabeça e acabo com a sua agonia de uma vez.

O rapaz tirou do bolso de sua calça um trocado e o jogou para cima. Deu coroa, para a sua infelicidade. Ele sempre mantivera sua palavra, ao contrário dela. Faria questão de prová-la, por mais que desejasse com todas as forças torturá-la até que seu coração parasse.

– Coroa. – Com desgosto, Jason pegou a .38 e lhe deu um tiro que atravessou a jugular e estourou os miolos da loira. Limpou a sujeira, como de costume, e se frustrou ao perceber que ela o enganara. Apresentara uma personalidade que não era dela. Ele sabia que não tardaria a aparecer de novo, da próxima vez do mesmo jeito que ele a deixara pouco mais de dez anos atrás.

Ele caminhou pela cidade, desta vez refletindo. Por que continua tentando? De nada adianta seu esforço, sua vingança nunca o levara a lugar algum. Nunca a atingira de verdade. Suas aparições continuariam, sempre multifacetadas, sempre disfarçadas. Ele a reconheceria, não importa qual tática ela usasse. Ainda assim, ela não parava. Nunca pararia.

Ele estremeceu. Tanto tempo desperdiçado em uma vingança que nunca daria certo. Sempre estaria condenado com sua presença, sua memória. Já usara todo tipo de droga para apagá-la, já tentara morrer incontáveis vezes, mas ela o mantinha vivo. Parou na frente do prédio deteriorado de Liz Daisy, hesitando ao entrar. Bateu a campainha e a porta se abriu.

– O que houve, Jason? – Perguntou a anfitriã, usando uma longa camisola semitransparente.

Ele a olhou nos olhos. Sua imensidão azulada engoliu as pedras-do-sol de Liz, em súplica. Entraram num transe. Era como se tivessem se abraçado sem nenhum contato físico. Um abraço desesperado, angustiado e acalentador, ao mesmo tempo.

Despertos do transe, os dois viraram para trás. Jason se ajeitou para dormir, sem dizer uma palavra.