Ela abriu a porta do apartamento com dificuldade, ansiosa. Mal se continha de felicidade. Depois de anos no Hospital St Lawrence, finalmente recebera um aumento satisfatório. Era tão bom saber que seu trabalho havia sido reconhecido! Suas mãos trêmulas ligaram o rádio e aumentaram o volume. Hoje nada a abalaria. Nem sequer os rotineiros pensamentos sobre Jason. Hoje ela não questionaria o trabalho escravo que Jason exercia ali, não se perguntaria qual seria sua reação se ela o oferecesse uma remuneração justa. Não seria acometida pelo medo irracional de que ele fosse embora mais uma vez. Hoje não.

Trocou-se. Colocou o roupão branco de seda por cima das lingeries. Também havia aquele colega de trabalho, o Jerry. Ele o convidara para tomar um café amanhã, e até que ele era bonitinho. Nancy lhe disse que nunca a perdoaria se perdesse uma chance dessas. Jerry era atencioso com as mulheres, conhecido pelo seu bom humor e carisma em todo o hospital. Era doutor e havia lhe dado alguns sinais de interesse, mas Liz nunca levou a sério até receber o convite explícito. No intervalo da tarde, cafeteria do segundo andar. Ouvira boatos de que ele deixaria uma rosa em seu gabinete antes do seu expediente.

Colocou seu vinil preferido no toca-discos e pôs-se a dançar, livre e despreocupada. Ria sozinha, cantarolava alguns trechos de cada música, sentindo-se única. De repente, ouviu o estalo das chaves e o ranger da porta de madeira, mas não deu importância. Ela estava dançando de roupão branco pela sala de estar, graciosa. Jason a admirou dançando e quase sentiu vontade de dançar também, tão feliz e satisfeito que estava. Sorriu para ela e ela sorriu de volta.

Em circunstâncias normais, a música o teria incomodado. Desviaria o olhar da dança singela de Liz, pois não havia motivos para dançar nem se sentir bem. Mas Jason se sentia satisfeito consigo mesmo. Sentia-se livre e finalmente salvo. Sabia que não se sentiria assim para sempre.

Deitou-se então para dormir. Estava escurecendo, e ele queria dormir antes que os pensamentos ruins o invadissem de novo. Sentia-se tão feliz que não conseguira dormir tão fácil. Sorria, tentando não pensar. Mas pensou. Pensou que aquilo o perseguiria para o resto de sua condenada vida, pensou que ela o perseguiria, não importa o que fizesse para tentar pará-la. Tudo bem, ele não desistiria fácil. Ele a mataria e torturaria em todas as suas aparições, quantas vezes fosse preciso, até que conseguisse exterminar sua suja essência definitivamente. Não poderia deixar esse fardo pesar, não naquele momento. Forçou-se a relaxar, aproveitando o pouco de esperança que aquela noite o trouxera até apagar.

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Ali estava ele, na cena do crime. Na casa, prestes a dar a solução de água e entorpecentes para ela, quando notou algo estranho. Um olhar? Não era nada, sua mente disse. Sentou-se ao lado dela, entregou-lhe a água, se levantou para observá-la perdendo os sentidos. Um vulto.

Começou a ficar apreensivo. Despiu-a, amarrou-a, bradou "Você pensou que podia se ver livre de mim, não é?". A presença foi se tornando cada vez mais forte, mais próxima. Não parou, continuou a batê-la e penetrá-la suando frio, desta vez sem nenhum sorriso maníaco no rosto. Enquanto a penetrava com força, olhou para a parede mal iluminada ao lado. Então a viu. Seu olhar irônico a secá-lo, o rosto multifacetado rodopiava sorrindo cinicamente, se deliciando ao percebê-lo terminar seu crime em vão. Não conseguira. Quando a boca dela se abriu para soltar a familiar gargalhada, ele gritou.

E acordou. Ela voltaria, Jason tinha certeza disso.