Presente E Passado.

1 I - O reencontro


I — Reencontro

Eu via em seus olhos um pesar, certo mistério, um enigma. Tantos anos se passaram e aqueles olhos nada mudaram Freddie Benson ainda tinha seus olhos de te fazer perder-se.

- Algum problema? – pergunta ele, assustado com minha cara de boba.

-Não nenhum – respondo com que pega em flagrante — só estava pensando em como você conseguiu suportar ficar junto daquela garota tanto tempo.

- Você fala “aquela garota”, mas você e a Carly eram melhores amigas, lembra?

- Claro, isso até ela começar a namorar com você e mudar totalmente.

- Não foi por querer, não a odeie.

- Está bem, mudemos de assunto. Freddie, você fica quanto tempo?

- Se eu conseguir esse emprego não vou embora.

-Bem, tem algo que eu possa fazer para ajudar? – Finjo ser apenas interesse em ser uma alma caridosa, mas meus olhos me desmentem.

-Seria bem proveitoso pra você se eu ficasse não é?

- Claro, ganharia mais um amigo – aperto meu olhos quase os fechando quando falo ‘amigos’.

- Não, acho que não tem nada.

-Não – ele continua – pensando bem, tem uma coisa.

-Sou toda ouvidos.

-Bem, você está estudando moda não é?

-Sim, estou.

-Bem, você poderia me ajudar a escolher uma roupa, afinal, um bom engenheiro tem que se vestir bem, e aproveitamos e desentulhamos meu guarda-roupa, que mais parece um achados e perdidos de tão desorganizado.

-Bem, fico feliz em ser útil.

-E eu em poder ter uma estilista tão bonita – Ahhh, esse Freddie Benson e sua mania de me fazer aparecer às covinhas do meu rosto – Então, quando você está livre?

-Quando é sua entrevista?

-Me deixa ver, hoje é segunda dia 09, então, vai ser sexta, dia 13.

-Então quinta?

-Você pode?

-Claro.

-Então quinta.

-Como vamos nos encontrar?

-Você ainda mora no mesmo lugar?

-Claro, mas, você ainda lembra onde eu moro?

-Ser Nerd me ajudou a ter boa memória – Ele fala como se parecesse ao menos um pouco com o que as pessoas pensam ser um nerd.

-Então te espero. As 15h00min, ok?

-Claro.

-Tchau.

-Beijo.

Saio da cafeteria ainda meio atônita, uma simples ida a lavanderia me põe cara a cara com o amor da minha infância, juventude, e ao que tudo indica: da minha vida. Freddie Benson tinha partido há tanto tempo que em minha vida calma e sem envolvimento achei que o havia esquecido, que havia superado a traição de minha melhor amiga, mas aqueles olhos, oh god, os olhos, me trouxeram tantas lembranças que nem sei mais o que sinto, se sinto e porque sinto.

Chegando a casa fico lembrando as memórias boas que juntamos, até as memórias que tive com ela, que um dia achei que era digna de guardar o segredo de meu amor, e fico perdida em meus pensamentos, perdendo a noção de tempo, de espaço, de tempo-espaço, ao que um barulho ao longe vai incomodando, como um beliscão em alguém dormente, e vai se tornando maior, maior, maior. Desperto de meu devaneio e percebo que o telefone está tocando, resolvo que sonhar é melhor que atender telefone e ignoro.

-Que caia na caixa- Resmungo.

... – Sam? È o Freddie, sua louca você esqueceu suas roupas – Corro e pego o telefone o mais rápido possível.

- Oi, ahn, é eu esqueci, só percebi no meio do caminho.

- Por que tão previsível?

-Para seu chato! Você sempre me deixando com vergonha.

-E cinco horas depois e você nem pensou em me ligar pra perguntas sobre elas?

-Cinco horas??? Como assim? – olho o relógio, já são 20h00 – Droga, droga, droga, eu estou atrasada. Tinha um compromisso muito importante.

- Que compromisso?

-Um compromisso com Comida chinesa e Jazz.

-Parece bem interessante.

-E por que você não vem? Estou desacompanhada, e você sabe o que diz o código de cavalheirismo.

-Eu adoraria minha dama.

-E aquela echarpe vermelha, vai combinar muito bem com meu vestido, você faz o favor de levar?

-Claro.

-Agora deixa ir me arrumar que eu já estou mais que sem tempo, te mando endereço por mensagem, pode ser?

-Te vejo lá.

Já perceberam que quando estamos atrasadas as roupas brincam de pique — esconde?

Reviro todo meu guarda-roupa, as minhas roupar parecem que fizeram rebelião, não querem combinar de jeito nenhum, bem, vencida pelo cansaço e pela falta de tempo escolho uma roupa meio sem nexo com a ocasião, mas estamos falando de homens, ou seja, ele não notará que peguei qualquer roupa.

Quando chego lá ele me esperava em frente ao local, uma casa de show bem mainstream no coração de Nova York, como todas as casas de show de Blues and jazz, tem em exposição um saxofone e tem um clima de anos 30, que faz com que os corações das pessoas se sintam confraternizados com o local. Ele um usava um paletó cinza, com o que parecia ser um suspensório, uma calça também cinza, um sapato preto social com que refletia a luz do local de tão engraxado, os cabelos em seu topete clássico com o que parecia ter sido uma dose extra de gel por garantia (suspeita a partir do brilho), e os olhos, que não acessórios, mas que devem ser mencionados.

-Foi difícil achar o local?

-O mais difícil foi entender sua mensagem. Já pensou em parar de escrever como adolescente? – Bato minha bolsa (Chanel) levemente em seu ombro, rindo.

-Então, vamos entrar?

-Espera.

-O que?

-Não pense que eu esqueci – Tirou então do bolso do paletó minha echarpe, e colocou-a em mim, até bem demais – pronto, um belo acessório para uma bela mulher.

-Onde você aprendeu a pôr echarpes tão bem?

-Só aprendi.

-Você não é gay, é? – Soltou uma risada contagiante.

-Não, não sou. Fique despreocupada.

Entramos e já haviam começado os shows de hoje, iam se estender por toda a madrugada, e os assistiria se não tivesse aula amanhã. Apresentavam-se agora uma banda do Brooklin, The Folk-Blues, que tocavam uma música convidativa para uma dança animada, muitos acatavam o aviso da música e ia dançar, eu não, nunca obedeci bem aos avisos.

O garçom passa e o chamo, faço então meu pedido, Um yakisoba, que parece não combinar nem uma pouco com o ambiente do local, mas acho que não há nada melhor que misturar culturas. Esqueço o garçom que se vai e olho então Freddie, tomo um susto não aparentado, pois ele me olhava fixamente, com um sorriso de canto de boca (não existe sorriso pior que sorriso de canto de boca, não consigo resistir ao charme desses sorrisos).

-Então – falo – Você ficou com tanta saudade que cinco horas depois me ligou?

-Teria ligado antes, mas perdi seu número na bagunça da minha mochila, e quando achei foram horas para decifrar sua letra – o sorriso de novo – mas achei que não estivesse, demorou tanto para atender.

-Eu estava ocupada.

-Sabe – continua ele como se não houvesse escutado o que falei – acho que deveria existir alguma lei que proibisse ficar longe de quem a gente gosta.

Tento mentir que não gostei do que ele falou, mas meus olhos me entregam.

-Então – continuou ele, entendo que havia ganhado – O que você tem feito da vida?

-Estudando, pra falar a verdade, tentando sobreviver a uma faculdade de moda e tentando me virar como estilista.

-Já fez algum vestido?

-Viu o último desfile da Benetton?

-Você que criou aqueles vestidos???

-Não, mas eu usava um vestido que criei enquanto assistia.

Ele me olhou com uma cara de “te mato”, e sorriu.

-E você, além de engenheiro por profissão e nerd por amor a causa, que tem feito?

-Acho que não muita coisa. Viajado muito. Li muitos livros, essas coisas, sabe?

Fiz um que sim com o pescoço e voltei à atenção para a banda, que já havia sido substituída sem que notássemos, agora tocava uma banda bem mais Jazz clássico, o garçom chegou com o yaksoba. Vez ou outra olhava para ele, com os olhos fixos nas apresentações ele nem reparava, então, quando tomou um gole da bebida, vi tatuado em seu pescoço o fim de uma tatuagem e fiquei tentando adivinhar o que era, mas com preguiça (ou vergonha?) de perguntar.

As apresentações não custaram a me deixar totalmente envolvida, mas tinha obrigações a cumprir e avisei que tinha que ir embora, ele ofereceu em levar-me até o ponto do táxi.

Conversamos brevemente sobre uma coisa ou outra, ele fez sinal para um táxi que milagrosamente parou, e antes de entrar lembrei-me

- E minhas roupas?

-Ficam comigo por enquanto, garantia de que vou te ver de novo.

-Ah, seu nerd!

-Isso não é ofensa – ainda o ouvi gritar.

Sete vezes.

Sete vezes ele fez que minhas covinhas aparecessem, sete vezes em uma noite. Acho que agora só preciso de minha cama, e ficar pensando a noite toda, pois sei que não conseguirei dormir.

Quando chego a casa desabo na cama, mas vencida pela vontade, levanto e vou pegar um pote bem grande de sorvete. Fico pensando e pensando, sem saber em que mais pensar, e ao mesmo tempo tendo tanto em que fazê-lo, penso no que será de mim agora, se tenho espaço em minha vida para um grande amor, se devo ter espaço para, se quinta-feira demorará, e outros infinitos “se”, e como da outra vez, o que me desperta de meus sonhos é o infeliz toque de um telefone, dessa vez, de meu celular, não uma chamada, uma mensagem. Meus olhos me traem, não acredito no que vejo, ou talvez não queira acreditar, eis o que dizia a mensagem

Há quanto tempo! Morrendo de saudades, e nada melhor para matar as saudades que uma visita, não acha? Então, se não for muito incomodo, você poderia amanhã vir buscar-me no aeroporto? Que não tenho mais nenhum conhecido na cidade, e se tivesse, você ainda seria a primeira a quem iria recorrer. Responde-me, por favor, Sua amiga Carly Shay”.