Presente E Passado.
2 II - Quando de mim meus olhos se perdem
Notas iniciais
II — Quando de mim meus olhos se perdem
Foram olhos nos olhos, não sabia eu que emoção brotava do lado de lá dos olhos, mas do lado de cá era o que nasceria da mistura de raiva com o que quer que leve a um assassinato. Achei que o adeus, mesmo que vindo de uma falsa, fosse para sempre. Depois que ela me levou meu grande amor, surpreendi-me em tê-lo de volta, mas não sabia que ela voltaria como parte do pacote, deveria ter apagado a mensagem no mesmo momento em que eu a li, deveria ter trocado de número, deveria ter ligado para Freddie e perguntado o que fazer, deveria ter feito qualquer coisa, mas, o que faço? Isso mesmo, eu estou aqui em frente ao aeroporto, depois de conseguir o último táxi do mundo em uma cidade onde é um inferno sair pela manhã, esperando uma pessoa, que no mínimo das possibilidades, eu queria ver atropelada por um caminhão de limpeza.
Ela entrou no táxi dona do mundo como era seu habitual, tirou da cara (seria bondade dar-lhe uma face, portanto: cara) o óculos ray-ban e pendurou-o no decote antes de dar um ataque como quem reencontra um pai ou um marido depois de muito tempo. Abraçou-me bem forte, não retribuí seu abraço, durante esse tempo o motorista do táxi terminou de guardar a infinidade de malas que ela trouxe e quando entrou no táxi perguntou:
-Para onde?
-Para o abatedouro que eu tenho que entregar essa vaca – pensei em dizer, só pensei – Onde você vai ficar hospedada?
-Eu não tenho onde ficar hospedada boba, por isso eu pedi pra você vir me buscar, eu vou ficar com você.
Sabe aquela vontade de bater em algo que surge repentinamente?
-Para o cruzamento da Westwod com a Hackensen – digo.
-E então, novidades? – Ela fala como quem encontra um amigo por acaso na rua que você não vê há uma semana.
-Acho que nenhuma interessante. E você?
-Bom, depois que eu terminei com o Freddie – ela fala “terminei” como se fosse ela quem deu o fora – eu comecei a trabalhar na empresa do papai, como vice-presidente, mas é bem chato ter que ficar fazendo aquelas coisas, acho que deveria ser contra a lei trabalhar.
Já detestou tanto uma pessoa que até o suspiro dela te irritava?
-Tem certeza que não tem nada de novo? O que você passou esse tempo fazendo?
-Bom, depois que você me roubou o Freddie
-Ai, você ainda está chateada com isso? É serio que não superou?
-Como eu estava dizendo antes de ser interrompida, depois que você e ele foram embora eu tive que me virar sem amigos, entrei na faculdade e hoje faço o que quero da minha vida, bom, quase tudo.
-E o que você não faz que queira tanto?
-Não aceitar vadias em minha casa – penso – Nada demais – falo.
A viagem seguiu normal até em casa, sendo normal o normal de uma cidade com mais de dez milhões de pessoas, ou seja, engarrafamentos, palavrões, sinais intermináveis. Comecei a questionar seriamente a minha bondade, mas sei que sempre fui assim, sem me importar muito com mostrar o que sinto, meio passiva, e sempre desligada.
Quando chegamos em casa, ignorei seus pedidos de ajuda para retirar as malas, e fiquei olhando a cena da patricinha tentando trazer cinco malas embaixo dos braços e derrubando-as, ri em silêncio e desabei em minha cama. Soltei um dos maiores palavrões que já havia soltado em minha vida quando lembrei que tinha aula e estava atrasada nada menos que uma hora e quarenta minutos. Perder uma aula talvez não fosse tão ruim assim, o problema é que era prova.
Nem me arrumei, do jeito que estava pulei da cama, e quando abro a porta, se preparando para bater, lá estava ele, o homem de minha vida, com minhas roupas em um cesto que trazia ao braço. Fico muda. Ele fala.
-Suas roupas, hã, eu ia trazer mais cedo sabe, mas tive que resolver umas coisas – percebendo que não tenho reação, ele continua – está tudo aí, pode conferir – ele fala pra quebrar o tom, mas não tem muito resultado – bem – ele continua – eu posso entrar?
Jogo as roupas no chão, fecho delicadamente a porta, e caio em seus braços chorando, ele toma um susto. Que aconteceu? – ele fica me perguntando — eu soluçando só consigo falar “ela...casa...Carly...vadia”, ele solta um “hã”, e eu recompondo-me digo
-Ela veio me ver, veio passar um tempo.
-Carly? Quando, como?
-Ontem ela me mandou uma mensagem, pediu para ir lhe buscar no aeroporto.
-E você foi? Depois do que falou dela? Por quê?
-É por isso que estou chorando, não sei o porquê.
-Bem, tem alguma coisa que eu posso fazer?
-Acho que não, mas, se quiser me roubar pra eu não passar tempo com ela seria uma boa.
-E por que você não vem pra minha casa?
-Acho que não teria muito sentido eu sair da minha casa e deixar outra pessoa morando nela só porque a detesto.
-É olhando por esse lado.
-Bem – lembrei da faculdade – obrigada pelas roupas, mas tenho que ir, estou atrasada para uma prova importantíssima.
-Desculpa te prender.
-Quinta ainda está de pé?
-Claro claro.
-A gente se vê.
-Só espero que não demore muito.
-Não demorará te prometo.
Bom, agora que estava a caminho da faculdade, tinha um pequeno problema, como iria fazer para entrar e fazer minha prova sendo que estava mais atrasada que os catálogos de moda da estação? Bom, um desses filósofos que a gente decora mais as frases que os nomes, disse “Penso, logo existo” tinha eu então que me fazer existir, eis o que fiz
“Desci do metrô na metade do caminho, entrei em uma delegacia e fiz um boletim de ocorrência por roubo de celular, fui andando até a NY Faculty, quando cheguei lá entrei no banheiro, e molhei minhas roupas completamente, depois fui até a sala e dando um chute na sala, já entrei berrando – Eu chego à merda dessa faculdade, caio dentro do banheiro, fico tonta sem poder me levantar e não tem uma alma viva pra me socorrer! Não tem uma! E fico sem poder ligar pra ninguém porque a porcaria do meu celular foi roubado – falo mostrando o Boletim de Ocorrências – E se não fosse o zelador ir fazer a limpeza, eu ficava lá o dia todo! Eu exijo fazer a prova outro dia! – Olhando-me calmamente, enquanto permaneço com uma cara histérica, o professor fala – Acontece senhorita Pucket, que a prova é só amanhã, dia 11 de setembro, hoje ainda é terça-feira, dia 10, sinto muito o que aconteceu com você e sente-se logo que você está atrapalhando a turma.”
Meio sem saber onde enfiar a cara eu sento bem no final, e fico guardada em meus pensamentos, ainda tomada pela adrenalina.
A aula era meio chata, mas acho que só porque estava chateada comigo mesma, o professor falava da lei de Laver onde ao decorrer do tempo as roupas eram indecentes, desavergonhadas, ousadas, inteligentes etc e etc. Presto não a costumeira atenção, mas só respeito a aula, ainda mais pelo que acabou de se passar.
Não via a hora de chegar em casa e esquecer que vivo em cima da minha cama, mas, um celular toca, é o celular da Carly, ela atende, vez ou outra dá de seus gritos histéricos de surpresa, e depois vem me dizendo
-Tenho que sair, não sei que horas volto.
Murmuro o que pareceu ser um humhum e volto a dormir. Acordo com alguém batendo na porta – Deve ser a “minha amiga” – digo para mim mesmo me perguntando novamente o porquê de ela estar morando comigo.
Quando abro a porta, encontro não o motivo de minhas rugas, mas sim o motivo de meus suspiros. Em uma cena digna de filmes românticos, Freddie Benson traz em um braço um pote bem grande de sorvete, e o outro com um papel que está tampando seu rosto, no papel uma seqüência de uns e zeros, que não entendo bem.
-É vamos ver um filme, em código binário – ele diz já presumindo que eu não ia entender.
-Bem mainstrean pra você, e super nerd – ele solta um riso meio desconexo.
-Isso foi um adoraria?
-Isso foi um entra logo que está muito frio.
Quando entramos ficamos sentados no chão, assistindo ao Fantasma da Ópera, comendo sorvete com brownie, então, vi uma segunda parte de sua tatuagem, parecia algo meio como uma língua estranha.
-O que é essa sua tatuagem?
-Acho que não posso te contar. Não agora.
-E por que não?
-Bem, essa tatuagem é uma frase em uma língua que eu inventei, e eu prometi que só ia revelar para a mulher com quem eu me casasse – disse ele com uma seriedade no olhar, que acabou por me revelar um brilho intenso em suas retinas.
-Quando de mim meus olhos se perdem, é porque acharam os teus – Penso em dizer, só penso.
Fale com o autor