Presa em um Conto de Fadas
1 Photograph
Notas iniciais
“So you can keep me inside the pocket
Of your ripped jeans
Holding me close until our eyes meet
You won’t ever be alone.
Wait for me to come home”
Gabi
–Gabriela, guarde esse livro!- O sr Pharrel, meu professor de química, ralha comigo.
Fuzilo-o com os olhos, fechando o livro. Era uma encadernação linda, verde e de capa dura, com um título em dourado com as letras já gastas e uma reprodução da famosa espada na pedra. Era também meu livro favorito-de-todos-os-tempos. Guardo-o na mochila, e , eu juro, tento entender sobre substâncias puras e misturas, mas essa é uma matéria que não entra em minha cabeça de jeito nenhum!
Então, começo a fazer um esboço no lugar onde deveria responder à atividade, desenhando o mesmo símbolo que estava na capa do livro. Faço aulas de desenho desde os seis anos, e fico feliz em dizer que é algo no qual sou realmente boa. Vicente, meu melhor amigo, puxa o caderno, e começa a riscá-lo também. Nós éramos a definição de contraste; ele tinha os cabelos de um castanho bem claro (vulgo o louro escuro), enquanto os meus eram ruivos, chamando mais atenção para as sardas esquisitas que tenho nas bochechas, e meus olhos eram cinzas, enquanto os dele eram quase pretos. Ele me devolve o caderno, e posso ver que ele fez vários “X” e carinhas tristes. Dou um meio sorriso, perguntando-me como alguém pode não amar a história do Rei Arthur.
Digo, o cara era quase meu ídolo!
Rasgo a página, e ignoro-o enquanto ele me cutuca com o lápis, tentando resolver pelo menos uma questão. Então, ele joga a borracha na minha cabeça.
–Porra, Vicente! –Reclamo, virando-me.
–Comprei meu próprio exemplar daquele livro que você gosta.
Um brilho surge em meus olhos, e me estico para pegar o livro de sua mochila. Reviro os olhos ao ver uma versão pocket, um homem esquisito na capa.
–Esse não é o Rei Arthur.- Digo, revoltada.
–Realmente, ele faz mais o estilo Brad Pitt.
–Não é isso, seu bobo.- Digo, dando um tapa de leve em seu braço.
–Então o que é?
–Arthur não era musculoso, não era forte, não era inteligente. Talvez nem mesmo fosse bonito!
–E qual é a graça da história?- Pergunta, arrancando um riso de minha parte.
–O fato dele ser medíocre! Ele era completamente “mais ou menos”, e , mesmo assim, foi o escolhido. Ele não era pobre, mas não era rico. Não era forte, mas não era completamente fraco!
Vicente mexe a cabeça em concordância, puxando o livro de mim no exato instante em que o sinal toca.
Arrumo minhas coisas, e vou em direção ao meu armário, perto do de Vicente, e do lado do...
–Olha por onde anda, porra!—Reclamo, me abaixando para pegar meus livros.
–Desculpe.- Uma voz pede. Uma voz que eu conheço muito bem; passei metade de minha vida apaixonada por ela.
–M-Marcos...- Gaguejo.
Ele era lindo, a coisa mais próxima da perfeição que eu já tinha encontrado. O cabelo era louro, os olhos eram claros, e ele tinha começado a malhar nas férias. Éramos almas gêmeas, só que ele não sabia disso. Ainda.
Ele oferece a mão, e aceito sua ajuda, enquanto Vicente pega parte dos livros de meus braços.
–Desculpa, amor.- Pede, e eu pisco, sorrindo, enquanto Vicente bufa ao meu lado.
–N-não foi nada, não.
Ele me lança um último sorriso antes de se afastar, e Vicente joga os livros em mim.
– Quando você vai parar de dar bandeira para esse esquisitão?
–Esquisitão?- Estou perplexa. Como alguém consegue discordar da perfeição de Marcos Sunce?- O cara é maravilhoso.
–Ele pode ser um pouco bonito, certo. Mas tem um cérebro de merda e é a pessoa mais pervertida que já conheci.
Mordo o lábio.
–Bem, ele pode ser pervertido comigo.- Declaro, seguindo para o almoço.
Sento na mesma mesa desde o sétimo ano; eu, Vicente, Lilly, Fiona e Erick tínhamos decidido nos unir para ficar longe da mesa do lixeiro.
Tudo tinha ido muito bem; Fiona e Lilly estavam namorando há quase dois anos, e Erick tinha planos estranhamente elaborados para conquistar Haley, a tecladista da orquestra do colégio.
–E aí, gente?- Cumprimento-os, deslizando para um lugar entre Erick e Vicente.
–Tudo indo às mil maravilhas.- Erick brinca, olhando para Haley do outro lado do refeitório.
Eu e ele nos conhecíamos há alguns anos, e ele era a terceira pessoa na qual eu mais confiava. Vicente estava em segundo, e o ator de Sherlock em primeiro.
–Você já conseguiu... pôr a mão nas teclas?- Vicente pergunta, rindo, e lhe chuto por debaixo da mesa.
–Não. – Erick admite, tristonho. – Mas temos um encontro no sábado.
Eu, Lilly e Vicente passamos uma nota de dez dólares cada para Fiona.
–Qual é, vocês não confiam em minhas habilidades? – Erick pergunta, parecendo ofendido.
O silêncio se instala, seguido por risos.
– Nós não podíamos perder a chance.- Lilly se explica, dando de ombros.
Murmúrios de consentimento passam por toda a mesa.
– Gabi... – Ele começa, e reviro os olhos por antecipação.- E o Marcos, como vai?
Suspiro.
–Cada dia melhor.- Digo, voltando meu olhar para ele, cercado por líderes de torcida.
Vicente bufa.
– Ele iria te elogiar, transar com você e te jogar fora.
–Vicente!- Fiona o reprova, zangada.
–É verdade. – Erick diz, levantando as mãos.
–Vocês nunca transaram comigo, então não sabem minha capacidade de prender alguém, certo? – Digo, com raiva.
–Mostre-nos. – Vicente brinca, passando o braço por meus ombros. Empurro-o para longe.
–Não, obrigada. – Recuso sua oferta, mostrando-lhe a língua. – Eu vou ler.
Me retiro para a biblioteca, onde me acomodo em uma das cadeiras velhas, puxando o livro para o colo. Preciso de algumas páginas para engrenar na leitura, mas não demora muito para que eu esteja presa. É um livro tão bom que eu me sinto parte dele, como se estivesse lá de fato.
Solto um bocejo, e quando me volto para o livro novamente, um clarão branco me cega totalmente.
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