“Take me back to the middle of nowhere

Back to the place only you and I share

Remember all the memories?

The fireflies and make believes”

Gabi

Tenho a impressão de que estou caindo, e meu rosto encontra a terra macia. Só tinha um problema: eu estava na biblioteca, onde o chão era feito de concreto. Abro um olho, e dou de cara com o tronco de um carvalho. Me levanto, assustada, e preciso de alguns segundos para me equilibrar. Eu continuava com o short jeans e a camiseta que estava usando antes, o que me leva a crer que eu provavelmente tinha pegado no sono enquanto lia, o que não era normal.

Espano um pouco de terra de meus joelhos, e fecho os olhos com força.

Acorda, Gabriela! , penso, dando um beliscão em meu próprio braço.

Sinto uma pequena vertigem, mas quando abro os olhos, estou no mesmo lugar.

Merda! Como vou fazer para acordar? Talvez fosse a famosa paralisia do sono, me mantendo aqui, presa. Não , isso não fazia sentido; eu podia me mover normalmente. Escuto uma voz, e tento segui-la , mas meu senso de direção é horrível, de modo que não espero realmente encontrar alguma coisa.

–Marylin!- Vicente grita, chocado.- Quem foi o porco que fez isso com você?

Olho para mim mesma. Meu cabelo podia estar uma zona, mas ele não precisava ser grosso, afinal, ele também não estava normal. Usava calça e blusa de algodão, as duas de um tom esquisito de bege.

–Ah, ‘tá certo, Vicente! Só por quê eu tropecei? Vai se fuder!

Ele arregala os olhos.

–Vicente? Eles bateram em sua cabeça, Mare? — Pergunta, parecendo preocupado. – Entre antes que alguém te veja assim!
– Vicente, você sabe que eu não gosto dessas brincadeiras idiotas. Por quê você ‘tá todo esquisito?

–Mare, pare com isso!- Reclama, fazendo com que eu recue alguns passos. – Você sabe que meu nome é Arthur. E logo, todos os outros vão saber.

É como se eu fosse atingida por uma frigideira. Olho ao redor, e o acampamento, a floresta, as roupas e a indignação de Vicente pareceram fazer sentido.

Eu estava na história do Rei Arthur!

Certo, Gabriela, respira.

Vicente me entrega uma trouxa de roupas, e aceito-as , ainda em choque.

Onde diabos eu tinha me metido?

Entro em uma das “barracas”, que na verdade pareciam só um monte de lençóis amarrados todos juntos, e tento me localizar, descobrir em que ponto da história eu estou.

Me espremer no vestido é uma tarefa árdua, uma vez que minha eu da história deve ser mais magra que eu. O tecido é azul escuro, e a cintura e o busto estão mais apertados do que eu gostaria. Além disso, o vestido não tem bolsos! Pego meu short, e esvazio os bolsos do mesmo, vendo o que poderei manter. Encontro algumas moedas, um pacote de chiclete, um band-aid­ perdido e meu celular, que estava desligado e sem indicação de que voltaria a funcionar algum dia.

Guardo o celular e as moedas no bolso do short novamente: eles não terão utilidade para mim aqui. Pego o pacote de chiclete e o band-aid, e escondo-os em meu sutiã, prometendo à mim mesma que arranjarei bolsos o mais rápido possível. Quando me levanto novamente, tropeço na barra do vestido. Solto um palavrão, e pego uma pedra que está jogada no chão, diminuindo um pouco seu comprimento.

Quando saio, Vicente me encara, o rosto enrubescendo.

–Você...Você cresceu, Mar.- Diz, abaixando os olhos.- Vamos precisar te arrumar algumas roupas novas, acho.

–Hã... é, talvez... Arthur.- Respondo, mudando o peso de meu corpo de um pé para o outro.

–O que achou em sua... busca?- Pergunta, aproximando-se de mim.

–Minha busca? – Enrolo-o, tentando me lembrar do que acontecia no livro. A palavra me vêm à mente com um estalo. – Carneville.

–Carneville? – Me olha, arqueando uma das sobrancelhas.

–Sim... Eu... ouvi alguns cavaleiros falando sobre um oráculo no lugar.

–Não deixou que eles te vissem, deixou?

–Não, eles não sabem que os ouvi. – Faço esforço para me lembrar o que acontece depois, mas não consigo de jeito nenhum.

Faço esforço para me lembrar do que acontece no final do livro, mas é como se eu batesse em uma parede de tijolos.

– Carneville, então. – Diz, se abaixando para desamarrar a tenda improvisada, e ajudo-o a guardar os pedaços de tecido em uma espécie de sacola, que Vicente amarra em um cavalo.

O cavalo era bem bonito, a pelagem marrom disfarçando-o nos troncos. Só tinha o pequeno problema d’eu não saber montar.

Quando Vicente me puxa para cima do cavalo, preciso de esforço para não gritar. Abraço-o com força, e estranho quando ele fica tenso, só então lembrando que aqui não éramos tão próximos—nem ficávamos tão próximos.

Afrouxo meu aperto, e o cavalo começa a trotar, indo em um ritmo que julgo mais lento do que o normal.

O vilarejo não era tão longe; passamos poucas horas em cima do cavalo antes de pararmos na frente de uma espécie de muro.

Desço do cavalo, e preciso de alguns minutos para voltar à sentir minhas pernas. Vicente parece estar acostumado, o que é muito esquisito. Alguns guardas se aproximam, as espadas reluzindo, e recuo alguns passos.

– Quais seus interesses na cidade, viajantes? – O mais alto pergunta, erguendo o queixo.

–Estamos aqui para visitar uma tia doente, coronel.—Digo, antes que Vicente abra a boca. Ele sempre foi terrível com mentiras, e não acho que algo vá mudar agora.

O guarda perde algum tempo me encarando antes de liberar nossa passagem.

–Belos cabelos, senhorita.

Fico vermelha, lembrando que as bruxas tinham cabelo ruivo, e faço uma anotação mental para prendê-los o mais rápido possível.

Vicente puxa o cavalo para frente, e os sigo, cabeça abaixada. Assim que passamos , ele me puxa para perto, como se percebesse o perigo.

–Tempo de vermos o oráculo, Mare.- Sussurra, acelerando o passo.

Olho para as casas, as construções que perdi tanto tempo imaginando, a história na qual estava presa sem nem mesmo lembrar o final, e tomo uma decisão: preciso achar o caminho de volta à sanidade.

Notas finais
O que acharam? :)