Presa em um Conto de Fadas
3 Starring Role
“It almost feels like a joke to play out a part
When you are not the starring role
In someone else’s heart
You know I’d rather walk alone”
Gabi
Olho para a casa de madeira, que aparenta que irá desabar à qualquer instante, e dou um passo para trás, deixando que Vicente me esconda.
–Então... vamos mesmo entrar aí?- Pergunto, alisando a saia do meu vestido, nervosa.
–Temos que entrar aí. – Ele diz, pálido. Parece que ele não era tão corajoso assim, afinal.- Só assim vamos saber para onde ir.
–Falando nisso... o que estamos buscando, mesmo? –Pergunto, curiosa.
–A espada, lembra? Ela está escondida em algum lugar, eu sei. Infelizmente, você é a única que acredita em mim. – Reclama, xingando um pouco. – Se eu pudesse atrair mais pessoas para nossa causa...
Ele não continua devaneando—Dá um passo em direção à casa, e o sigo, ansiosa.
A casa não era tão ruim por dentro—o lugar tinha muitas cortinas de veludo e almofadas, no melhor estilo motel. No centro da sala estava uma mesa de madeira, coberta por cartas e um pequeno globo transparente de vidro. Me aproximo da mesma, querendo xeretar um pouco, quando uma voz me assusta.
–São interessantes, não são?- Uma velha senhora diz, fazendo com que Vicente solte uma exclamação.
Seus cabelos prateados estavam presos em um coque firme, e ela usava um xale roxo enrolado nos ombros, além de diversos anéis e colares, um deles com uma grande pedra oval na cor branca, de aparência leitosa. Posso ver uma mecha colorida solitária, de um vermelho próximo ao tom de meu próprio cabelo, o que me leva à abaixar os olhos.
–Vieram atrás de algumas respostas, então?
–Sim, senhora...- Vicente a responde, enquanto ainda estou paralisada.
–Delacour.- Apresenta-se , sorrindo. – Atenderei vocês, crianças, com uma única condição.
–Aceitamos!-Vicente declara, dando um passo a frente.
–Você nem sabe a condição ainda!—A senhora Delacour ralha, o dedo em riste.- Quero uma mecha do cabelo de vocês.
–Não.- Consigo dizer, levando a mão à cabeça.
–Como não, Mare?- Vicente pergunta, parecendo preocupado.
–E se... se ela nos enfeitiçar, ou algo do tipo?
–Eu ainda estou aqui, garotos. – Senhora Delacour diz, juntando as mãos em frente ao corpo.
–Nós aceitamos a oferta, sim, senhora Delacour. – Vicente diz, fazendo uma careta, e reviro os olhos.
Será que ele não podia simplesmente confiar em mim?
A velha se aproxima, e pega uma tesoura na mesa. Automaticamente, dou um passo para trás, mas ela segura meu braço com força, prendendo-me no lugar. Com cuidado, corta um pouco de meu cabelo. Assim que entra em contato com sua mão, fica de um vermelho mais forte, semelhante à fogo. Vicente não deixava o cabelo tão grande, mas ela conseguiu cortar alguns fios, que não explodiram nem nada do tipo.
–Ótimo.- Disse, sorrindo e guardando os fios de cabelo em seu vestido.- Agora, vou falar com o garoto. Depois, podemos conversar.
Ela me observa por alguns segundos, depois faz um gesto indicando que devo sair. Bato a porta, e sento no gramado, cruzando as pernas embaixo de mim.
Minutos se passam até que eu resolva pegar uma flor que tenho observado; é um jacinto, as pétalas delicadas chamando minha atenção. Levo-a até meu nariz, constatando que tem um cheiro incrível, e quando ergo meus olhos, percebo que um dos guardas estava me observando com bem mais intensidade do que o adequado.
Nessa hora, a porta da casa se abre, e vou correndo de encontro à Vicente.
–E então?- Pergunto, animada.
–Ela... ela quer falar com você. Boa sorte, Mar.- Diz, dando um sorriso fraco.
Oh-oh. Isso não podia ser bom.
Ele dá espaço para que eu passe, e entro na casa. Uma aura mais pesada tinha se instalado; as cortinas estavam fechadas, e Delacour tinha tirado o xale, pendurando-a nas costas de sua cadeira. Sento na poltrona em frente à ela, também de veludo roxo, e começo a estalar os dedos, o que faço quando estou nervosa.
–Marylin? – Chama, e demoro um tempo para encará-la. – Os deuses não me falaram muito bem de você.
–Os deuses? – Digo, incrédula.
–Sim, sim. Eles não simpatizam com você; parece que está fazendo uma bagunça, apesar de não me explicarem o motivo.
Congelo na cadeira, e sinto o nervosismo crescer em minha barriga—ela não podia saber.
–O... o quê mais eles dizem?
Ela faz uma pausa, então estende a mão. Estendo a minha também, e ela é ágil ao fazer um pequeno corte em minha palma. Solto uma exclamação, e ela pressiona minha mão contra o globo de vidro que ela mantém em um pequeno apoio dourado. O sangue parece atravessá-lo, e entra como uma névoa dentro do objeto. Puxo minha mão de volta, e pressiono-a contra o vestido para estancar o sangramento.
Ela coloca o globo entre as duas mãos, examinando-o com mais interesse. Tento ver alguma coisa, mas só consigo ouvir sussurros, todos falando uma língua que desconheço.
Pisco com força, fazendo com que se calem, e senhora Delacour olha para mim.
–Menina...não sabia...nunca teria...- Ela balbucia, os olhos esbugalhados.
–Senhora? Você está bem?
Ela não me responde, mas tira o colar com a pedra branca do pescoço, e coloca-o na mesa junto às mechas de cabelo e um pequeno frasco contendo um líquido roxo.
Ela enrola as mechas em torno da pedra, murmurando algo na mesma linguagem que as vozes falavam, e elas reluzem um pouco antes de sumirem, fazendo com que eu solte um palavrão. Ela me ignora, e abre o colar, colocando o frasco dentro dele, me entregando-o.
–Nunca tire isso, menina- Avisa, rígida.- Eu gostaria de poder fazer mais, mas já estou me arriscando demais protegendo à você e seu amigo.
– O quê o frasco faz?
–Quando a hora chegar, você vai saber.- Diz, me puxando da cadeira.- A magia da pedra vai ajudá-los, mantenha-a por perto.
Ela anda em círculos por um tempo, as juntas de seus dedos tensas, um olhar de preocupação genuíno no rosto.
–Senhora... O que você viu?
–O suficiente para saber que você corre perigo mortal. Agora, por favor, saia da minha casa e não volte nunca mais.
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